Posts com Tag ‘Festival de Berlim’

Todos os Mortos

Publicado: setembro 20, 2020 em Cinema
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Todos os Mortos (2020)

São raros os filmes que tratam do Brasil colonial, do país da escravidão, do período de monarquia ou do início da República. Nosso cinema ainda não desbravou esses períodos e o reflexo desses períodos no Brasil contemporâneo, e isso é tão curioso se pensarmos que talvez estejamos tão ideologicamente mais próximos daquela época do que nunca. É exatamente essa reflexão que nos permitem os diretores Marco Dutra e Caetano Gotardo. Sempre que podem a dupla insere metáforas que possam ser interpretadas com o hoje (isso sem falar na parte final). É sobretudo um filme sobre essa herança de preconceito racial, de superioridade racial, sobre o início mau resolvido de um republicanismo que resulta hoje em todas as estatísticas de desigualdade que conhecemos.

A família aristocrata em decadência logo após o fim da escravidão, mas que está desorteada mesmo com a morte da ex-escrava que cuidava da casa. As relações entre negros e brancas ainda tão delicadas, afinal a exploração não desaparece num passe de mágica, ou numa assinatura de um mero documento. De um lado há ainda a atmosfera fantástica, comum nos filmes de Dutra, a jovem que vê pessoas que não estão naquela casa, de outro diálogos e interpretações frias e tão pausadas, comum nos filmes de Gotardo. O resultado dessa mistura é um todo morno, principalmente em tudo que se relacionada aos dramas das três mulheres brancas da família Soares (que aliás ocupam mais tempo na tela), por outro lado o filme está sim cheio de boas ideias e intenções (a cena da mão branca na mão do garoto negro, o desconhecimento sobre povos africanos), mas que ficam melhor ajambradas nas nossas reflexões do que no próprio filme em si.

Savovi / Stitches (2019 – BOS)

Mais de 500 bebês desapareceram entre 1998-99, na Guerra de Kosovo. O diretor Miroslav Terzic resgata esse período conturbado, que ainda nem está totalmente resolvido, entre os países da região dos Balcãs, e o faz por um trauma como esses. Já se passaram dezoito anos que seu bebê ter sido declarado morto no parto, ela (Snezana Bogdanovic) tem outra filha, um emprego, sua família, mas o desespero por não superar e duvidar que seu filho não tenha sido sequestrado é latente em seu rosto. O que lhe resta é investigar, tantos anos insistindo com a polícia, com órgãos da prefeitura, com quem se possa imaginar.

São cicatrizes que se fecham, a vida dessa mulher não vai além do piloto-automático, entre o robotizado e o catatônico. Quer resposta, quer o filho, por mais que esteja anos negligenciando a tudo à sua volta. Quem descobrir o filme vai acompanhar a trama e seu desenrolar, o mais importante é como Terzic e sua atriz conduze o filme de forma sóbria, e nunca melodramática, de maneira que possa aprofundar nas cicatrizes e buscar um fio de esperança, onde quer que seja.

Sinônimos

Publicado: dezembro 16, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Synonymes / Synonyms (2019 – FRA)

Estamos muito acostumados a ver no cinema reflexões da cultura israelense, sempre em oposição ao Islamismo, à Palestina. Nadav Lapid e seu cinema questionador e inquieto parte para um estudo mais profundo do ser israelense. Altamente autobiográfico, Lapid conta de suas experiências quando tentou renegar sua cultura, seu idioma, seu povo e se mudou para a frança, com uma mão na frente e outra atrás, se afastando da família, das crenças religiosas e do exarcebado militarismo israelense

Yoav (Tom Mercier) é esse alterego, que em contraste com dois jovens burgueses franceses, e uma narrativa que quase se divide em esquetes, permite que o cineasta construa um personagem de complexidade ímpar. O desenrolar da trama do jovem que tem sua roupa roubada e quase morre de frio, ao chegar à Paris, é de uma explosão de sensações. Afinal, é tão latente esse desejo de aversão à sua nacionalidade e um desejo de assumir uma nova identidade, mas o choque com a realidade dessa nova sociedade causa ainda mais turbulência nessa mente inquieta. Seria a decepção por encontrar enraizado os mesmos comportamentos, mesmo numa cultura aparentemente tão diferente ou é só diferente pelo ar pedante e a falsa sensação de evoluição cultural?

Lapid filma com a urgência que o discurso de Yoav pede, como na incrível cena inicial em que ele corre por uma Paris vazia, e a imagem granulada focaliza suas pernas aceleradas. E o filme todo tem essa urgência de criticar o Estado de Israel, assim como ao França, ninguém está livre desse olhar destemido de Lapid.

The Green Fog (2017 – EUA) 

Guy Maddin já conseguiu ser bem mais criativo do que aqui, onde ele tenta trabalhar só com colagens de outros filmes clássicos para criar uma homenagem a Um Corpo que Cai e à cidade de São Francisco. Codirigido pelos irmãos Evan e Galen Johnson, demora um pouco até sacar que a montagem tenta recriar o clássico de Hitchcock, e logo a seguir a proposta cansa, até porque as conexões não são tão perfeitas assim. O resultado final é um remendo curioso, e um jogo de tentar adivinhar os filmes que estão sendo utilizados na montagem enquanto surge a estranha névoa verde.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

The Silence of Others (2018 – ESP) 

O horror em forma de documentário das memórias de parentes que perderam seus familiares durante o regime da ditadura militar de Franco na Espanha. O diretores Almudena Carracedo e Robert Bahar resgatam imagens de arquivo e entrevistas, que auxiliam a recordar a Lei da Anistia e outros tantos absurdos. A denuncia que esses momentos históricos não são bem detalhados nas escolas, o homem que vive perto do seu torturador, as histórias são as mesmas que os regimes latinos também passaram, demonstrando que na Europa a falta de democracia e liberdades também fez suas vitimas e deixou sequelas.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama Doc

Transit (2018 – ALE) 

O perído histórico não está bem definido, mas fica claro que vem muito depois do que conhecemos como o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma França ainda ocupada pelos Nazistas. O novo melodrama do alemão Christian Petzold faz um paralelo entre àquela caça aos Judeus e a atual contra os imigrantes. Novamente com seu estilo sutil e delicado, onde cada plano oferece charme e requinte.

São personagens com dramas que se entrecruzam, uns que esperam alguém (a esposa, o marido) para fugirem, outros que tenta regularizar os papéis para conseguirem permissão para partir. Nesse contexto Petzold narra histórias de amor, carnais ou não, outras com interesse, mas, sobretudo histórias de amor. E sob sua narrativa peculiar e hipnotizante acompanhamos as idas e vindas de personagens, as expectativas de desventuras. Petzold trazendo questões atuais e urgentes, sem perder sua linha autoral, num dos grandes filmes do ano. Nos resta lamentar que seus filmes não tem conseguido espaço nos cinemas brasileiros.


Festival: Berlim 2018

Mostra: competição principal

Museo / Museum (2018 – MEX) 

Inicialmente temos um filme de assalto, baseado em fatos reais. São dois jovens e amadores assaltantes planejando o roubo de várias peças do museu de Antropologia da Cidade do México. Para tanto, além de deflagar a vergonhosa (falta de) segurança do museu, o  filme se preocupa em desenvolver seus dois personagens centrais. Noite de Natal, as festas em família, os pequenos conflitos, a dependência de um pai doente, a ambição de crescer na vida, rapidamente, o confronto com os pais.

O cineasta Alonso Ruizpalacios usa todos esses elementos para representar o México da década de 80. Ele filma, tanto o assalto, como as relações familiares, com linguagem cinematográfica diferente do usual (montagem acelerada, cenas mais intimistas ou quase claustrofóbicas), como quem quer transmitir sentimentos além do que os atores possam entregar. E, a seguir ao roubo, o filme ganha outros contornos, mesmo sem sair do seu tom, e apresenta os dois ingênuos em busca de um comprador, numa espécie de road movie por esse México  decadente, enquanto a população se mobiliza por peças de museu que pouca importância davam.

Esses contrastes transformam o filme de Ruizpalacios em algo além do simples filme de assalto, há algo da identidade de um povo, além da transformação que os dois personagens passam ao longo desse processo de investigação, fuga, e tentativa de serem grandes negociadores quando não enganam ninguém.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Roteiro

Nu Ma Atinge-ma / Touch Me Not (2018 – ROM) 

Dificilmente classificável e bem polêmico o filme da diretora Adina Pintilie. Um ensaio sobre o corpo e a sexualidade fora do padrão, um docudrama sobre uma atriz madura e sua busca por formas de satisfação sexual, sem que haja contato físico, e de um grupo terapêutico com diferentes tipos de deficientes em sua relação de aceitação e descoberta do próprio corpo.

A própria diretora se coloca no filme ao aparecer debatendo enquanto grava a atriz em suas experiências. Essa mistura complicada ganha tons assépticos, brancos intermináveis e sessões de psicologia para tratar suas limitações. Não são cenas saborosas, mas que dentro de seu estilo experimental traduzem uma intimidade que vai além da relação câmera-imagem. O conjunto afasta grande parte da audiência, mas Pintilie consegue alterar o choque inicial, pela exposição de tantos corpos fora do padrão de beleza, por uma espécie de aceitação de que há diferentes maneiras de encontrar o prazer, muito além da sensualidade da grande mídia.

É um filme tão estranho quanto corajoso, provocativo ao tratar de maneira normal corpos e comportamentos à margem da sociedade. O medo de ser tocado passa por tão diferentes situações: o sarado garoto de programa, a sessão de sado-masoquismo, o strip-tease do transexual, e o estudo abre novas perguntas, novas possibilidades, e tratando a estranheza como o normal.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Competição

Prêmio: Melhor Filme

Da xiang xi di er zuo / An Elephant Sitting Still (2018 – CHI) 

O pessimismo por todos os lados, a visão negativa do mundo e das relações pessoais pesa em cada cena do filme de estreia de Hu Bo. Quem já leu algo sobre o filme já sabe que o jovem cineasta se suicidou aos 29 anos, e não é de se estranhar com uma obra tão desesperançada. Olhando agora é quase um filme-testamento sobre questões tão caras e atuais, e que o cineasta expõe sua visão da sociedade. Temos as consequências de bullying na escola, a jovem menor de idade num relacionamento com um adulto, o avô cujos filhos pretendem que ele vá morar num asilo. É menos um filme sobre os atos e mais sobre as consequencias, a câmera lembra os filmes dos Dardenne, mas os planos são mais fechados, ou até mesmo inusitados. Algumas vezes o travelling parte da nuca ao rosto dos personagens.
Há ainda um quarto elemento, um irmão de um dos jovens envolvidos no bullying, que pretende vingança com seu estilo meio gangster. Enquanto isso, os outros três personagens planejam viajar juntos ao norte da China, encontrar o tal elefante do título. Não deixa de ser uma alegoria de fuga, num roteiro que fala muito sobre dilemas tão atuais, mas enxerga o mundo com essa desesperança de que ninguém está livre de seus pesadelos. De pessimismo se reflete a vida, ou se pesa demais nas tintas da construção dos personagens, e aqui Hu Bo, tão aflito com seus ensejos flerta com ambos.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Soldado

Publicado: julho 3, 2018 em Cinema
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Soldado (2017 – ARG) 

A câmera observacional de Manuel Abramovich acompanha a trajetória de um jovem soldado. Do alistamento espontâneo à rotina no quartel. É outro exemplar do cinema argentino independente que coloca foco em personagens comuns, sem nada espetacular, além de suas próprias vidas e rotinas. Como se fosse um documentário, temos um personagem cuja presença da solidão e de poucas expressões emotivas tornam-se a vértice para que Abramovich exponha a radiografia de um coadjuvante que no cinema se torna um protagonista.


Festival: Berlim 2017

Mostra: Generation 14plus