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Conto da Primavera

Publicado: maio 3, 2020 em Cinema, Domingo de Clássicos
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Conte de Printemps “A Tale of Springtime”, 1990 – FRA)

Lá se vão 30 anos desde o lançamento desse primeiro capítulo do Conto das Quatro Estações de Rohmer, e curioso como as relações pessoais e dilemas românticos mudaram tantos nos últimos anos. Os mais críticos, a um estereótipo de cinema francês blasé, podem encontrar aqui um prato cheio para suas críticas, afinal os franceses discutem filosofia transcendental, Klant e Platão, ou estão ouvindo Schumann num simples jantar. Mas, o cinema de Rohmer apenas utiliza os aspectos culturais para florear essas relações pessoais tão caras em seus filmes. Boa parte dos seus filmes são simples na forma, almejam a naturalidade, e um prazer especial maior de discutir emoções e sentimentos do que vivenciá-los.

A trama pode parecer fulgaz na maneira como aproxima duas jovens a se tornarem amigas tão rapidamente, o importante são as pequenas descobertas de suas manias e perfis, então referências como a mania de organização de uma delas, que respeita fortemente a organização dos outros, são mais importantes do que quem essas pessoas são. Mas as tramas desses contos são assim rapidamente colocam à mesa esses dilemas de personagens, aqui a moça que se incomoda com a namorada do pai, e queria que a nova amiga assumisse esse lugar.

Invariavelmente os personagens se encontram, conversam, discutem, convivem num jardim em plena primavera. Os diálogos e dramas parecem arquitetados demais, naturalistas de menos, ainda mais envelhecidos pelos dilemas que ficaram três década atrás, aqui, a vida real que Rohmer tanto quer espelhar, parece mais convincente na teoria exatamente porque desejo e paixão não são sensações vivida entre esses personagens.

ericrohmer-ccsp.superbanner• Agora é a vez de Eric Rohmer ganhar uma mostra em SP, dia 11 de Junho no CCSP teremos Rohmer, o homem e suas imagens, com de seus filmes, documentários e outros destaques [Vai e Vem]

• A inspiração de Richard Linklater para a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Por do Sol e Antes da Meia-Noite, foi um encontro de uma noite que ele teve. Nesse link um pouco dessa história [Slate]

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contodeoutonoConte d’Automne (1998 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A identificação com a estação do ano em que transcorre a história é quase diminuta, o sentido do outono é muito mais amplo. Seu significado remete ao grau de amadurecimento dos personagens, a fase da vida em que as pessoas perdem no aspecto físico, para esbanjarem em outras áreas. Como se cada um vivesse o outono de suas vidas ao desfilar pelos quarenta anos, convivendo com suas vantagens e desvantagens.

Neste que é o último capítulo da série Conto das Quatro Estações, Eric Rohmer aborda a história de uma viúva, uma mulher independente, decidida, inteligente, e claro carente de um companheiro. Uma pessoa como Magali (Beatrice Roamnd) necessita de alguém que preencha um espaço que filhos e amigos são incapazes de ocupar. Realmente alguém que possa tornar prazerosa a companhia. Perdeu-se, há tempos, a ilusão do príncipe encantado e do “felizes para sempre”.

Duas amigas se incumbem, voluntariamente, de encontrar (mesmo sem autorização) uma paquera para Magali. Eesta foge do assunto esquivando-se na colheita das uvas de sua vitivinícola. A jovem Rosine (Alexia Portal), namorada do filho de Magali, tem em mente aproximá-la de seu ex-professor de Filosofia (e também um ex-namorado seu), que adora conquistar suas jovens alunas. Enquanto isso, a amiga Isabelle (Marie Rivére) capricha num anúncio de jornal, e mergulha profundamente na perspectiva de aproximar sua amiga de um homem interessante.

Surgem dois homens, duas personalidades diferentes. Dois pretendentes e o mesmo objetivo da própria felicidade. Desse modo, Rohmer esbanja realismo, destaca o relacionamento conflituoso entre mãe e filhos, expõe toda a insegurança que extrapola idades quando se fala de assuntos do coração. São realismos crus em cada diálogo, envoltos numa paisagem paradisíaca, repleta de verde dos campos, como num jardim de Monet.

Chama à atenção a escolha de atores fora do padrão de beleza que o cinema está acostumado a trabalhar, não que sejam feios, apenas comuns como todos nós. No entanto mesmo com tanta beleza dos cenários ou veracidade dos diálogos, o filme não chega a comover. O roteiro sugere ser moderninho, com voltas em torno do desfecho, mas nada que alcance brilhantismo. É quase documental, faltando uma pitada de emoção e menos razão.

contodeinvernoConte d’Hiver (1992 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

 O início se dá numa espécie de clipe musical. Ao fundo, a trilha sonora embalando as imagens, que funcionam como afirmação para um amor nascente, aparentemente passageiro, ocorrido em férias na praia. Fica tudo muito vago, a não ser a paixão que jorra das felizes feições de Felice (Charlotte Véry) e Charles (Frédéric van den Driessche).

Pualmos adiante, exatos cinco anos. Felice divide-se entre a casa da mãe (onde está sua filha Elise), e o apartamento do namorado Loic (Hervé Furic), um intelectual completamente apaixonado e não correspondido. Ela trabalha num salão de beleza, e mantém também relacionamento amoroso com Maxence (um cabeleireiro casado), outro não muito correspondido. Ele pretende abrir um salão numa pequena cidade francesa e deseja que ela e a filha se mudem com ele.

Felice é simultaneamente volúvel e segura, a primeira característica é mais clara porque no fundo nenhum dos dois a faz realmente feliz, mesmo que ambos não tenha culpa disso. Ela sente-se inculta demais para Loic, em contrapartida Maxence (Michael Voletti) é bruto e destemperado. Só que, o antagonismo dos dois amantes não faz diferença alguma, seu coração continua amarrado naquele inesquecível verão. Seus sentimentos palpitam por Charles e é com ele que Felice acredita encontrará a felicidade. A obsessão não lhe permite se entregar a outros relacionamentos.

Além do frio que cobre Paris, enquanto a história transcorre, no período próximo ao Natal, Conto de Inverno de Shakespeare também é peça importante no desenrolar da trama. Em mais um capítulo dos Contos das Quatro Estações, Eric Rohmer discute, não só, a dúvida de algo que poderia ter acontecido, e também expõe as dúvidas e incertezas da alma feminina. Os diálogos, bem amarrados, demonstram que o cineasta pretende ir além de retratar uma história. Seu intuito maior é de versar em discussões pessoais. Por exemplo, Loic é extremamente religioso e discute com amigos reencarnação entre outros assuntos. São nestes aspectos paralelos que filme ganha em riqueza, traz refinamento.

Nossa Felice recebe toda a atenção de seus amantes, mas não sabe o que quer da vida (já que o que realmente deseja não pode ter). Por isso, toma decisões erradas, termina relacionamentos desejando manter amizade e depois se joga aos mesmos braços. Não podemos nem considerá-la infiel, ela joga abertamente com todos, e em momento algum esconde seus sentimentos por Charles. A grande questão é se seria Charles tudo o que ela fantasiou, ou sua imaginação criou seu amor perfeito?

umcasamentoperfeitoLe Beau Marriage (1982 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Sabine (Béatrice Romand) faz o tipo de pessoa incurável, quando põe uma coisa na cabeça, não há nada que a faça mudar de idéia. A estudante de artes, de 25 anos, não leva o estilo de vida que gostaria. Trabalha desanimada numa loja de antiguidades, e vive um romance com um pintor casado. Sabine se dá conta de que está perdendo tempo com seu amante, ele nunca irá se divorciar, assim decide deixá-lo e naquele instante resolve que vai se casar.

A amiga Clarisse (Arielle Dombasle) é quem dá o empurrãozinho, apresentando seu primo Edmond (André Dussollier), numa festa de casamento. O diálogo entre os dois é rápido, mas o bastante para que Sabine decida-se por ele como futuro marido. A idéia fixa de Sabine torna-se obsessão, Edmond é um advogado muito ocupado em Paris, e há dúvidas se ele está interessado em iniciar um relacionamento. Mas Sabine é insistente, e parte determinada para a realização de seus sonhos, telefona persistentemente ao escritório de Edmond.

A fantasia do casamento perfeito é idealizada por Sabine como se fosse uma verdade irrefutável, mas esqueceram de avisar a outra parte interessada no assunto. O filme faz parte da série Comédias e Provérbios do cineasta Eric Rohmer que faz o que quer com a personagem. Dentro da aparente determinação exterior, encontra-se uma mulher frágil, carente e insegura. Rohmer categoriza Sabine como pertencente à classe-média, filha de imigrantes, uma falsa independente. Seu comportamento, por vezes, assemelha-se a de uma garota mimada, enclausurada em seu raciocínio, e cega a sua volta.

A função de Clarisse é dar corda aos devaneios da amiga, nenhuma das duas consegue perceber a que limites estão transgredindo. Edmond é calado, muito ocupado, características que colocam em dúvida seus verdadeiros sentimentos na história, ponto para o ator André Dussollier que sabe criar essa dualidade.

Há artificialidade em demasia nos diálogos, típico de alguns trabalhos de Rohmer. A trama é totalmente ligada ao sentimento humano, aos anseios do dia-a-dia. Um Casamento Perfeito funciona superficialmente no estudo do aspecto comportamental, porém seus méritos estão concentrados apenas nas suas aspirações, faltando transpor para dentro das telas o que a verborragia dos diálogos pretendia.