Posts com Tag ‘Festival de Cannes’

Papicha

Publicado: outubro 18, 2019 em Cinema
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Papicha (2019 – Argélia)

Destaque na Um Certain Regard de Cannes, e estreia na direção de Mounia Meddour, o filme resgata uma história verídica e assim faz um retrato incisivo de um país que ainda sofre as mazelas de uma Guerra Civil que não foi completamente finalizada.

Apesar de muito quadradinho, narrativamente, em diversos momentos, o coming-of-age, pouco-a-pouco dá espaço a claustrofobia e decepção de notar uma Argélia que ainda vive sobre risco de atentados realizados por extremistas religiosos que querem impor suas crenças e costumes.

Centrado numa estudante, apaixonada em design de moda, feministas e idealista de sua independência, sofrendo por não aceitar as proibições impostas por radicais conservadores. O filme funciona muito bem quando explora essa sensação de claustrofobia feminina, de pressão social, seja na cena do ônibus, ou no garoto que flerta a seguindo pela rua, ou na relação com o porteiro do colégio. Além, é claro, do final trágico e perturbador. É de nos dar uma desesperança do mundo, da humanidade, uma desesperança que nem chegar a caber dentro da gente. O completo desrepeito ao que for diferente do que você prega, elevado às piores consequências.

Dolor y Gloria (2019 – ESP)

O tempo vai passando, as pessoas comentando com você, e mesmo depois de alguns meses, fica essa vontade de revistar, mesmo que não seja revendo, nem que seja recordar. E esse recente trabalho de Pedro Almodóvar é um desses casos. O que fica na memória depois de algum tempo?

O mais forte é essa sensação de proximidade, uma intimidade que o cineasta nos convida a visitar, a sua própria intimidade. Antonio Banderas é seu alter-ego, seu apartamento, seu armário, algumas pequenas cápsulas da própria vida de Almodovar, que ele se aproveita para desenvolver a história de um personagem em angustia, mas também dor (inclusive física), e da força interior de se reconectar com pontos e pessoas da sua vida.

Da solidão ao redescobrimento, o passado e presente ajudam a construir esse alter-ego que, realmente, não é o próprio cineasta, mas está embriagado dele mesmo. Dessa forma, ele volta a nos emocionar, logo ele que já fez isso tantas vezes, e vinha ensaiando a acertar em cheio novamente, aqui conseguiu porque é difícil não se envolver com a cólera, o corpo entorpecido, as memórias que criam novas histórias, e como uma fênix, o renascimento para um novo personagem, uma nova pessoa, que é uma variação amadurecida daquele que conhecemos no início, e mesmo assim não deixa de ser o mesmo, inclusive ele, Almodovar.

Bacurau (2019 – BRA)

É catarse, é resistência, é o grito dos esquecidos. O trabalho da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles está sacudindo o Brasil. E se vivemos num país tão polarizado, pode ser que o filme nem esteja dialogando com um lado dessa disputa, mas tem sim sacudido parte da turma que se sente exprimida pelos dois lados que dominam nossa política recente. Claro que é um filme político, extremamente político, quem acompanha a dupla sabe de suas posições. Mas ao fugir do panfletário e universalizar questões, os diretores conseguem ir além do pregar para torcida única.

Western futurista, praticamente uma nova vertente do cinema de gênero, o filme vai causando frisson e chegando a mais e mais cidades porque ele tem seus momentos apoteóticos mesmo, sem deixar de lado as homenagens a cineastas importantes na cinefilia dos criadores (John Carpenter principalmente). Afinal, em meio ao suspense e à violência, o que temos é a luta pela sobrevivência, do povo oprimido versus a força do opressor (que pode ser o rico Sudeste x pobre Nordeste, países ricos x terceiro mundo), através de uma metáfora sangrenta, que deve sim desagradar parte do público, mas uma alegoria tão justificável.

E Kleber e Juliano filmam tudo sem perder o genuíno daquela gente, criando mistérios ou personagens que ficarão, eternamente, no imaginário. Bacurau é um desses filmes-fenômeno que dá esperança aos que andam desanimado, e que provoca alguns que nem percebiam pontos óbvios que o dia-a-dia nos cega.

Once Upon a Time in… Hollywood (2019 – EUA)

O título já sugere o conto de fadas, mas um conto de fadas tarantinesco, com tudo que o liquidificador do cineasta consegue bater até produzir outro filme delicioso. Delírios de cinéfilos à parte, com ênfase nas referências que Tarantino tanta gosta de usar, o que temos é uma homenagem à Hollywood dos anos 70. E uma homenagem que se concentra num ator em decadência e em seu dublê, e a partir dele transitar por um grupo de personagens reais que vão desde a família Manson, até Roman Polanski e Sharon Tate, até desembocar no trágico momento em que esses dois grupos se encontraram na história.

Em tom de comédia dramática, Tarantino nos guia pelos bastidores da indústria do cinema: casting, series genéricas, jantares de emprego, famosos arrogantes,  mansões e suas festas, mas também pelo prazer da estrela em ascensão. Enfim, um apanhado de comportamentos e personagens que revelam um belo raio-x da época.

Personagens carismáticos, grandes sequencias em que Tarantino destila todo seu estilo, até um final apoteótico e sanguinário que leva muitos ao delírio. O diretor novamente entrega muito do que se esperava. Ainda me permito questionar se suas escolhas não possam soar ofensivas, quando sabemos como a história real transcorreu, e a violência debochada pode parecer agressiva, mas que condiz totalmente com seu cinema, isso não se pode negar, por isso que é um questionamento, e não uma afirmação. O filme de Tarantino está ai, para ser admirado, questionado, porque indiferentes eles nunca serão.

Alice et Le Maire / Alice and the Mayor (2019 – FRA)

Diretamente da Quinzena dos Realizadores, de Cannes 2019, o filme dirigido por Nicolas Pariser é uma comédia dramática política de uma jovem (Anaïs Demoustier) recém-formada em Filosofia que entra para a equipe do prefeito de Lyon, porque ele está sofrendo um bloqueio criativo de ideias.

Entre apresentar um pouco do caos da administração da prefeitura, jogo de egos, mudanças de direção, o filme ainda tenta se estabelecer na vida da própria jovem: vida amorosa, capacidade de sintetizar ideias, ou rapidamente criar uma relação de admiração e ascenção politica sob o prefeito. Tirando o plano-sequencia com sua chegada à prefeitura, o restante varia entre um cinema pouco criativo e uma personagem que agrada sem parecer se encaixar no grupo de personagens que orbitam à sua volta.

Girl

Publicado: março 25, 2019 em Cinema
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Girl (2018 – BEL)

Sensação do Festival de Cannes, onde venceu (entre outros prêmio) o Camera D’or, o estreante belga Lukas Dhont traz a história de uma adolescente transgênero que tenta ser bailarina. Parte da recepção calorosa deve vir da necessidade de boa parte do público encontrar uma história sim, sem exageros, com seus dramas, mase sem nada espalhafatoso. Todos os pontos são tratados de maneira sensível, começando pela utilização dos espelhos, diversas cenas de observação e esse confronto da imagem vista x vontade de mudança do corpo.

O filme já começa nos 15 anos da garota, que se coloca numa posição de total definição de sua sexualidade, de quem ela se sente exatamente, por mais que haja sofrimento (físico, afinal a preparação para uma cirurgia causa transformações no corpo), social (como ser abraçada normalmente pela sociedade) e pessoal (a relação com o pai, além dos já corriqueiros traumas da adolescência).

O filme de Dhont sempre prefere a delicadeza, até nos momentos mais extremos, ainda que seja um filme ligado ao aspecto observacional, ao processo físico pela qual passa a adolescente. Há polêmicas imagens de nudez, do esforço fisico antagônico aos preparativos médicos, mas fica a sensação de um filme que foge do confronto do tema, por ser tão benevolente no trato social com essa personagem, afinal, sabemos que raros espectros da sociedade lidariam de forma nada cruel com personagens nessa condição de buscar o seu eu.

Todos Lo Saben (2018 – ESP)

Do glamour em ser o filme de abertura do Festival de Cannes ao esquecimento, inclusive no próprio festival, afinal, o iraniano Asghar Farhadi tão premiado e passou 2018 com seu filme nada lembrado. Agora que começou a ser lançado em alguns países, e é fácil notar esse ostracismo.

O estilo de diálogos e dramas familiares de Farhadi está lá,como sempre, mas falta sangue latino para esse enredo, e principalmente aos personagens. Na trama, um casamento marcando reencontros, uma tragédia “exasperante”, segredos do passado, e plot twists, que ajudariam a envolver o publico. Sem doses de melodrama, mas com personagens e diálogos apáticos, o filme trafega por surpresas telegrafadas e só se equilibra mesmo pelo dilema moral do personagem de Javier Bardem. O resto é tudo no piloto-automático, muito aquém da vividez que Farhadi já mostrou quando tratava de questões bem mais próximas a culturas que ele conhece bem.