Con El Viento

Con El Viento / Facing the Wind (2018 – ESP) 

A estreia na direção de Meritxell Colell é, ao mesmo tempo, minimalista e grandiosa. Um filme de silêncios, de gestos, e também da expressão de uma tempestade de sentimentos através apenas da dança. A câmera inquieta, a paisagem rural da Espanha meio árida, palco para o retorno de Mónica após vinte anos longe de sua terra natal, por conta da morte de seu pai.

As recordações, sentimentos de culpa e outras aflições pelo distanciamento alongam a estada, talvez até a mãe vender a casa. Junto com outras mulheres da familia, permite que o tempo passe, que as feridas sejam remexidas, um reencontro e um acerto de contas com sua própria consciência. Colell é muito precisa em aproveitar o ambiente, e os não atores, para oferecer atmosfera precisa, a sensação de um pessoas e um vilarejo longe dos tempos modernos, por outro lado, o aspecto geral é de um filme demasiado fluido, talvez preso demais a necessidade de expressar todos os sentimentos através da dança ou de outras expressões silenciosas e individuais.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

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Malambo, El Hombre Bueno

Malambo, El Hombre Bueno (2018 – ARG) 

Malambo é uma dança folclórica gaucha, desde o século XVII, que além de seus passos firmes e masculinos, tem a curiosa complexidade da carreira do dançarino, que em caso de ser campeão de um festival não é mais permitido competir. Anos de dedicação e quando da consagração, o dançarino deve se tornar professor de jovens ou abandonar a profissão.

O diretor Santiago Loza aborda a dança e seus costumes através de Gaspar, o jovem doce que sofre com as dores físicas (hérnia por conta da dança) e guarda um rosto preocupado, de quem não sabe o que fazer quando abandonar o malambo. A narração em off e sua forma de se relacionar com familiares demonstram ser tão amável, dedicado, e também incapaz de olhar além do presente. Exames, tratamentos, ensaios, em ritmo quase documental, uma pequena amostra dessa vida calcada num costume adaptado ao contemporâneo.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Invasion

Hojoom / Invasion (2017 – IRA) 

O iraniano Shahram Mokri já surpreendeu os festivais de cinema há alguns anos com Peixe e Gato, um thriller filmado num único plano-sequencia com serial killers atacando um acampamento de jovens. O cineasta retorna e repete a fórmula do plano-sequencia único e personagens envoltos em um crime. Só que, dessa vez, tempera com ingredientes apocalípticos, um longo eclipse do sol, uma doença desconhecida, alguém acusado de ser vampiro.

A história já começa com a policia tentando fazer a reconstituição de um crime, no ginásio onde um grupo pratica um esporte (jamais explicado), usam roupas estranhas e tatuagens. Duas pessoas do grupo foram assassinadas, o líder está desaparecido e é o suspeito. A narrativa de idas e vindas no tempo brinca com a reconstituição do crime, e a indecisão do protagonista enquanto tramas de um novo assassinato são planejadas e detalhes reveladores dos personagens são explícitos. É mais confuso e não tem bem resolvido do que o trabalho anterior, mas novamente interessante pela proposta fora dos padrões e as possibilidades com que Mokri filma esse teatro sem pausas.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Old Love

Jae-Hoe / Old Love (2017 – COR) 

É quase cruel a forma como o cineasta sul-coreano Park Ki-yong enxerga o reencontro de um amor da adolescência entre seus personagens. Quase trinta anos separados, um homem e uma mulher de meia-idade se encontram no aeroporto de Incheon, combinam de se reencontrar, recordar o passado. Como tantos filmes coreanos, alguns momentos em restaurantes, comendo e bebendo, os diálogos são esparsos, muitos daqueles silêncios que nos incomodam.

Cada um tem sua vida estabelecida, e o romance congelado por décadas não é combustível o bastante para diminuir suas crises pessoais. Através de longas cenas sem cortes, e essa quantidade ínfima de informações, o filme estabelece um romance de pessoas doloridas, solitárias, em que o sentimentalismo da paixão dá lugar ao pé no chão dos dramas de cotidiano.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

A Piscina

La Piscina (2013 – CUB) 

Um grupo de quatro adolescentes, com diferentes tipos de deficiências, frequenta as aulas de natação em pleno verão cubano. O diretor e roteirista estreante Carlos Machado Quintela insinua despreocupação com seus personagens oou possíveis histórias de cada um deles. Ali, à beira da piscina, são apenas alunos de um ex-nadador pacato, outra quase desinteressado. Do calor escaldante e das braçada na piscina surgem pequenos diálogos, um traço de amizade.

É desse pequeno fragmento que Quintela extrai seu filme, são raros os planos fora do complexo da piscina, e mais raras ainda as informações individuais deles. O filme está mesmo calcado nesse conjunto de planos (fechados nos rostos quando falam ou bem abertos e amplos quando nadam, de forma a praticamente filmar a piscina de todos os ângulos e posições possíveis). Esse conjunto meio solto, quase reflexivo, constrói, através da imagem, o poder do cinema em nos transportar para além do que se pode ver. Talvez enxergando sentimentos, talvez querendo compreendê-los, ou talvez fiquemos com a simplicidade de algumas aulas de natação. Quintela surge como um cineasta que usa a narrativa cinematográfica a seu favor, que venham seus próximos trabalhos.


Festival: Berlim 2013

Mostra: Panorama

A Second Game | Infinite Football

A Second Game (Al Doilea Joc / A Second Game, 2014 – ROM)

Infinite Football (Fotbal Infinit / Infinite Football, 2018 – ROM)

Numa carreira ainda curta, dois documentários que envolvem futebol, são um claro indicativo da relação de Corneliu Porumboiu com o esporte. Com A Second Game, seu filme menos conhecido até aqui, entendemos que a relação com o esporte vem de berço, seu pai foi árbitro e atuou na primeira divisão do campeonato romeno.

E é um pouco disso que o filme trata, a imagem exibe um jogo gravado em VHS entre os dois maiores times do país, o Steaua e o Dínamo. O gramado coberto de neve, entre os jogadores em campo o craque Hagi, maior nome do futebol romeno nas últimas décadas.  As únicas imagens que teremos são as da partida, enquanto o áudio traz  pai e filho conversando, comentam lances do jogo, recordações. Há um teor político envolvido, nos anos 80, um dos times era ligado ao ditador Nicolae Ceausescu, enquanto o adversário ligado aos militares.

Com Infinite Football, Porumboiu retorno ao futebol e às telas. O personagem central é um amigo do cineasta, Laurentiu Ginghina, que nos anos 80 se machucou praticando o esporte e não pode mais voltar a jogar. Atualmente funcionário público, Ginghina é entrevistado pelo diretor sobre as teorias que ele criou para alterar o futebol, ou até mesmo criar um novo esporte. Em meio a suas explicações e teorias, acompanhamos um pouco de sua persona, trabalhando ou assistindo um treino de futsal, enquanto Porumboiu tenta desenvolver no subconsciente um estudo sobre a liberdade, o pensamento. Novamente usando o futebol para trazer um pouco da história de seu país, outro rascunho de paralelo entre o esporte e o governo Ceausescu.


Infinite Football

Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Premiados – Festival de Berlim 2018

No ultimo sábado ocorreu a cerimônia de premiação da 68ª do Festival de Berlim. O mais político dos festivais de cinema teve como presidente do júri o cineasta alemão Tom Tykwer, e como toda premiação em que há um pequeno grupo de votantes, as escolhas do júri surpreenderam a critica mundial.

Acompanhando a cobertura dos principais órgãos de imprensa, críticos e cinéfilos, os filmes que mais se destacavam eram Season of the Devil, o novo de Lav Diaz (um musical político), dos prata da casa dois destaques: Transit, mais recente melodrama de Christian Petzold, e In the Aisles, poético e romântico dirigido por Thomas Stuber. O norueguês Erik Poppe que causou controversa em U – July 22, história daquele atirador de seu país que matou muitos inocentes, alguém se lembra? O russo Aleksey German Jr com Dovlatov era outro possível candidato, além dos que foram realmente premiados: o paraguaio Las Herederas e o romeno Touch Me Not. Porém, o mais elogiado de todos estava na seção paralela Forum, o chinês An Elephant Sitting Still, dirigido por Hu Bo.

O Brasil, que não participava na Competição Principal, sai de Berlim com alguns prêmios, demonstrando ter seu espaço na Berlinale. A Toca do cinéfilo teve acesso a diversos filmes das mostras paralelas de Berlim (Panorama, Forum, Generation), assim como outros títulos destacados de outros dois importantes festivais de 2018: Rotterdã e Sundance. Lentamente, o blog fará (algumas já foram feitas) publicações antecipando o que poderá ser descoberto do cinema ao longo de 2018. Confira! Segue a lista de premiados:O júri optou por premiar o filme dirigido por uma mulher (assim como fora feito no ano passado), demonstrando total conexão com o movimento que tem tomado Hollywood durante a temporada do Oscar. Mas, foi além, dando o segundo prêmio mais importante para outro filme dirigido por mulher. Não agradou a critica, que se não desgostou de ambos, claramente preferia outros títulos. Agora, é esperar a oportunidade de conferi-los ao longo do ano.

Urso de Ouro – Melhor Filme: Touch Me Not, de Adina Pintilie (Romênia)

Grande Prêmio do Juri: Twarz (Mug), de Malgorzata Szumowska (Polônia)

Melhor Diretor: Isle of Dogs, de Wes Anderson (Reino Unido)

Melhor Atriz: Ana Brun por Las Herederas, de Marcelo Martinessi, (Paraguai)

Melhor Ator: Anthony Bajon por La Priere (The Prayer), de Cedric Kahn (França)

Melhor Roteiro: Manuel Alcala e Alonso Ruizpalacios por Museo (Museum) (México)

Prêmio Alfred Bauer: Las Herederas, de Marcelo Martinessi, (Paraguai)

Melhor Documentário: Waldheims Walzer (The Waldheim Waltz), de Ruth Beckermann (Áustria)

Melhor Primeiro Fime: Touch Me Not, de Adina Pintilie (Romênia)

Melhor Curta-Metragem: The Men Behind the Wall, de Ines Moldavsky (Israel)

Teddy – Melhor Filme LGBT: Tinta Bruta, Marcio Reolon e Filipe Matzembacher (Brasil)

Teddy – Melhor Documentário LGBT: Bixa Travesty, Claudia Priscilla e Kiko Goifman (Brasil)