Últimas Conversas

ultimasconversasÚltimas Conversas (2015) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Nossa curiosidade mórbida é maior que o respeito ao autor, por isso, quando um artista morre antes de encerrar um trabalho (filme, disco, o que for), essa curiosidade, aliada aos interesses econômicos do “último trabalho de fulano” resultam na finalização do trabalho, sem aval do criador.

O ducmentário é aberto com um depoimento do próprio Eduardo Coutinho (que morreu antes de que a edição fosse concluída), discutindo o conteúdo do material gravado, se queixando do resultado pífio (segundo sua opinião). Enfim, deixando claro que aquele material não lhe agradava, não havia conteúdo interessante para um filme.

Pois bem, João Moreira Salles e Jordana Berg finalizaram o filme. Tentaram dar um ar mais pessoal, colocar mais de Coutinho no ducmentário. Transformando assim a autocrítica, a análise de quem está descontente e precisar entregar o filme para “pagar as contas, sobreviver”, mesmo que resultado não represente a qualidade de cinema que ele busca.

Eu jamais lançaria esse filme, as entrevistas com os estudantes não são interessantes, Coutinho demonstra seu desinteresse nos personagens, ou fala mais que eles tentando extrair alguma coisa. E o filme vai soando melancólico, até traça um panorama com a repetição de temas (e problemas familiares) que tais jovens expõem. Mas, é pouco, Coutinho alerta para isso, mas, era óbvio que esse material seria jogado ao público, era impossível conter a curiosidade.

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Um Dia na Vida

umdianavidaUm Dia na Vida (2010) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Perdi a célebre sessão catarse do filme na Mostra SP. Foi programada uma sessão única, a disputa por ingressos foi concorridíssima, e só se sabia que era “o novo filme de Eduardo Coutinho”. Claro que após a repercussão dos que lá estiveram, eu fui um dos que morreu de curiosidade, inveja, e tantos sentimentos pela frustração de ter perdido, mesmo sem ter entendido exatamente o que era. Ouvi falar que houve outras exibições isoladas em algumas cidades, nenhuma deve ter tido o gosto da surpresa que aquela teve.

Os anos passaram, a curiosidade ficou, na última Mostra SP foi feita retrospectiva completa da obra de Coutinho, o documentário novamente foi exibido, mas os horários eram impossíveis. Mas, já havia em mim a sensação de pouco sentido em ver o filme, agora que ele ficou “mais acessível” a sensação de não fazer sentido algum em assistir, agora, longe dos cinemas, e tantos anos depois, brigava com a eterna curiosidade cinéfila.

Coutinho gravou, durante um único dia, a programação da tv aberta brasileira (no ano de 2009, no Rio de Janeiro). A sensação é de passar o dia zapeando por programas esdrúxulos, a verdadeira estampa da pobreza cultural e de espírito do maior meio de comunicação de massa. Chama atenção a ausência de programas esportivos, mas, afinal, aquele é o zapping de Eduardo Coutinho, por seus olhso passam os teleojornais, programas femininos, intervalos comerciais, novelas e até o Chaves.

Esse conjunto de imagens, puro e simples, é um instrumento crítico poderoso, incontestável, mas longe da novidade de sua primeira exibição e tão distante daqueles que não acompanham a programação da tv (meu caso), formam essa triste constatação do que já se sabe. E minha maior certeza, que por mais representativo que seja, era um filme que deveria ter sido visto por quem viveu aquela sessão, e deixar nos demais o imaginário do que seria aquilo.

Peões

peõesPeões (2004) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Com a vitória de Lula praticamente assegurada, ao seu primeiro mandato como Presidente da República, o diretor Eduardo Coutinho parte em busca das origens do movimento sindicalista que o tornaram nome nacional, estuda o movimento de 1979/80 que parou o ABC e a indústria automotiva brasileira. Por meio de entrevistas com “anônimos”, aqueles que trabalharam ativamente na militância, porém não se tornaram famosos, ou políticos, Coutinho reconta parte da história, revive o ápice do sindicalismo no Brasil, reencontra os coadjuvantes dos comícios e fotografias.

As histórias não se desenvolvem com a profundidade de outros documentários de Coutinho, seus personagens batem na mesma tecla de uma adoração (no estilo fanático religioso) a figura de Lula, que foi peão como eles, e os liderou em busca de justiça e melhores condições contra as grandes montadoras presentes no país. Imagens de arquivo de comícios se dividem com reuniões de anônimos resgatando fotos, se encontrando e recontando parte de suas histórias de vida. Quase sempre da ausência da família, do amor pela política e com o discurso sindicalista afiado. Dessa vez Coutinho não consegue transformar cada indivíduo em único, é tudo tão semelhante que a repetição chega a ser desgastante.

Babilônia 2000

babilonia-2000Babilônia 2000 (1999)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Eduardo Coutinho produziu em 1999 dois documentários, uma espécie de ano de transição em sua filmografia. Não que todos os seus documentários não eram caracterizados por um tema definido, mas Santo Forte marca uma fase de entrevistas com temas fortes e marcantes, enquanto os trabalhos anteriores (incluindo este Babilônia 2000) tinham seu tema, mas os depoimentos transcorriam livremente, quase sempre com dramas, preceonceito e temas equivalentes. Seja o mundo dos catadores de lixo, a história do negro, ou a vida no morro. O Fim e o Princípio voltaria a viver essa liberdade, mas Santo Forte abriu essa linha.

Babilônia 2000 foi filmado no Morro da Babilônia, em 31 de Dezembro de 1999. Coutinho e sua equipe passam o último dia do milênio com os morados do morro, assiste os preparativos para o Reveillon, ouve as histórias, mostra a pobreza sem invadir a privavidade alheia. Alguns dos depoimentos são emocionantes, a chegada dos anos 2000 não trouxe esperança, por mais que haja tanto otimismo e esperança naqueles sorrisos.

Não são poucos os que disseram que a virada do milênio era apenas a mudança de mais um ano, a visão de um mundo cão (miséria no Brasil, guerras pelo mundo), a inflação que corroi o dinheiro, a globalização como mal, uma profundaconsciência da realidade surge daquelas vozes que se fazem de inocentes, mas estão bem longe da desinformação. Guardam uma consciência popular enquanto enfrentam a violência urbana, levam a vida com sorrisos para esconder as desgraças presentes em cada uma daquelas casas.

A Familia de Elizabeth Teixeira

sobreviventesdegalileiaSobreviventes da Galiléia (2014) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Neste curta Coutinho reencontra, 30 anos depois, dois dos personagens do seu lendário trabalho (probibido pela ditadura que foi revisitado na década de oitenta e virou Cabra Marcado). Trata-se de um simples reencontro de amigos. Abraços, sorrisos, recordações, nada demais, além do contexto histórico da filmografia, e da própria importância a vida de Coutinho.

 

 

afamiliadeelisabethteixeiraA Familia de Elizabeth Teixeira (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Indo além do curta, esse média-metragem resgata a mais importante personagem de Cabra Marcado. Elizabeth Teixeira, ao longo do seus lúcidos 88 anos. A história de sua vida e da de seus filhos, exílio, separação, saudade. Tragédias aos montes, com irmãos que mataram irmãos, lembanças do marido e da Liga Camponesa. De forma tão simples Coutinho vai montando o retrato de uma mulher lutadora, tão fria e tão carinhosa, uma pessoa cheia de imperfeições e o quanto a ditadura e a ideologia (ela e do marido) trans formaram completamente a vida dessa família. As filhas isoladas no Rio de Janeira, a neta professora de história que ajuda a resgatar o passado. O tempo exiliados em Cuba, e Coutinho montando o quebra-cabeças entre fotos e seuas lembranças.

O Fio da Memória

ofiodamemoriaO Fio da Memória (1991) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Filmado durante o centenário da Lei Áurea (abolição da escravidão no Brasil), o documentário retrata a condição do negro, e do preconceito, nesses cem anos. Desde depoimentos de ex-escravos, passando pela criação das escolas de samba no Rio de Janeiro, até manifestações nos anos 80 contra o preconceito racial.

A força do tema é óbvia, porém Eduardo Coutinho é quem foge do óbvio. Primeiro ao dividir a montagem entre passado e futuro, entre entrevistas com senhores centenários e dois narradores que leem um diário de um trabalhador de salins que construiu sua casa com suas próprias mãos. Em meio a isso, manifestações, protestos, moradores de rua, estudantes, todos os tipos de histórias sobre preconceito.

Dessa forma, Coutinho não constrói um simples panfleto acusatório, e sim um belo trabalho sobre a identidade cultural do negro, com direito a música e religião. Por esse fio de memória que a condição da maioria absoluta dos brasileiros é reconstituição desses cem doloridos e injustos anos.

Santa Marta – Duas Semanas no Morro

santamartaSanta Marta – Duas Semanas no Morro (1987) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Eduardo Coutinho e sua equipe passaram duas semanas no morro carioca de Santa Marta. Com um cartaz colado na parede pediam para as pessoas que tivesse histórias de violência viessem para contá-las. Ainda estamos na década de 80, o tráfico já toma conta da favela, e os problemas são os mesmos de 30 anos atrás.

Nas ruas da favela um policial é entrevista, uma mulher assume o microfone e passa a protestar pela forma com que a policia aborda e trata os moradores, o constrangimento do policial e o dicercimento da mulher assustam, como se o microfone desse a ela o poder da liberdade de expressão. Entre tantos depoimentos, um pequeno retrato da vida cotidiana, a pobreza dos casebres, as famílias grandes com tantos filhos, a migração e o preconceito dentro e fora da favela (uma mulher negra diz não gostar de nordestinos).

Com sua fala mansa e baixa interferência nos entrevistados, Coutinho tira depoimentos vivos, seja com adolescentes falando, por exemplo, do anseio de cursar universidade ou de sonhos profissionais (um deles era Marcinho VP, antes de entrar no mundo do tráfico falando que os de fora da favela os querem como garis, mas eles nãoquerem isso). Mas o que chama atenção é a visão consistente da maioria, os sonhos reprimidos por uma percepção concreta das limitações que a vida lhes impôs. Longe de se colocarem como coitadinhos, mais como se o horizonte possível não tivesse toda essa imensidão