Mulher do Pai

Mulher do Pai (2016) 

O que há de melhor no filme da diretora Cristiane Oliveira, que foi exibido numa das mostras paralelas do Festival de Berlim, é permitir a mudança a seus personagens. Num canto asfaltado dos grandes centros, na divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, temos a história da adolescente Malu (Maria Galant) e seu pai cego (Marat Descartes). Pelos olhos atentos e singelos da diretora, acompanhamos a mutação desses dois personagens quando a avó vem a falecer. Sem a matriarca, e epicentro da família, temos a jovem que precisa assumir afazeres da casa, enquanto vive a descoberta da sexualidade. E um homem que vê a necessidade de criar o diálogo que nunca manteve com a filha, nesse momento em que orientação e limites são assuntos complexos e passíveis de desgaste.

A sexualidade de pai e filha colocados à prova, o ciúmes pela aproximação de qualquer estranho a esse habitat, o futuro de baixas expectativas, está tudo ali naquela casa simples, naquela relação que parece ter se reconstruir, em que a guerra de egos pode tornar tudo uma panela de pressão. Em um dado momento, a filha narra uma sequencia do filme Transformers, que passava na tv, pode parecer um momento simples, mas é possível entender um pouco do aprendizado em ser pai e da filha meio adulta, meio criança.

Joaquim

Joaquim (2017) 

Uma crônica sobre o Brasil colonial. O cineasta Marcelo Gomes retorna a figura do mártir ao cinema, de um jeito bem distante do explorado nos livros de história. A figura de Tiradentes se tornou o símbolo da Inconfidência Mineira, alguém que ousou enfrentar a coroa portuguesa e clamar por liberdade. A versão de Gomes, baseada em poucos documentos oficiais e muito uma livre inspiração da figura, é menos romântica e mais focada no sujeito comum com todas imperfeições e defeitos de um descendentes de portugueses à época.

A busca do ouro e pedras preciosas, o convívio com a escravidão, o país precário, é desse Brasil que estamos falando. O título Joaquim não é a toa, porque a trama vai até o momento em que o alferes se rebela e dá sinais da pessoa que se tornaria Tiradentes. Há aquele gosto de agora-que-a-história-ia-pegar-fogo. O filme peca em se estabelecer entre a necessidade de contexto histórico e a opção por parecer altamente artístico e limpo, enquanto passa longas cenas no meio do mato, intensificando esse Brasil de lama e miséria, tenta explicar quilombos e colocar índios e negros num mesmo patamar. Todas essas opções diluem o que há de melhor, essa visão de um país colonizado, explorado, formado por interesseiros ou escurraçados a colônia.

O Filho de Joseph

Le Fils de Joseph (2016 – FRA) 

O novo trabalho de Eugène Green, exibido na seção Forum do Festival de Berlim de 2016, mantém a tradição de seu cinema, mas num tom, levemente, mais palatável. Os diálogos seguem pausados, muito plano contra-plano, as referências literárias ou bíblica presentes (filme é dividido em 5 capítulos ligados à Bíblia). Por outro lado, é um filme mais iluminado, otimista, cheio de vida.

O tema já é caro a todos nós, filho adolescente quer conhecer o pai biológico. A trama oferece peripécias, provoca petulância de personagens clichê, mas desemboca mesmo naqueles laços pessoais que construímos ao longo da vida, com pessoas que, de alguma forma, escolhemos e nos fazem sentir bem. O final é saboroso e repleto de reviravoltas pessoais, mas não fiquem só com as “fanfarrices” de Green na reta final, o filme todo é de um encaixe perfeito com a filmografia do cineasta, entre seus absurdos e o lado afetivo mais destacado.

O Que Está Por Vir

oquestaporvirL’Avenir / Things to Come (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A cada filme a diretora Mia Hansen-Love refina ainda mais sua forma sutil e fluida que contar histórias, aliás tais histórias que parecem tão rotineiras, e pouca cinematográficas, mas que sob sua visão tornam-se atraentes e revigorantes. O amor adolescente em Adeus, Primeiro Amor, ou o drama familiar de O Pai das Minhas Filhas, são ótimos exemplos.

Hansen-Love tem, desta vez, Isabelle Huppert como a professora de Filosofia que tem o princípio de desmoronamento de sua vida numa crise familiar. A instabilidade da casa em que vivia com seu maridos e dois filhos, traz a esta professora a possibilidade de renovação, podemos até chamar de recomeço, é o “o que está por vir” do título, sem fugir dos dramas, mas sempre se entregar a eles.

Creepy

creepyCreepy (2016 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Thriller psicológico travestido de filme policial, o novo trabalho de Kiyoshi Kurosawa mostra a elegância (assim como em seu outro filme deste ano, O Segredo da Câmara Escura) que combina perfeitamente com a brutalidade de crimes e outras cenas chocantes. Um dos expoentes do J-horror (cinema de terror japonês) deste século, o cineasta nipônico parece aprimorar, a cada filme, essa proximidade com o arthouse (que já demonstra quando não está em filmes de gênero).

A história é a de um casal, ele ex-policial e agora dando aulas, atormentados pelos comportamentos estranhos (o creepy do título  do vizinho. Entre a simpatia e a tendência a serial killer, a narrativa conduz ao público a um jogo de incertezas e atmosfera sufocante enquanto um hediondo, e não explicado, crime antigo também vem à tona. É verdade que o roteiro tem seus momentos questionáveis pela metade da história, mas retoma uma força vital no terço final, capaz de condensar toda aquela atmosfera de thriller em sequencias de tirar o folego.

Tempestade de Areia

tempestadedeareiaSufat Chol / Sand Storm (2016 – ISR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Novo novelão sobre casamentos no mundo árabe e os dramas femininos. Partindo de uma pequena família, e dois fartos simultâneos (o casamento do patriarca com a segunda esposa, e o desejo da filha adolescente se casar com seu colega de escola), a diretora Elite Zexer cria uma panela de pressão familiar em erupção. Casamentos arranjados, ciumes, disputas entre esposas, revoltas e todos os tipos de dramatizações reais possíveis. O diretor carrega na mão em comparar o luxo e a pobreza entre primeira e segunda esposa, mas cria um honesto retrato de sentimentos conflitantes, desonra e sabedoria, dentro daquele ritmo narrativo novelesco que estamos tão acostumados.

Canção para um Doloroso Mistério

cancaoparaumdolorosmisterioHele As Hiwagang Hapis / A Lullaby to the Sorrowful Mystery (2016 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Prepare-se para mais uma jornada pelos olhares de Lav Diaz à história triste de seu país. Seus filmes são uma arma contra a memória curta de muitos povos, um trabalho de relembrar o passado comparando-o com as mudanças (ou não mudanças) do presente. Dentro de suas típicas obsessões: o branco e preto, os longuíssimos planos abertos com câmera fixa, o extenso desenvolvimento de seus personagens, e, claro, a longa duração de seus filmes, o que o cineasta filipino realiza é, inicialmente, outro poderoso e fundamental documento histórico. Estamos diante dos anos finais do século XIX, a guerra de parte da população contra o domínio colonial espanhol.

A maior parte das oito horas de duração acompanhamos a saga de Gregoria de Jesus (Hazel Orencio) em busca de seu marido, André de Bonifácio y Castro, quer ele esteja vivo ou morto. Logo ele, considerado o maior líder da revolução filipina à época, fundador do movimento Katipunan, teria sido capturado pelos governantes. Vagando pela floresta, o pequeno grupo sobrevive, aos trancos e barrancos, enquanto encontram pistas do paradeiro. E assim, ajudam como fio-condutor da narrativa de Diaz para fatos relevantes que constituem o período histórico em questão.

Esse núcleo é intercalado com outros encontros e diálogos importantes, cujo conjunto resulta nesse retrato da sociedade filipina, sob tão diferentes aspectos. Seja no massacre de revolucionários presos, seja pelas reuniões dos sarcásticos líderes governistas pró-Espanha, sarcásticos, seja pela presença de lideres religiosos ou, até mesmo, pelos pequenos eventos que funcionam como contos morais abordando justiça e humanidade.

É, sobretudo, uma viagem aos rincões e ao coração do povo filipino. Uma jornada de persistência, de assombro, de amor e de arrependimento. O roteiro também se aproveita para adaptar, livremente, alguns livros de José Rizal, e assim enriquecer com aspectos literários essa imersão épica, e fundamental, a um período que se mostra nem tão distante assim da realidade contemporânea.

Lav Diaz continua a afugentar grande parcela da cinefilia, é uma pena, deviam perder esse medo e mergulhar em seu cinema de personagens em movimento, de reflexões políticas, e da riqueza de detalhes que só o tempo das cenas pode oferecer. O cineasta também nunca se deixa afastar do cinema, aqui presta sua homenagem a própria arte cinematográfica na representação, imperdível, do que teria sido a primeira sessão de cinema, nas Filipinas, para burgueses tolinhos. Veja de uma vez só, veja em capítulos, mas mergulhe profundamente no notável cinema desse filipino.