Happy End

Happy End (2017 – AUS) 

O novo retrato de Michael Haneke da sociedade europeia, através de uma família disfuncional burguesa, não apresenta nenhum avanço em sua filmografia. O título (um sacarmo sintomático para quem conhece sua obra) carrega a ironia básica que sempre ousou pela ousadia com que provoca o estômago do público. Dessa vez, cai no cansaço de uma fórmula de personagens problemáticos e provocações mordazes.

No centro uma garota que precisa passar um tempo com o pai, encontra uma famila que só permanece pelas aparenças. Haneke tenta se adaptar às novas tecnologias, há presença forte das redes sociais, tela na vertical para imitar um celular, e outras artimanhas. Mas, o problema do filme está mesmo nessas relações ácidas e no sabor, pretensamente amargo, com que Haneke tenta enxergar toda a sociedade europeia capitalista. Beirando quase a ingenuidade, Haneke está anos luz além de toda sua filmografia.


Festival: Cannes

Mostra: Competição Principal

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À Sombra de Duas Mulheres

L’Ombre des Femmes / In the Shadow of Women (2015 – FRA) 

Dentro da elegância do seu cinema pós Nouvelle Vague, o cineasta Philippe Garrel promove um interessante estudo da alma masculina, ou melhor da alma masculina ferida. No centro da trama temos o documentarista Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau), esposa e companheira profissional. Juntos mal conseguem pagar o aluguel. Garrel parte para o desenvolvimento dos personagens, naquela fotografia branco e preto, e aquele charme narrativo que seu cinema nos convém.

A trama realmente se instala quando Pierre se apaixona por Elisabeth (Lena Paugam), e descobre que Manon também vive um caso. O orgulho ferido se torna um tormento para Pierre, consumido pela insegurança, apresenta suas fragilidades, perde o autocontrole. A partir dai, Garrel filme a descontrução de um homem, à sombra delas (como diz o título em português), num saboroso estudo do masculino fragilizado. Garrel é cinema para se acompanhar sempre.


Festival: Cannes 2015

Mostra: Quinzena dos Realizadores

Ciganos de Ciambra

A Ciambra (2017 – ITA) 

Foi o indicado da Itália ao Oscar de Filme Estrangeiro. O diretor Jonas Carpignano faz mais um retrato da marginalidade dos imigrantes na Itália. Com câmera na mão e foco total num garoto inquieto que comete crimes pela sobrevivência, o filme dá voz a povos africanos e ciganos numa Itália tomada pela criminalidade e incapaz de lidar com seus problemas, que dirá com os dos outros que chegam aos montes. Como cinema é outro retrato que pede urgência, que tem seu apelo autoral, mas além da duração mais esticada do que deveria, não vai além do que temos visto recentemente ao beber da herança dos Dardenne.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Quinzena dos Realizadores

Wendy e Lucy

Wendy & Lucy (2008 – EUA) 

Tão bonito quando o cinema faz do pouco, muito. É o caso do filme que solidificou a carreira de Kelly Reichardt como um expoente do cinema indie americano, mas com assinatura própria, distante da pobreza pasteurizada da maioria dos filhos de Sundance. Do pouco, muito, porque a história é tão simples, quanto real e dolorida. Wendy (Michelle Williams) conseguiu um emprego no Alasca, e tenta viajar até lá, mas o dinheiro está curto e as dificuldades só crescem.

Reichardt filma a alma dessa jovem em dificuldade. Faminta, desesperada, sem poder contar com ninguém. Não espere um melodrama, sua câmera é crua, dolorosa, e variando entre plano fechados ou bem distantes, formando assim um ritmo narrativo que permite ao público respirar, e colocar sua protagonista ora como mais uma no mundo, ora como a que passa as mazelas da humanidade e parece não ter saída. Afinal, estamos na crise que assolava os EUA economicamente, e sua situação representa a de tantos outros jovens, sem esperança, fruto de um sistema em colapso. Seu drama abre espaço para outros dramas dos personagens que ela encontra pelo caminho, enquanto tenta reencontrar sua fiel companheira, a cadela Lucy.


Festival: Cannes 2008

Mostra: Un Certain Regard

A Cordilheira

La Cordillera / The Summit (2017 – ARG) 

A todo custo Santiago Mitre tenta dar peso a seu novo filme. Começa escalando Ricardo Darín como um presidente da Argentina, passa pela trilha sonora, excessivamente presente, que busca o tom de Thriller, os dramas familiares do chefe de Estado que se sobrepõe a vital cúpula de países Sul-americanos que ocorre num hotel nas Cordilheiras Chilenas. Intrigas politicas ocorrendo, dentro e fora de seu país.

A cada nova carga dramática, a cada novo movimento no tabuleiro de xadrez, o filme só aparenta ainda mais equivocado. Culpa do peso de cada cena, do ar complacente do personagem, do uso das tramas políticas apenas como preenchimento dos hiatos das questões particulares. A Cordilheira não convence com nem pelos problemas pessoais, e muito menos pelas artimanhas políticas e Mitre cria um abismo onde seu filme só tende a mergulhar, cada vez mais.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Un Certain Regard

Em Pedaços

Aus Dem Nichts / In the Fade (2017 – ALE) 

Imigração, intolerância, o assunto do momento na Europa, talvez do mundo. Países fechando fronteiras, voltando décadas no convívio globalizado, e permitindo que extremistas voltem a ter espaço. Fica difícil não revelar a tragédia que é o divisor de águas na vida da protagonista, mas podemos afirmar que se trata de um filme de tribunal. O julgamento corrosivo para essa alemã casada com um imigrante não dá espaço para sua reconstrução, a tragédia revivida enquanto se busca justiça.

Diane Kruger volta a ter destaque internacional com sua prestigiosa premiação como melhor atriz em Cannes, e realmente o filme não se distancia dela nem por um segundo, muito menos da trégua. O controverso diretor Fatih Akin, muito cotado como forte candidato ao Oscar de Filme Estrangeiro, mas ficou fora da lista final, volta aos temas sérios, abusando da dor e do desespero de seus personagens, flertando sempre com o questionamento da justiça e das questões da intolerância racial. Pode-se discutir o desfecho, afinal, Akin prefere finais fechados e dolorosos, dentro de uma narrativa até que tradicional. É o cinema que reflete para o público e já entrega a resposta, por mais que, nesse caso, com todo o perfil da personagem, não soe nada absurdo.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Atriz

O Amante para um Dia

L’amant d’un Jour / Lover for a Day (2017 – FRA) 

É novamente Philippe Garrel se enveredando por personagens que amam, sofrem e choram, captados pela beleza de preto e branco que só o cineasta francês sabe utilizar atualmente. A filha sofre com o fim de seu relacionamento, volta a morar com o pai, onde encontra uma nova namorada, que tem a mesma idade que ela. Garrel brinca com a amizade entre elas, enquanto demonstra as inúmeras diferenças comportamentais entre elas, além das questões existenciais do próprio pai, se relacionando com uma mulher tão mais jovem.

O apetite sexual, a amizade entre elas e a disputa pela atenção do único homem da casa, é tudo retratado pela maneira deliciosamente charmosa com que Garrel enquadra ambientes e personagens, seja numa mesa de café da manha na cozinha, seja saindo do metro ou andando pela rua. De seus filmes mais recentes, sem perder a sofisticação, é o mais preocupado com as emoções, sem tentar explorar um clima que possa soar pedante.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Quinzena dos Realizadores