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Porquoi Tu Pleures? /Bachelor Days Are Over (2011 – FRA)

E há os que piram, suas mentes entram num estado de ebulição que transformam a reta final da data do casamento em dias de angústia, incerteza, total insegurança. A estreia na direção da atriz Katia Lewkowicz retrata os quatro dias anteriores ao casamento desse sujeito (Benjamin Biolay) com sua noiva (Valerie Donzelli) que simplesmente desapareceu. Na despedida de solteiro com os amigos ele se apaixona por uma cantora de boite (Sarah Adler) o que ajuda a mergulhá-lo numa crise de questionamentos sobre o porquê de se casar. É clichê, é óbvio, mas incrivelmente parece um mau que assola quase todos os casais. A câmera tenta ser esperta, ágil, sair dos enquadramentos óbvios e ainda se aproximar desse personagem perdido, com uma grande interrogação em suas feições.

Nesse caos pessoal segue o próprio filme e narrativa, a relação com os amigos, ou com sua mãe (Nicole Garcia) interessada apenas no status de casado do filhinho e com a irmã (Emmanuelle Devos) que guarda com ele um misto de relação entre carinho e conflito. Desses dilemas não se resolvem nem o filme, e nem seus personagens, quando Valerie Donzelli entra efetivamente em cena o filme ganha fôlego, sua presença oxigena, seu sorriso parece ter as respostas que todos procuram, se o intuito era transpor esse conflito e incerteza, o filme é certeiro em sua irregularidade, como obra não passa de um resultado repleto de imperfeições e com algum carisma (aliás, abre e fecha com depoimentos desnecessários e abstratos do grupo de amigos desse homem prestes a ser levado “à força”).

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 Roit et Reine (2004 – FRA) 
Primeiro ponto que chama atenção é o roteiro que parece, cada vez mais, se desconstruir, com o passar do tempo. Uma teia de flashbacks e alternância entre os dois personagens principais que quase fazem com que esqueçamos do outro, um estilo narrativo diferente, aliado a uma fotografia cheia de vida, amplamente iluminada. Duas histórias que se entrelaçam, uma bem carregada de humor e outra mais puxada para o drama. A trama armada por Arnaud Desplechin corre difusa, mas nunca confusa, causando estranhamento saboroso através des figuras bíblicas ou místicas que permeiam toda a história seja nos nomes dos personagens, ou no presente que Nora (Emmanuelle Devos) escolheu para seu pai, até mesmo o título do filme.

. rainha é a citada Nora, os reis são: seu filho, seu pai, e os homens com que ela se relacionou. Pode haver outras correlações entre o título e o filme, mas essa é simples e direta. A outra figura chave é Ismael (Mathieu Amalric), seu ex-marido que não é o pai de seu filho, um violinista sofrendo algumas crises existenciais, a ponto de se preparar para cometer suicídio e acabar internado numa clínica psiquiátrica. A reaproximação entre os dois ocorre nesse momento, principalmente porque Nora está cuidando do pai que sofre com um câncer terminal.

Há reviravoltas, algumas bem interessantes, outras nem tão bem arranjadas (a carta, o encontro com o marido falecido), enquanto Desplechin opta por filmar Devos de uma maneira tão tenra e ainda assim dúvia: ela não fica nem totalmente na maneira fantasiosa com que a câmera teima em filmá-la, nem com a maldade que o roteiro gostaria de pintá-la. Alguém que comete erros e tenta levar sua vida com as ferramentas que a vida lhe disponibiliza. É uma personagem equilibrada, muito ligada a realidade humana, diferente de Ismael que é uma figura raramente possível na realidade, mas com uma atuação tão estupenda como a de Amalric fica difícil não se encantar por ele, suas paranóias e seus desequilíbrios.


Festival: Veneza 2004
Mostra: Competição

Sur Mes Lèvres (2001 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O amor entre marginalizados pela sociedade, um relacionamento ambíguo permeado por interesses mútuos e boa dose de tensão sexual. Carla (Emmanuelle Devos) é deficiente auditiva, doa-se completamente ao emprego de secretária numa construtora. Nunca é reconhecida, e ainda obrigada a suportar gozações de seus colegas de trabalho. Sente-se renegada, solitária, anseia maneiras de se libertar sexualmente, enquanto isso cuida do bebê de uma amiga ou empresta-lhe o apartamento para que a mesma divirta-se em suas aventuras extraconjugais.

O ex-presidiário Paul (Vincent Cassel) cumpre condicional, mas ainda não se livrou completamente de seu passado de crimes. Contratado por Carla, como estagiário, surge um envolvimento entre os dois renegados. A relação de cumplicidade culmina na troca de favores para interesses individuais, os dois emprestam suas habilidades em favorecimento do outro.

O premiado roteiro dá evidentes sinais rocambolescos à trama, o clima de suspense perdura com certo atilamento em sua meia hora final, mesmo com os discutíveis meios que o roteiro utiliza-se para costurar a história. O diretor Jacques Audiard constrói com muito esmero o mundo particular de deficientes, trabalha diversos elementos no som para criar nítidas diferenças quando Carla retira seu aparelho auditivo. O som perde detalhes, fica mais bruto, com rupturas, dá a clara sensação de que estamos com deficiência. Audiard vai além, traz a cumplicidade entre os personagens ao seu thriller, com sabores de critica social agridoce.

Os dois personagens são construídos e interpretados com excepcional trabalho de seus atores. Emmanuelle Devos exprime insegurança, dúvida, alimenta sua ambição, trabalha com os elementos usuais de pessoas renegadas pela sociedade. Carla procura reconhecimento em todos os aspectos, finge um namoro, luta para promover sua ascensão profissional, liberta-se cada vez mais enquanto a amizade com Paul perpetua-se. Vincent Cassel é um criminoso incorrigível, incapaz de acreditar na benevolência. Um homem tosco, bruto, envolvido até o pescoço com seu passado. Cassel oferece um sotaque infalível, além de compor com Devos uma magistral parceria.