Chris the Swiss | Fuga

Chris the Swiss (Chris the Swiss, 2018 – SUI) 

Fuga (Fuga “Fugue”, 2018 – POL) 

Destacando dois filmes da mais recente safra da Semana da Crítica do recém-encerrado Festival de Cannes. Porém, além de participarem da mesma mostra paralela, e serem dirigidos por mulheres, pouco há de semelhança entre ambos o filme, talvez possamos destacar o desaparecimento como mote nos dois trabalhos, mas cujos diretores seguem caminhos totalmente opostos.

Da Suiça, Anja Kofmel realiza uma espécie de docudrama com toques de animação, sobre o desaparecimento do primo jornalista na Guerra dos Balcãs. Tentando entender, ou reinterpretar, o filme parte nesse misto de memórias, reconstituições de versos dos fatos e depoimentos dos que conheceram esse correspondente de guerra que resolveu abrir mão de seu trabalho e entrar na guerra.

A polonesa Agnieska Smoczynska ficou conhecida no Brasil por A Atração, uma espécie de comédia de terror e fantasia, com sereias-vampiras. Dessa vez, seu filme é menos fantasioso, ainda que tenha algo de inexplicável. Uma mulher desaparece após um acidente de carro e volta após dois anos com amnésia (se lembra de tudo, menos das pessoas). Retorna uma mulher diferente, que conflita com marido e filho pequeno, tem atitudes que não se enquadram nas convenções sociais e fragilidades e fortalezas que se colocam como difícil aceitação. O tema central parece ser resgate dos sentimentos e da representatividade de pessoas que eram vitais em sua vida, e agora você sequer lembra quem são.

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Você Nunca Esteve Realmente Aqui

You Were Never Really Here (2017 – RU) 

É a história de um homem solitário e reservado, que vive para cuidar, carinhosamente, de sua mãe bem idosa. E também a história desse mesmo homem, um seria killer (Joaquin Phoenix) contratado para resgatar a filha de 12-13 anos, de um senador, que foi sequestrada e obrigada a se prostituir.

A trama leva para caminhos de conspiração, cenas fortes de violência (predileção pelo uso de martelo), ainda que lentas, mas há outros aspectos no filme de Lynne Ramsay. Entre eles, a curiosa relação entre a garota e o contratado para lhe salvar, algo que lembra a relação entre Foster e DeNiro em Taxi-Driver, nada a ver com questões sexuais. Outra característica é como Ramsay realiza esse anti-filme de ação, por mais que a trama tenha todos os ingredientes do gênero. São personagens que carregam muita dor e solidão sob os ombros, e do caos se aproximam.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor direção e ator

Happy End

Happy End (2017 – AUS) 

O novo retrato de Michael Haneke da sociedade europeia, através de uma família disfuncional burguesa, não apresenta nenhum avanço em sua filmografia. O título (um sacarmo sintomático para quem conhece sua obra) carrega a ironia básica que sempre ousou pela ousadia com que provoca o estômago do público. Dessa vez, cai no cansaço de uma fórmula de personagens problemáticos e provocações mordazes.

No centro uma garota que precisa passar um tempo com o pai, encontra uma famila que só permanece pelas aparenças. Haneke tenta se adaptar às novas tecnologias, há presença forte das redes sociais, tela na vertical para imitar um celular, e outras artimanhas. Mas, o problema do filme está mesmo nessas relações ácidas e no sabor, pretensamente amargo, com que Haneke tenta enxergar toda a sociedade europeia capitalista. Beirando quase a ingenuidade, Haneke está anos luz além de toda sua filmografia.


Festival: Cannes

Mostra: Competição Principal

À Sombra de Duas Mulheres

L’Ombre des Femmes / In the Shadow of Women (2015 – FRA) 

Dentro da elegância do seu cinema pós Nouvelle Vague, o cineasta Philippe Garrel promove um interessante estudo da alma masculina, ou melhor da alma masculina ferida. No centro da trama temos o documentarista Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau), esposa e companheira profissional. Juntos mal conseguem pagar o aluguel. Garrel parte para o desenvolvimento dos personagens, naquela fotografia branco e preto, e aquele charme narrativo que seu cinema nos convém.

A trama realmente se instala quando Pierre se apaixona por Elisabeth (Lena Paugam), e descobre que Manon também vive um caso. O orgulho ferido se torna um tormento para Pierre, consumido pela insegurança, apresenta suas fragilidades, perde o autocontrole. A partir dai, Garrel filme a descontrução de um homem, à sombra delas (como diz o título em português), num saboroso estudo do masculino fragilizado. Garrel é cinema para se acompanhar sempre.


Festival: Cannes 2015

Mostra: Quinzena dos Realizadores

Ciganos de Ciambra

A Ciambra (2017 – ITA) 

Foi o indicado da Itália ao Oscar de Filme Estrangeiro. O diretor Jonas Carpignano faz mais um retrato da marginalidade dos imigrantes na Itália. Com câmera na mão e foco total num garoto inquieto que comete crimes pela sobrevivência, o filme dá voz a povos africanos e ciganos numa Itália tomada pela criminalidade e incapaz de lidar com seus problemas, que dirá com os dos outros que chegam aos montes. Como cinema é outro retrato que pede urgência, que tem seu apelo autoral, mas além da duração mais esticada do que deveria, não vai além do que temos visto recentemente ao beber da herança dos Dardenne.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Quinzena dos Realizadores

Wendy e Lucy

Wendy & Lucy (2008 – EUA) 

Tão bonito quando o cinema faz do pouco, muito. É o caso do filme que solidificou a carreira de Kelly Reichardt como um expoente do cinema indie americano, mas com assinatura própria, distante da pobreza pasteurizada da maioria dos filhos de Sundance. Do pouco, muito, porque a história é tão simples, quanto real e dolorida. Wendy (Michelle Williams) conseguiu um emprego no Alasca, e tenta viajar até lá, mas o dinheiro está curto e as dificuldades só crescem.

Reichardt filma a alma dessa jovem em dificuldade. Faminta, desesperada, sem poder contar com ninguém. Não espere um melodrama, sua câmera é crua, dolorosa, e variando entre plano fechados ou bem distantes, formando assim um ritmo narrativo que permite ao público respirar, e colocar sua protagonista ora como mais uma no mundo, ora como a que passa as mazelas da humanidade e parece não ter saída. Afinal, estamos na crise que assolava os EUA economicamente, e sua situação representa a de tantos outros jovens, sem esperança, fruto de um sistema em colapso. Seu drama abre espaço para outros dramas dos personagens que ela encontra pelo caminho, enquanto tenta reencontrar sua fiel companheira, a cadela Lucy.


Festival: Cannes 2008

Mostra: Un Certain Regard

A Cordilheira

La Cordillera / The Summit (2017 – ARG) 

A todo custo Santiago Mitre tenta dar peso a seu novo filme. Começa escalando Ricardo Darín como um presidente da Argentina, passa pela trilha sonora, excessivamente presente, que busca o tom de Thriller, os dramas familiares do chefe de Estado que se sobrepõe a vital cúpula de países Sul-americanos que ocorre num hotel nas Cordilheiras Chilenas. Intrigas politicas ocorrendo, dentro e fora de seu país.

A cada nova carga dramática, a cada novo movimento no tabuleiro de xadrez, o filme só aparenta ainda mais equivocado. Culpa do peso de cada cena, do ar complacente do personagem, do uso das tramas políticas apenas como preenchimento dos hiatos das questões particulares. A Cordilheira não convence com nem pelos problemas pessoais, e muito menos pelas artimanhas políticas e Mitre cria um abismo onde seu filme só tende a mergulhar, cada vez mais.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Un Certain Regard