Posts com Tag ‘Fatih Akin’

Em Pedaços

Publicado: março 15, 2018 em Cinema
Tags:, ,

Aus Dem Nichts / In the Fade (2017 – ALE) 

Imigração, intolerância, o assunto do momento na Europa, talvez do mundo. Países fechando fronteiras, voltando décadas no convívio globalizado, e permitindo que extremistas voltem a ter espaço. Fica difícil não revelar a tragédia que é o divisor de águas na vida da protagonista, mas podemos afirmar que se trata de um filme de tribunal. O julgamento corrosivo para essa alemã casada com um imigrante não dá espaço para sua reconstrução, a tragédia revivida enquanto se busca justiça.

Diane Kruger volta a ter destaque internacional com sua prestigiosa premiação como melhor atriz em Cannes, e realmente o filme não se distancia dela nem por um segundo, muito menos da trégua. O controverso diretor Fatih Akin, muito cotado como forte candidato ao Oscar de Filme Estrangeiro, mas ficou fora da lista final, volta aos temas sérios, abusando da dor e do desespero de seus personagens, flertando sempre com o questionamento da justiça e das questões da intolerância racial. Pode-se discutir o desfecho, afinal, Akin prefere finais fechados e dolorosos, dentro de uma narrativa até que tradicional. É o cinema que reflete para o público e já entrega a resposta, por mais que, nesse caso, com todo o perfil da personagem, não soe nada absurdo.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Atriz

Grandes encontros, histórias divertidas, maratonas intermináveis, corridas malucas, novos amigos, dias inesquecíveis.  Acredito que os relatos dos posts resumiram bem o que foi essa Mostra. Por isso, sem mais delongas, vou fechar o balanço com os meus grandes destaques do festival entre os 15 filmes vistos.

O Filme

casavazia

Casa Vazia, de Kim Ki-Duk

Uma das metáforas mais lindas para o amor e uma forma de aceitar as consequencias para vivê-lo em sua plenitude. Porque amar pode ser até mais importante do que existir.

 

Os Melhores:

Oldboy, de Park Chan-wook

A Ferida, de Nicolas Klotz

Ouro Carmin, de Jafar Panahi

Contra a Parede, de Fatih Akin

Sede, de Tawfik Abu Wael

Está começando mais uma edição da Mostra de Cinema, pretendo fazer um diarinho para contar não só dos filmes, como também, dos bastidores pelos olhos do cinéfilo que vos escreve..

Na fila para os ingressos no Cinearte, primeiro dia do Festival, um cinéfilo inveterado discutia com um senhor que não sabia o que era essa tal Mostra. Em certa altura, o tal cinéfilo me solta a pérola: “Eu não gosto de cinema!” Todos ouviram extasiados, se o cara não gosta o que estaria fazendo ali? Alguns segundos de silêncio e um outro rapaz na fila, não se aguentando de curiosidade, pergunta: “O que voce falou, poderia repetir?” E o cinéfilo respondeu: “Eu não gosto dessa conversa de tela grande, gosto de filmes, e prefiro vê-los em DVD. Só vou aos cinemas na época da Mostra porque esses filmes não chegam aqui em DVD, nunca.”

A fila toda ouviu aliviada, era um maluco mas não tão maluco quanto se pensou. O senhor que argumentava que filmes pornôs eram de arte tanto quanto os tais filmes cult (ditos pelo cinéfilo), ouviu as insistentes solicitações do cinéfilo e foi se informar melhor sobre os filmes no quiosque. As filas da Mostra SP sempre são um programa à parte, de tudo aparece, de tudo se ouve.

Contra a Parede (Gegen die Wand / Head On, 2004 – ALE) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Cabelo comprido, barba por fazer, debruçado no balcão de um bar, sempre embriagado e mal-humorado. É assim que o autodestrutivo Cahit Tomruk (Birol Ünel) vem levando sua vida, seu pequeno apartamento assemelha-se a um lixão, latas de cerveja se acumulam pela sala, restos de comida pela cozinha, uma completa bagunça. Um acidente de carro e Cahit é internado numa clínica psiquiátrica, ele nega, mas as provas são evidentes de que tentara cometer suicídio. Na clínica conhece Sibel, jovem, bonita, atraente, cercada pelos familiares, angustiada, depressiva, suicida.

Assim como Cahit, Sibel Güner (Sibel Kekilli) é turca, e tentou tirar sua própria vida. Ela está cansada das regras impostas por sua família, deseja ter mais liberdade, sair, transar com quem desejar. Ela o pede em casamento, insiste, implora, vê nele a chance da liberdade pretendida. Dias depois ele aceita. Um casamento de conveniência vantajoso para ambos, ela o ajuda a dividir as despesas, cuida da casa, enquanto ganha liberdade para fazer o que bem quiser.

Com o passar do tempo, Cahit passa a sentir ciúmes de sua falsa esposa, luta para não desejá-la, a consumação desse casamento é uma questão de oportunidade. Neste ponto, a trama ganha outro rumo, o diretor Fatih Akin passa a explorar esse amor nascido no dia-a-dia. A dupla suicida reencontrou a alegria de viver, sob o mesmo teto encontro a graça nas coisas simples da vida como um jantar à dois (fato completamente inimaginável no começo do filme). A ruptura da história reescreve os destinos de Cahit e Sibel, transformando-os em pessoas completamente diferentes.

Pequeno retrato da imigração turca na Alemanha em seu estilo contemporâneo de vida. A cidade de Hamburgo é palco para essas relações entre o choque entre modernidade e a cultura tradicional turca. A diferença de valores entre povos evidenciada ao som de rock e pitadas de música eletrônica. Os costumes, o desgosto, a conturbada relação familiar, o machismo, está tudo ali estampado sem máscaras ou enfeites.