The Waldheim Waltz

Waldheims Walzer / The Waldheim Waltz (2018 – AUT) 

A diretora Ruth Beckermann traz à tona a figura de Kurt Waldheim, figura central da política austríaca no anos 80 e 90. Mais precisamente, o filme resgata o período da campanha eleitoral para presidente, ele era favorito após mais de dez anos como secretário Geral da ONU, até que foi revelado um lado dele desconhecido da população: sua participação no exército alemão na segunda Guerra Mundial na deportação de judeus e outros massacres.

Candidatura desestabilizada, o filme resgata vídeos de entrevistas em que ele tenta negar seu lado nos fatos, todas as mutações na campanha, até sua vitória na reta final. É astuto por parte de Beckermann em resgatar a história, num momento desses, onde não só na Áustria, como em outros países da União Européia, a direita conservador avança numa esperança da população de estancar a desenfreada onda de refugiados imigrantes do Oriente Médio e Ásia. Os nazistas também ganhavam nos votos, muitas vezes o passado pouco importa, ou as barbáries são até defendidas por nossas culturas tão progressistas, democráticas e humanitárias.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

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Drvo: A Árvore

Drvo: A Árvore / The Tree (2018 – POR) 

De uma fotografia de árvore que marca o encontro de dois rios, em Saravejo, o estreante diretor português, André Gil Mata, teve a inspiração para seu filme. A visão de um estrangeiro de um país e sua herança de guerras. Uma cidade dilacerada, um país em ruínas. Filmando bem ao estilo de Bela Tarr, o lusitano tece sua poesia em forma de imagens poderosas. Um velho, um menino, um rio, seis galões vazios e a cidade escura, ao esmo, retalhos da sobrevivência numa alusão aos resquícios da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Bósnia.

Não devemos ter mais que uma dúzia de longos planos, a arte do slow movie como forma de imersão pelo caótico do ambiente. Gil Mata filma o menor dos movimentos, a penumbra por meio de sequencias hipnotizantes de um tipo de cinema raro e difícil, mas de um virtuosismo ímpar.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Con El Viento

Con El Viento / Facing the Wind (2018 – ESP) 

A estreia na direção de Meritxell Colell é, ao mesmo tempo, minimalista e grandiosa. Um filme de silêncios, de gestos, e também da expressão de uma tempestade de sentimentos através apenas da dança. A câmera inquieta, a paisagem rural da Espanha meio árida, palco para o retorno de Mónica após vinte anos longe de sua terra natal, por conta da morte de seu pai.

As recordações, sentimentos de culpa e outras aflições pelo distanciamento alongam a estada, talvez até a mãe vender a casa. Junto com outras mulheres da familia, permite que o tempo passe, que as feridas sejam remexidas, um reencontro e um acerto de contas com sua própria consciência. Colell é muito precisa em aproveitar o ambiente, e os não atores, para oferecer atmosfera precisa, a sensação de um pessoas e um vilarejo longe dos tempos modernos, por outro lado, o aspecto geral é de um filme demasiado fluido, talvez preso demais a necessidade de expressar todos os sentimentos através da dança ou de outras expressões silenciosas e individuais.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Malambo, El Hombre Bueno

Malambo, El Hombre Bueno (2018 – ARG) 

Malambo é uma dança folclórica gaucha, desde o século XVII, que além de seus passos firmes e masculinos, tem a curiosa complexidade da carreira do dançarino, que em caso de ser campeão de um festival não é mais permitido competir. Anos de dedicação e quando da consagração, o dançarino deve se tornar professor de jovens ou abandonar a profissão.

O diretor Santiago Loza aborda a dança e seus costumes através de Gaspar, o jovem doce que sofre com as dores físicas (hérnia por conta da dança) e guarda um rosto preocupado, de quem não sabe o que fazer quando abandonar o malambo. A narração em off e sua forma de se relacionar com familiares demonstram ser tão amável, dedicado, e também incapaz de olhar além do presente. Exames, tratamentos, ensaios, em ritmo quase documental, uma pequena amostra dessa vida calcada num costume adaptado ao contemporâneo.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Invasion

Hojoom / Invasion (2017 – IRA) 

O iraniano Shahram Mokri já surpreendeu os festivais de cinema há alguns anos com Peixe e Gato, um thriller filmado num único plano-sequencia com serial killers atacando um acampamento de jovens. O cineasta retorna e repete a fórmula do plano-sequencia único e personagens envoltos em um crime. Só que, dessa vez, tempera com ingredientes apocalípticos, um longo eclipse do sol, uma doença desconhecida, alguém acusado de ser vampiro.

A história já começa com a policia tentando fazer a reconstituição de um crime, no ginásio onde um grupo pratica um esporte (jamais explicado), usam roupas estranhas e tatuagens. Duas pessoas do grupo foram assassinadas, o líder está desaparecido e é o suspeito. A narrativa de idas e vindas no tempo brinca com a reconstituição do crime, e a indecisão do protagonista enquanto tramas de um novo assassinato são planejadas e detalhes reveladores dos personagens são explícitos. É mais confuso e não tem bem resolvido do que o trabalho anterior, mas novamente interessante pela proposta fora dos padrões e as possibilidades com que Mokri filma esse teatro sem pausas.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Old Love

Jae-Hoe / Old Love (2017 – COR) 

É quase cruel a forma como o cineasta sul-coreano Park Ki-yong enxerga o reencontro de um amor da adolescência entre seus personagens. Quase trinta anos separados, um homem e uma mulher de meia-idade se encontram no aeroporto de Incheon, combinam de se reencontrar, recordar o passado. Como tantos filmes coreanos, alguns momentos em restaurantes, comendo e bebendo, os diálogos são esparsos, muitos daqueles silêncios que nos incomodam.

Cada um tem sua vida estabelecida, e o romance congelado por décadas não é combustível o bastante para diminuir suas crises pessoais. Através de longas cenas sem cortes, e essa quantidade ínfima de informações, o filme estabelece um romance de pessoas doloridas, solitárias, em que o sentimentalismo da paixão dá lugar ao pé no chão dos dramas de cotidiano.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

A Piscina

La Piscina (2013 – CUB) 

Um grupo de quatro adolescentes, com diferentes tipos de deficiências, frequenta as aulas de natação em pleno verão cubano. O diretor e roteirista estreante Carlos Machado Quintela insinua despreocupação com seus personagens oou possíveis histórias de cada um deles. Ali, à beira da piscina, são apenas alunos de um ex-nadador pacato, outra quase desinteressado. Do calor escaldante e das braçada na piscina surgem pequenos diálogos, um traço de amizade.

É desse pequeno fragmento que Quintela extrai seu filme, são raros os planos fora do complexo da piscina, e mais raras ainda as informações individuais deles. O filme está mesmo calcado nesse conjunto de planos (fechados nos rostos quando falam ou bem abertos e amplos quando nadam, de forma a praticamente filmar a piscina de todos os ângulos e posições possíveis). Esse conjunto meio solto, quase reflexivo, constrói, através da imagem, o poder do cinema em nos transportar para além do que se pode ver. Talvez enxergando sentimentos, talvez querendo compreendê-los, ou talvez fiquemos com a simplicidade de algumas aulas de natação. Quintela surge como um cineasta que usa a narrativa cinematográfica a seu favor, que venham seus próximos trabalhos.


Festival: Berlim 2013

Mostra: Panorama