Posts com Tag ‘Fernanda Montenegro’

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2019 – BRA)

Melhor filme na prestigiada mostra Un Certain Regard, em Cannes, um feito e tanto para o cinema brasileiro. Agora chega aos cinemas com a possibilidade real de estar na lista final dos indicados a Filme Estrangeiro. O diretor Karim Aïnouz de volta aos holofotes, em grande estilo. Um melodrama clássico, abraçando o folhetim sem medo de ser feliz e provando que uma narrativa clássica não precisa soar envelhecida.

Da história de uma família, com duas filhas, cuja uma delas se apaixona por um homem, e é rejeitada pelo pai antiquado, nasce a narrativa paralela de duas irmãs, tão próximas e tão distantes. Numa fotografia que é um espetáculo à parte (escura e tão capaz de mostar um outro lado da cidade, distante dessa coisa solar tão presente), Karim flerta, novamente, com a boêmia carioca de Madame Satã, e principalmente com os costumes do início do século, o conservadorismo que afasta pessoas e estragava vidas.

E esses pequenos retratos da classe média brasileira à época enriquem esse amor de irmão. É tão significativa a idealização do sucesso no outro, com o fiapo de informação se cria uma narrativa do que possa ser a vida da irmã, quando a sua é de total decepção. Afinal, também há o aspecto  de ser mulher naquele momento, a sbubmissão, a obrigatoriedade de segir padrões estabelecidos. Não é um filme que encanta com cenas espetaculares, o encantamento vem do conjunto, da possibilidade de passar anos ao lado dessas duas mulheres corajosas, inquietas. Até chegar em cena Fernanda Montenegro, e ai sim arrasar com os mais sentimentais, em duas ou três cenas capazes de tocar profundamente quem se envolveu com as vidas de Eurídice e Guida.

Paulo Autran – O Senhor dos Palcos (2017) 

Recordo de ver Paulo Autran três vezes, e em todas elas reinou uma sensação de fascínio e hipnose. Duas delas foram em peças de teatro (Visitando Sr. Green e O Avarento), ambos no fim da sua carreira. A outra vez foi no cinema, sentamos na mesma fileira, no Espaço Unibanco, para ver Longe do Paraíso. Precisei de uns dez minutos para conseguir me concentrar no filme sem lembrar que ele estava ali, com olhos atentos e admirados à tela.

O documentário produzido pelo canal Curta! É um típico produto televisivo. Cheio de entrevistas e fotos da carreira do “senhor dos palcos” e alguma inserções de atores atuando textos pessoais dele. Tal qual um programa de tv que faça homenagem a um personagem. Nessa colagem, dirigida por Marco Abujamra, fica clara a importância do teatro em sua vida e a relevância de sua figura para o próprio teatro brasileiro. É bonito de ver alguém tão encantado por sua profissão.

Enfim, o filme se encaminha para o seu final, muito mais com seu conteúdo jornalístico do que como experimentação cinematográfica. Eis que surge Fernanda Montenegro em cena e lê uma carta que Paulo Autran escreveu a ela, já em seus últimos dias e o momento se torna arrebatador. Tristeza e melancolia capazes de expressar bem uma vida dedicada à profissão.

O Beijo no Asfalto (2018) 

Interessante os caminhos escolhidos pelo ator Murilo Benício em sua estreia na direção. Adaptando uma peça de Nelson Rodrigues, tudo filmado em branco e preto, como se fosse uma leitura preparatória para o  ensaios da peça. Dali surge um debate sobre os próprios temas da peça, enquanto intercala a leitura com a própria representação das cenas. Na trama, um incidente é completamente alterado pela imprensa, e a vida do afetado muda de pernas para o ar. É um filme sobre a beleza da sinceridade de um momento cuja interpretação alheia eclode para fora do controle, onde preconceito e amor se confunde com aceitação e as próprias relações veladas entre cada um dos personagens.

rioeuteamoRio, Eu Te amo / Rio, I Love You (2014 – BRA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A versão para a Cidade Maravilhosa, da série Cities of Love, é um desserviço ao Rio de Janeiro e ao cinema nacional. Nenhum dos 10 curtas consegue, nem de forma ligeira, condensar qualquer traço do charme, beleza e encanto da cidade. Se o modelo de filme-coletivo sofre pela irregularidade, dessa vez, este se torna o menor dos problemas.

Primeiro que a cidade é colocada em segundo plano. Alguns dos curtas nem conseguem se identificar com a cidade, os demais praticamente tornam os cartões-postais em clichês hediondos. As visões são as mais simplistas possíveis, os roteiros almejam o natural, quando apenas encontram uma artificialidade de finais que desejavam representar grandes sacadas. Começa com Andrucha Waddington e a história do neto que encontra sua avó (Fernanda Montenegro) vivendo como mendiga, por opção.

Paolo Sorrentino vai ao limite dos clichês com a jovem ricaça (Emily Mortimer) e seu marido idoso, doente e podre de rico, que passam férias na cidade. Fernando Meirelles e Cesar Charlone não conseguem imprimir ritmo à história do escultor (Vincent Cassel) de areia que se apaixona por uma jovem, o curta não passa de uma ideia de trama.

Constrangedora é a história dirigida por Stephan Elliot, um astro do cinema (Ryan Kwanten) decide escalar o Pão de Açúcar, do nada, com a roupa do corpo, e carrega seu guia (Marcelo Serrado) nessa aventura pelo amor inesperado. Totalmente insosso, e que nada mostra além de dois takes do mar, é o curta dirigido por John Turturro, sobre um casal (ele e Vanessa Paradis) em tom de despedida. Guillermo Arriaga retoma parte do clima de Amores Brutos, troca a briga de cães por lutas clandestinas e desce fundo no poço das propostas indecentes (que só devem existir na cabeça de cineastas mesmo).

O morro do Vidigal é tomado por vampiros na visão de Im Sang-soo, com direito a samba, garçom estiloso e prostituta mulata. Carlos Saldanha até consegue um aspecto visual interessante na apresentação do casal de bailarinos (Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer), mas o drama do casal e suas discussões durante a apresentação são de um melodrama que pouco acrescenta ao clima de amor à cidade. Wagner Moura é o instrutor de asa-delta frustrado que xinga o Cristo Redentor durante um voo, sabe-se lá as intenções de José Padilha, além de trazer seus temas críticos da cidade à tona.

Mesmo carregado de clichês, a simpatia da história criada por Nadine Labaki é a que mais se aproxima do que se esperava deste projeto. Um garoto de rua, gringos (ela e Harvey Keitel) encantados por seu jeito cativante, se passam por Jesus para realizar suas fantasias. E a cereja estragada do bolo são as transições, que ganharam vida própria, personagens próprios, e direção de Vicente Amorim. Primam pela artificialidade, e mais embaralham do que funcionam como conexão para os curtas. Além de intensificarem o padrão visual do filme que trafega entre um Globo Filmes e uma campanha publicitária de tv (aliás, marcas de patrocinadores quase se tornaram protagonistas das transições).

centraldobrasilCentral do Brasil (1998) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Lembro bem de uma das primeiras vezes em que fui à Cinemateca e fui parar numa mesa, com desconhecidos, discutindo sobre cinema. E um senhor começou a falar sobre o filme, que havia escrito um grande artigo acusando-o de deslavada propaganda em prol do governo FHC (o texto não foi publicado, por escolha do próprio autor, segundo suas palavras), que aquele conjunto habitacional do final do filme era o ápice da propaganda governista e etc. Hoje, voltando ao filme após tantos anos, considero que se fosse filmado no governo Lula, imagino que pudesse haver o mesmo tipo de observação, podem aproveitar ainda argumentos como o bolsa família.

Talvez a observação fosse correta, e eu não consiga até hoje capitar esse ar tucano que aquele socialista convicto enxergava. Sob minha ótica, o filme de Walter Salles retrata o momento do país, de maneira genuína, um momento que começou a ser desenhado pelo plano Real e que, com mutações e correções na rota, segue até hoje de forma sustentável (por mais que não haja crescimento sustentável nesse país).

O primeiro terço do filme é arrebatador, a escrevedora de cartas (Fernanda Montenegro), o desejo do garoto (Vinicius de Oliveira) de conhecer o pai, o retrato da Central do Brasil. Há tanta brasilidade ali, tanta poeira e sentido de sobrevivência que só os brasileiros conhecem. Depois começa ao road movie, propriamente dito. Surge Othon Bastos como um caminhoneiro, surgem dificuldades e percalços. Levar o menino ao pai torna-se uma aventura dramática, e Walter Salles narra toda essa estrada com trilha doce e tom de fábula nordestina, com lágrimas por cada quilômetro rodado.

Decepção, esperança, aconchego, Salles continua resumindo a pobreza do sertão nordestino, o culto à religião, tenta incorporar o máximo de elementos possíveis, e consegue de forma genuína. Tantos quilômetros distantes da Central do Brasil, e a realidade é a mesma, uma banquinha na rua escrevendo cartas para analfabetos, que em poucas palavras poderiam ser tão fundamentais a tanta gente. A saga da busca por um pai, que não deve ser nenhum exemplo de vida (e a presença de Caio Junqueira e Matheus Nachtergaele comprovam isso), ainda assim um pai, pessoa fundamental navida de qualquer um.

casadeareiaCasa de Areia (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Chamar de inóspita, uma região onde o que não é areia, é céu, surge como um eufemismo sarcástico. Olhando a todos lados, se vê apenas uma imensidão de areia. O nada que se movimenta pelo vento, sem função aparente. Foi para esse areal que Vasco levou sua família, sonhando com prosperidade. Maranhão, 1910, nos primeiros dias os homens fugiram, Vasco faleceu, e perdidas no meio daquela imensidão de areia, restaram apenas a viúva (grávida) e sua mãe. Sessenta anos de história se passam, a partir desse momento. As tentativas de deixar o lugar surgem fracassadas, como imã naquele mundarel de areia, e que atrai três mulheres contra sua própria vontade.

As duas Fernandas (mãe e filha) revezam-se entre os papéis, Torres demonstra a explosão da juventude, uma indignação repetitiva; já Montenegro assume a maturidade idosa, o aceitar o que se pode ter, e viver daquilo que é possível. As duas ótimas como sempre, mas é a mãe quem resgata os raros momentos em que o sentimento puro toma conta dos personagens, se o diretor Andrucha Waddington queria dar tons poéticos a seu filme, é com sua sogra que alcança sucesso. Só de ver Fernanda Montenegro vestida de hippie já valeria qualquer esforço.

A paisagem é vital à história, lindamente fotografada, ela remete ao marasmo, à monotonia, e é desse mesmo reflexo que padece o roteiro. Não há sentimento, falta liga entre os personagens e as emoções, está tudo muito preso, quase hibernando dentro dessas mulheres. As relações são frias, o sexo é frio, paciência para viver um dia depois do outro, esperar uma nova oportunidade de retornar a civilização, Andrucha vive com seus personagens um sonho contido.

A narrativa flui com intensidade moderada permeada pelo bege da areia, o azul do céu e o sol escaldante. As figuras masculinas têm importância selada, Massu é praticamente monossilábico, mas sabe muito bem agir quando lhe interessa. Cada um tem sua forma de demonstrar amor.

Mas, se pensarmos que o filme foge da mesmice temática do cinema nacional atual (violência e miséria), ou da predominância estética televisiva, é um alívio encontrar um trabalho desse tipo, pessoal e corajoso. O resultado dá sinais de maturidade artística do diretor, mesmo que seus problemas desviem o filme do caminho de uma “grande obra”.

PS: na sessão de cinema, no meio da platéia, chorando copiosamente, vejo a cantora Wanderléya.
TUDOBEMTudo Bem (1978) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O Brasil dentro de um apartamento. O cineasta Arnaldo Jabor apertou aqui e ali, até colocar uma série de figuras que representariam grande parte da sociedade brasileira, um micro-ecossistema social. Jabor teve a capacidade de alojar, nessas quatro paredes, essa infinidade de personagens, numa ácida crítica social. Um filme que levanta a bandeira da diferença de classes sociais e traz dentro de um lar burguês as delicadezas problemáticas do povo.

Juarez Ramos Barata (Paulo Gracindo) divide seu tempo entre escrever cartas, a um editor de jornal, criticando a situação do país, e ouvir discos com músicas indígenas e sons de pássaros da Amazônia. Por seus três alter-ego percebemos ser um sujeito nacionalista, com ares de poeta, engajado politicamente em suas idéias, e ainda assim proprietário de ideários divagantes. São seus fantasmas que o fazem refletir, relembrar momentos da juventude, trazem a tona o saudosismo que o mantém vivo. Elvira (Fernanda Montenegro), sua esposa, remoe a idéia de que seu marido anda tendo um caso, ela própria inventa os encontros e as características físicas da amante.

Os filhos são a própria classe média, José Roberto (Luiz Fernando Guimarães) é diretor de relações públicas de uma multinacional, já Vera Lúcia (Regina Casé) acaba de tornar-se noiva de um executivo dos EUA. A invasão do Brasil, nessa família, começa pelos fundos. Uma das empregadas domésticas prostitui-se, à noite, para descolar uma grana. A outra caminha para as estradas espirituais dos orixás. A realidade do país realmente invade aqeual casa burguesa quando Juarez inicia reformas no apartamento. Os pedreiros trazem as mazelas de suas vidas para o ambiente, e aquele apartamento transforma-se num caos social.

A primeira seqüência já reprenta bem as intenções do filme, a apresentação de Juarez com seu nome completo funciona com a clara demonstração que se trata de um burguês. Sob a máquina de escrever, ele e suas três visões reclamam da situação econômica da carne, do estrangeirismo, da falta de uma política que apóie a indústria brasileira. Mas é só o começo, Stênio Garcia (no papel de um dos pedreiros) sugere que ao invés de demitir um dos serventes, que seja dispensado o capataz, já que eles conhecem o serviço e não precisariam dele. Seria uma escolha justa, os mais necessitados continuariam trabalhando, mas no capitalismo essa escolha é improvável, pois sem capataz não teria contratação da obra, no Brasil quem ganha mais é sempre o intermediário.

Em dado momento, as divagações vão se repetindo, monólogos fazem idéias abstratas fluírem, e o filme ganha contornos arrastados. A panela de pressão que se tornou o apartamento funciona eficiente para a proposta de sátira. Paulo César Peréiro entra em cena nos minutos finais, numa cena tão hilariante, que não poderia deixar de ficar marcada. No papel de um executivo norte-americano, ele dá a perfeita exemplificação do que chamamos em bom português popular de “embromation”.