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Os Boas Vidas

Publicado: novembro 20, 2021 em Cinema
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I Vitelloni (1953 – ITA)

O primeiro choque de realidade que o quinteto de boas-vidas encara é a gravidez inesperada e o casamento obrigatório, mas o resumo perfeito do filme vem na parte final, na engraçada cena em que o sogro saca o cinto e dá uma surra no mulherengo que casou com sua filha. Mesmo na casa dos 30 anos, eles fogem de trabalho, e os mais velhos reagem paternalistas ou incrédulos, Fellini resume uma juventude italiana da década de 50, que quer apenas viverem de pequenos prazeres, da dependência dos pais, e está muito bem. Mas a bonita cena final traz uma luz de otimismo ao olhar satírico de Fellini, um deles resolve se aventurar em Roma enquanto o filme resguarda um futuro pouco esperançoso aos que ficam.

adocevidaLa Dolce Vita (1960 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Por mais que nosso mestre de cerimônias, na futilidade da burguesia romana do final dos anos 50 e início dos 60, seja um colunista social (e aquele bando de papparazzis), o jornalismo serve apenas como mecanismo para Federico Fellini expor o movo de vida fugaz e extravagante. Por entre festas ou cabarets, até mesmo coletivas de imprensa com atrizes (Anita Ekberg) que pouco além da beleza tem a oferecer, o ater-ego do diretor, Marcello (Marcello Mastroianni) mergulha em relações que parecem sem propósito além do momento vazio, porém luxuoso.

Por quase três horas, que representam um final de semana, Marcello nos conduz por esse conjunto de obscenidades e sorrisos regados à champagne. O oco por detrás de bonitos vestidos e smokings, que podem escondedr fragilidades ou completas nulidades vaidosas. As mulheres correm atrás de nosso galã, esfomeadas de amor ou prazer, enquanto ele vaga pelo caótico de um nonsense verossímil, que Fellini teima em nos mergulhar (como na festa com a câmera girando num 360º em seu próprio eixo, inserindo cada personagem antes da catarse alcoolica de um strip-tease pouco explosivo). A vida é doce como na antológica cena da Fontana di Trevi, e Fellini filma como se não houvesse amanha.

queestranhochamarsefedericoChe Strano Chiamarsi Federico (2013 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Ettore Scola se coloca como o vovô dos cinéfilos, daqueles que dá um leite quente e conta uma história. Pura nostalgia, Scola cruza sua vida e a de Federico Fellini, narrado num tom de fábula leve, revisitando a revista onde ambos começaram (em épocas diferentes) e a relação de amizade surgida anos depois.

Trata-se de uma cinebiografia de algumas épocas, espécie de fragmentos de lembrança do garoto Ettore, que admirava os desenhos e humor de Fellini, seguindo seus passos e o encontrando já em seus primeiros filmes de direção. Por mais carinhosa e simpático, o filme só vive desse clima nostálgico, desse papo de avô que rememora, com entusiasmo, tempos que não voltam mais. Mas, não deixa de soar como uma tentativa de Scola de ressurgir seu nome, já que não apresenta material o bastante interessante para transformar essa nostalgia em deleite aos olhos de todos.

 

julietadosespiritosGiulietta Degli Spiriti (1965 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O primeiro filme colorido de Federico Fellini pincela temas como misticismo e religião, mistura infidelidade e alucinações, brinca com crenças duvidosas ligadas a espíritos e adivinhadores do futuro. Julieta (Giulietta Masina) leva uma vida aparentemente tranqüila, casada com um homem que lhe oferece todo o conforto. Seu dia-a-dia é passear na praia e comandar as empregadas nos afazeres domésticos. Ela suspeita da infidelidade do marido, suas amigas e parentes adoram esses assuntos místicos, e a conjunção leva Julieta a um desses gurus, que além de ler o futuro faz sessões para invocar espíritos em sua casa.

Nessa tumultuada vida social, Julieta começa a ter alucinações, lembranças do passado atormentam sua cabeça. O convívio com a vizinha Suzy (Sandra Milo) traz todo esse mundo alucinógeno para dentro da realidade, a casa de Suzy é extravagante, sempre festiva. E o aspecto libertino, de seu estilo de vida, é outro ponto a ser acrescido na cabeça dessa mulher simples, e caseira, que mal sabe lidar com as incertezas da relação com o marido. Enquanto Suzy é completamente desprovida de pudores, por exemplo, tem um tobogã com uma piscina no quarto, e a poligamia como objetivo.

O que faz Fellini com todos esses elementos é criar cenas alucinantes, extremamente amalucadas, onde o nexo é esquecido. Elevar o nonsense ao máximo, colocar o público dentro dessa inebriante fantasia criada pela mente. Só que o resultado final é aborrecedor, pelo excesso de devaneios, pela necessidade extrema de ir muito além do factível.

aestradadavidaLa Strada (1954 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A primeira lembrança que vem à mente são os olhos de Giulietta Masina. Admirando aqueles movimentos rápidos circulares, surge um sentimento instantâneo de satisfação, ao relembrar a graciosidade, numa simplicidade que quanto mais se repete, maior efeito causa. É ela quem incorpora o espírito saltimbanco. O humor das ruas, exclusivamente, para as grandes massas. O amadorismo financeiro onde os artistas passam o chapéu, e com módicos trocados, sobreviviam até a próxima cidade, a próxima plateia.  E se o filme resgata muito desse clima, numa Itália de miséria pós-guerra, Giulietta Masina é a grande culpada. A atriz italiana interpreta Gelsomina, uma moça interiorana, e essencialmente tola, que é vendida pela mãe, ao grosseiro Zampano (Anthony Quinn), substituindo assistente sua irmã falecida.

Zampano é um artista que apresenta números circenses, apoiado em seu corpanzil avantajado. Estoura correntes com o peito, e ensaia ingênuas apresentações humorísticas com sua assistente. A relação dos dois não é tão clara, vivem como marido e mulher, mas o jeito brutal com que ele a trata chega a agradá-la de tanto desconhecimento da vida que a interiorana tem. Dentro de toda sua ingenuidade, mesmo que às duras penas, Gelsomina aprende a colocar sua personalidade frente à figura, para lá de abrutalhada, de Anthony Quinn. Esse amadorismo, emocional e profissional, é quase um personagem, que hoje soa como uma visão romântica do cômico, na época era realidade pura.

Federico Fellini torna a estrada o meio, que corrobora nas mudanças que o convívio traz.  Com a trilha sonora de Nino Rota, e esse clima saltimbanco, Fellini desenvolve a beleza dessa convivência, o florescer da sensibilidade pelo medo da perda. Como já dito, a atuação de Giulietta Masina é estupenda, facilmente reconhecível a influência de Carlitos, mas é no grand-finale, com um momento soberbo de Quinn, que o filme tem seu fechamento triunfal.

 

oabismodeumsonhoLo Sceicco Bianco (1952 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Era apenas o segundo filme dirigido por Federico Fellini, o primeiro em que estava sozinho na função. “Um sonho é um abismo fatal” é a máxima exposta no final do filme, e que Fellini, e o co-roteirista Michelangelo Antonioni, buscam provar. Os recém-casados Ivan (Leopoldo Trieste) e Wanda (Brunella Bovo) chegam a Roma para desfrutarem da lua-de-mel. Os planos estão todos anotados na caderneta de Ivan. Seu tio virá pegá-los no hotel, pela manhã. Depois a visitação da cidade ,incluindo alguns pontos turísticos, até mesmo um encontro com o Papa está marcado. Wanda está muito mais preocupada com um outro endereço em particular, a ingênua moça pretende realizar seu grande sonho de conhecer o Sheik Branco (Alberto Sordi).

O tal Sheik Branco é um personagem de uma fotonovela. Wanda é fã incondicional do ator, a ponto de escrever-lhe cartas melosas com a singela assinatura de Boneca Apaixonada. Conhecer todos os atores, que ela acompanha pelos jornais, causa tamanha excitação, que a jovem despista o marido para uma rápida saída. Levada pela emoção de finalmente conhecer seu ídolo, ela perde a noção do tempo e da vida, e parte, com o elenco, para um cenário distante do centro de Roma.

Sempre com muitos toques de humor, em Wanda está estampada a perda da ilusão, a descoberta que aquele mundo fantasiado em sua mente não existe. Enquanto Ivan sofre, das tripas coração, para não sujar o nome da família, onde já se viu uma esposa desaparecer na noite de núpcias? O encontro homogêneo de humor e drama está concentrado em Leopoldo Trieste, seu personagem atrapalhado e apaixonado cativa com humor, e ainda consegue representar toda a crise que enfrenta naquele estranho dia. Nele está contida a arrogância do homem-chefe-de-família e que mesmo sendo um romântico inveterado, não pode permitir que sua honra seja suja. Alberto Sordi traz humor, mas de um modo caricato, Trieste parece muito mais espontâneo. De maneira leve, Fellini acerta exatamente onde mirou, dando os primeiros passos de sua brilhante carreira.