Julia e a Raposa | Tarde para Morrer Jovem

Julia e a Raposa (Julia y El Zorro, 2018 – ARG) 

Tarde para Morrer Jovem (Tarde Demais para Morir Joven / Too Late to Die Young, 2018 – CHL) 

A principal semelhança entre os filmes é a trajetória das cineastas jovens, ambas já realizaram curtas e seu longa de estreia e aqui flertam, de alguma forma com o bucólico, mesmo que de forma distintas. Inés María Barrionuevo nos leva a região de Córdoba, na chegada de atriz e sua filha a uma casa quase abandonada, que pertencia ao marido recém-falecido. Na cas dos quarenta anos, a mãe vive uma crise generalizada, carreira, solidão, e até a demonstração de imaturadidade em criar uma criança. Prefere ainda a irresponsabilidade de um esprírito livre. As primeiras cenas na casa lembram O Pântano (Lucrécia Martel), mas o filme segue outros caminhos, um amigo da mãe vem passar alguns dias na casa, e discretamente permite a desestabilização completa dessa relação torta que parecia não coexistir bem.

Já Dominga Sotomayor traz uma comunidade que preferiu largar Santiago e viver no campo, quase uma comunidade hippie (mas nem tanto). O foco ali são três adolescentes, idades diferentes, num coming-of-age a cineasta flerta com o fim da ditadura militar chilena, mas está mesmo interessada nas desventuras amorosas, na puberdade, e questões da idade. Mas, o destaque principal não está na trama, e sim na maneira com que a diretora filme pessoas x natureza, ainda que um local que nem seja de uma beleza ímpar, Sotomayor demonstra destreza em escapar do óbvio e buscar nessa relação com o bucólico, e até na questão de viver em comunidade, mas ter sua individualidade, um desafio curioso para um cineasta. Pena que a trama vá escapando de suas mãos, e a conclusão de que de forma em que a busca pelo poético não dialogue com o estado de espírito de seus personagens.

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Hermia & Helena

Hermia & Helena (2016 – ARG) 

A cada novo filme, o cineasta argentino Matías Piñeiro vai solidificando a construção de um universo particular. Tendo o teatro e a juventude como alicerces desse mundo em que orbitam seus personagens. Já é o seu terceiro filme de referências claras a Shakespeare, com narrativa mansa, e a delicadeza com que reverencia as protagonistas femininas.

Dessa vez, boa parte da trama se passa em Nova York, uma jovem diretora de teatro que também faz as vezes como tradutora. A mistura dos idiomas, o jogo de relacionamentos e amizades, além da narrativa em tempo não cronológico, bastante circular, combinam com essa proposta liberdade e fluxos. Piñeiro abre o filme com uma homenagem a atriz Setsuko Hara (dos filmes de Ozu), e o primeiro plano, bem aberto, de um jogo de futebol relembra seu filme anterior, mas a sensação que fica é de que ele apenas tenta nosso situar, recolando o público dentro desse universo para assim seguir com essa brincadeira de se relacionar a Sonho de Uma Noite de Verão.


Festival: Locarno 2016

Mostra: Competição

Scary Mother

Sashishi Ded / Scary Mother (2017 – GEO) 

Dois filmes da Geórgia com temas ligadas à coragem da matriarca em se dedicar aos seus objetivos, deixando de lado o conforto socialmente esperado no ambiente familiar, forma assim uma boa dupla com My Happy Family. Por outro lado, o filme da diretora Ana Urushadze é muito mais denso ao explorar a complexidade dessa mulher madura, que passa a se dedicar à literatura, com textos provocativos e pouco usuais.

A familia aterrorizada com o conteúdo de suas histórias, as imagens que mergulham nos sonhos do subconsciente dessa nova autora. A estreia de Urushadze foge dos padrões e estabelece essa comunicação aflitiva com o público, a protagonista que quase se descontrói, enquanto passa a acreditar em sua capacidade. Nem que para isso, precise enfretar tudo e todos. Em tempos como esses, em que as mulheres arregaçam as mangas em busca de seu personagem, Scary Mother pode ser um grito de liberdade profissional e do eu mais intrínseco e escondido por detrás das convenções sociais.


Festival: Locarno 2017

Mostra: Cineasti del Presente

The Idea of a Lake

La Idea de un Lago / The idea of a Lake (2016 – ARG) 

Nasce uma nova forma de abordar, no cinema, as violentas ditaduras militares sul-americanas. Batalha do Chile e Exercícios de Memória são exemplos que resgatam desaparecidos através das memórias dos parentes que até hoje nunca tiveram clareza do que realmente ocorreu com tais vítimas. Em seu segundo longa, a diretora argentina Milagros Mumenthaler traz um pouco da visão feminina, entre a perda, e as fragilidades da memória infantil.

Por entre flashback’s que resgatam as memórias dos anos 70, e  os dias atuais em que a fotografa vive numa fase emocionalmente conturbado, durante sua gravidez, a narrativa se escora nesse jogo de vai e vem do tempo para, margear, o drama pessoal do desaparecimento do pai durante o período militar. Além dos filmes citados, há também a cumplicidade que já vimos no brasileiro Elena, essa coisa de fluxos de memórias e sentimentos que se misturam com o granulado das imagens antigas. É uma nova forma, que suspira pela novidade, talvez possa cansar no futuro,mas no hoje tem rendido bons frutos.


Festival: Locarno 2016

Mostra: Competição Principal

Cocote

Cocote (2017 – RDO) 

A religião ainda é um dos pilares fundamentais dos povos latinos. O primeiro filme da Republica Dominicana a ter destaque, em muito tempo, talvez desde sempre, representa muito essa importância religiosa, aliada aos costumes ainda tradicionais de dignidade e necessidade de justiça. O mote é um jardineiro, que precisaa retornar da capital, para o funeral do pai. Ele é católico, a família se converteu evangélica.

Os conflitos não param por ai, a morte foi por assassinato, executado por um dos influentes da cidade, e agora sua família clama que ele execute a vingança. Não pense que o filme é só sobre o peso da dor e da pressão por cometer um ato que vai de encontro às crenças religiosas. O diretor Nelson Carlo de Los Santos Arias, em rimo quase documental (incluindo os travellings em 360 que dão dimensão exata dos ambientes), filma as discussões, as cerimonias religiosas. Tudo de maneira crua e vivida, de forma a causar imersão e levar o público para dentro dessa ilha latina, numa riqueza, por vezes desgastante, possibilidade de testemunhar a pluralidade cultural e religiosa como combustível para manutenção social.


Festival: Locarno 2017

Mostra: Signs of Life

Prêmio: Melhor Filme

El Mudo

El Mudo (2013 – PER) 

Os irmãos Daniel e Diego Vega voltam com um retrato da corrupção peruana. A história de um juiz, totalmente integro e correto, que sofre um atentado e seus superiores tentam convencê-lo que foi um acidente, uma coincidência, uma bala perdida.

Ele perde a fala, logo um juiz que precisa vociferar sentenças, questionar testemunhas. Vê sua vida mudar, até algumas de suas convicções, enquanto tenta provar que houve um complô premeditado por seu assassinato. A comédia de humor negro é curiosa, deflagra situações de cargos do governo que qualquer cidadão latino está cansado de saber, mas o filme perde um pouco do que havia de genuíno no trabalho anterior (Outubro).


Festival: Locarno 2013

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Ator

Lucky

Lucky (2017 – EUA) 

O sabor de envelhecer. John Carrol Lynch e seu simpático filme sobre a inevitável luta contra o envelhecimento, esse caminho sem volta para a máquina que é o corpo humano. Em seu último filme, o ator Harry Dean Stanton expõe toda as marcas do tempo em seu corpo, enquanto o filme constrói um sólido personagem através da sua rotina e de seus relacionamentos sociais. Teimosia, passatempos, e o sabor agridoce de enfrentar o medo da morte, a solidão e a forma como encarar o mundo. David Lynch faz participação especial, mas é a entrega de Harry Dean Stanton e seu estilo tão expressivos que tornam o filme nessa bela homenagem à velhice.