Posts com Tag ‘Festival de Cannes’

Direções

Publicado: janeiro 12, 2019 em Cinema
Tags:,

Posoki / Directions (2017 – BUL) 

A sociedade búlgara resumida através dos dramas de motoristas de táxi. Numa narrativa quase documental, o filme de Stephan Komandarev pega emprestado as corridas dos taxistas para esse raio-x de um país que ainda sofre das mazelas do regime socialista totalitário de outrora. Os pequenos dramas vão desde cunho financeiro e social, até aos costumes e aspectos morais búlgaros.

Do suicida da ponte, passando pela jovem prostituta ou o torturador do antigo regime que acabou com os sonhos de alguém que despontava na carreira, um conjunto de tragédias individuais onde Komandarev resume uma Nação em frangalhos, estacionada em suas limitações.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Un Certain Regard

Anúncios

Plaire Aimer et Courir Vite / Sorry Angel (2018 – FRA) 

Christophe Honoré, normalmente, se sai melhor quando trata do amor do que em outros temas. Seu grande filme continua sendo Canções de Amor, e a magia de ser pop e plural, de tratar esse amor de quem gosta de pessoas, e não de gêneros. Seu novo filme se equilibra em certa irregularidade, em conjunto de situações que criam cenas e diálogos que representam melhor o que o cineasta almeja sensibilizar, do que o simples acompanhar uma história.

Há algo de lúdico no maduro autor de teatro, sofrendo com a AIDS, e que encontra um jovem cheio de vitalidade em descobrir a vida, em viver um romance. Talvez o lúdico esteja na mistura de refinamento social,  e sua forma de empregar seu lado culto como um conquistador. Dessa forma honesta e aproveitadora que ele estabelece amizade com o vizinho, que mantém seus relacionamentos profissionais, que cuida do filho, e que causa atração do jovem interiorano apto a se abrir ao mundo.

Por isso tudo que o título original condiz muito com o protagonista, através de encontros ou telefonemas, conquistar, amar e viver intensamente parece um mantra, mas funciona melhor para resumir esse protagonista que parece inquebrável para alguns, mas tão frágil em outros momentos. Afinal, somos assim, mostrando fortalezas e fragilidades, vivendo nessa busca incessante pelo prazer, pela felicidade, ou por viver aquele momento como se fosse o último.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Asako I & II

Publicado: dezembro 20, 2018 em Cinema
Tags:,

Netemo Sametemo / Asako I & II (2018 – JAP)  

Vem surgindo o nome de Ryusuke Hamaguchi, com destaque, no cenário internacional de cinema. Seu novo filme é uma fábula romântica que trata do amor à primeira vista, do idealização do outro, e das fragilidades invisíveis de um relacionamento. A grande preocupação do cineasta japonês com pequenos detalhes cotidianos e a narrativa doce ajudam a situar bem personagens e envolver o público com eles.

Asako é a nossa tímida heroína romântica, que se apaixona por um jovem, um desses espíritos-livres, que apenas cruzou seu caminho pelas ruas. O filme percorre anos da vida de Asako, quanto mais o tempo passa, e mais mergulhamos em sua alma frágil e altamente sonhadora, mais nos sentimos próximos e compreendemos seus sentimentos, por mais que ela pouco se expresse diretamente.

O espírito livre desaparece, anos depois ela conhece outro jovem, muito parecido com o primeiro e por ai a história segue. Quem nunca idealizou o que seria de um romance que terminou precocemente, ou que nunca chegou a acontecer? A vida é formada de fantasias e realizações, mas também de escolhas. O roteiro guarda reviravoltas, seja qual for o caminho dos personagens, Hamaguchi deixa seu trabalho mais marcante pela humanidade dos personagens, pela construção dos ambientes e a atmosfera criada entre amores e amizades.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição principal

Lazzaro Felice (2018 – ITA) 

Num claro tom de fábula, o novo filme de Alice Rohrwacher faz um paralelo da miséria entre passado e presente na Itália. Na primeira parte da trama, a vilã megera é uma Condessa que trata seus empregados rurais como escravos, enquanto vive num castelo em decadência. Lazzaro (Adriano Tardiolo) é o garoto ingênuo e de bom coração, que aceita tudo com sorriso no rosto, e acaba fazendo amizade com o filho, revoltado, da condensa.

Da pobreza do campo o filme pula algumas décadas, nosso dócil Lazzaro ressuscita após um acidente, e vai parar na região metropolitana, entre mendigos que vivem de roubos e pequenos golpes. A elipse faz correspondência com alguns dos personagens, enquanto Rohrwacher se equilibra entre um cinema naturalista e a necessidade de esfregar no público a máxima de que italianos pobres continuarão pobres, enquanto a decadência absorvem a burguesia falida. A ingenuidade de nosso Lazzaro ultrapassa décadas, e a visão pessimista de Rohrwacher se mistura com essa doçura, meio Poliana, e esse tom de fábula que quase embeleza a pobreza da ruas.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição Principal

Verão

Publicado: novembro 29, 2018 em Cinema
Tags:,

Leto / Summer (2018 – RUS) 

O cineasta Kirill Serebrennikov é mais um cineasta pelo mundo, em prisão domiciliar, por razões políticas. A liberdade de expressão não é uma regra em muitos lugares do mundo. Ainda assim, seu estado não evitou que ele pudesse lançar seu novo trabalho, sobre uma figura icônica da União Soviética, talvez o mais importante cantor de rock soviético.

Mas não se trata de uma simples cinebiografia, Serebrennikov mergulha na cena punk rock do início dos anos 80, das influencias pelos LP’s contrabandeados de David Bowie, Talking Heads, ou outros nomes que faziam sucesso no Ocidente. Filmado em preto e branco, o filme tem muito da atmosfera, da forma com que os aspirantes a músicos compunham, da ingenuidade de suas letras, ou da maneira que enfrentavam a censura e outras limitações impostas pelo regime à época.

O filme ainda inova em frescor ao transformar algumas dessas canções em espécies de delírios em forma de videoclipe, outra maneira de contextualizar personagens, influencias e modernidade, enquanto o roteiro trata do tímido e enigmático triângulo amoroso entre o futuro líder da banda Kino, Viktor Tsoi, e a esposa de seu amigo e incentivador. É curioso notar as semelhanças entre a cena rock soviética e de Brasília, mas ainda carecemos de um filme que seja capaz de captar a essência da rebeldia, ao invés de tentar pasteurizar uma história com personagens conhecidos.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição principal

The House that Jack Built (2018 – DIN) 

São várias as leituras possíveis no novo filme do provocador Lars Von Trier. Um filme sobre a mente de um serial killer (Matt Dillon) é o que vemos em cena, mas os diálogos e narração em off de Virgílio (Bruno Ganz), o poeta romano que serve de guia entre o Inferno e o Purgatório, na Divina Comédia de Dante, remetem a leituras muito além dessa obviedade.

Uma delas seria matar como uma forma de arte. Talvez seja nisso que Jack acredite quando se torna o Sr. Sofisticação e brinca com fotografar os cadáveres que mantem numa câmera frigorífica. O cineasta dinamarquês novamente subdivide a narrativa em capítulos e se aproveita do narrador em tom irônico didático, além, é claro, de seguir testando os limites do público com cenas de violência repugnante, e não só, mas principalmente feminicídio. Realmente Trier não está preocupado em refletir o mundo atual, sua arte manipuladora segue seus próprios caminhos e temas. E a maldade está lá, sua obra pode parecer um grande estudo sobre a maldade humana, com muitos requintes de sadismos e essa necessidade de provocar a qualquer custo.

A provocação a arte está lá, mas muitos notam outra leitura, um filme autocritico. Seria Jack um alterego do cineasta, e Trier lidando com cada um dos incidentes com as próprias fraquezas de sua vida pessoal (polêmicas, alcoolismo, a descoberta quem é o verdadeiro pai biológico, as crises criativas). Grande parte de seus filmes são relembrandos num clip de pequenas cenas, um sinal dessa possível leitura. O engenheiro assassino tenta construir uma casa, ao seu modo, durante os anos de crime, assim como Trier cria sua filmografia ao longo dos anos. Autorreferencias ou metáfora para seu círculo viciosa, temos claramente Trier zombando da sociedade e da polícia, esfregando que a indiferença impera. Seu filme é todo caricato e cheio de inverossimilhanças, tudo proposital, ele quer a ironia, a reflexão, despreocupado em capturar todos os públicos, mas capaz de provocar os adeptos de sua doutrinação maniqueísta e sádica.

Um Dia

Publicado: novembro 15, 2018 em Cinema
Tags:,

Egy Nap / One Day (2018 – HUN) 

É meio enlouquecer a proposta desse filme hungaro em acompanhar 24 horas na vida de um casal, com três filhos. As questões financeiras, o casamento desgastado, e a rotina com as crianças (comer, brincar, escola, levar, buscar, educar, colocar de castigo, tratar da febre, etc). Dirigido por Zsófia Szilágui, o filme é tão intenso e dinâmico quanto o mar de possibilidades e vontades a serem preenchidas. O foco está na mãe, professora de italiano, mas é quase um documentário de qualquer casa com três filhos.

Facilmente identificável com pais de todo mundo, e desgastante a qualquer um por se colocar na pele daqueles adultos e com tantas demandas para controlar, o tempo todo. A câmera, quase sempre, está próxima das crianças, ou em planos fechados na mãe, o que deixa tudo mais claustrofóbico, ou fraternal, algumas vezes até amanhoso. É uma experiência interessante, amorosa em alguns momentos e angustiante em outros.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Semana da Crítica