Posts com Tag ‘Festival de Cannes’

Bacurau (2019 – BRA)

É catarse, é resistência, é o grito dos esquecidos. O trabalho da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles está sacudindo o Brasil. E se vivemos num país tão polarizado, pode ser que o filme nem esteja dialogando com um lado dessa disputa, mas tem sim sacudido parte da turma que se sente exprimida pelos dois lados que dominam nossa política recente. Claro que é um filme político, extremamente político, quem acompanha a dupla sabe de suas posições. Mas ao fugir do panfletário e universalizar questões, os diretores conseguem ir além do pregar para torcida única.

Western futurista, praticamente uma nova vertente do cinema de gênero, o filme vai causando frisson e chegando a mais e mais cidades porque ele tem seus momentos apoteóticos mesmo, sem deixar de lado as homenagens a cineastas importantes na cinefilia dos criadores (John Carpenter principalmente). Afinal, em meio ao suspense e à violência, o que temos é a luta pela sobrevivência, do povo oprimido versus a força do opressor (que pode ser o rico Sudeste x pobre Nordeste, países ricos x terceiro mundo), através de uma metáfora sangrenta, que deve sim desagradar parte do público, mas uma alegoria tão justificável.

E Kleber e Juliano filmam tudo sem perder o genuíno daquela gente, criando mistérios ou personagens que ficarão, eternamente, no imaginário. Bacurau é um desses filmes-fenômeno que dá esperança aos que andam desanimado, e que provoca alguns que nem percebiam pontos óbvios que o dia-a-dia nos cega.

Anúncios

Once Upon a Time in… Hollywood (2019 – EUA)

O título já sugere o conto de fadas, mas um conto de fadas tarantinesco, com tudo que o liquidificador do cineasta consegue bater até produzir outro filme delicioso. Delírios de cinéfilos à parte, com ênfase nas referências que Tarantino tanta gosta de usar, o que temos é uma homenagem à Hollywood dos anos 70. E uma homenagem que se concentra num ator em decadência e em seu dublê, e a partir dele transitar por um grupo de personagens reais que vão desde a família Manson, até Roman Polanski e Sharon Tate, até desembocar no trágico momento em que esses dois grupos se encontraram na história.

Em tom de comédia dramática, Tarantino nos guia pelos bastidores da indústria do cinema: casting, series genéricas, jantares de emprego, famosos arrogantes,  mansões e suas festas, mas também pelo prazer da estrela em ascensão. Enfim, um apanhado de comportamentos e personagens que revelam um belo raio-x da época.

Personagens carismáticos, grandes sequencias em que Tarantino destila todo seu estilo, até um final apoteótico e sanguinário que leva muitos ao delírio. O diretor novamente entrega muito do que se esperava. Ainda me permito questionar se suas escolhas não possam soar ofensivas, quando sabemos como a história real transcorreu, e a violência debochada pode parecer agressiva, mas que condiz totalmente com seu cinema, isso não se pode negar, por isso que é um questionamento, e não uma afirmação. O filme de Tarantino está ai, para ser admirado, questionado, porque indiferentes eles nunca serão.

Alice et Le Maire / Alice and the Mayor (2019 – FRA)

Diretamente da Quinzena dos Realizadores, de Cannes 2019, o filme dirigido por Nicolas Pariser é uma comédia dramática política de uma jovem (Anaïs Demoustier) recém-formada em Filosofia que entra para a equipe do prefeito de Lyon, porque ele está sofrendo um bloqueio criativo de ideias.

Entre apresentar um pouco do caos da administração da prefeitura, jogo de egos, mudanças de direção, o filme ainda tenta se estabelecer na vida da própria jovem: vida amorosa, capacidade de sintetizar ideias, ou rapidamente criar uma relação de admiração e ascenção politica sob o prefeito. Tirando o plano-sequencia com sua chegada à prefeitura, o restante varia entre um cinema pouco criativo e uma personagem que agrada sem parecer se encaixar no grupo de personagens que orbitam à sua volta.

Girl

Publicado: março 25, 2019 em Cinema
Tags:,

Girl (2018 – BEL)

Sensação do Festival de Cannes, onde venceu (entre outros prêmio) o Camera D’or, o estreante belga Lukas Dhont traz a história de uma adolescente transgênero que tenta ser bailarina. Parte da recepção calorosa deve vir da necessidade de boa parte do público encontrar uma história sim, sem exageros, com seus dramas, mase sem nada espalhafatoso. Todos os pontos são tratados de maneira sensível, começando pela utilização dos espelhos, diversas cenas de observação e esse confronto da imagem vista x vontade de mudança do corpo.

O filme já começa nos 15 anos da garota, que se coloca numa posição de total definição de sua sexualidade, de quem ela se sente exatamente, por mais que haja sofrimento (físico, afinal a preparação para uma cirurgia causa transformações no corpo), social (como ser abraçada normalmente pela sociedade) e pessoal (a relação com o pai, além dos já corriqueiros traumas da adolescência).

O filme de Dhont sempre prefere a delicadeza, até nos momentos mais extremos, ainda que seja um filme ligado ao aspecto observacional, ao processo físico pela qual passa a adolescente. Há polêmicas imagens de nudez, do esforço fisico antagônico aos preparativos médicos, mas fica a sensação de um filme que foge do confronto do tema, por ser tão benevolente no trato social com essa personagem, afinal, sabemos que raros espectros da sociedade lidariam de forma nada cruel com personagens nessa condição de buscar o seu eu.

Todos Lo Saben (2018 – ESP)

Do glamour em ser o filme de abertura do Festival de Cannes ao esquecimento, inclusive no próprio festival, afinal, o iraniano Asghar Farhadi tão premiado e passou 2018 com seu filme nada lembrado. Agora que começou a ser lançado em alguns países, e é fácil notar esse ostracismo.

O estilo de diálogos e dramas familiares de Farhadi está lá,como sempre, mas falta sangue latino para esse enredo, e principalmente aos personagens. Na trama, um casamento marcando reencontros, uma tragédia “exasperante”, segredos do passado, e plot twists, que ajudariam a envolver o publico. Sem doses de melodrama, mas com personagens e diálogos apáticos, o filme trafega por surpresas telegrafadas e só se equilibra mesmo pelo dilema moral do personagem de Javier Bardem. O resto é tudo no piloto-automático, muito aquém da vividez que Farhadi já mostrou quando tratava de questões bem mais próximas a culturas que ele conhece bem.

Direções

Publicado: janeiro 12, 2019 em Cinema
Tags:,

Posoki / Directions (2017 – BUL) 

A sociedade búlgara resumida através dos dramas de motoristas de táxi. Numa narrativa quase documental, o filme de Stephan Komandarev pega emprestado as corridas dos taxistas para esse raio-x de um país que ainda sofre das mazelas do regime socialista totalitário de outrora. Os pequenos dramas vão desde cunho financeiro e social, até aos costumes e aspectos morais búlgaros.

Do suicida da ponte, passando pela jovem prostituta ou o torturador do antigo regime que acabou com os sonhos de alguém que despontava na carreira, um conjunto de tragédias individuais onde Komandarev resume uma Nação em frangalhos, estacionada em suas limitações.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Un Certain Regard

Plaire Aimer et Courir Vite / Sorry Angel (2018 – FRA) 

Christophe Honoré, normalmente, se sai melhor quando trata do amor do que em outros temas. Seu grande filme continua sendo Canções de Amor, e a magia de ser pop e plural, de tratar esse amor de quem gosta de pessoas, e não de gêneros. Seu novo filme se equilibra em certa irregularidade, em conjunto de situações que criam cenas e diálogos que representam melhor o que o cineasta almeja sensibilizar, do que o simples acompanhar uma história.

Há algo de lúdico no maduro autor de teatro, sofrendo com a AIDS, e que encontra um jovem cheio de vitalidade em descobrir a vida, em viver um romance. Talvez o lúdico esteja na mistura de refinamento social,  e sua forma de empregar seu lado culto como um conquistador. Dessa forma honesta e aproveitadora que ele estabelece amizade com o vizinho, que mantém seus relacionamentos profissionais, que cuida do filho, e que causa atração do jovem interiorano apto a se abrir ao mundo.

Por isso tudo que o título original condiz muito com o protagonista, através de encontros ou telefonemas, conquistar, amar e viver intensamente parece um mantra, mas funciona melhor para resumir esse protagonista que parece inquebrável para alguns, mas tão frágil em outros momentos. Afinal, somos assim, mostrando fortalezas e fragilidades, vivendo nessa busca incessante pelo prazer, pela felicidade, ou por viver aquele momento como se fosse o último.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição