O Fantasma da Sicília

Sicilian Ghost Story (2017 – ITA) 

Uma pena que o filme esteja passando tão despercebido, em meio a agitação dos festivais de cinema no Brasil, e acabe com um espaço ainda menor do que já teria. A dupla de diretores Fabio Grassadonia e Antonio Piazza já se destacara com Salvo – Uma História Sobre Amor e Máfia, e dessa vez, realiza um outro consistente trabalho.

Partem da verídica história de um sequestro (entre tantos nos sombrios anos noventa italianos) de um jovem, que durou mais de dois anos. Ao invés de mostrar sofrimento da familia e do sequestrado, prefere ter como protagonista a garota apaixonada por ele. Dessa forma o filme pode fantasiar, brincar com sonhos e com o onírico e criar um efeito abstrato, enquanto entrega lentamente detalhes do caso. Não deixa de ser uma bela história de amor, aquele amor platônico juvenil, e também uma maneira de refletir e aliviar anos tão duros da força do crime organizado na Itália.

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A Vilã

Ak-Nyeo / The Villainess (2017 – COR) 

Foi exibido fora de competição na última edição de Cannes. A abertura se dá com um plano-sequencia alucinante, a câmera se colocando como os olhos de um personagem desconhecido que entra por corredores entre golpes e tiros, destruindo uma quadrilha até finalizar a ação numa escola de artes marciais. Quase no final dessa grande sequencia descobre-se que trata-se de uma mulher e a câmera se separa quando sua cabeça bate num espelho.

Haverá outras grandes cenas de ação, o diretor Jung Byung-Gil dá um folego novo entre seus travellings e cortes bruscos. Só que entre elas, o roteiro peca pelo excesso de explicações dos dramas pessoais da assassina profissional Sook-Hee (Kim Ok-Vin), sua infância, o relacionamento com o “vizinho” e o antigo amante que volta a tona. The Villainess fica bom quando a porrada corre solto, mas é uma tradição do cinema coreano de dramatizar seu cinema de ação, dialogando assim com outros públicos que possam enxergar pontos de interesse onde só haveria sangue e artes marciais.

Western

Western (2017 – ALE) 

Um grupo de operários alemães trabalhando num pequeno vilarejo da Bulgária. Destaque na mostra Un Certain Regard, o filme dirigido por Valeska Grisebach é um curioso retrato da masculinidade em sua disputa por espaço no grupo. Em tempos de questões femininas em voga, a cineasta alemã compõe esse vigoroso estudo comportamental na questão dos relacionamentos sociais em grupos predominante masculinos.

Longe de seu habitat natural (casas e famílias), o convívio e as diferenças se sobrepõe às convenções sociais, a questão da liderança, os comportamentos infantis para agradar o restante do grupo, a virilidade, tornam-se questões centrais. Utilizando apenas não-atores, Grisebach lida com a aspereza (paisagem, corpos, rostos e feições), e encontra no confronto entre o ex-legendário Meinhard (Meinhard Neumann), que se aproxima muito da comunidade búlgara, e seu chefe, o alicerce para desenvolver seu traço autoral (que esteticamente lembra o cinema de Alain Giraudie), e também espelhar a rivalidade na própria estranheza com que locais e estrangeiros convivem. Dessa forma, Grisebach repete no macro e no micro relacionamento, as mesmas questões conturbadas, as mesmas dificuldades de relacionamento, os mesmos anseios por liderança, poder, e sexo.

Jovem Mulher

Jeune Femme (2017 – FRA) 

É preciso sobreviver a primeira cena em que a protagonista, Paula (Laetitia Dosch) faz um depoimento à câmera, histericamente. É bem verdade que essa cena, com plano fechado em seu rosto e sem cortes, diz muito sobre a jovem mulher que o filme, vencedor do Camera D’or, em Cannes, irá acompanhar. O trunfo da diretora Léonor Serraille é justamente dar cabo de toda essa irresponsabilidade e fragilidade da impulsiva que acaba de ser “expulsa” do apartamento do namorado.

A mãe que a renega, não lhe resta outra opção a não ser arrumar um emprego. Num primeiro momento pode parecer que a trama cairá para uma espécie de superação, mas não é o caso. É sim um estudo do amadurecimento, de uma personagem que tenta representar toda uma geração que cobra o imediatismo, a facilidade, ancorados pelo conforto dos pais de classe média. Redenção ou sofrimento, fazem parte do jogo, assim como lidar com novas alianças ou a quebra da confiança. Entre vitórias e derrotas, o importante é o saldo no final do dia, em alguns Paula vence, em outros não, mas segue evoluindo como uma jovem mulher que se insere na sociedade.

Rodin

Rodin (2017 – FRA) 

Ainda querendo entender porque o filme tem sido tão criticado, desde sua exibicação na competição em Cannes. Talvez eu tenha uma relação com Rodin diferenciada, por ter lido sua biografia (Eu Vim Nu) quando ainda era adolescente, mas não consigo mesmo encontrar tantos problemas assim no filme de Jacques Doillon.

É uma cinebiografia dentro do ateliê, são poucas as vezes em que a câmera sai desse ambiente, sua vida transpassa por entre suas obras. Por meio de elipses, o filme conta as obsessões do artista, seus amores e extravagâncias sexuais, o estilo obsessivo de seu trabalho, as decepções do reconhecimento. Doillon é cuidadoso em tentar clocar Rodin na tela, e não endeusar ou poetizar demais suas esculturas.

É fato que o ritmo acadêmico, e que os enquadramentos distanciados, pouco oferecem de inovador, ainda mais quando pensamos que é o retrato de alguém que tanto inovou em sua arte. A interpretação de Vincent Lindon e a fotografia cuidadosa, com pouquíssima luz, não atenderem as expectativas dos que esperavam um retrato mais visceral e profundo do artista.

Okja

Okja (2017 – COR/EUA) 

O cinema de Bong Joon-Ho se mistura entre muito humor, doses de critica social, proximidade com a fantasia e uma narrativa que adora o frenético. A arte de contar histórias é um dos pontos fortes do cineasta coreano, ainda que seus filmes guardem a mania de tornar personagens infantiloides ao extremo. Dentro dessas características, seu novo filme, que já chega com toda a polêmica entre Cannes x Netflix, é um exemplar perfeito de sua filmografia.

Inicialmente Okja flerta com o lúdico, os super-porco como xodó de uma garotinha, até que os vilões da indústria de alimentos querem tirar o porco da garota, sempre visando lucros. Sim, a maneira como Bong trata sua critica social (justa) é didática, explicita, e ate ingênua. Acertar o tom do filme seria o crucial, e Bong não o faz. Okja é  histérico e caricato, e guarda esse prazer pelo caótico, entre tanto ativismo e proteção animal, capitalismo sustentável, e a fofura do amor de uma criança que pode mover montanhas. Bem mais interessante como proposta, do que o resultado caricato que o filme entrega.

Um Instante de Amor

Mal de Pierres (2016 – FRA) 

O novo drama de Nicole Garcia é uma bem cuidada produção de época, que jamais decola como filme de autor. Adaptação de um livro de Milena Agus, tem em seu cerne o drama da mulher (Marion Cotilard) que almejava casar e viver por amor, mas teve uma vida regrada pela família e convenções sociais, até descobrir a paixão por um soldado (Louis Garrel) à beira da morte.

A opção é sempre por um espírito poético, pela ternura sentimental em cada plano, sem que tais sentimentos eclodam, necessariamente, ao público. Entre a paixão e a loucura, o filme mistura essa sensações em sua própria narrativa, enquanto Cotilard sofre, enlonquece, e jamais amadurece com o passar do tempo. Facilmente compreensível ter sido tão esnobado na competição principal de Cannes, ainda que tenha sido muito lembrado nas indicações ao César.