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Qing Mei Zhu Ma / Taipei Story (1985 – TAW) 

As transformações econômicas da Taiwan dos anos 80 traduzidas num único filme. Quase podemos definir assim a proeza do cineasta Edward Yang, em seu terceiro longa-metragem. O país cresce, se moderniza, ganha destaque econômico, as transformações trazem adaptações (muitas vezes não tão fáceis). Yang se notabiliza pela narrativa cinematográfica hipnótica, através de silêncios, de personagens olhando para a cidade que não pra de crescer, ou apoiado pela musica pop que se mistura com adultos ativos e suas dificuldades dessa adaptação.

No centro temos o ex-promissor jogador de baseball (ninguém menos que Hou Hsiao-hsien atuando) e que agora trabalha numa fábrica de tecidos, e sua esposa (Tsai Chin), executiva de uma construtora à beira da falência. A chegada de capital e da cultura ocidental e suas mutações são sentidas por esse casal, Yang desenvolve histórias e conflitos de personagens que orbitam o casal, enquanto a velocidade das transformações engole o saudosismo e os que não estão preparados à adaptação.

umdiaquentedeveraoGu ling jie shao nian sha ren shi jian / A Brighter Summer Day (1991 – Taiwan) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Mergulhar na poesia épica da recriação das memórias adolescentes de Edward Yang, mais precisamente de um trágico caso verídico de homicídio juvenil, é como ouvir Are You Lonesome Tonight?, na voz de Elvis Presley, num longo repeat de quatro horas. O título internacional é uma derivação da própria canção, mas a proximidade vai além da letra e do tom melancólico. Edward Yang mantém sua câmera em travellings harmônicos à canção, como se ela embalasse completamente esse resgate de Taiwan do década de sessenta.

Na primeira cena, a câmera está posicionada no hall, de frente à porta de uma imensa sala, onde só podemos enxergar as costas de um dos participantes da conversa. Há muito fora de campo. Um pai que pede revisão da nota de seu filho, julga que ele merece outro resultado e usa sua posição de funcionário público para persuadir. Rapidamente, o cineasta já nos inseriu inúmeros elementos cruciais à trama, da relação familiar ao comportamento questionável dos jovens na escola, da estrutura política de um país em formação (cujos habitantes fugiram da China Comunista) ao paternalismo que oferece carência na educação dos filhos.

O poder da cultura pop americana invadindo a mente dos jovens, em uma nova nação que tenta se afastar dos aspectos culturais de sua antiga pátria, se tornando presa fácil a essa invasão yankee é outro aspecto poderoso no filme. Alguns garotos tem uma banda de Rock N’Roll, e cantam em pequenos bailes canções de Elvis. São alguns dos momentos mais lindos do filme, por mais que muitos nem saibam do que estão cantando e precisam de outros para traduzir o que cantam.

Há ainda as disputas de gangues juvenis, a violência de grupos ingênuos, ainda assim perigosos, que tentam se formar como máfia, ainda que carreguem mochilas nas costas com seus livros escolares. Yang faz todo esse retrato, sem se esquecer da sexualidade. Os amores, as disputas pelo coração de uma garota, e as amizades que se fazem, e se desfazem. A sociedade taiuanesa exposta como um Frankenstein, tentando ainda se posicionar, ou melhor, se descobrir. Um Dia Quente de Verão pode chegar a ser o filme definitivo da época, hipnótico como a canção de Elvis e o estilo de filmar de Edward Yang (que tanto se assemelha ao de Hou Hsian-Hsien).

Coisas Simples da Vida

Publicado: fevereiro 21, 2013 em Cinema
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yi-yiYi Yi (2000 – TAW/JAP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Edward Yang não faz nada além de contar a vida, simples assim. Uma família, e um conjunto de personagens que orbita à sua volta (a vizinha, os colegas de trabalho do patriarca). Desse conjunto, Yang parte para desencontros amorosos, idosos doentes, crianças pueris, e essa série de pequenas coisas que marcam nossas vidas. Sem invencionismos, apenas com honestidade, consegue cativar, e até emocionar com essas pequenas nuances que nos aproxima tanto, de todo mundo. O belo pelo simples, e ponto final.