Posts com Tag ‘Fernanda Torres’

terra-estrangeiraTerra Estrangeira (1996) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Depois de sua estreia no cinema, com A Grande Arte, Walter Salles voltava a filmar misturando influencias de seu trabalho anterior com um flerte inicial ao road movie (a qual se tornaria especialista). Voltamos ao governo Collor, o presidente e sua ministra da economia (Zelia Cardoso de Melo) tomavam o dinheiro de toda a população, tudo em prol do bem da nação.

Sonhos castrados, economias transformadas em pó, desespero. Salles (dividindo a direção com Daniela Thomas) volta ao mundo da marginalidade, da violencia por entre esquinas. Só que dessa vez fala de toda uma população sem perspectivas. Os personagens (jovens) apelando para formas ilicitas de sobrevivência (Alexandre Borges e Fernanda Torres), ou pecando pela ingenuidade (Fernando Alves Pinto), mas de maneira geral buscando a fuga do país.

Desse retrato caótico de situação econômica o filme migra para Portugal, brasileiros e mafiosos invadindo a Europa. A distancia de casa, os desencontros amorosos, a ausência de um alicerce. Do sonho à fuga desesperada pela sobrevivência, da esperança à necessidade de não confiar em ninguém. O road movie vira uma fuga, contrabando de jóias, o desejo de conhecer a cidade de seus antepassados, tudo se mistura com aquela fotografia preto e branco, que à beira da praia mostra um barco e um casal, na cena mais bela do filme, que mesmo irregular guarda seus momentos.

casadeareiaCasa de Areia (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Chamar de inóspita, uma região onde o que não é areia, é céu, surge como um eufemismo sarcástico. Olhando a todos lados, se vê apenas uma imensidão de areia. O nada que se movimenta pelo vento, sem função aparente. Foi para esse areal que Vasco levou sua família, sonhando com prosperidade. Maranhão, 1910, nos primeiros dias os homens fugiram, Vasco faleceu, e perdidas no meio daquela imensidão de areia, restaram apenas a viúva (grávida) e sua mãe. Sessenta anos de história se passam, a partir desse momento. As tentativas de deixar o lugar surgem fracassadas, como imã naquele mundarel de areia, e que atrai três mulheres contra sua própria vontade.

As duas Fernandas (mãe e filha) revezam-se entre os papéis, Torres demonstra a explosão da juventude, uma indignação repetitiva; já Montenegro assume a maturidade idosa, o aceitar o que se pode ter, e viver daquilo que é possível. As duas ótimas como sempre, mas é a mãe quem resgata os raros momentos em que o sentimento puro toma conta dos personagens, se o diretor Andrucha Waddington queria dar tons poéticos a seu filme, é com sua sogra que alcança sucesso. Só de ver Fernanda Montenegro vestida de hippie já valeria qualquer esforço.

A paisagem é vital à história, lindamente fotografada, ela remete ao marasmo, à monotonia, e é desse mesmo reflexo que padece o roteiro. Não há sentimento, falta liga entre os personagens e as emoções, está tudo muito preso, quase hibernando dentro dessas mulheres. As relações são frias, o sexo é frio, paciência para viver um dia depois do outro, esperar uma nova oportunidade de retornar a civilização, Andrucha vive com seus personagens um sonho contido.

A narrativa flui com intensidade moderada permeada pelo bege da areia, o azul do céu e o sol escaldante. As figuras masculinas têm importância selada, Massu é praticamente monossilábico, mas sabe muito bem agir quando lhe interessa. Cada um tem sua forma de demonstrar amor.

Mas, se pensarmos que o filme foge da mesmice temática do cinema nacional atual (violência e miséria), ou da predominância estética televisiva, é um alívio encontrar um trabalho desse tipo, pessoal e corajoso. O resultado dá sinais de maturidade artística do diretor, mesmo que seus problemas desviem o filme do caminho de uma “grande obra”.

PS: na sessão de cinema, no meio da platéia, chorando copiosamente, vejo a cantora Wanderléya.

Redentor (2004) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O sonho da casa própria não é apenas uma lenda presente em todos os discursos de políticos a beira da eleição, as famílias brasileiras realmente deliram em se imaginar livres do aluguel, vivendo no que lhes pertence. É por essas que Célio Rocha (Pedro Cardoso) repete inúmeras vezes no filme: “Você está me expulsando de uma casa que não é sua!”. São milhões de sem-teto vivendo em condições desumanas, fora a grande parcela da classe média que se contorce para manter em dia seus deveres de inquilino.

Otávio Saboya (Miguel Fallabela) e Célio Rocha foram amigos na infância, o inescrupuloso Dr. Saboya (pai de Otávio) deu inúmeros golpes imobiliários na praça, costurou acordos milionários com governos, construiu apartamentos e não entregou aos proprietários. Entre as centenas de famílias prejudicadas estava a de Célio Rocha, o sonho do apartamento 808 no condomínio Paraíso tornou-se obsessão para seus pais e após a falência e suicídio do Dr. Saboya, e a invasão do condomínio por milhares de favelados, a situação familiar deteriora.

Oriundo do mundo dos videoclipes, a estreia na direção de Claudio Torres marca o primeiro trabalho do clã da família Torres no cinema. Surpreende a qualidade dos efeitos especiais (pouco usual no cinema nacional), são 3-4 sequencias irrepreensíveis, mas o grande feito é esse roteiro esperto, de narrativa envolvente, mesclando estilos sem perder a homogeneidade ao narrar uma fábula moderna sobre moral, vaidade, remição, justiça.

Golpes imobiliários, corrupção, falta de moradia e saneamento, Torres expõe problemas, criada um dilema moral tremendo para o jornalista carioca colocada frente a frente com a possibilidade de realizar o sonho familiar, deixando os escrúpulos do lado, mas com a presença divina direta em todo esses imbróglio.