Scary Mother

Sashishi Ded / Scary Mother (2017 – GEO) 

Dois filmes da Geórgia com temas ligadas à coragem da matriarca em se dedicar aos seus objetivos, deixando de lado o conforto socialmente esperado no ambiente familiar, forma assim uma boa dupla com My Happy Family. Por outro lado, o filme da diretora Ana Urushadze é muito mais denso ao explorar a complexidade dessa mulher madura, que passa a se dedicar à literatura, com textos provocativos e pouco usuais.

A familia aterrorizada com o conteúdo de suas histórias, as imagens que mergulham nos sonhos do subconsciente dessa nova autora. A estreia de Urushadze foge dos padrões e estabelece essa comunicação aflitiva com o público, a protagonista que quase se descontrói, enquanto passa a acreditar em sua capacidade. Nem que para isso, precise enfretar tudo e todos. Em tempos como esses, em que as mulheres arregaçam as mangas em busca de seu personagem, Scary Mother pode ser um grito de liberdade profissional e do eu mais intrínseco e escondido por detrás das convenções sociais.


Festival: Locarno 2017

Mostra: Cineasti del Presente

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The Idea of a Lake

La Idea de un Lago / The idea of a Lake (2016 – ARG) 

Nasce uma nova forma de abordar, no cinema, as violentas ditaduras militares sul-americanas. Batalha do Chile e Exercícios de Memória são exemplos que resgatam desaparecidos através das memórias dos parentes que até hoje nunca tiveram clareza do que realmente ocorreu com tais vítimas. Em seu segundo longa, a diretora argentina Milagros Mumenthaler traz um pouco da visão feminina, entre a perda, e as fragilidades da memória infantil.

Por entre flashback’s que resgatam as memórias dos anos 70, e  os dias atuais em que a fotografa vive numa fase emocionalmente conturbado, durante sua gravidez, a narrativa se escora nesse jogo de vai e vem do tempo para, margear, o drama pessoal do desaparecimento do pai durante o período militar. Além dos filmes citados, há também a cumplicidade que já vimos no brasileiro Elena, essa coisa de fluxos de memórias e sentimentos que se misturam com o granulado das imagens antigas. É uma nova forma, que suspira pela novidade, talvez possa cansar no futuro,mas no hoje tem rendido bons frutos.


Festival: Locarno 2016

Mostra: Competição Principal

Cocote

Cocote (2017 – RDO) 

A religião ainda é um dos pilares fundamentais dos povos latinos. O primeiro filme da Republica Dominicana a ter destaque, em muito tempo, talvez desde sempre, representa muito essa importância religiosa, aliada aos costumes ainda tradicionais de dignidade e necessidade de justiça. O mote é um jardineiro, que precisaa retornar da capital, para o funeral do pai. Ele é católico, a família se converteu evangélica.

Os conflitos não param por ai, a morte foi por assassinato, executado por um dos influentes da cidade, e agora sua família clama que ele execute a vingança. Não pense que o filme é só sobre o peso da dor e da pressão por cometer um ato que vai de encontro às crenças religiosas. O diretor Nelson Carlo de Los Santos Arias, em rimo quase documental (incluindo os travellings em 360 que dão dimensão exata dos ambientes), filma as discussões, as cerimonias religiosas. Tudo de maneira crua e vivida, de forma a causar imersão e levar o público para dentro dessa ilha latina, numa riqueza, por vezes desgastante, possibilidade de testemunhar a pluralidade cultural e religiosa como combustível para manutenção social.


Festival: Locarno 2017

Mostra: Signs of Life

Prêmio: Melhor Filme

El Mudo

El Mudo (2013 – PER) 

Os irmãos Daniel e Diego Vega voltam com um retrato da corrupção peruana. A história de um juiz, totalmente integro e correto, que sofre um atentado e seus superiores tentam convencê-lo que foi um acidente, uma coincidência, uma bala perdida.

Ele perde a fala, logo um juiz que precisa vociferar sentenças, questionar testemunhas. Vê sua vida mudar, até algumas de suas convicções, enquanto tenta provar que houve um complô premeditado por seu assassinato. A comédia de humor negro é curiosa, deflagra situações de cargos do governo que qualquer cidadão latino está cansado de saber, mas o filme perde um pouco do que havia de genuíno no trabalho anterior (Outubro).


Festival: Locarno 2013

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Ator

Lucky

Lucky (2017 – EUA) 

O sabor de envelhecer. John Carrol Lynch e seu simpático filme sobre a inevitável luta contra o envelhecimento, esse caminho sem volta para a máquina que é o corpo humano. Em seu último filme, o ator Harry Dean Stanton expõe toda as marcas do tempo em seu corpo, enquanto o filme constrói um sólido personagem através da sua rotina e de seus relacionamentos sociais. Teimosia, passatempos, e o sabor agridoce de enfrentar o medo da morte, a solidão e a forma como encarar o mundo. David Lynch faz participação especial, mas é a entrega de Harry Dean Stanton e seu estilo tão expressivos que tornam o filme nessa bela homenagem à velhice.

9 Dedos

9 Doigts / 9 Fingers (2017 – FRA) 

Sempre filmando em branco e preto, F.J. Ossang é uma espécie de Jim Jarmusch francês. Músico, cineasta e outras tantas atividades artísticas, com seu novo filme saiu premiado como melhor diretor em Locarno, e, realmente, são os aspectos visuais e seu virtuosismo estético que torna seu noir expressionista experimental num interessante representante do cinema dos festivais de 2017.

De uma simples fuga para evitar que a polícia cheque seus documentos, um encontro com um homem á beira da morte e passa a ser perseguido por uma gangue que o obriga a embarcar num navio, com alguma mercadoria valiosa. O fagulho de roteiro que permite a Ossang destilar seu estilo narrativo, seus planos fechados, ou cenas belíssimas com mar. Diálogos complexos, ritmo quebradiço, é um filme que vislumbra mais pelo que pode ser visto, do que pelo que tem a dizer. É cinema puro, ainda que guarde atenção de poucos.

3/4

¾ (2017 – BUL) 

O búlgaro Ilian Metev volta a se destacar no cenário dos festivais internacionais, após seu filme meio documental A Ultima Ambulancia de Sofia. Dessa vez, como o grande vencedor da mostra Cineasta do Presente, no Festival de Locarno. Planos longos, acompanhando os irmãos caminhando, na volta da escola, ou passeando pelo parque com o avô. É uma pegada completamente diferente do seu tedioso filme-denuncia da saúde pública búlgara.

Um retrato das relações familiares, singelo e falsamente despretensioso. A dificuldade de se relacionar, seja na irmã que quer ser pianista, e sofre a pressão da audição que se aproxima, mas o irmão (mais jovem) só quer provoca-la. Seja no pai professor, mas que age ainda refutando a vida adulta e suas responsabilidades. Familias são assim, esse misto de sentimentos, relacionamentos confusos e afetuosos, e nesse emaranhado de emoções, Metev realiza um filme puro, saboroso, e tão verossímil quanto delicado. Não inova, não inventa, apenas dá liberdades a seus personagens se desenvolverem, frente às câmeras.