Félicité

Félicité (2017 – FRA) 

O novo filme do senegalês Alain Gomis levou o prêmio do júri no último festival de Berlim. É mais um drama social africano, financiado pela francês, com o tom de critica social e fortes elementos autoriais na estética. Muitos planos fechados no rosto dos atores, principalmente Véronique Beya Mbutu, privilegiam a presença marcante de seus rostos e o clima de desesperança geral.

Estamos no Congo, ela é a cantora (as melhores cenas são dela cantando num bar, ou aquele lugar seria uma casa de show, com o público interagindo, o colorido das roupas abagado pela iluminação escura), que é surpreendida pela noticia do acidente de moto do filho. A necessidade de pagar uma cirurgia, sem que tenha os recursos. Nesse ponto lembra o filme dos Dardenne com Marion Cotillard pedindo seu emprego de volta, de casa em casa, aqui ela sai em busca de doações.

No segundo ato, com as questões médicas já resolvidsa, Gomis parte para algo mais abstrato, seja na aproximação sentimental, seja na desesperança de seus personagens. Nesse ponto, a geladeira quebrada se torna metáfora para os próprios personagens, que tentam formas de sobrevivência, e o que era cru e doloroso se torna essa quase poesia abstrata meio cansada, meio sem rumo.

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O Outro Lado da Esperança

Toivon Tuolla Puolen / The Other Side of Hope (2017 – FIN) 

Dentro das obsessões estéticas e narrativas de seu cinema, o finlandês Aki Kaurismaki é mais um a trazer o tema dos refugiados sírios à Europa. Seus planos fixos, os ambientes sempre em cores frias e os diálogos que nunca saem do tom dão a tônica de seus filmes, e mesmo quando trata o melodrama do refugiado renegado pelo governo local, o cineasta faz o tema caber bem dentro de seu estilo cinematográfico. E o faz com boas doses de humanismo e otimismo (prática nem tão comum assim em seus trabalhos anteriores).

Se de um lado está o sírio clandestino em busca de abrigo, de outro o homem cansado de seu emprego e casamento que larga tudo para abrir um restaurante. O destino os confronta e o finlandês resolve ajudar ao refugiado desesperado, enquanto os toques de humor de Kaurismaki permeiam as relações sociais. É a bandeira da tolerância sendo estiada, por mais que seus roteiros sempre gostem de criar situações incomuns, discutíveis, ou até exageradas (que dentro da passividade e calma de seus personagens, talvez camufle muito desse exagero).

Não é um cinema que empolgue a muitos, principalmente pela lentidão, ou até pela clareza com que trata de seus temas. Mas, não deixa de ser uma voz importante que não abuse da miséria humana em imagens chocantes, e prefere encontrar personagens e situações que dialoguem com a reflexão de qual Europa “estamos” construindo. Um de seus melhores filmes, vencedor do prêmio de melhor direção no festival de Berlim.

Colo

Colo (2017 – POR) 

A cineasta Teresa Villaverde conjectura a crise econômica europeia sob os reflexos de uma família de classe média portuguesa, a via-crucis sem melodrama. É um filme angustiante pela naturalidade com que a situação financeira os assola lentamente, um passo a passo que os mergulha ainda mais na desestabilização emocional. O marido desempregado, a esposa quase em dupla jornada diária, e as contas não pagas só se acumulam. A filha adolescente parece indiferente, mais preocupada com seus pequenos dramas da sexualidade, da busca por liberdade, da amiga de gravidez precoce.

Longos silêncios, planos abertos (muitas vezes de outro prédio da vizinhança) que captam a desesperança ou a incomunicabilidade. O filme prefere a noite, mas também se aproveita do escuro no apartamento com a luz cortada, a alimentação racionada. Repito que a diretora evita o melodrama, ainda que reverbere com cenas fortes, de impacto duro e até comoventes. E quanto mais agravada a situação familiar, maior o descontrole emocional. O fim da estabilidade e da rotina, quebrados pela incerteza, ou pela certeza de que amanha será pior, e pior, e pior…

As Duas Irenes

As Duas Irenes (2017) 

Estreia na direção de Fabio Meira, depois de uma carreira iniciada em curtas-metragens, e com sua primeira exibição numa das mostras paralelas do Festival de Berlim. O filme é mais um capítulo que o cinema oferece sobre o coming of age, com uma pitada a mais do desabrochar da puberdade.

Uma cidadezinha no interior de Goiás, no foco central temos Irene (Priscila Bittencourt), treze anos e filha do meio. A jovem descobre que o pai (Marco Ricca) tem outra família, e outra filha, com a mesma idade e nome (Isabela Torres) que ela. Interessante essa criação do duplo na cabeça de uma adolescente, que já tem tantos tabus (corpo, sexualidade, liberdade, confronto com os pais) para enfrentar. Como lidar com o segredo, quem é essa irmã, quais as diferenças entre elas?

A ideia do roteiro não se desenvolve muito além disso, facilita mais no encontro de uma forma de convício do que estabelecer questionamentos mais complexos. Mas Fabio Meira sabe oferecer espaço a suas personagens se desenvolverem ao longo do filme, através de um voyeurismo distanciado, do uso de olhares por espelhos ou janelas, há sempre a observação e o olhar de reflexão. A amizade e cumplicidade das Irenes se torna vital a suas personalidades e funcionam para testemunharmos o coming of age. Por outro lado, há o confronto, de todos os lados (entre Irenes, com os pais), e toda a questão intrínseca pesando sob personalidades ainda frágeis, e o filme sabe resolver bem essa trama em seu final naturalmente questionador.

Uma Mulher Fantástica

Una Mujer Fantastica (2017 – CHL) 

Depois do sucesso de seu filme anterior, Glória, o chileno Sebatián Lelio volta a ganhar destaque internacional com seu premio de melhor roteiro no festival de Berlim. Novamente tem uma personagem feminina como protagonista, só que dessa vez, prefere discutir outras questões que ainda parecem tabu na socidade moderna.

Marina (Daniela Veja) é uma mulher transexual namorando um homem mais velho que tem uma morte repentina. De mero aposto para a familia, Marina se vê como cerne da perseguição de todo o preconceito, amargura e desprezo que a escolha anterior do patriarca causou a sua ex-mulher e filhos. Violência, desrespeito, invasão de privacidade, o filme de Lelio oferece toda essa perspectiva evasiva (pscicológica, social ou física). O constrangimento como forma de extrapolar julgamentos. E nesse momento de dor, e de comportamentos tão caótica, Marina frágil, insegura, se vê numa sociedade incapaz de acolher e que lhe cobra uma dose de coerência social que ninguém sequer rascunha ter para com ela. É um belo filme de recolhimento sentimental, de imposição de gênero, e de sobrevivência urgente.

Como Nossos Pais

Como Nossos Pais (2017) 

Foi o grande vencedor da recente premiação do Festival de Gramado, mas teve sua estréia mesmo no Festival de Berlim. O novo drama da diretora Laís Bodanzky tem a classe média como eixo central, ou mais precisamente a figura da mulher de carne e osso. Aquela que causa identificação imediata com milhares de brasileiras que se equilibram entre a convivência em família, a guerra no mercado de trabalho e a necessidade de manter o conforto financeiro da família, além da enorme dificuldade de educar os filhos, e lidar com as crises e diferenças com o marido, cuidar da casa (não vamos nos esquecer disso) e ainda ousar ter espaço para ela mesma. Enfim, a super-heroína do dia-a-dia brasileiro.

É o personagem da vida de Maria Ribeiro, no cerne de todo esse drama, de representar a mulher da classe média brasileira, em toda a complexidade de suas fragilidades, necessidades, carências e  individualidade, mesmo que inibida pelo peso de tanta gente sob sua responsabilidade (financeira ou social). Não é fácil, e não bastasse isso tudo, o roteiro ainda prega peças nessa mulher, segredos revelados que desestabilizam ainda mais essa pessoa prestes a explodir.

E é dentro dessa claustrofobia dramática que o filme tenta reconstruir uma mulher que nem pode pensar em recomeçar. Bodanzky filma entre o íntimo e o voyeur, outro filme nacional que, nesse ano, tenta unir o popular e o autoral, com sucesso (sigo acreditando que com filmes assim que o público será levado a ver filmes brasileiros no cinema, e com o tempo partir para filmes mais “inovadores”. Ao mesmo tempo em que mantém essa narrativa de fácil dialogo, é um filme sufocante, uma personagem que não tem espaço para trégua alguma. Mesmo nos momentos em que ela parece respirar por seus próprios caminhos, ainda assim há muito peso de responsabilidades, massacrando a personagem. Pesa também momentos de diálogos artificiais, ou a referência tão clichê de Elis Regina, no momento chave da trama. Isso tudo causa irregularidade, a dificuldade em lidar com excessos, os zigue-zague entre naturalidade e artificialidade, é um filme que pede diálogos sinceros, doloridos, e essa equação é sempre difícil de se controlar perfeitamente.

Mulher do Pai

Mulher do Pai (2016) 

O que há de melhor no filme da diretora Cristiane Oliveira, que foi exibido numa das mostras paralelas do Festival de Berlim, é permitir a mudança a seus personagens. Num canto asfaltado dos grandes centros, na divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, temos a história da adolescente Malu (Maria Galant) e seu pai cego (Marat Descartes). Pelos olhos atentos e singelos da diretora, acompanhamos a mutação desses dois personagens quando a avó vem a falecer. Sem a matriarca, e epicentro da família, temos a jovem que precisa assumir afazeres da casa, enquanto vive a descoberta da sexualidade. E um homem que vê a necessidade de criar o diálogo que nunca manteve com a filha, nesse momento em que orientação e limites são assuntos complexos e passíveis de desgaste.

A sexualidade de pai e filha colocados à prova, o ciúmes pela aproximação de qualquer estranho a esse habitat, o futuro de baixas expectativas, está tudo ali naquela casa simples, naquela relação que parece ter se reconstruir, em que a guerra de egos pode tornar tudo uma panela de pressão. Em um dado momento, a filha narra uma sequencia do filme Transformers, que passava na tv, pode parecer um momento simples, mas é possível entender um pouco do aprendizado em ser pai e da filha meio adulta, meio criança.