Posts com Tag ‘Festival de Brasília’

bigjatoBig Jato (2015) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O quarto filme de Cláudio Assis foi o grande vencedor do último Festival de Brasília. Ainda mais polêmico fora das câmeras, do que seus filmes (que são bem polêmicos também), o cineasta pernambucano vagueia sempre pela estética suja, pelo discurso crítico e provocador, pelo uso constante de palavras que causam reação na público (merda, sexo, e etc). Seus filmes fedem, e esse cheio vem imerso em discurso poético e contestador. É bem verdade que após sua bela estreia em Amarelo Manga, seu estilo autoral foi confirmado em seus demais trabalhos (Baixio das Bestas e Febre do Rato), ainda que não com a mesma contundência da estreia.

Aqui ele trabalha adaptando a biografia de Xico Sá, a fase adolescente do escritor entre sua sensibilidade pouco condizente com a aspereza do interior nordestino, e a o choque de ideias e atitudes das duas fortes figuras masculinas de sua vida (o pai e o tio, ambos interpretados por Matheus Nachtergaele). O pai prega o trabalho, o tio radialista provoca o emprego de carteira assinada, vive da liberdade e de suas historias com a indústria musical.

Big Jato é o nome da empresa de limpa-fossas da família, o pai carrega os filhos maiores para ajudarem, e entre o tempo trabalhando com o pai, e as visitas ao tio, o jovem Francisco vislumbra seu mundo, seus anseios. É o mais palatável filme de Assis, ainda que o cineasta se esforce com planos-conceituais, busque o diferente dentro da linguagem cinematográfica, a narrativa beira e um tradicionalismo que náo havia antes. Mas, a narrativa nem tem problemas, e sim sua filosofia e sensibilidade que apenas repetem outras tantas histórias de jovens borbulhando por dentro, buscando seu rumo na vida, nem que seja com a quebra de paradigmas familiares.

brancosaipretoficaBranco Sai, Preto Fica (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O explosivo novo filme de Adirley Queirós foi o grande vencedor do último Festival de Brasília. O diretor retoma sua crítica social ao expor a vida na cidade satélite de Brasília. O contexto vem da distância financeira dos pobres de Ceilandia do Plano Piloto, mas também dessa onda de violência e terrorismo mundial. O protagonista quer explodir uma bomba em Brasília, elabora cuidadosamente os ingredientes explosivos (música da periferia, por exemplo).

É um filme delírio, como também um honesto panfleto dessa cultura urbana. Futurista, uma ficção científica do hip hop. A vingança do deficiente físico atingido por um tiro, num baile funk, encabeça toda a cultura que Brasília mantém afastada, por mais enraizada que esteja em seu entorno. O filme de Queirós é divertido, e espalhafatoso, carregado do linguajar das ruas, e insandecido pela ideia da explosão pela cultura reprimida.

cabracegaCabra-Cega (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Muito mais que um filme de efeito, Cabra-Cega é um filme de espírito. O espírito revolucionário, as animosidades obsessivo-ideológicas que um isolamento resulta em um idealista. Os anos de chumbo, após confronto com a polícia, Tiago (Leonardo Medeiros) é baleado, e ainda assim consegue ser resgatado por seus companheiros do aparelho. Ferido, fica escondido na casa de um arquiteto simpatizante do movimento.

Rosa (Débora Duboc) faz a ponte com a organização, além de lhe trazer informações é uma espécie de enfermeira. São semanas de enclausuramento, dias fustigantes para alguém ávido em dar sua vida pela causa. É o corpo que não cura, já sua vontade de voltar às ruas não cessa. Sua foto espalhada em cartazes pela cidade, e ele ávido em retornar à luta armada. A mente efervescente se torna sufocante, o consciente de Tiago pira, quase sai órbita. Paranóia, desconfiança, falta de equilíbrio, sua percepção é de que todos o observam, qualquer um pode delatá-lo.

A brisa oferece sensação de liberdade, em momentos como esses, uma pequena abertura na janela, e o toque do vento, no rosto, trazem o revigoramento de libertação, um momento de paz. A subida ao terraço é ainda mais poética, as mãos flutuam pelo ar, o corpo desfruta de cada instante de liberdade. Em momentos de enclausuramento é que se reconhece a importância de poder usufruir dela.

Cabra-Cega não se prende a movimentos políticos, ou discussões filosóficas, nem mesmo a denuncismo. Não que fuja desses temas, mas o filme de Toni Venturi discute o ser humano de maneira mais ampla, o espírito recluso e as explosões que dessa reclusão eclodem. Leonardo Medeiros é de uma lisura extravagante, seu revolucionário tem todas as características básicas, e ao mesmo tempo, em momento algum parece caricato. É como se sintetizasse a figura ideal do oposicionista armado contra a ditadura.

Fernanda Porto é um capítulo à parte, toda a trilha musical é empregada com precisão cirúrgica, e o desfecho apocalíptico, ao som da irresistível versão de Roda Viva da cantora, é tão importante quanto a seqüência quase literal onde Construção é executada. Sim, as músicas de Chico Buarque são personagem importante da trama. Aliás, Construção é uma música altamente cinematográfica, visual que se encaixa perfeitamente ao clima de urgência da ultra-esquerda à época. Um filme de espírito, um filme de explosões, ideológicas, sentimentais, ocasionais.

bichodesetecabecasBicho de 7 Cabeças (2000) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Dois pontos não podem fugir de qualquer discussão, ou reflexão, por serem as reais proposições levantadas pelo filme: a desinformação que gera situações irremediáveis e a lastimável situação de funcionamento dos manicômios públicos. A primeira é a espinha dorsal da história, e dela chegamos à denúncia da conjuntura dos institutos públicos de saúde.

A história, inspirada no autobiográfico livro Contos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, tem como protagonista Neto (Rodrigo Santoro), um jovem típico, gosta de curtir com os amigos, descobrir as coisas da vida, viver aventuras. Um pré-delinqüente que picha muros e fuma maconha, eventualmente. A rebeldia atrapalha o diálogo em casa, principalmente com o conservador e intransigente pai (Othon Bastos). A situação chega ao insustentável quando o pai encontra nas coisas de Neto um cigarrinho de maconha, despreparado para lidar com a situação, e mal assessorado, o pai trata o garoto como um viciado, interna-o prontamente em um manicômio para desintoxicação.

A diretora Laís Bodanzky foca sua câmera na deplorável figura dos internos do lugar, as paredes mal cuidadas, os uniformes sem cor, a gente sem esperança deixando no rosto as marcas do sofrimento, o cinza carregado (intensificado pela fotografia capitaneada por Hugo Kovensky). Tratados como presidiários, num sistema tão falido quanto, é impossível crer que dali alguém possa recuperar-se são. Um ambiente contaminado pela desesperança.

Como os loucos do lugar, Neto é tratado a base de calmantes e outras drogas, a revolta gerada pela situação é propulsora de violência e combatida com sessões de choques elétricos. Nessa fase que a figura de Rodrigo Santoro ganha ares de grande ator, até então seu personagem não passava de um jovem rebelde. O andar mole, o jeito de olhar, meio sem rumo, o desespero oriundo da dor, Santoro encarna as agruras de Neto.  A quebra de confiança na relação pai-filho é a chave para dissolução da história, nessa ruptura os personagens aprendem a amadurecer (pelo menos deveriam).