Transit

Transit (2018 – ALE) 

O perído histórico não está bem definido, mas fica claro que vem muito depois do que conhecemos como o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma França ainda ocupada pelos Nazistas. O novo melodrama do alemão Christian Petzold faz um paralelo entre àquela caça aos Judeus e a atual contra os imigrantes. Novamente com seu estilo sutil e delicado, onde cada plano oferece charme e requinte.

São personagens com dramas que se entrecruzam, uns que esperam alguém (a esposa, o marido) para fugirem, outros que tenta regularizar os papéis para conseguirem permissão para partir. Nesse contexto Petzold narra histórias de amor, carnais ou não, outras com interesse, mas, sobretudo histórias de amor. E sob sua narrativa peculiar e hipnotizante acompanhamos as idas e vindas de personagens, as expectativas de desventuras. Petzold trazendo questões atuais e urgentes, sem perder sua linha autoral, num dos grandes filmes do ano. Nos resta lamentar que seus filmes não tem conseguido espaço nos cinemas brasileiros.


Festival: Berlim 2018

Mostra: competição principal

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Museu

Museo / Museum (2018 – MEX) 

Inicialmente temos um filme de assalto, baseado em fatos reais. São dois jovens e amadores assaltantes planejando o roubo de várias peças do museu de Antropologia da Cidade do México. Para tanto, além de deflagar a vergonhosa (falta de) segurança do museu, o  filme se preocupa em desenvolver seus dois personagens centrais. Noite de Natal, as festas em família, os pequenos conflitos, a dependência de um pai doente, a ambição de crescer na vida, rapidamente, o confronto com os pais.

O cineasta Alonso Ruizpalacios usa todos esses elementos para representar o México da década de 80. Ele filma, tanto o assalto, como as relações familiares, com linguagem cinematográfica diferente do usual (montagem acelerada, cenas mais intimistas ou quase claustrofóbicas), como quem quer transmitir sentimentos além do que os atores possam entregar. E, a seguir ao roubo, o filme ganha outros contornos, mesmo sem sair do seu tom, e apresenta os dois ingênuos em busca de um comprador, numa espécie de road movie por esse México  decadente, enquanto a população se mobiliza por peças de museu que pouca importância davam.

Esses contrastes transformam o filme de Ruizpalacios em algo além do simples filme de assalto, há algo da identidade de um povo, além da transformação que os dois personagens passam ao longo desse processo de investigação, fuga, e tentativa de serem grandes negociadores quando não enganam ninguém.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Roteiro

Não Me Toque

Nu Ma Atinge-ma / Touch Me Not (2018 – ROM) 

Dificilmente classificável e bem polêmico o filme da diretora Adina Pintilie. Um ensaio sobre o corpo e a sexualidade fora do padrão, um docudrama sobre uma atriz madura e sua busca por formas de satisfação sexual, sem que haja contato físico, e de um grupo terapêutico com diferentes tipos de deficientes em sua relação de aceitação e descoberta do próprio corpo.

A própria diretora se coloca no filme ao aparecer debatendo enquanto grava a atriz em suas experiências. Essa mistura complicada ganha tons assépticos, brancos intermináveis e sessões de psicologia para tratar suas limitações. Não são cenas saborosas, mas que dentro de seu estilo experimental traduzem uma intimidade que vai além da relação câmera-imagem. O conjunto afasta grande parte da audiência, mas Pintilie consegue alterar o choque inicial, pela exposição de tantos corpos fora do padrão de beleza, por uma espécie de aceitação de que há diferentes maneiras de encontrar o prazer, muito além da sensualidade da grande mídia.

É um filme tão estranho quanto corajoso, provocativo ao tratar de maneira normal corpos e comportamentos à margem da sociedade. O medo de ser tocado passa por tão diferentes situações: o sarado garoto de programa, a sessão de sado-masoquismo, o strip-tease do transexual, e o estudo abre novas perguntas, novas possibilidades, e tratando a estranheza como o normal.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Competição

Prêmio: Melhor Filme

Um Elefante Sentado Quieto

Da xiang xi di er zuo / An Elephant Sitting Still (2018 – CHI) 

O pessimismo por todos os lados, a visão negativa do mundo e das relações pessoais pesa em cada cena do filme de estreia de Hu Bo. Quem já leu algo sobre o filme já sabe que o jovem cineasta se suicidou aos 29 anos, e não é de se estranhar com uma obra tão desesperançada. Olhando agora é quase um filme-testamento sobre questões tão caras e atuais, e que o cineasta expõe sua visão da sociedade. Temos as consequências de bullying na escola, a jovem menor de idade num relacionamento com um adulto, o avô cujos filhos pretendem que ele vá morar num asilo. É menos um filme sobre os atos e mais sobre as consequencias, a câmera lembra os filmes dos Dardenne, mas os planos são mais fechados, ou até mesmo inusitados. Algumas vezes o travelling parte da nuca ao rosto dos personagens.
Há ainda um quarto elemento, um irmão de um dos jovens envolvidos no bullying, que pretende vingança com seu estilo meio gangster. Enquanto isso, os outros três personagens planejam viajar juntos ao norte da China, encontrar o tal elefante do título. Não deixa de ser uma alegoria de fuga, num roteiro que fala muito sobre dilemas tão atuais, mas enxerga o mundo com essa desesperança de que ninguém está livre de seus pesadelos. De pessimismo se reflete a vida, ou se pesa demais nas tintas da construção dos personagens, e aqui Hu Bo, tão aflito com seus ensejos flerta com ambos.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Soldado

Soldado (2017 – ARG) 

A câmera observacional de Manuel Abramovich acompanha a trajetória de um jovem soldado. Do alistamento espontâneo à rotina no quartel. É outro exemplar do cinema argentino independente que coloca foco em personagens comuns, sem nada espetacular, além de suas próprias vidas e rotinas. Como se fosse um documentário, temos um personagem cuja presença da solidão e de poucas expressões emotivas tornam-se a vértice para que Abramovich exponha a radiografia de um coadjuvante que no cinema se torna um protagonista.


Festival: Berlim 2017

Mostra: Generation 14plus

A Valsa de Waldheim

Waldheims Walzer / The Waldheim Waltz (2018 – AUT) 

A diretora Ruth Beckermann traz à tona a figura de Kurt Waldheim, figura central da política austríaca no anos 80 e 90. Mais precisamente, o filme resgata o período da campanha eleitoral para presidente, ele era favorito após mais de dez anos como secretário Geral da ONU, até que foi revelado um lado dele desconhecido da população: sua participação no exército alemão na segunda Guerra Mundial na deportação de judeus e outros massacres.

Candidatura desestabilizada, o filme resgata vídeos de entrevistas em que ele tenta negar seu lado nos fatos, todas as mutações na campanha, até sua vitória na reta final. É astuto por parte de Beckermann em resgatar a história, num momento desses, onde não só na Áustria, como em outros países da União Européia, a direita conservador avança numa esperança da população de estancar a desenfreada onda de refugiados imigrantes do Oriente Médio e Ásia. Os nazistas também ganhavam nos votos, muitas vezes o passado pouco importa, ou as barbáries são até defendidas por nossas culturas tão progressistas, democráticas e humanitárias.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Drvo: A Árvore

Drvo: A Árvore / The Tree (2018 – POR) 

De uma fotografia de árvore que marca o encontro de dois rios, em Saravejo, o estreante diretor português, André Gil Mata, teve a inspiração para seu filme. A visão de um estrangeiro de um país e sua herança de guerras. Uma cidade dilacerada, um país em ruínas. Filmando bem ao estilo de Bela Tarr, o lusitano tece sua poesia em forma de imagens poderosas. Um velho, um menino, um rio, seis galões vazios e a cidade escura, ao esmo, retalhos da sobrevivência numa alusão aos resquícios da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Bósnia.

Não devemos ter mais que uma dúzia de longos planos, a arte do slow movie como forma de imersão pelo caótico do ambiente. Gil Mata filma o menor dos movimentos, a penumbra por meio de sequencias hipnotizantes de um tipo de cinema raro e difícil, mas de um virtuosismo ímpar.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama