Corpo e Alma

Testrol e Lelekrol / On Body and Soul (2017 – HUN) 

A diretora húngara Ildiko Enyedi dosa toques de romantismo e frieza, com uma pitada de fantasia. Afinal, é através da possibilidade de duas pessoas, se comunicarem, em seus sonhos, que surge o relacionamento amorosos entre o diretor financeiro e a inspetora de qualidade.  Num primeiro momento, o ambiente é o de abatedouro de carne. Os movimentos mecânicos no abate, a predominância de tons fortemente claros (muito branco) em contraste com o vermelho do sangue, e a fortaleza do silencio criam essa atmosfera gelada, sem emoção, de relacionamentos sociais robotizados.

Pode se enxergar o belo nas transformações vividas pelos personagens enquanto encontram uma forma de se relacionar, porém Enyedi está apenas abusando de um tipo de cinema europeu de estranhices (como o do grego Lanthimos), ainda que tenha a clara veia romântica que tenta se sobressair por detrás de tanta estranheza sentimental. Não consegue escapar do tedioso, por mais que tente dar um pouco de calor a personagens tão monocromáticos e mecanizados.


Festival: Berlim

Mostra: Competição principal

Prêmios: Urso de Ouro – Melhor Filme

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Verão 1993

Estiu 1993 / Summer 1993 (2017 – ESP) 

Talvez seja o mais destacado filme espanhol do ano, dentro do circuito dos festivais, e por isso o escolhido para representar o país no Oscar. A estreante Carla Simón traz às telas, de maneira tão singela, a própria história da sua infância, que foi definitiva para os rumos de sua vida. Aos nove anos, após a morte dos pais por AIDS, passou a morar com os tios.

Mudar de casa, parentes que se tornam pais, uma prima que vira irmã, e a ausência dos pais biológicos. É muita mudança na cabeça de uma criança, em entrevistas a cineasta diz que não se lembra de todos os detalhes, mas que essa é realmente sua história. Quase sempre com câmera na mão, ela acompanha a menina que tenta se encaixar em sua nova realidade, e varia entre a imaturidade e momentos mais egoístas. Além do próprio caos familiar que os falecimentos causam. Simón consegue transmitir sua história através desse olhar meio desorientado de uma garota sem opção, uma Mia Hansen-Love à espanhola, com a leveza da memórias de quem buscava um novo espaço para superar o estranhamento de um novo mundo.


Festival: Berlim

Mostra: Generation

Prêmios: Melhor filme de estreia

Ana, Meu Amor

Ana, Mon Amour (2017 – ROM) 

Após ganhar o Urso de Ouro com Instinto Materno, o cineasta Calin Peter Netzer está de volta. Dessa vez com os altos e baixos de um casamento. Embaralhando a linha do tempo, o romeno tenta dar outro peso à história, boa parte narrada através de visitas a terapeutas, e pelos flashbacks reconstrói os momentos de paixão, a crise depressiva dela, até a guinada no perfil de cada um deles após o casamento.

Bonito nos momentos mais íntimos, o filme não vai muito além dessa proposta de confundir para criar algo novo. O casal de intelectuais, que se conhece na universidade, funciona melhor quando ele está sob o controle da situação, totalmente entregue a tentar reerguer sua amada dos ataques de pânico. Curioso como o amadurecimento o deixa solitário, incapaz de compreender em que ponto o bonde passou, e ele perdeu as rédeas do que controlava.


Festival: Berlim

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Contribuição Artística

Félicité

Félicité (2017 – FRA) 

O novo filme do senegalês Alain Gomis levou o prêmio do júri no último festival de Berlim. É mais um drama social africano, financiado pela francês, com o tom de critica social e fortes elementos autoriais na estética. Muitos planos fechados no rosto dos atores, principalmente Véronique Beya Mbutu, privilegiam a presença marcante de seus rostos e o clima de desesperança geral.

Estamos no Congo, ela é a cantora (as melhores cenas são dela cantando num bar, ou aquele lugar seria uma casa de show, com o público interagindo, o colorido das roupas abagado pela iluminação escura), que é surpreendida pela noticia do acidente de moto do filho. A necessidade de pagar uma cirurgia, sem que tenha os recursos. Nesse ponto lembra o filme dos Dardenne com Marion Cotillard pedindo seu emprego de volta, de casa em casa, aqui ela sai em busca de doações.

No segundo ato, com as questões médicas já resolvidsa, Gomis parte para algo mais abstrato, seja na aproximação sentimental, seja na desesperança de seus personagens. Nesse ponto, a geladeira quebrada se torna metáfora para os próprios personagens, que tentam formas de sobrevivência, e o que era cru e doloroso se torna essa quase poesia abstrata meio cansada, meio sem rumo.

O Outro Lado da Esperança

Toivon Tuolla Puolen / The Other Side of Hope (2017 – FIN) 

Dentro das obsessões estéticas e narrativas de seu cinema, o finlandês Aki Kaurismaki é mais um a trazer o tema dos refugiados sírios à Europa. Seus planos fixos, os ambientes sempre em cores frias e os diálogos que nunca saem do tom dão a tônica de seus filmes, e mesmo quando trata o melodrama do refugiado renegado pelo governo local, o cineasta faz o tema caber bem dentro de seu estilo cinematográfico. E o faz com boas doses de humanismo e otimismo (prática nem tão comum assim em seus trabalhos anteriores).

Se de um lado está o sírio clandestino em busca de abrigo, de outro o homem cansado de seu emprego e casamento que larga tudo para abrir um restaurante. O destino os confronta e o finlandês resolve ajudar ao refugiado desesperado, enquanto os toques de humor de Kaurismaki permeiam as relações sociais. É a bandeira da tolerância sendo estiada, por mais que seus roteiros sempre gostem de criar situações incomuns, discutíveis, ou até exageradas (que dentro da passividade e calma de seus personagens, talvez camufle muito desse exagero).

Não é um cinema que empolgue a muitos, principalmente pela lentidão, ou até pela clareza com que trata de seus temas. Mas, não deixa de ser uma voz importante que não abuse da miséria humana em imagens chocantes, e prefere encontrar personagens e situações que dialoguem com a reflexão de qual Europa “estamos” construindo. Um de seus melhores filmes, vencedor do prêmio de melhor direção no festival de Berlim.

Colo

Colo (2017 – POR) 

A cineasta Teresa Villaverde conjectura a crise econômica europeia sob os reflexos de uma família de classe média portuguesa, a via-crucis sem melodrama. É um filme angustiante pela naturalidade com que a situação financeira os assola lentamente, um passo a passo que os mergulha ainda mais na desestabilização emocional. O marido desempregado, a esposa quase em dupla jornada diária, e as contas não pagas só se acumulam. A filha adolescente parece indiferente, mais preocupada com seus pequenos dramas da sexualidade, da busca por liberdade, da amiga de gravidez precoce.

Longos silêncios, planos abertos (muitas vezes de outro prédio da vizinhança) que captam a desesperança ou a incomunicabilidade. O filme prefere a noite, mas também se aproveita do escuro no apartamento com a luz cortada, a alimentação racionada. Repito que a diretora evita o melodrama, ainda que reverbere com cenas fortes, de impacto duro e até comoventes. E quanto mais agravada a situação familiar, maior o descontrole emocional. O fim da estabilidade e da rotina, quebrados pela incerteza, ou pela certeza de que amanha será pior, e pior, e pior…

As Duas Irenes

As Duas Irenes (2017) 

Estreia na direção de Fabio Meira, depois de uma carreira iniciada em curtas-metragens, e com sua primeira exibição numa das mostras paralelas do Festival de Berlim. O filme é mais um capítulo que o cinema oferece sobre o coming of age, com uma pitada a mais do desabrochar da puberdade.

Uma cidadezinha no interior de Goiás, no foco central temos Irene (Priscila Bittencourt), treze anos e filha do meio. A jovem descobre que o pai (Marco Ricca) tem outra família, e outra filha, com a mesma idade e nome (Isabela Torres) que ela. Interessante essa criação do duplo na cabeça de uma adolescente, que já tem tantos tabus (corpo, sexualidade, liberdade, confronto com os pais) para enfrentar. Como lidar com o segredo, quem é essa irmã, quais as diferenças entre elas?

A ideia do roteiro não se desenvolve muito além disso, facilita mais no encontro de uma forma de convício do que estabelecer questionamentos mais complexos. Mas Fabio Meira sabe oferecer espaço a suas personagens se desenvolverem ao longo do filme, através de um voyeurismo distanciado, do uso de olhares por espelhos ou janelas, há sempre a observação e o olhar de reflexão. A amizade e cumplicidade das Irenes se torna vital a suas personalidades e funcionam para testemunharmos o coming of age. Por outro lado, há o confronto, de todos os lados (entre Irenes, com os pais), e toda a questão intrínseca pesando sob personalidades ainda frágeis, e o filme sabe resolver bem essa trama em seu final naturalmente questionador.