Posts com Tag ‘Festival de Cannes’

The Lighthouse (2019 – EUA/BRA)

Da turma dos grandes filmes do ano, o novo trabalho de Robert Eggers flerta com o cinema de Bergman, mas prefere o humor e o horror do que o estudo psicológico de um Persona, por exemplo. Talvez porque aqui estejamos diante do tese de convivência de dois homens, e sua virilidade e fragilidades estão expostas de maneiras bem diferentes do que a manipulação sugeria no clássico do cineasta sueco.

Um farol no meio do nado, os dois homens (Dafoe e Pattinson) chegam para trabalhar por uma temporada ali, completamente isolados de qualquer sinal de sinalização. Os dias passam entre confrontos, bebedeiras, imposição de poder, e os seus maiores medos deflagrados. Eggers opta por sugerir tudo, de alguma tensão sexual à fantasia com uma sereia, até os segredos e barulhos da sala trancada em que só homem mais velho pode entrar, assim como os segredos que levaram o mais jovem a aceitar aquele emprego.

Memórias, histórias, respeito e desaforo. O Farol é sobre essa relação masculina, é sobre os altos e baixos, sobre angústia e caos. Interessante como o filme não ganha tom teatral, Eggers opta pela fotografia em preto e branco, por enquadramentos que explorem corpos, relações e espaços, e além de dar sua dose de fantasia, realizando assim um filme que foge muito dos padrões mais comerciais, que grita por uma tela grande e som potente, e pela possibilidade de imersão do público nesse lugar fétido e misterioso.

It Must Be Heaven (2019 – FRA)

Adorável a nova investida cômica de Elia Suleiman, assumindo ele mesmo o papel de protagonista de um imigrante, que deixa seu país, mas quanto mais se distancia, mais encontra proximidades. Um país que não é país, um povo sem nação. Dentro ou fora da Palestina, ele encontra racismo, problemas com a polícia ouo imigração, e essa sensação de não pertencer a lugar nenhum, o ar inferiorizado. Da rua onde mora a Paris ou Nova York, o palco muda, mas os comportamentos e dificuldades permanecem. Um jogo de esquetes de quem procura um paraíso, de quem procura oportunidades para seguir filmando, mas sempre encontra olhares desconfiados, portas fechadas e muita indiferença.

Atlantique / Atlantics (2019 – SEN/FRA)

Ada (Mame Bineta Sane) ama, sofre, se rebela aos costumes, encontra pouco apoio até em suas amigas. Ela é a figura central, aos 17 anos prefere viver pelo que acredita do que a comodidade que a maioria preferiria. Perdidamente apaixonada por Suleiman (Ibrahima Traoré), pedreito de um prédio de luxe em construção, sem receber salários há três meses.

O filme se divide em diversas frentes, uma delas é esse estudo da vida de Ada e das amigas à sua volta. Seu lado guerreira e arredio, antagônico a futilidade de algumas de suas melhores amigas. É desse parte da trama que nasce o aspecto policial, numa investigação confusa, e um policial cuja participação na história parece deslocada, um tipo de mistério que nem carrega tantos questionamentos.

Mati Diop se equilibra entre a poesia do belo mar do Senegal, a generosidade da descoberta do amor entre esses dois jovens e o confronto social entre os empregados sem salário e o patrão e seu casarão. Sua forma não usual de filmar traz beleza mesmo em locais tão pobres como a caçamba de um caminhão ou o jogo de olhares entre os trens. Diop era a atriz do filme 35 Doses de Rum, de Claire Denis, e é fácil notar onde o cinema das duas se encontra, quando o lado fantástico da história ganha espaço.

Atlantique flerta com a poesia, mas é bem direto em seu discurso social e da posição feminina na sociedade. Um acidente trágico, mulheres-zumbis, o olhar enigmático de Ada, há muito para se mergulhar no mar cinematográfico que o filme propõe.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2019 – BRA)

Melhor filme na prestigiada mostra Un Certain Regard, em Cannes, um feito e tanto para o cinema brasileiro. Agora chega aos cinemas com a possibilidade real de estar na lista final dos indicados a Filme Estrangeiro. O diretor Karim Aïnouz de volta aos holofotes, em grande estilo. Um melodrama clássico, abraçando o folhetim sem medo de ser feliz e provando que uma narrativa clássica não precisa soar envelhecida.

Da história de uma família, com duas filhas, cuja uma delas se apaixona por um homem, e é rejeitada pelo pai antiquado, nasce a narrativa paralela de duas irmãs, tão próximas e tão distantes. Numa fotografia que é um espetáculo à parte (escura e tão capaz de mostar um outro lado da cidade, distante dessa coisa solar tão presente), Karim flerta, novamente, com a boêmia carioca de Madame Satã, e principalmente com os costumes do início do século, o conservadorismo que afasta pessoas e estragava vidas.

E esses pequenos retratos da classe média brasileira à época enriquem esse amor de irmão. É tão significativa a idealização do sucesso no outro, com o fiapo de informação se cria uma narrativa do que possa ser a vida da irmã, quando a sua é de total decepção. Afinal, também há o aspecto  de ser mulher naquele momento, a sbubmissão, a obrigatoriedade de segir padrões estabelecidos. Não é um filme que encanta com cenas espetaculares, o encantamento vem do conjunto, da possibilidade de passar anos ao lado dessas duas mulheres corajosas, inquietas. Até chegar em cena Fernanda Montenegro, e ai sim arrasar com os mais sentimentais, em duas ou três cenas capazes de tocar profundamente quem se envolveu com as vidas de Eurídice e Guida.

Il Traditore (2019 – ITA)

Curioso que dois cineastas veteranos tenham resgatado o subgênero de filmes de máfia este ano, e ambos adicionando novos elementos à conhecida narrativa. Scorsese trouxe a visão da terceira idade, as aguras de olhar ao passado. Marco Bellocchio conta a história de Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino), o mafioso traidor que fugiu para o Rio de Janeiro, e se tornou um lendário delator da Cosa Nostra.

A primeira vista pode ser visto como um filme protocolar. A questão da família, da religião, os conchavos, e o jeito mafioso de falar se encontra com as festas e a vista da praia carioca (coprodução brasileira com Maria Fernanda Cândido nuam personagem muito importante), todos esses pontos estão ali, enraizados na narrativa clássica de Bellocchio.

Não espere um thriller eletrizante, o cineasta italiano parece estar mais interessado no circo midiático do tribunal, é ali que Buscetta confronta seus parceiros de crime e o filme expõe, um pouco, da genuína alma italiana. Deboche, o jeito falastrão, xingamentos, cada um apresenta como um showman de estilo próprio, um palco onde tentam se defender a qualquer preço, onde falam de crimes hediondos abertamente, com humor à italiana que seria inaceitável em outras plateias. Bellocchio fica preso ao formato da cinebiografia, mas é no meio do circo que seu filme se diferencia.

Papicha

Publicado: outubro 18, 2019 em Cinema
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Papicha (2019 – Argélia)

Destaque na Um Certain Regard de Cannes, e estreia na direção de Mounia Meddour, o filme resgata uma história verídica e assim faz um retrato incisivo de um país que ainda sofre as mazelas de uma Guerra Civil que não foi completamente finalizada.

Apesar de muito quadradinho, narrativamente, em diversos momentos, o coming-of-age, pouco-a-pouco dá espaço a claustrofobia e decepção de notar uma Argélia que ainda vive sobre risco de atentados realizados por extremistas religiosos que querem impor suas crenças e costumes.

Centrado numa estudante, apaixonada em design de moda, feministas e idealista de sua independência, sofrendo por não aceitar as proibições impostas por radicais conservadores. O filme funciona muito bem quando explora essa sensação de claustrofobia feminina, de pressão social, seja na cena do ônibus, ou no garoto que flerta a seguindo pela rua, ou na relação com o porteiro do colégio. Além, é claro, do final trágico e perturbador. É de nos dar uma desesperança do mundo, da humanidade, uma desesperança que nem chegar a caber dentro da gente. O completo desrepeito ao que for diferente do que você prega, elevado às piores consequências.

Dolor y Gloria (2019 – ESP)

O tempo vai passando, as pessoas comentando com você, e mesmo depois de alguns meses, fica essa vontade de revistar, mesmo que não seja revendo, nem que seja recordar. E esse recente trabalho de Pedro Almodóvar é um desses casos. O que fica na memória depois de algum tempo?

O mais forte é essa sensação de proximidade, uma intimidade que o cineasta nos convida a visitar, a sua própria intimidade. Antonio Banderas é seu alter-ego, seu apartamento, seu armário, algumas pequenas cápsulas da própria vida de Almodovar, que ele se aproveita para desenvolver a história de um personagem em angustia, mas também dor (inclusive física), e da força interior de se reconectar com pontos e pessoas da sua vida.

Da solidão ao redescobrimento, o passado e presente ajudam a construir esse alter-ego que, realmente, não é o próprio cineasta, mas está embriagado dele mesmo. Dessa forma, ele volta a nos emocionar, logo ele que já fez isso tantas vezes, e vinha ensaiando a acertar em cheio novamente, aqui conseguiu porque é difícil não se envolver com a cólera, o corpo entorpecido, as memórias que criam novas histórias, e como uma fênix, o renascimento para um novo personagem, uma nova pessoa, que é uma variação amadurecida daquele que conhecemos no início, e mesmo assim não deixa de ser o mesmo, inclusive ele, Almodovar.