Posts com Tag ‘Emmanuelle Riva’

amour_emmanuellerivaAmour (2012 – AUT/FRA)

Michael Haneke mostra o rigor de sempre, talvez mais conservador que seu normal, ainda mais meticuloso no tom de sua direção precisa e carregada. Por mais que uma história de amor, de um casal de terceira idade, toda narrada em tom de despedida, não pareça fazer parte do universo do diretor, o estilo de Haneke está impregnado em cada frame.

O casal inerpretado por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, principalmente ele, dá show. Ela sofre um derrame, ele resume sua vida a cuidar da esposa, preenche todos os espaços, sufoca até a filha do casal (Isabelle Huppert). O filme narra a beleza da dedicação ao outro, as poucas cenas resumem o dia-a-dia de pequenas tarefas, sempre com a ausência total de emoção que é tão cara a Haneke. Sai o sentimentalismo, entra a beleza dessa dedicação desgastante, que nos cativa mesmo pela frieza do cinema de Haneke, que se não parece inspirado, consegue dialogar melhor com um público bem maior que o seu habitual.

hiroshimamonamourHiroshima, Mon Amour (1959 – FRA/JAP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Finalmente o primeiro longa-metragem dirigido por Alain Resnais, e sua estreia é simplesmente magistral. Um belíssimo poema cinematográfico, cheio de inovações estéticas (fotografia, montagem, narrativa), um sopro de inventividade numa época em que o cinema começava a descobrir tantas maneiras de amadurecer.

Da imagem intercalada entre o tronco de um casal nu abraçado, e um álbum de imagens com o horror causado com a explosão da bomba atômica em Hiroshima, surge a beleza cinematográfica com que Resnais une um romance e a cidade-palco dessa paixão repentina entre uma atriz francesa (Emmanuelle Riva), em seu último dia de filmagem em Hiroshima, e um arquiteto japonês (Eiji Okada).

É incrível como Resnais consegue narrar essa paixão obsessiva, um amor ligeiro e possessivo , quase desesperador, de uma forma tão inspiradora. O filme não se passa em mais de um par de dias, praticamente não há diálogos com outros personagens, são apenas os dois, falando sobre Hiroshima, ou sobre suas vidas.

Enquanto se descobrem, Resnais cria uma teia abstrata, uma plástica quase fonética entre imagem, fotografia, trilha sonora e montagem. A harmonia de um soneto filmado, a elegância dos anos 50, e ferocidade da paixão em sua plenitude. Ela se lembra de um amor no período da guerra, um soldado alemão. Ele, ex-combatente pelo Japão, sente ciúmes, mas um tipo de ciúmes misturado com medo de perder, que é antagônico ao estado civil de ambos.

A ruptura, a sensação de proximidade da separação, por outro lado uma espécie de Ode à Hiroshima. Ela diz conhecer a cidade por ter visitado museus, andando nas ruas, ter visto sua gente. Ele simplesmente nega que ela conheça Hiroshima. Resnais explora o amor sem negar seus trabalhos anteriores, o tema da guerra está presente nos diálogos, nas imagens de crianças deformadas. Sua veia antibelicista é capaz de se sobressair mesmo entre toda beleza de um amor delirante.