Posts com Tag ‘Fernanda Montenegro’

O Beijo no Asfalto (2018) 

Interessante os caminhos escolhidos pelo ator Murilo Benício em sua estreia na direção. Adaptando uma peça de Nelson Rodrigues, tudo filmado em branco e preto, como se fosse uma leitura preparatória para o  ensaios da peça. Dali surge um debate sobre os próprios temas da peça, enquanto intercala a leitura com a própria representação das cenas. Na trama, um incidente é completamente alterado pela imprensa, e a vida do afetado muda de pernas para o ar. É um filme sobre a beleza da sinceridade de um momento cuja interpretação alheia eclode para fora do controle, onde preconceito e amor se confunde com aceitação e as próprias relações veladas entre cada um dos personagens.

Anúncios

rioeuteamoRio, Eu Te amo / Rio, I Love You (2014 – BRA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A versão para a Cidade Maravilhosa, da série Cities of Love, é um desserviço ao Rio de Janeiro e ao cinema nacional. Nenhum dos 10 curtas consegue, nem de forma ligeira, condensar qualquer traço do charme, beleza e encanto da cidade. Se o modelo de filme-coletivo sofre pela irregularidade, dessa vez, este se torna o menor dos problemas.

Primeiro que a cidade é colocada em segundo plano. Alguns dos curtas nem conseguem se identificar com a cidade, os demais praticamente tornam os cartões-postais em clichês hediondos. As visões são as mais simplistas possíveis, os roteiros almejam o natural, quando apenas encontram uma artificialidade de finais que desejavam representar grandes sacadas. Começa com Andrucha Waddington e a história do neto que encontra sua avó (Fernanda Montenegro) vivendo como mendiga, por opção.

Paolo Sorrentino vai ao limite dos clichês com a jovem ricaça (Emily Mortimer) e seu marido idoso, doente e podre de rico, que passam férias na cidade. Fernando Meirelles e Cesar Charlone não conseguem imprimir ritmo à história do escultor (Vincent Cassel) de areia que se apaixona por uma jovem, o curta não passa de uma ideia de trama.

Constrangedora é a história dirigida por Stephan Elliot, um astro do cinema (Ryan Kwanten) decide escalar o Pão de Açúcar, do nada, com a roupa do corpo, e carrega seu guia (Marcelo Serrado) nessa aventura pelo amor inesperado. Totalmente insosso, e que nada mostra além de dois takes do mar, é o curta dirigido por John Turturro, sobre um casal (ele e Vanessa Paradis) em tom de despedida. Guillermo Arriaga retoma parte do clima de Amores Brutos, troca a briga de cães por lutas clandestinas e desce fundo no poço das propostas indecentes (que só devem existir na cabeça de cineastas mesmo).

O morro do Vidigal é tomado por vampiros na visão de Im Sang-soo, com direito a samba, garçom estiloso e prostituta mulata. Carlos Saldanha até consegue um aspecto visual interessante na apresentação do casal de bailarinos (Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer), mas o drama do casal e suas discussões durante a apresentação são de um melodrama que pouco acrescenta ao clima de amor à cidade. Wagner Moura é o instrutor de asa-delta frustrado que xinga o Cristo Redentor durante um voo, sabe-se lá as intenções de José Padilha, além de trazer seus temas críticos da cidade à tona.

Mesmo carregado de clichês, a simpatia da história criada por Nadine Labaki é a que mais se aproxima do que se esperava deste projeto. Um garoto de rua, gringos (ela e Harvey Keitel) encantados por seu jeito cativante, se passam por Jesus para realizar suas fantasias. E a cereja estragada do bolo são as transições, que ganharam vida própria, personagens próprios, e direção de Vicente Amorim. Primam pela artificialidade, e mais embaralham do que funcionam como conexão para os curtas. Além de intensificarem o padrão visual do filme que trafega entre um Globo Filmes e uma campanha publicitária de tv (aliás, marcas de patrocinadores quase se tornaram protagonistas das transições).

centraldobrasilCentral do Brasil (1998) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Lembro bem de uma das primeiras vezes em que fui à Cinemateca e fui parar numa mesa, com desconhecidos, discutindo sobre cinema. E um senhor começou a falar sobre o filme, que havia escrito um grande artigo acusando-o de deslavada propaganda em prol do governo FHC (o texto não foi publicado, por escolha do próprio autor, segundo suas palavras), que aquele conjunto habitacional do final do filme era o ápice da propaganda governista e etc. Hoje, voltando ao filme após tantos anos, considero que se fosse filmado no governo Lula, imagino que pudesse haver o mesmo tipo de observação, podem aproveitar ainda argumentos como o bolsa família.

Talvez a observação fosse correta, e eu não consiga até hoje capitar esse ar tucano que aquele socialista convicto enxergava. Sob minha ótica, o filme de Walter Salles retrata o momento do país, de maneira genuína, um momento que começou a ser desenhado pelo plano Real e que, com mutações e correções na rota, segue até hoje de forma sustentável (por mais que não haja crescimento sustentável nesse país).

O primeiro terço do filme é arrebatador, a escrevedora de cartas (Fernanda Montenegro), o desejo do garoto (Vinicius de Oliveira) de conhecer o pai, o retrato da Central do Brasil. Há tanta brasilidade ali, tanta poeira e sentido de sobrevivência que só os brasileiros conhecem. Depois começa ao road movie, propriamente dito. Surge Othon Bastos como um caminhoneiro, surgem dificuldades e percalços. Levar o menino ao pai torna-se uma aventura dramática, e Walter Salles narra toda essa estrada com trilha doce e tom de fábula nordestina, com lágrimas por cada quilômetro rodado.

Decepção, esperança, aconchego, Salles continua resumindo a pobreza do sertão nordestino, o culto à religião, tenta incorporar o máximo de elementos possíveis, e consegue de forma genuína. Tantos quilômetros distantes da Central do Brasil, e a realidade é a mesma, uma banquinha na rua escrevendo cartas para analfabetos, que em poucas palavras poderiam ser tão fundamentais a tanta gente. A saga da busca por um pai, que não deve ser nenhum exemplo de vida (e a presença de Caio Junqueira e Matheus Nachtergaele comprovam isso), ainda assim um pai, pessoa fundamental navida de qualquer um.

casadeareiaCasa de Areia (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Chamar de inóspita, uma região onde o que não é areia, é céu, surge como um eufemismo sarcástico. Olhando a todos lados, se vê apenas uma imensidão de areia. O nada que se movimenta pelo vento, sem função aparente. Foi para esse areal que Vasco levou sua família, sonhando com prosperidade. Maranhão, 1910, nos primeiros dias os homens fugiram, Vasco faleceu, e perdidas no meio daquela imensidão de areia, restaram apenas a viúva (grávida) e sua mãe. Sessenta anos de história se passam, a partir desse momento. As tentativas de deixar o lugar surgem fracassadas, como imã naquele mundarel de areia, e que atrai três mulheres contra sua própria vontade.

As duas Fernandas (mãe e filha) revezam-se entre os papéis, Torres demonstra a explosão da juventude, uma indignação repetitiva; já Montenegro assume a maturidade idosa, o aceitar o que se pode ter, e viver daquilo que é possível. As duas ótimas como sempre, mas é a mãe quem resgata os raros momentos em que o sentimento puro toma conta dos personagens, se o diretor Andrucha Waddington queria dar tons poéticos a seu filme, é com sua sogra que alcança sucesso. Só de ver Fernanda Montenegro vestida de hippie já valeria qualquer esforço.

A paisagem é vital à história, lindamente fotografada, ela remete ao marasmo, à monotonia, e é desse mesmo reflexo que padece o roteiro. Não há sentimento, falta liga entre os personagens e as emoções, está tudo muito preso, quase hibernando dentro dessas mulheres. As relações são frias, o sexo é frio, paciência para viver um dia depois do outro, esperar uma nova oportunidade de retornar a civilização, Andrucha vive com seus personagens um sonho contido.

A narrativa flui com intensidade moderada permeada pelo bege da areia, o azul do céu e o sol escaldante. As figuras masculinas têm importância selada, Massu é praticamente monossilábico, mas sabe muito bem agir quando lhe interessa. Cada um tem sua forma de demonstrar amor.

Mas, se pensarmos que o filme foge da mesmice temática do cinema nacional atual (violência e miséria), ou da predominância estética televisiva, é um alívio encontrar um trabalho desse tipo, pessoal e corajoso. O resultado dá sinais de maturidade artística do diretor, mesmo que seus problemas desviem o filme do caminho de uma “grande obra”.

PS: na sessão de cinema, no meio da platéia, chorando copiosamente, vejo a cantora Wanderléya.
TUDOBEMTudo Bem (1978) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O Brasil dentro de um apartamento. O cineasta Arnaldo Jabor apertou aqui e ali, até colocar uma série de figuras que representariam grande parte da sociedade brasileira, um micro-ecossistema social. Jabor teve a capacidade de alojar, nessas quatro paredes, essa infinidade de personagens, numa ácida crítica social. Um filme que levanta a bandeira da diferença de classes sociais e traz dentro de um lar burguês as delicadezas problemáticas do povo.

Juarez Ramos Barata (Paulo Gracindo) divide seu tempo entre escrever cartas, a um editor de jornal, criticando a situação do país, e ouvir discos com músicas indígenas e sons de pássaros da Amazônia. Por seus três alter-ego percebemos ser um sujeito nacionalista, com ares de poeta, engajado politicamente em suas idéias, e ainda assim proprietário de ideários divagantes. São seus fantasmas que o fazem refletir, relembrar momentos da juventude, trazem a tona o saudosismo que o mantém vivo. Elvira (Fernanda Montenegro), sua esposa, remoe a idéia de que seu marido anda tendo um caso, ela própria inventa os encontros e as características físicas da amante.

Os filhos são a própria classe média, José Roberto (Luiz Fernando Guimarães) é diretor de relações públicas de uma multinacional, já Vera Lúcia (Regina Casé) acaba de tornar-se noiva de um executivo dos EUA. A invasão do Brasil, nessa família, começa pelos fundos. Uma das empregadas domésticas prostitui-se, à noite, para descolar uma grana. A outra caminha para as estradas espirituais dos orixás. A realidade do país realmente invade aqeual casa burguesa quando Juarez inicia reformas no apartamento. Os pedreiros trazem as mazelas de suas vidas para o ambiente, e aquele apartamento transforma-se num caos social.

A primeira seqüência já reprenta bem as intenções do filme, a apresentação de Juarez com seu nome completo funciona com a clara demonstração que se trata de um burguês. Sob a máquina de escrever, ele e suas três visões reclamam da situação econômica da carne, do estrangeirismo, da falta de uma política que apóie a indústria brasileira. Mas é só o começo, Stênio Garcia (no papel de um dos pedreiros) sugere que ao invés de demitir um dos serventes, que seja dispensado o capataz, já que eles conhecem o serviço e não precisariam dele. Seria uma escolha justa, os mais necessitados continuariam trabalhando, mas no capitalismo essa escolha é improvável, pois sem capataz não teria contratação da obra, no Brasil quem ganha mais é sempre o intermediário.

Em dado momento, as divagações vão se repetindo, monólogos fazem idéias abstratas fluírem, e o filme ganha contornos arrastados. A panela de pressão que se tornou o apartamento funciona eficiente para a proposta de sátira. Paulo César Peréiro entra em cena nos minutos finais, numa cena tão hilariante, que não poderia deixar de ficar marcada. No papel de um executivo norte-americano, ele dá a perfeita exemplificação do que chamamos em bom português popular de “embromation”.

Redentor (2004) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O sonho da casa própria não é apenas uma lenda presente em todos os discursos de políticos a beira da eleição, as famílias brasileiras realmente deliram em se imaginar livres do aluguel, vivendo no que lhes pertence. É por essas que Célio Rocha (Pedro Cardoso) repete inúmeras vezes no filme: “Você está me expulsando de uma casa que não é sua!”. São milhões de sem-teto vivendo em condições desumanas, fora a grande parcela da classe média que se contorce para manter em dia seus deveres de inquilino.

Otávio Saboya (Miguel Fallabela) e Célio Rocha foram amigos na infância, o inescrupuloso Dr. Saboya (pai de Otávio) deu inúmeros golpes imobiliários na praça, costurou acordos milionários com governos, construiu apartamentos e não entregou aos proprietários. Entre as centenas de famílias prejudicadas estava a de Célio Rocha, o sonho do apartamento 808 no condomínio Paraíso tornou-se obsessão para seus pais e após a falência e suicídio do Dr. Saboya, e a invasão do condomínio por milhares de favelados, a situação familiar deteriora.

Oriundo do mundo dos videoclipes, a estreia na direção de Claudio Torres marca o primeiro trabalho do clã da família Torres no cinema. Surpreende a qualidade dos efeitos especiais (pouco usual no cinema nacional), são 3-4 sequencias irrepreensíveis, mas o grande feito é esse roteiro esperto, de narrativa envolvente, mesclando estilos sem perder a homogeneidade ao narrar uma fábula moderna sobre moral, vaidade, remição, justiça.

Golpes imobiliários, corrupção, falta de moradia e saneamento, Torres expõe problemas, criada um dilema moral tremendo para o jornalista carioca colocada frente a frente com a possibilidade de realizar o sonho familiar, deixando os escrúpulos do lado, mas com a presença divina direta em todo esses imbróglio.

Olga (2004) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A chegada do diretor global Jayme Monjardim nos cinema vem com grandiosidade de blockbuster hollywoodiano, daqueles exemplares gigantescos e evasivos, com apuro técnico invejável (a ponto de imitar, com locações, alguns cenários alemães e soviéticos) e os toques pesados de dramalhão da novela das oito (principalmente nas leituras das cartas e repetidas despedidas) para essa adaptação do livro de Fernando Morais.

A opção pelo melodramático tira espaço dos meandros políticos de momentos históricos como a Coluna Prestes, o Tratado de Versailles, a formação do Nazismo e todos os aspectos políticos. Ficamos com a biografia sofrida de Olga Benário (Camila Morgado, engajada), mulher focada em suas convicções e uma intensa vontade de mudar o mundo. O amor dessa alemã pelo opositor do governo de Getulio Vargas (Osmar Prado), Luis Carlos Prestes (Caco Ciocler) nasce no mundo comunista, ela acaba deportada aos campos de concentração alemães (algum interesse essa ótica feminina do trabalho escravo, castigos e câmara de gás).

É a perninha brasileira nesse gênero de filme do Nazismo, cinema tão combalido pelo excesso de histórias com teor repetido (não que não sejam grandes histórias, mas se equivalem excessivamente). Por isso, uma abordagem mais pesada no aspecto políticos brasileiro poderia sair do marasmo do tema. Ainda assim, com toda essa pompa de cinema americano, de dramalhão pesado, a figura coadjuvante de Fernanda Montenegro (mãe de Prestes) em seus momentos de luta inglória, na esperança de salvar seu filho e nora, oferecem uma cena tão linda, quando ela descobre que será avó de uma menina. Daquelas alegrias reprimidas pela tristeza, que num silêncio de poucos segundos consegue emocionar, realmente.