Posts com Tag ‘Eugène Green’

Le Fils de Joseph (2016 – FRA) 

O novo trabalho de Eugène Green, exibido na seção Forum do Festival de Berlim de 2016, mantém a tradição de seu cinema, mas num tom, levemente, mais palatável. Os diálogos seguem pausados, muito plano contra-plano, as referências literárias ou bíblica presentes (filme é dividido em 5 capítulos ligados à Bíblia). Por outro lado, é um filme mais iluminado, otimista, cheio de vida.

O tema já é caro a todos nós, filho adolescente quer conhecer o pai biológico. A trama oferece peripécias, provoca petulância de personagens clichê, mas desemboca mesmo naqueles laços pessoais que construímos ao longo da vida, com pessoas que, de alguma forma, escolhemos e nos fazem sentir bem. O final é saboroso e repleto de reviravoltas pessoais, mas não fiquem só com as “fanfarrices” de Green na reta final, o filme todo é de um encaixe perfeito com a filmografia do cineasta, entre seus absurdos e o lado afetivo mais destacado.

asapienciaLa Sapienza (2014 – FRA/ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Colocar em palavras um filme de Eugène Green é, cada vez mais, uma forma diminuta de expressar sua incapacidade de traduzir tudo aquilo que o cineasta exibe em seus filmes. Não são sinopses e temas que possam oferecer interesse a um leitor. Seu cinema é outro, complexo e simples. Segue firme com a câmera fixa no rosto dos personagens, em falas nada naturais, sempre encontrando no barroco um porto seguro de onde possa conduzir sua frota de insinuações.

Um casal de irmãos, jovens, e um casal (maduro) que vive crise matrimonial. Eles se encontram, as mulheres decidem ficar juntas, a mais velha abre mão da viagem para cuidar da mais jovem, Partem os homens, um estudante de arquitetura, o outro com sua carreira estabelecida. Viajam pela Itália, a posição de aluno e mestre, primeiramente estabelecidade, segue num ziguezague, porque a troca de experiências está sempre nos ensinando.

Green relaciona dois famosos arquitetos italianos, a seus personagens, precisamos de especialização na área para compreender os meandros. Mas, o filme fica além da relação com a arquitetura, busca nas palavras e no amor, sua beleza abstrata de resgatar sentimentos, confiança, relações. A beleza das edificações não oferece cenas tão singelas como a dos cantores de Fado (em Religiosa Portuguesa), mas a sapiência de cada um deles pode nos tocar hoje, amanha, num revisão futura. Não é filme para acabar ao final da projeção, é para trazermos conosco sempre.

INDIE14.bannerJá passou por BH, e chega hoje a SP, o Indie Festival 2014. Que a cada ano se fortalece como um dos mais importantes festivais de cinema do país. Focado em produções “mais alternativas”, o festival tem intensificado a presença de filmes que estiveram presentes no Festival de Locarno, além de outros destaques de Roterdã, por exemplo. Além de se mostrar altamente conectado com os novos expoentes do cinema autoral, em suas retrospectivas.

Este ano não é diferente, o espanhol Albert Serra (que venceu Locarno em 2013 com História da Minha Morte) e o franco-americano Eugène Green são os homenageados, a obra completa de ambos marca presença, e são o grande destaque da programação (incluindo A Sapência, o novíssimo filmes de Green que passou em Locarno).

Entre os demais principais destaques estão os 3 filmes  argentinos, 2 que integram a Mostra Competitiva de Locarno (A Princesa da França e Dois Disparos) e História do Medo (que esteve na competição de Berlim), o russo Ida (que fez sucesso em Sundance e bem crescendo em repercussão mundial), o japonês Anatomia de um Clipe de Papel (que ganhou a última edição em Roterdã) e o americano Listen Up Phillip (outro de Locarno). Isso, sem falar em Tsai Ming-Liang e o seu curioso Jornada ao Oeste, e o britânico Exibição, outro de Locarno, só que de 2013. Enfim, ainda há outros que merecem atenção, a programação está recheada de filmes interessantes.

Abaixo link para os filmes já comentados aqui na Toca. Os filmes serão exibidos no Cinesesc, gratuitamente, basta chegar 1 hora antes das sessões para garantir seu ingresso.

Ida, de Pawel Pawlikowski

O sétimo código, de Kiyoshi Kurosawa

Jornada ao Oeste, de Tsai Ming-Liang

História da minha morte, de Albert Serra

Honra dos cavaleiros, de Albert Serra

O canto dos pássaros, de Albert Serra

A Religiosa Portuguesa, de Eugène Green

A Ponte das Artes,  de Eugène Green

O mundo dos vivos, de Eugène Green

Todas as noites, de Eugène Green

areligiosaportuguesaA Religiosa Portuguesa / La Religieuse Portuguaise (2009 – POR)  estrelaestrelaestrela

Alguns planos abertos, e boquiabertos, da beleza coloquial de Lisboa. A câmera nos dá uma pequena apresentação da cidade palco de mais um filme de Eugène Green, até se enquietar num quarteirão, cujo muro faz referência ao Sebastianismo. Discreto, direto, tal qual o estilo do cineasta. Green parece encantado pela cidade, filma cada canto, cada escada, cada recanto, com esmero. As cenas de fado cantadas são outro primor de beleza.

O estilo é o mesmo, plano contra-plano, diálogos ditos com suavidade, requinte e artificialidade. A rigidez narrativa, a preciosidade do posicionamento da câmera em cada cena, o contato com poesia e religião. É impressionante como Green e a cultura portuguesa dialogam de maneira hermética, parecem nascidos um para o outro. O cineasta presta pequenas homenagens a Lisboa enquanto, lentamente, conta a história da atriz (Leonor Baldaque) que se encanta com um garoto órfão, causa amor em um senhor desiludido (Diogo Dória), num ator casado e feliz (Adrien Michaux) e no jovem (Carloto Cotta) que pode ser a reencarnação de D. Sebastião.

apontedasartesLe Pont des Arts (2004 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Eugène Green vai apurando seu estilo a cada filme. São novas camadas de complexas relações entre dramas humanos e referências artísticas, onde cada vez menos importante se torna o rumo dos personagens, e mais importante a maneira como Green conduz público e personagens, como absorve e divide referências. A Ponte das Artesm em Paris, é focalizada por diversos pontos, e também o local de uma tragédia que divide a trama. Entre eles a música, clássica, lírica, uma cantora humilhada (Natacha Régnier) por seu maestro (Denis Podalydès), e um universitário (Adrien Michaux) que se paixona por sua voz.

Lamento Della Ninfa, de Monteverdi, se torna o estopim. Desilusões matrimoniais e profissionais unem e separarm estes dois jovens ligados pelo amor à arte. Green permanece com a rigidez, com planos e contra-planos, e os diálogos repletos de citações filosóficas. Há diretores que poderiam ser citados para exemplificar, mas Green merece ser um desses casos únicos, que misturam filosofia com música lírica, e ainda espaço para absorver relações matrimoniais, desgastes pessoais. Seu filme é sobre o amor, sobre o amor à arte, mas, também sobre poder e seu abuso, sobre fragilidades, e, sobretudo sobre Paris e sua beleza edificante.

lemondevivantLe Monde Vivant (2003 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Eugène Green filma o mundo medieval, uma dessas histórias de princesa aprisionada por um ogro, jovens corajosos que empunham espadas para resgatar a bela amada. Faz isso em forte tom teatral, quase escolar. Um cachorro representa um leão, o mundo do teatro é assim, não?

Enquanto os amores e duelos transcorrem e ogros derrotam mocinhos, Green vem com seu estilo rigoroso, planos e contra-planos, o artificialismo nos diálogos, a obviedade nas falas. Há o mundo das fábulas encantandas, com relampejos de marcar religiosas, e até espiritualismo. Por mais ingênuo que possa soar, a força do texto é capturada pelos planos meticulosos de Green e suas intenções nada ingênuas. Faz soar erudito o mais simples, não é tarefa fácil, e nem é muito palatável.

todasasnoitesTouts Les Nuites (2001 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O roteiro (inspirado em Gustava Flaubert) trata da amizade de dois amigos, numa cidade no interior da França. Adolescentes em 1967. A vida os separa, mas a amizade se mantém. Um tenta ser escritor (Adrien Michaux), o outro vai estudar em Paris (Alexis Loret) e se envolve com a esposa (Christelle Prot) de um de seus professores, foge com ela aos EUA.

Seguem os caminhos dos amigos, os envolvimentos amorosos, as decepções da vida. Os acontecimentos não são o mais significativo no filme de estreia de Eugène Green, aliás o roteiro parece apenas preencher algumas lacunas, porque a essência está nos planos rígidos, no plano-contraplano, na suntuosidade da noite. O estilo forte do diretor, com diálogos marcos e um rigor estético impressionante, resultam numa espécie de poesia filmada.

Os atores encontram o tom certo entre o erudito e o naturalismo, os planos-fechados, a luz, tudo ganha importância incondicional. O desenrolar da história é quase onírico, até quadrado. O sexo em sua forma literária. Como Green comanda e conduz esses personagens, o verdadeiro chamariz de seu filme.