Dogman

Dogman (2017 – ITA) 

Por mais que se trate de uma história verídica, de um crime, que chocou a sociedade italiana, convém saber o mínimo possível antes de ver o novo filme do cineasta Matteo Garrone. Ele que já filmou a máfia em Gomorra, e criticou a exposição exagerada em Reality (só para ficar em alguns exemplos), vem com a história do pacato funcionário (Marcello Fonte) de um petshop, no subúrbio de Roma. Que joga futebol e tenta sobreviver de vida simples entre as mazelas da vizinhança.

Um ex-boxeador, viciado em drogas, perturba o bairro com sua agressividade e necessidade por alimentar seu vício. É Garrone, novamente, explorando a violência, só que, dessa vez, ela vem de onde menos se espera. Pode-se até compreender os caminhos que levaram ao crime, ainda assim é a forma como Garrone explora os tipos de violência que forma em seu cinema uma particularidade autoral.

Como cinema, a fotografia suja e a interpretação (premiada em Cannes) de Marcello Fonte fazem o contraponto mais positivo, quando o roteiro prefere demorar até o momento fatídico, buscando elementos no cotiadiano e nos relacionamentos da vizinhança para intensificar e justificar atos e personagens. Garrone ainda parece um cineasta com muito apetite, mas que ainda não acertou seu estilo, vide o fracasso de seu último trabalho (O Conto dos Contos), mas que prova ainda ser privilegiado nos festivais como um dos principais nomes do cinema italiano da atualidade.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Competição

Prêmio: Melhor ator

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Cachorros

Los Perros (2017 – CHL) 

Não  vá ver o filme chileno com aquela impressão de outro-filme-sulamericano-sobre-ditadura-militar. A questão está ali, lantente, mas é muito mais sobre a posição da mulher (tanto em sua força, como em sua própria fragilidade, na sociedade). Mariana (Antonia Zegers) é essa mulher irregular e fascinante. Claramente de uma burguesia de mimos que sempre a afastaram da realidade de seu país. Vive cercada de seu amor por cães, e cavalos, e a boa vida que o marido proporciona.

Faz aulas de equitação, mas seu professor (Alfredo Castro) passa a ser investigado por ter participado de tortura contra militantes de esquerda no governo Pinochet. E Mariana, destemida, atrevida, age instintivamente. Curiosa por informações, ela seduz, se desinteressa, acha desimportente, quase um ultraje afastá-la de tão distino cavalheiro. Entre envolvimentos causais com homens, Mariana vive a verdade a seu modo, enquanto enfrenta a opressão dos mais machistas. Roteiro e direção de Marcela Said de um filme cuja personagem é tão rica e curiosa, dentro de suas inconsistências e irregularidades, das preocupações de um mundo que deveria girar ao seu redor.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Semana da Crítica

Tesnota

Tesnota / Closeness (2017 – RUS) 

Ao norte do Cáucaso, quase divisa com a Geórgia, se situa a cidade de Nalchik na República de Kabardia-Balkaria. Que assim como as famosas Chechenia e Osétia do Norte, ou até mesmo a já independente Ucrânia, segue travando conflitos violentos com a toda poderosa Rússia. É dai a inspiração do estreante Kantemir Balagov.

A filha ajuda o pai na oficina mecânica, à noite o jantar comemorativo para celebrar o noivado do filho. O primeiro tema são as relações familiares, Balagov discute a independência da mulher, através das cobranças e imposições familiares: emprego masculino, casamento, seguir as convenções sociais. De outro lado, um sequestro expõe o seio familiar ao desespero de perder tudo que tem em prol da liberdade do filho. E como a sociedade reage a uma crise como essa. Por fim, a questão militar, os rebeldes da região ocultos no dia-a-dia, tesnota significa proximidade, e coloca tudo tão de seus personagens, enquanto a câmera busca inspiração nos Dardenne, em planos-fechados, e uma vivacidade de quem inspira cinema como parece ser o início de Balagov. Interessante, por mais que seja difícil manter o ritmo narrativo o filme todo.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Un Certain Regard

Prêmio: Fipresci

Chris the Swiss | Fuga

Chris the Swiss (Chris the Swiss, 2018 – SUI) 

Fuga (Fuga “Fugue”, 2018 – POL) 

Destacando dois filmes da mais recente safra da Semana da Crítica do recém-encerrado Festival de Cannes. Porém, além de participarem da mesma mostra paralela, e serem dirigidos por mulheres, pouco há de semelhança entre ambos o filme, talvez possamos destacar o desaparecimento como mote nos dois trabalhos, mas cujos diretores seguem caminhos totalmente opostos.

Da Suiça, Anja Kofmel realiza uma espécie de docudrama com toques de animação, sobre o desaparecimento do primo jornalista na Guerra dos Balcãs. Tentando entender, ou reinterpretar, o filme parte nesse misto de memórias, reconstituições de versos dos fatos e depoimentos dos que conheceram esse correspondente de guerra que resolveu abrir mão de seu trabalho e entrar na guerra.

A polonesa Agnieska Smoczynska ficou conhecida no Brasil por A Atração, uma espécie de comédia de terror e fantasia, com sereias-vampiras. Dessa vez, seu filme é menos fantasioso, ainda que tenha algo de inexplicável. Uma mulher desaparece após um acidente de carro e volta após dois anos com amnésia (se lembra de tudo, menos das pessoas). Retorna uma mulher diferente, que conflita com marido e filho pequeno, tem atitudes que não se enquadram nas convenções sociais e fragilidades e fortalezas que se colocam como difícil aceitação. O tema central parece ser resgate dos sentimentos e da representatividade de pessoas que eram vitais em sua vida, e agora você sequer lembra quem são.

Você Nunca Esteve Realmente Aqui

You Were Never Really Here (2017 – RU) 

É a história de um homem solitário e reservado, que vive para cuidar, carinhosamente, de sua mãe bem idosa. E também a história desse mesmo homem, um seria killer (Joaquin Phoenix) contratado para resgatar a filha de 12-13 anos, de um senador, que foi sequestrada e obrigada a se prostituir.

A trama leva para caminhos de conspiração, cenas fortes de violência (predileção pelo uso de martelo), ainda que lentas, mas há outros aspectos no filme de Lynne Ramsay. Entre eles, a curiosa relação entre a garota e o contratado para lhe salvar, algo que lembra a relação entre Foster e DeNiro em Taxi-Driver, nada a ver com questões sexuais. Outra característica é como Ramsay realiza esse anti-filme de ação, por mais que a trama tenha todos os ingredientes do gênero. São personagens que carregam muita dor e solidão sob os ombros, e do caos se aproximam.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor direção e ator

Happy End

Happy End (2017 – AUS) 

O novo retrato de Michael Haneke da sociedade europeia, através de uma família disfuncional burguesa, não apresenta nenhum avanço em sua filmografia. O título (um sacarmo sintomático para quem conhece sua obra) carrega a ironia básica que sempre ousou pela ousadia com que provoca o estômago do público. Dessa vez, cai no cansaço de uma fórmula de personagens problemáticos e provocações mordazes.

No centro uma garota que precisa passar um tempo com o pai, encontra uma famila que só permanece pelas aparenças. Haneke tenta se adaptar às novas tecnologias, há presença forte das redes sociais, tela na vertical para imitar um celular, e outras artimanhas. Mas, o problema do filme está mesmo nessas relações ácidas e no sabor, pretensamente amargo, com que Haneke tenta enxergar toda a sociedade europeia capitalista. Beirando quase a ingenuidade, Haneke está anos luz além de toda sua filmografia.


Festival: Cannes

Mostra: Competição Principal

À Sombra de Duas Mulheres

L’Ombre des Femmes / In the Shadow of Women (2015 – FRA) 

Dentro da elegância do seu cinema pós Nouvelle Vague, o cineasta Philippe Garrel promove um interessante estudo da alma masculina, ou melhor da alma masculina ferida. No centro da trama temos o documentarista Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau), esposa e companheira profissional. Juntos mal conseguem pagar o aluguel. Garrel parte para o desenvolvimento dos personagens, naquela fotografia branco e preto, e aquele charme narrativo que seu cinema nos convém.

A trama realmente se instala quando Pierre se apaixona por Elisabeth (Lena Paugam), e descobre que Manon também vive um caso. O orgulho ferido se torna um tormento para Pierre, consumido pela insegurança, apresenta suas fragilidades, perde o autocontrole. A partir dai, Garrel filme a descontrução de um homem, à sombra delas (como diz o título em português), num saboroso estudo do masculino fragilizado. Garrel é cinema para se acompanhar sempre.


Festival: Cannes 2015

Mostra: Quinzena dos Realizadores