Joaquim

Joaquim (2017) 

Uma crônica sobre o Brasil colonial. O cineasta Marcelo Gomes retorna a figura do mártir ao cinema, de um jeito bem distante do explorado nos livros de história. A figura de Tiradentes se tornou o símbolo da Inconfidência Mineira, alguém que ousou enfrentar a coroa portuguesa e clamar por liberdade. A versão de Gomes, baseada em poucos documentos oficiais e muito uma livre inspiração da figura, é menos romântica e mais focada no sujeito comum com todas imperfeições e defeitos de um descendentes de portugueses à época.

A busca do ouro e pedras preciosas, o convívio com a escravidão, o país precário, é desse Brasil que estamos falando. O título Joaquim não é a toa, porque a trama vai até o momento em que o alferes se rebela e dá sinais da pessoa que se tornaria Tiradentes. Há aquele gosto de agora-que-a-história-ia-pegar-fogo. O filme peca em se estabelecer entre a necessidade de contexto histórico e a opção por parecer altamente artístico e limpo, enquanto passa longas cenas no meio do mato, intensificando esse Brasil de lama e miséria, tenta explicar quilombos e colocar índios e negros num mesmo patamar. Todas essas opções diluem o que há de melhor, essa visão de um país colonizado, explorado, formado por interesseiros ou escurraçados a colônia.

O Filho de Joseph

Le Fils de Joseph (2016 – FRA) 

O novo trabalho de Eugène Green, exibido na seção Forum do Festival de Berlim de 2016, mantém a tradição de seu cinema, mas num tom, levemente, mais palatável. Os diálogos seguem pausados, muito plano contra-plano, as referências literárias ou bíblica presentes (filme é dividido em 5 capítulos ligados à Bíblia). Por outro lado, é um filme mais iluminado, otimista, cheio de vida.

O tema já é caro a todos nós, filho adolescente quer conhecer o pai biológico. A trama oferece peripécias, provoca petulância de personagens clichê, mas desemboca mesmo naqueles laços pessoais que construímos ao longo da vida, com pessoas que, de alguma forma, escolhemos e nos fazem sentir bem. O final é saboroso e repleto de reviravoltas pessoais, mas não fiquem só com as “fanfarrices” de Green na reta final, o filme todo é de um encaixe perfeito com a filmografia do cineasta, entre seus absurdos e o lado afetivo mais destacado.

O Que Está Por Vir

oquestaporvirL’Avenir / Things to Come (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A cada filme a diretora Mia Hansen-Love refina ainda mais sua forma sutil e fluida que contar histórias, aliás tais histórias que parecem tão rotineiras, e pouca cinematográficas, mas que sob sua visão tornam-se atraentes e revigorantes. O amor adolescente em Adeus, Primeiro Amor, ou o drama familiar de O Pai das Minhas Filhas, são ótimos exemplos.

Hansen-Love tem, desta vez, Isabelle Huppert como a professora de Filosofia que tem o princípio de desmoronamento de sua vida numa crise familiar. A instabilidade da casa em que vivia com seu maridos e dois filhos, traz a esta professora a possibilidade de renovação, podemos até chamar de recomeço, é o “o que está por vir” do título, sem fugir dos dramas, mas sempre se entregar a eles.

Creepy

creepyCreepy (2016 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Thriller psicológico travestido de filme policial, o novo trabalho de Kiyoshi Kurosawa mostra a elegância (assim como em seu outro filme deste ano, O Segredo da Câmara Escura) que combina perfeitamente com a brutalidade de crimes e outras cenas chocantes. Um dos expoentes do J-horror (cinema de terror japonês) deste século, o cineasta nipônico parece aprimorar, a cada filme, essa proximidade com o arthouse (que já demonstra quando não está em filmes de gênero).

A história é a de um casal, ele ex-policial e agora dando aulas, atormentados pelos comportamentos estranhos (o creepy do título  do vizinho. Entre a simpatia e a tendência a serial killer, a narrativa conduz ao público a um jogo de incertezas e atmosfera sufocante enquanto um hediondo, e não explicado, crime antigo também vem à tona. É verdade que o roteiro tem seus momentos questionáveis pela metade da história, mas retoma uma força vital no terço final, capaz de condensar toda aquela atmosfera de thriller em sequencias de tirar o folego.

Tempestade de Areia

tempestadedeareiaSufat Chol / Sand Storm (2016 – ISR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Novo novelão sobre casamentos no mundo árabe e os dramas femininos. Partindo de uma pequena família, e dois fartos simultâneos (o casamento do patriarca com a segunda esposa, e o desejo da filha adolescente se casar com seu colega de escola), a diretora Elite Zexer cria uma panela de pressão familiar em erupção. Casamentos arranjados, ciumes, disputas entre esposas, revoltas e todos os tipos de dramatizações reais possíveis. O diretor carrega na mão em comparar o luxo e a pobreza entre primeira e segunda esposa, mas cria um honesto retrato de sentimentos conflitantes, desonra e sabedoria, dentro daquele ritmo narrativo novelesco que estamos tão acostumados.

Canção para um Doloroso Mistério

cancaoparaumdolorosmisterioHele As Hiwagang Hapis / A Lullaby to the Sorrowful Mystery (2016 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Prepare-se para mais uma jornada pelos olhares de Lav Diaz à história triste de seu país. Seus filmes são uma arma contra a memória curta de muitos povos, um trabalho de relembrar o passado comparando-o com as mudanças (ou não mudanças) do presente. Dentro de suas típicas obsessões: o branco e preto, os longuíssimos planos abertos com câmera fixa, o extenso desenvolvimento de seus personagens, e, claro, a longa duração de seus filmes, o que o cineasta filipino realiza é, inicialmente, outro poderoso e fundamental documento histórico. Estamos diante dos anos finais do século XIX, a guerra de parte da população contra o domínio colonial espanhol.

A maior parte das oito horas de duração acompanhamos a saga de Gregoria de Jesus (Hazel Orencio) em busca de seu marido, André de Bonifácio y Castro, quer ele esteja vivo ou morto. Logo ele, considerado o maior líder da revolução filipina à época, fundador do movimento Katipunan, teria sido capturado pelos governantes. Vagando pela floresta, o pequeno grupo sobrevive, aos trancos e barrancos, enquanto encontram pistas do paradeiro. E assim, ajudam como fio-condutor da narrativa de Diaz para fatos relevantes que constituem o período histórico em questão.

Esse núcleo é intercalado com outros encontros e diálogos importantes, cujo conjunto resulta nesse retrato da sociedade filipina, sob tão diferentes aspectos. Seja no massacre de revolucionários presos, seja pelas reuniões dos sarcásticos líderes governistas pró-Espanha, sarcásticos, seja pela presença de lideres religiosos ou, até mesmo, pelos pequenos eventos que funcionam como contos morais abordando justiça e humanidade.

É, sobretudo, uma viagem aos rincões e ao coração do povo filipino. Uma jornada de persistência, de assombro, de amor e de arrependimento. O roteiro também se aproveita para adaptar, livremente, alguns livros de José Rizal, e assim enriquecer com aspectos literários essa imersão épica, e fundamental, a um período que se mostra nem tão distante assim da realidade contemporânea.

Lav Diaz continua a afugentar grande parcela da cinefilia, é uma pena, deviam perder esse medo e mergulhar em seu cinema de personagens em movimento, de reflexões políticas, e da riqueza de detalhes que só o tempo das cenas pode oferecer. O cineasta também nunca se deixa afastar do cinema, aqui presta sua homenagem a própria arte cinematográfica na representação, imperdível, do que teria sido a primeira sessão de cinema, nas Filipinas, para burgueses tolinhos. Veja de uma vez só, veja em capítulos, mas mergulhe profundamente no notável cinema desse filipino.

Eu, Olga Hepnarová

euolgahepnarovaJá, Olva Hepnarová (TCH – 2016) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A verídica história da última mulher sentenciada à morte na Rep. Tcheca, ainda nos anos 70. Desde garota, Olga Hepnarová (Michalina Olszanska) mostrava sinais de dificuldade de inserção em sociedade. Alvo constante de bullying, se tornou uma mulher reprimida, provocadora, lésbica e solitária. Resultado foi de alguém criando um ódio mortal da vida, do mundo, que os diretores tentam reviver e resumir, num preto e branco elegante, entre os comportamentos ora explosivos e ora sedutores de Olga. Exibido na seção Panorama, em Berlim, e escolhido por seu país para a corrida do Oscar, o filme é muito bem-vindo nesse momento de posicionamento feminino forte, ainda que nunca decole em sua narrativa.