Posts com Tag ‘Festival de Cannes’

Girl

Publicado: março 25, 2019 em Cinema
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Girl (2018 – BEL)

Sensação do Festival de Cannes, onde venceu (entre outros prêmio) o Camera D’or, o estreante belga Lukas Dhont traz a história de uma adolescente transgênero que tenta ser bailarina. Parte da recepção calorosa deve vir da necessidade de boa parte do público encontrar uma história sim, sem exageros, com seus dramas, mase sem nada espalhafatoso. Todos os pontos são tratados de maneira sensível, começando pela utilização dos espelhos, diversas cenas de observação e esse confronto da imagem vista x vontade de mudança do corpo.

O filme já começa nos 15 anos da garota, que se coloca numa posição de total definição de sua sexualidade, de quem ela se sente exatamente, por mais que haja sofrimento (físico, afinal a preparação para uma cirurgia causa transformações no corpo), social (como ser abraçada normalmente pela sociedade) e pessoal (a relação com o pai, além dos já corriqueiros traumas da adolescência).

O filme de Dhont sempre prefere a delicadeza, até nos momentos mais extremos, ainda que seja um filme ligado ao aspecto observacional, ao processo físico pela qual passa a adolescente. Há polêmicas imagens de nudez, do esforço fisico antagônico aos preparativos médicos, mas fica a sensação de um filme que foge do confronto do tema, por ser tão benevolente no trato social com essa personagem, afinal, sabemos que raros espectros da sociedade lidariam de forma nada cruel com personagens nessa condição de buscar o seu eu.

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Todos Lo Saben (2018 – ESP)

Do glamour em ser o filme de abertura do Festival de Cannes ao esquecimento, inclusive no próprio festival, afinal, o iraniano Asghar Farhadi tão premiado e passou 2018 com seu filme nada lembrado. Agora que começou a ser lançado em alguns países, e é fácil notar esse ostracismo.

O estilo de diálogos e dramas familiares de Farhadi está lá,como sempre, mas falta sangue latino para esse enredo, e principalmente aos personagens. Na trama, um casamento marcando reencontros, uma tragédia “exasperante”, segredos do passado, e plot twists, que ajudariam a envolver o publico. Sem doses de melodrama, mas com personagens e diálogos apáticos, o filme trafega por surpresas telegrafadas e só se equilibra mesmo pelo dilema moral do personagem de Javier Bardem. O resto é tudo no piloto-automático, muito aquém da vividez que Farhadi já mostrou quando tratava de questões bem mais próximas a culturas que ele conhece bem.

Direções

Publicado: janeiro 12, 2019 em Cinema
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Posoki / Directions (2017 – BUL) 

A sociedade búlgara resumida através dos dramas de motoristas de táxi. Numa narrativa quase documental, o filme de Stephan Komandarev pega emprestado as corridas dos taxistas para esse raio-x de um país que ainda sofre das mazelas do regime socialista totalitário de outrora. Os pequenos dramas vão desde cunho financeiro e social, até aos costumes e aspectos morais búlgaros.

Do suicida da ponte, passando pela jovem prostituta ou o torturador do antigo regime que acabou com os sonhos de alguém que despontava na carreira, um conjunto de tragédias individuais onde Komandarev resume uma Nação em frangalhos, estacionada em suas limitações.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Un Certain Regard

Plaire Aimer et Courir Vite / Sorry Angel (2018 – FRA) 

Christophe Honoré, normalmente, se sai melhor quando trata do amor do que em outros temas. Seu grande filme continua sendo Canções de Amor, e a magia de ser pop e plural, de tratar esse amor de quem gosta de pessoas, e não de gêneros. Seu novo filme se equilibra em certa irregularidade, em conjunto de situações que criam cenas e diálogos que representam melhor o que o cineasta almeja sensibilizar, do que o simples acompanhar uma história.

Há algo de lúdico no maduro autor de teatro, sofrendo com a AIDS, e que encontra um jovem cheio de vitalidade em descobrir a vida, em viver um romance. Talvez o lúdico esteja na mistura de refinamento social,  e sua forma de empregar seu lado culto como um conquistador. Dessa forma honesta e aproveitadora que ele estabelece amizade com o vizinho, que mantém seus relacionamentos profissionais, que cuida do filho, e que causa atração do jovem interiorano apto a se abrir ao mundo.

Por isso tudo que o título original condiz muito com o protagonista, através de encontros ou telefonemas, conquistar, amar e viver intensamente parece um mantra, mas funciona melhor para resumir esse protagonista que parece inquebrável para alguns, mas tão frágil em outros momentos. Afinal, somos assim, mostrando fortalezas e fragilidades, vivendo nessa busca incessante pelo prazer, pela felicidade, ou por viver aquele momento como se fosse o último.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Asako I & II

Publicado: dezembro 20, 2018 em Cinema
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Netemo Sametemo / Asako I & II (2018 – JAP)  

Vem surgindo o nome de Ryusuke Hamaguchi, com destaque, no cenário internacional de cinema. Seu novo filme é uma fábula romântica que trata do amor à primeira vista, do idealização do outro, e das fragilidades invisíveis de um relacionamento. A grande preocupação do cineasta japonês com pequenos detalhes cotidianos e a narrativa doce ajudam a situar bem personagens e envolver o público com eles.

Asako é a nossa tímida heroína romântica, que se apaixona por um jovem, um desses espíritos-livres, que apenas cruzou seu caminho pelas ruas. O filme percorre anos da vida de Asako, quanto mais o tempo passa, e mais mergulhamos em sua alma frágil e altamente sonhadora, mais nos sentimos próximos e compreendemos seus sentimentos, por mais que ela pouco se expresse diretamente.

O espírito livre desaparece, anos depois ela conhece outro jovem, muito parecido com o primeiro e por ai a história segue. Quem nunca idealizou o que seria de um romance que terminou precocemente, ou que nunca chegou a acontecer? A vida é formada de fantasias e realizações, mas também de escolhas. O roteiro guarda reviravoltas, seja qual for o caminho dos personagens, Hamaguchi deixa seu trabalho mais marcante pela humanidade dos personagens, pela construção dos ambientes e a atmosfera criada entre amores e amizades.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição principal

Lazzaro Felice (2018 – ITA) 

Num claro tom de fábula, o novo filme de Alice Rohrwacher faz um paralelo da miséria entre passado e presente na Itália. Na primeira parte da trama, a vilã megera é uma Condessa que trata seus empregados rurais como escravos, enquanto vive num castelo em decadência. Lazzaro (Adriano Tardiolo) é o garoto ingênuo e de bom coração, que aceita tudo com sorriso no rosto, e acaba fazendo amizade com o filho, revoltado, da condensa.

Da pobreza do campo o filme pula algumas décadas, nosso dócil Lazzaro ressuscita após um acidente, e vai parar na região metropolitana, entre mendigos que vivem de roubos e pequenos golpes. A elipse faz correspondência com alguns dos personagens, enquanto Rohrwacher se equilibra entre um cinema naturalista e a necessidade de esfregar no público a máxima de que italianos pobres continuarão pobres, enquanto a decadência absorvem a burguesia falida. A ingenuidade de nosso Lazzaro ultrapassa décadas, e a visão pessimista de Rohrwacher se mistura com essa doçura, meio Poliana, e esse tom de fábula que quase embeleza a pobreza da ruas.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição Principal

Verão

Publicado: novembro 29, 2018 em Cinema
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Leto / Summer (2018 – RUS) 

O cineasta Kirill Serebrennikov é mais um cineasta pelo mundo, em prisão domiciliar, por razões políticas. A liberdade de expressão não é uma regra em muitos lugares do mundo. Ainda assim, seu estado não evitou que ele pudesse lançar seu novo trabalho, sobre uma figura icônica da União Soviética, talvez o mais importante cantor de rock soviético.

Mas não se trata de uma simples cinebiografia, Serebrennikov mergulha na cena punk rock do início dos anos 80, das influencias pelos LP’s contrabandeados de David Bowie, Talking Heads, ou outros nomes que faziam sucesso no Ocidente. Filmado em preto e branco, o filme tem muito da atmosfera, da forma com que os aspirantes a músicos compunham, da ingenuidade de suas letras, ou da maneira que enfrentavam a censura e outras limitações impostas pelo regime à época.

O filme ainda inova em frescor ao transformar algumas dessas canções em espécies de delírios em forma de videoclipe, outra maneira de contextualizar personagens, influencias e modernidade, enquanto o roteiro trata do tímido e enigmático triângulo amoroso entre o futuro líder da banda Kino, Viktor Tsoi, e a esposa de seu amigo e incentivador. É curioso notar as semelhanças entre a cena rock soviética e de Brasília, mas ainda carecemos de um filme que seja capaz de captar a essência da rebeldia, ao invés de tentar pasteurizar uma história com personagens conhecidos.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição principal