Lucky

Lucky (2017 – EUA) 

O sabor de envelhecer. John Carrol Lynch e seu simpático filme sobre a inevitável luta contra o envelhecimento, esse caminho sem volta para a máquina que é o corpo humano. Em seu último filme, o ator Harry Dean Stanton expõe toda as marcas do tempo em seu corpo, enquanto o filme constrói um sólido personagem através da sua rotina e de seus relacionamentos sociais. Teimosia, passatempos, e o sabor agridoce de enfrentar o medo da morte, a solidão e a forma como encarar o mundo. David Lynch faz participação especial, mas é a entrega de Harry Dean Stanton e seu estilo tão expressivos que tornam o filme nessa bela homenagem à velhice.

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9 Dedos

9 Doigts / 9 Fingers (2017 – FRA) 

Sempre filmando em branco e preto, F.J. Ossang é uma espécie de Jim Jarmusch francês. Músico, cineasta e outras tantas atividades artísticas, com seu novo filme saiu premiado como melhor diretor em Locarno, e, realmente, são os aspectos visuais e seu virtuosismo estético que torna seu noir expressionista experimental num interessante representante do cinema dos festivais de 2017.

De uma simples fuga para evitar que a polícia cheque seus documentos, um encontro com um homem á beira da morte e passa a ser perseguido por uma gangue que o obriga a embarcar num navio, com alguma mercadoria valiosa. O fagulho de roteiro que permite a Ossang destilar seu estilo narrativo, seus planos fechados, ou cenas belíssimas com mar. Diálogos complexos, ritmo quebradiço, é um filme que vislumbra mais pelo que pode ser visto, do que pelo que tem a dizer. É cinema puro, ainda que guarde atenção de poucos.

3/4

¾ (2017 – BUL) 

O búlgaro Ilian Metev volta a se destacar no cenário dos festivais internacionais, após seu filme meio documental A Ultima Ambulancia de Sofia. Dessa vez, como o grande vencedor da mostra Cineasta do Presente, no Festival de Locarno. Planos longos, acompanhando os irmãos caminhando, na volta da escola, ou passeando pelo parque com o avô. É uma pegada completamente diferente do seu tedioso filme-denuncia da saúde pública búlgara.

Um retrato das relações familiares, singelo e falsamente despretensioso. A dificuldade de se relacionar, seja na irmã que quer ser pianista, e sofre a pressão da audição que se aproxima, mas o irmão (mais jovem) só quer provoca-la. Seja no pai professor, mas que age ainda refutando a vida adulta e suas responsabilidades. Familias são assim, esse misto de sentimentos, relacionamentos confusos e afetuosos, e nesse emaranhado de emoções, Metev realiza um filme puro, saboroso, e tão verossímil quanto delicado. Não inova, não inventa, apenas dá liberdades a seus personagens se desenvolverem, frente às câmeras.

Verão Danado

Verão Danado (2017 – POR) 

Está acontecendo a 70ª edição do Festival de Locarno, e em primeira mão assistimos a estreia na direção do português Pedro Cabeleira, um dos destaques da seção Cineasti del Presente. O jovem cineasta realiza um filme todo engajado em suas convicções, mesmo com pouco dinheiro e muita gente que acaba de se formar em cinema, e que sabe falar muito bem com o público da sua idade (na casa dos 20 anos).

Chico (Pedro Marujo) é o mais próximo que temos de um protagonista. Recém formado em Filosofia, se muda para Lisboa. É alguém “se enturmando” enquanto a abstrata câmera de Cabeleira capta as interrelações de forma sensorial. Pequenas reuniões de amigos em casa, ou festas com musica eletrônica, tensões sexuais, álcool e drogas, em meio a conversas, momentos, o tempo que passa. Tudo isso captado por muitos planos sequencias e uma preocupação de testemunhar, de capturar a essência. Nada do que é dito é muito importante, os gestos, os olhares, os momentos é que ditam a verdadeira importância desses encontros, dos interesses, das paixões e desejos.

Não é um filme sobre sexo, como Kids ou Shortbus, ele é apenas figura presente. Cabeleira está realmente traduzindo momentos importantes de uma geração “curtindo a vida”, e nisso ele é preciso e lírico. As motivações sã parecidas, a imaturidade e a descobertas são quase senhores do destino desses personagens tão solares, espontâneos e cheios de vida.

O Ornitólogo

o-ornitologo-12_30030181561_o-700x293-500x209O Ornitólogo (2016 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

João Pedro Rodrigues veio apresentar seu novo filme no Festival Mix Brasil, e no debate, após sessão, alguns comentários ajudam a imergir melhor, no que ele apresenta como sendo um western e o estudo de um ateu da figura do mito de Santo Antonio. Rodrigues comenta que “o pilar da ditadura em Portugal era a religião, e que os frades franciscanos sempre pregaram o abandono aos bens materiais, mas que na época de Salazar que o Santo Antonio se tornou o casamenteiro”.

Talvez seja mesmo um western sensorial, com o homem sendo caçado em meio a natureza, talvez a natureza seja apenas o cenário mais instigante para que o cineasta transcorra as aventuras do ornitólogo gay que pode ser a nova representação de Santo Antonio. Ao se apropriar da historia do homem que quer se perder na natureza, Rodrigues questiona crenças religiosas ou sociais, o primitivismo da observação de pássaros e de algumas relações interpessoais versus a crueldade (turistas chinesas) ou a pureza (pastor surdo-mudo). Mas, acima de tudo, a sobrevivência, entre a tecnologia e a presença impassiva da natureza e da crenças humanas.

Futuro Perfeito

futuroperfeitoEl Futuro Perfecto (2016 – ARG) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Simpática comedia dramática da estrante Nele Wohlatz, saiu premiado em Locarno como melhor filme de estreia. Trata de uma familia chinesa que emigrou para a Argentina, e centrada na adolescente Xiaobin (Xiaobin Zhang) a trama brinca com as dificuldades, os sonhos, e a adaptaçao (dificil, porém engraçada). Passa bem de leve pelos dramas, preferindo um roteiro com mais humor, principalmente quando mergulha na imaginação e nas aulas de espanhol, optando pelo raso e fácil, porém provando que não precisa ser dramático para se abordar, de forma honesta, os dramas mais trivais.

Correspondências

correspondenciasCorrespondências (2016 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Por intermédio da leitura de cartas, trocadas entre os anos 59 e 78, entre os poetas portugueses Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, a diretora Rita Azevedo Gomes cria um belo retrato do quão afetada foi a vida dos portugueses frente ao regime fascista da época. Amizade íntima, poesia, o exílio no Brasil (e as comparações entre os dois países) e a saudade de casa, além da sensação de falta de liberdade são temas que se misturam às trivialidades como pequenas viagens, doenças de familiares ou problemas profissionais.

Algumas cenas tem a leitura encenada, outras buscam o lirismo por imagens mais poéticas (mar, floresta), imagens de outros filmes, ou até mesmo apresentam a equipe de filmagem, formando assim um fluxo de memórias ou interpretações. Sobretudo um filme sensorial,, que busca por experiências individuais refletir o trauma devastador de regimes ditatoriais.