Posts com Tag ‘Fanny Ardant’

melodiainfielMélo (1986 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um dos maiores concatenadores das artes no cinema, Alain Resnais, trazendo teatro às telas num melodrama romântico sobre amizade e infidelidade. Um dos amantes é músico (André Dussollier), e é no primeiro diálogo, cheio de citações sobre diversas artes que ela (Sabine Azéma) se apaixona por ele, mesmo tendo o marido (Pierre Arditi) ao lado.

As tintas pesadas do melodrama conduzem o caminho dos personagens, seja no amor vivido sob o peso da traição, seja na cegueira do traído apaixonado pela espos. Até culminar na fatalidade, na incapacidade de lidar com o amor de dois homens. Resnais complementa com musica, e com sua elegância habitual, se o filme está longe da inventividade de seus poemas filmados (do início de carreira) ou da contundência de suas críticas à guerra, por outro lado há aquele sabor refinado de acompanhar um mestre nos conduzindo pela história viva, aquela pulsante que toma nossos corações quando menos se espera. A beleza desse filme está na continuidade do trabalho de seu diretor.

 

 

morrerdeamorL’amour à mort (1984 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um emaranhado entre amor, morte e religião. Talvez um dos mais pragmáticos filmes de Alain Resnais, carregado do amor romântico. Por outro lado, outra exposição corajosa de sua visão, ou apenas meros questionamentos de quem também procura respostas, mesmo que saiba que elas não existem. Resnais faz seu protagonista (Pierre Arditi) morrer, e ressuscitar. Decide aproveitar a oportunidade e mudar os rumos de sua vida, as pessoas com quem se relacionar, dar ainda mais foco em a sua namorada (Sabine Azéma).

Estão jogadas as cartas à mesa que permitem a Resnais discutir o amor romântico, o morrer de amor. Com o casal de amigos religiosos (Fanny Ardant e André Dussollier) vem a oportunidade de envolver a religião, as crenças. Por exemplo, Resnais resgata uma questão interessante, a tradução incompleta de “amor”, para o latim, dos termos do grego antigo Eros (amor possessivo) e Ágape (amor desinteressado).

Os nomes com conotação religiosa não está ali por acaso. Um personagem, apenas citado, comete suicídio, outra oportunidade de trazer o assunto à tona, e o discutir sob os aspectos da morte e religião. É Resnais talhando seu filme para abordar seus questionamentos, e, com interpretações bastante densas, e clima por vezes carregados, ainda assim imprimir seu estilo de promover a reflexão, dessa vez com um conjunto de observações antagônicas.

avidaeumromanceLa Vie Est Un Roman (1983 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Alains Resnais volta com outra proposta grandiosa. Narrado em dois tempos, aborda os sonhos revolucionários de um conde milionário (Ruggero Raimondi) de criar um palácio, ou mais que isso, uma sociedade formada por seus amigos, que viveria isolada, sob o alicerce do amor e outras crenças próprias. Porém, veio a primeira guerra mundial.

Na década de oitenta, o palácio se tornou uma escola experimental que está prestes a sediar um congresso sobre “Educação e Imaginação” recebendo especialistas das mais diversas áreas da educação, que não só discutem o tema, mas se inter-relacionam.

Outra ousadia de Resnais, dessa vez nem tão bem realizada que seus trabalhos anteriores. Por mais que haja pontos interessantes por todos os lados. Uma espécie de fábula musical que mistura imaginação, libido, formas de se relacionar com amor, loucuras eloquentes. Resnais trata de tantos temas, métodos educacionais, relações humanas de forma leve, ainda assim intensa. Fragilidades e conquistadores, influciáveis e influenciadores, e no meio desse pandemônio de opiniões e experiências, as crianças que se divertem com o que tiverem a seu alcance.

faceVisage (2009 – FRA/TAW) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um diretor de cinema taiuanes (Lee Kang-Sheng) vai a Paris filmar, no Louvre, sobre o mito de Salomé. Falar que ele tem problemas de comunicação por não falar inglês/francês, que sua mãe morre durante as filmagens, ou que o ator protagonista é de um temperamento indomável (Jean-Pierre Léaud) é uma forma de tentar resumir a sinopse. Eu sei que acabei de fazer isso, mas é extremamente desnecessário.

Isso porque Tsai Ming-Liang segue com seu estilo narrativo (posionamento de câmeras em ângulo, a água que inunda um apartamento, inserções musicais, o sexo como forma de desejo primitivo), mas, dessa vez, num nível ainda mais elevado do abstrato. Um conjunto de cenas que seguem uma ordem lógica, mesmo que pareçam não se esforçar no contar uma história. Trata-se de seu maior trabalho de percepção, um encontro com o mundo das artes, um flerte com a cultura europeia (um quê de Truffaut aqui e ali).

derepentenumdomingoVivement Dimanche! (1983 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O último filme de François Truffaut foi em cinema de gênero. Um típico romance policial com, algumas mortes, um suspeito em evidência, e alguém com espírito investigativo. Além, é claro de uma dose de romantismo, porque se ninguém é de ferro, Truffaut muito menos. Leve e com sugestivos pitacos de seu singular estilo, como na tara por belas pernas femininas. O cineasta as filma de salto alto e meia-fina, e sabe, como ninguém, buscar a sensualidade desse caminhar feminino. Torna esse marchar muito mais que sedutor, a leveza da imagem reconforta como se nos acariciasse o rosto. Num exímio exercício de estilo, Truffaut consegue a prazerosa sensação num simples movimento de sua atriz (seja ela qual for), uma categoria infalível e a demonstração que filmá-las é uma arte para poucos.

Com roteiro baseado no livro de Charles Williams, a trama cheia de segredos lida com o drama de um agente imobiliário (Jean-Louis Trintignant) acusado de duplo assassinato: sua esposa e um amigo, cujas investigações comprovam que eram amantes. Sua secretária, Barbara Becker (Fanny Ardant), lhe oferece um esconderijo e inicia investigação do verdadeiro culpado. Entre passagens secretas e surpresas mil, Truffaut trabalha bem com clichês, enquanto se aproveita da fotografia em preto e branco para atenuar o clima de mistério. O resultado é uma diversão que não envelhece com o tempo, e a parceria do cineasta com a interpretação de Ardant (sua época á época) oferecem humor, sem perder a sensualidade e o suspense. Vê-la em cena é sempre um prazer, com seu raro talento, e beleza estonteante que parece não envelhecer

amulherdoladoLa Femme D’à Côté (1981 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Não poderia enveredar-se por outros caminhos, a história de amor envolvendo Bernard e Mathilde: “Nem com você, nem sem você”. O ambiente trágico é observado já no tom de abertura, conduzido pela encantadora Madame Odile Jouve, a administradora do clube de tênis que se presta a narrar os essenciais seis meses anteriores ao ocorrido.

Em Grenoble, interior da França, mora Bernard Coudray (Gérard Depardieu), com sua esposa e o pequeno Thomas. Escolheram a região para desfrutar da natureza e da tranqüilidade que o campo oferece. Após alguns anos, a casa ao lado finalmente é alugada. Como de praxe, Bernard é solicito, tenta ser gentil ao casal de novos vizinhos. Isso até descobrir quem eram os locatários do imóvel, o reencontro com Mathilde Bouchard (Fanny Ardant) traz a tona à paixão de oito anos perdida. O passado parece reviver ferozmente, e o reencontro demonstra que o conturbado romance apenas hibernava em seus corações.

Num primeiro momento relutam, escondem de seus cônjuges que já se conheciam, mas o amor asfixiado entra em erupção como um vulcão adormecido. O sentimento de ambos é explosivo e controverso, quanto mais querem distanciar-se, mais próximos ficam. Os motivos da separação anterior surgem com a mesma magnitude da paixão, não conseguem agir normalmente, é cada vez mais difícil esconder a situação. A atração física é muito mais forte do que a coerência que teima em separá-los.

Este não possui o mesmo frescor de trabalhos anteriores de François Truffaut, isso não significa demérito, apenas diferença. A fotografia é carregada nos tons escuros, os sentimentos estão sufocados, causando picos de dramaticidade e eclodindo em reações espontâneas e destemperadas. A história é narrada em estilo clássico e as atenções centradas nas atuações da dupla Ardant-Depardieu, como se o filme tivesse menos de Truffaut do que outros, e assim o cineasta dividisse o peso da responsabilidade com a dupla.

Cada passo do roteiro está antecipadamente descrito na mente do público, a ausência de surpresas faz da história coerente, porém marcada. Truffaut faz tudo corretamente, prova maior é a cena máxima que está coberta de suspense e beleza. Desenvolve os coadjuvantes para que não sejam apenas figuras decorativas, transforma o dia-a-dia do romance em arma para resgatar passagens que marcaram o passado deles juntos.