Posts com Tag ‘Elle Fanning’

The Beguiled (2017 – EUA) 

Ao descobrir o filme anterior, quase uma alegoria erótica masculina, dirigido por Don Siegel, em 1971, era de se esperar uma versão cujo o lado feminismo criasse outra leitura para a trama. Afinal, a carreira de Sofia Coppola tem essa vitalidade de trazer o ponto de vista feminismo ao cinema, coisa tão rara, infelizmente. A possibilidade dessa oposição é tentadora.

E realmente, Sofia dá seu toque de feminilidade. E o que, muito provavelmente, não é o que se esperava em tempos de “empoderamento”. Suas opções são sutis, porém definitivas. O estranho de seu filme (Colin Farrel) é mais dúbio, enquanto que quase todas as mulheres são colocadas como joguetes atraídas, pouco se conhece individualmente de cada uma delas. O clima de tensão, quase um filme de terror, ainda que exista, é suavizado. É uma visão mais romântica de um intruso que mexe com a libido de todas, e por mais que a versão anterior fosse machista, essa perde a oportunidade de diferenciar suas personagens, as tornando apenas escravas de uma possível escolha.

Talvez, o ideal fosse tentar não comparar os filmes, por mais impossível seja para quem o viu. Ainda assim, olhando para tudo que Sofia construiu até hoje, parece mais um filme preocupado com reconstruir vestidos, adereços e ambientes, do que explorar seus personagens, seja na questão da Guerra Civil que eclode fora daquela casa, seja na tensão sexual competitiva que enlouquece mulheres tão recatadas e imaturas. Quem mais se destaca é Nicole Kidman, que em sua caricatura entre equilíbrio, seu interesse e senso de justiça próprio, conduz o destino de cada um dos personagens, entre delicadeza e algum toque de brutalidade.

Anúncios

demoniodeneonThe Neon Demon (2016 – EUA/DIN/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

De novo queridinho do cinema (com o sucesso de estilo de Drive) a decepção retumbante (Só Deus Perdoa), muitos esquecem que Nicolas Winding Refn tem alguns filmes antes de Drive. Mas, é fato que seu nome ganhou fama internacional ali, e por isso as comparações tenham esse como principal ponto de controle. Novamente presente na competição principal em Cannes, seu filme era aguardado como uma incógnita e o filme tem presença forte dos seus dois últimos filmes mesmo, apontando para um caminho que refn está solidificando.

O uso das cores e o exercício estilístico da imagem são definitivamente a característica mais forte dessa fase da carreira de Refn. Algumas das cenas são deslumbrantes, com luzes estouradas, ou com fundos que confundem o que é chão, o que é teto, verdadeiros jogos hipnótico de ótica. E o cineasta também não tem nenhuma preocupação em parecer cheio de referências a outros cineastas, é facilmente perceptível um clima futurista de Lucy ou Ex-machina, aliado a violência gráfica de filmes de Park Chan-wook, e boas doses da excentricidade de David Lynch, tudo bem localizado dentro da estética de Refn.

A narrativa vaga pelo abstrato, mas tem foco bem claro em seu tema. A jovem Jesse (Ellen Faning, tão enigmática quanto o filme pretende ser) chega a Los Angeles para tentar a vida de modelo. Ali encontra um mundo doentio e cruel, o lado mais egocêntrico e narcisista, a competição desenfreada e a inveja, lado a lado com o culto a beleza. Relações vazias e promíscuas, o sexo como jogo de poder e sedução. Nada de novo no mundo da moda, mas com essa roupagem hipnotizante, enigmática, que circula pelo mistério e a insegurança.

 

trumboTrumbo (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Para quem acompanha o mundo do cinema, histórias como essas são sempre interessantes por trazerem detalhes, bastidores, um algo mais, além dos filmes. A cinebiografia do roteirista Dalton Trumbo coloca em questão novamente a era da caça as bruxas de Hollywood, pessoas ligadas a indústria delatando aqueles chamados “comunistas”, hoje os delatores ficaram com a imagem negativa que na época recaia sob os mais favoráveis ao modelo soviético.

O filme dirigido por Jay Roach (outro cineasta do mundo das comédias, como Entrando Numa Fria e Austin Powers) apega-se principalmente a força da persona de Trumbo, não é por menos que ele foi o retratado a fim de resumir todos os que passaram pelo processo de perseguição. Só que Roach faz de forma tão acadêmica e preguiçosa, que as curiosidades são o que sustenta a narrativa de forma geral. Sabemos que Trumbo escrevia durante horas numa banheira, sabíamos que apoiava o comunismo, mas o filme nunca vai mais fundo em suas ideias, em seus roteiros, em possíveis influencias que o fizeram chegar a algum argumento.

Dessa pobreza, resta Bryans Cranston se contorcendo para ser a alma, e tudo mais que Roach não consegue desenvolver. De caricaturas e bons atores (interpretando grandes astros) sobram pouco além de coadjuvantes apagados e dramas pouco desenvolvidos em detrimento de pontuar a história de maneira didática ao extremo.

virginiaTwixt (2011 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A cada novo filme, Francis Ford Coppola parece provar que desaprendeu a fazer cinema. Há anos vem numa fase de pequenos trabalhos, que deveriam representar um cineasta cansado dos grandes estúdios, orçamentos milionários, filmes grandiosos e eloquentes. Mas não: a sensação é de que ele perdeu a mão mesmo e procura se reencontrar, como se sofresse de uma espécie de amnésia criativa. Seu nome, prestígio, amizade, seja o que for, ainda conseguem atrair atores de destaque (ou que buscam a redenção, caso do protagonista Val Kilmer), porém suas histórias vagam entre o confuso e o desinteressante.

O roteiro é daqueles “para boi dormir”. Um escritor de livros sobre bruxas (Kilmer) vai parar numa cidade macabra, com vampiros e um inexplicado assassinato em série de crianças, além de um xerife doido para ser escritor. Desse mote para um envolvimento com a própria história trágica do escritor é um pulinho.

Utilizando sua própria fazenda para as filmagens, Coppola parece ter descoberto a câmera HD só agora, e as imagens são tão mal-acabadas que mais parecem uma daquelas produções terror B que inundam a programação da tv a cabo nas madrugadas. Ainda há Edgar Allan Poe (coitado dele) explanando sobre a escrita, atuando como uma espécie de narrador para o próprio escritor entender tudo que se passa. Há também a mistura de sonho e realidade, uma parafernália narrativa para tentar resolver o que parece sem solução: o resultado final que não vale muita coisa.

Super 8 (2011 – EUA)

Tenha em mente um filme que não possui nada de novo, uma coleção de colagens de filmes de sucesso de bilheteria, recheado de efeitos especiais impressionantes. O diretor J. J. Abrams (contando com a produção de Spielberg) realiza um trabalho de costureiro, remenda ideias, um artesão nato em aglutinar todos esses sucessos testados num novo exemplar, encorpado e cativante. Começamos com um típico filme adolescente dos anos oitenta, um grupo de amigos brincando escondido de fazer um filme de zumbis. No meio das filmagens se deparam com um estrondoso acidente de trem que desencadeia uma ação militar que causa tremor na pequena cidade.

Voce não está só numa mistura de Goonies com ET, temos os militares canastrões dos filmes do Rambo e Parque dos Dinossauros, até coisas recentes como Distrito 9 ou Harry Potter. Praticamente o blockbuster do blockbuster, sem grandes astros. Há, na verdade, uma grande divisão no filme, como se fosse água e vinho e nunca se misturassem. De um lado todo o mistério envolvindo o que realmente de tanto valor estava naquele trem (e nesse ponto temos todos os inverossímeis e terríveis exageros do cinema Americano como sobreviventes milagrosos, heroísmos imensuráveis e coisas do gênero). De outro, temos o núcleo dos adolescentes brincando de cineastas, pequenas paixões, o vislumbre das novidades, e algumas atuações notáveis (Elle Fanning dá um banho). Lembra John Hughes, e fascina quem sempre se divertiu com esses filmes de jovens aventureiros, de longe o melhor do filme. Nas mãos de Abrams essa mistura de ação de adulto e aventuras pueris funciona melhor do que a encomenda, e de quebra somos agraciados com o super 8 dos créditos finais realizado pelos “prodígios” (não vá embora sem assistir).

 

 

Somewhere (2010 – EUA) 

Os filmes de Sofia Coppola resumem-se em diversas formas de se versar sobre a solidão. E, durante essas variações, quase poéticas, a presença determinante é da melancolia. As histórias desenvolvem-se sempre sob variações deste tema, tendo o poder de conectar o público mais, com este, ou aquele personagem, mas sempre leves mutações de melancolia (nitidamente, e algumas declaradamente, autobiográficas). Aqui temos um astro de Hollywood (Stephen Dorff). Em sua cama, lindas mulheres, jogam-se, literalmente. Sua vida acontece dentro de um quarto de hotel, quando não está gravando – o que pode parecer uma vida de sonho para muitos, a quem a vive transforma-se em monotonia. A vida pode ser triste mesmo quando se tem tudo.

Nos momentos com sua graciosa filha de onze anos (Elle Fanning, o melhor do filme) é quando o ator se dá conta de sua existência sem empolgação. O tom minimalista, e altamente existencialista, pode exagerar nos cacoetes, em demonstrar a monotonia óbvia (a cena inicial do carro, as longas cenas das garotas dançando), mas (e já escrevi isso antes) Sofia filma a solidão como ninguém (e nesse filme a trilha do Phoenix cai como uma luva), e essa solidão não é estar sozinho, e sim o se sentir sozinho, e nesse ponto o filme dá dimensão certeira do estágio emocional em que se encontra nosso galã.