Verão Danado

Verão Danado (2017 – POR) 

Está acontecendo a 70ª edição do Festival de Locarno, e em primeira mão assistimos a estreia na direção do português Pedro Cabeleira, um dos destaques da seção Cineasti del Presente. O jovem cineasta realiza um filme todo engajado em suas convicções, mesmo com pouco dinheiro e muita gente que acaba de se formar em cinema, e que sabe falar muito bem com o público da sua idade (na casa dos 20 anos).

Chico (Pedro Marujo) é o mais próximo que temos de um protagonista. Recém formado em Filosofia, se muda para Lisboa. É alguém “se enturmando” enquanto a abstrata câmera de Cabeleira capta as interrelações de forma sensorial. Pequenas reuniões de amigos em casa, ou festas com musica eletrônica, tensões sexuais, álcool e drogas, em meio a conversas, momentos, o tempo que passa. Tudo isso captado por muitos planos sequencias e uma preocupação de testemunhar, de capturar a essência. Nada do que é dito é muito importante, os gestos, os olhares, os momentos é que ditam a verdadeira importância desses encontros, dos interesses, das paixões e desejos.

Não é um filme sobre sexo, como Kids ou Shortbus, ele é apenas figura presente. Cabeleira está realmente traduzindo momentos importantes de uma geração “curtindo a vida”, e nisso ele é preciso e lírico. As motivações sã parecidas, a imaturidade e a descobertas são quase senhores do destino desses personagens tão solares, espontâneos e cheios de vida.

O Ornitólogo

o-ornitologo-12_30030181561_o-700x293-500x209O Ornitólogo (2016 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

João Pedro Rodrigues veio apresentar seu novo filme no Festival Mix Brasil, e no debate, após sessão, alguns comentários ajudam a imergir melhor, no que ele apresenta como sendo um western e o estudo de um ateu da figura do mito de Santo Antonio. Rodrigues comenta que “o pilar da ditadura em Portugal era a religião, e que os frades franciscanos sempre pregaram o abandono aos bens materiais, mas que na época de Salazar que o Santo Antonio se tornou o casamenteiro”.

Talvez seja mesmo um western sensorial, com o homem sendo caçado em meio a natureza, talvez a natureza seja apenas o cenário mais instigante para que o cineasta transcorra as aventuras do ornitólogo gay que pode ser a nova representação de Santo Antonio. Ao se apropriar da historia do homem que quer se perder na natureza, Rodrigues questiona crenças religiosas ou sociais, o primitivismo da observação de pássaros e de algumas relações interpessoais versus a crueldade (turistas chinesas) ou a pureza (pastor surdo-mudo). Mas, acima de tudo, a sobrevivência, entre a tecnologia e a presença impassiva da natureza e da crenças humanas.

Futuro Perfeito

futuroperfeitoEl Futuro Perfecto (2016 – ARG) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Simpática comedia dramática da estrante Nele Wohlatz, saiu premiado em Locarno como melhor filme de estreia. Trata de uma familia chinesa que emigrou para a Argentina, e centrada na adolescente Xiaobin (Xiaobin Zhang) a trama brinca com as dificuldades, os sonhos, e a adaptaçao (dificil, porém engraçada). Passa bem de leve pelos dramas, preferindo um roteiro com mais humor, principalmente quando mergulha na imaginação e nas aulas de espanhol, optando pelo raso e fácil, porém provando que não precisa ser dramático para se abordar, de forma honesta, os dramas mais trivais.

Correspondências

correspondenciasCorrespondências (2016 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Por intermédio da leitura de cartas, trocadas entre os anos 59 e 78, entre os poetas portugueses Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, a diretora Rita Azevedo Gomes cria um belo retrato do quão afetada foi a vida dos portugueses frente ao regime fascista da época. Amizade íntima, poesia, o exílio no Brasil (e as comparações entre os dois países) e a saudade de casa, além da sensação de falta de liberdade são temas que se misturam às trivialidades como pequenas viagens, doenças de familiares ou problemas profissionais.

Algumas cenas tem a leitura encenada, outras buscam o lirismo por imagens mais poéticas (mar, floresta), imagens de outros filmes, ou até mesmo apresentam a equipe de filmagem, formando assim um fluxo de memórias ou interpretações. Sobretudo um filme sensorial,, que busca por experiências individuais refletir o trauma devastador de regimes ditatoriais.

Um Belo Verão

umbeloveraoLa Belle Saison (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

França, década de setenta. Tempos de libertação sexual, de movimentos feministas. A diretora Catherine Corsini, de carreira bem sedimentada, ganhou prêmio de melhor direção no Festival de Locarno com este romance dramático, que vai pouco além de uma almejada sensibilidade. Não fosse a temática LGBT, presente no romance lésbico de cenas sensuais, o filme talvez nem tivesse o status que recebeu.

A garota interiorana (Izia Higelin) que gosta de meninas, e vive sob a rigidez do tradicionalismo, e a professora de espanhol (Cécile de France), casada, e envolvida em propagar ideologias feministas. A trama retrata o romance inesperado, enquanto enfrentam tabus e escolhas diante dos enfrentamentos familiares. O drama é banal, caminha por estradas conhecidas, não importando se haverá um desfecho que peso para o feliz ou não. Desperdiça oportunidades para discutir temas, quando apenas os utiliza como figurantes para mais um romance no cinema. O frescor das imagens no campo, em meio a este romance, é muito pouco além desse cinema médio francês feito para agradar.

A Academia das Musas

aacademiadasmusasL’Accademia Delle Muse (2015 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O mais intrigante deste ensaio do cineasta catalão José Luis Guerín é a concatenação de documentário e ficção, uma espécie de mutação própria envolvendo personagens reais, e funções sociais reais, com temas caros a suas vidas, em diálogos e situações propostas, exclusivamente, ao filme. A primeira parte é a menos intricada da narrativa, Guerín se coloca como um dos alunos dessa Academia de Musas, uma espécie de grupo de estudos liderado pelo professor de filologia Raffaele Pinto, na Universidade de Barcelona. Ali, em meio dos alunos (a maioria mulheres), Guerín documenta as discussões sobre amor, ciúmes, paixão e desejo, partindo da relação de grandes autores com as musas de suas obras literárias.

A narrativa vai além quando parte para as discussões fora da aula, entre colegas, ou do professor com sua esposa (também professora de filologia). Aliás, são nos encontros com a mulher que o filme evidencia o estudo teórico da visão prática, adentrando na história do casal e reverberando as nuances de comportamento que insinuam comportamentos. O professor carrega no discurso de distanciamento do objeto estudo, quando talvez seja parte integrante do estudo (pelo menos Guerín assim o faz). Se algumas das discussões não se estabelecem com o exercício intelectual que o filme almeja propor, há ali questionamentos genuínos, que devem ter realmente surgido ao longo das filmagens. Mas chega a sequencia final, forte na carga dramática, mas que se apresenta como um encerramento fechado, a impossibilidade de deixar o todo tão livre não condiz exatamente com aquela poesia sobre os marcos da civilização.

Certo Agora, Errado Antes

certoagoraerradoantesJigeumeun matgo geuttaeneun teullida / Right Now, Wrong Then (2015 – COR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A proposta de cinema de Hong Sang-soo permanece inerte, e essa a magia que o mantém em destaque nos festivais de cinema e com sua pequena legião de fãs. Seu cardápio é de uma pizza coreana, meia Woody Allen e meia Eric Rohmer. Os filmes, praticamente os mesmos, quem não é grande fã mal consegue diferenciá-los pela memória, se não recorrer a imagens e sinopses. Este novo trabalho foi o grande vencedor do prestigiado Festival de Locarno, e mantém a escrita do naturalismo, do personagem central diretor de cinema, das bebedeiras com Soju e os romances meio atabalhoados.

Se já comprou a proposta de Sang-soo, pode se lambuzar com as duas versões da mesma história, a brincadeira de qual das duas estava Certa/Errada antes ou agora. O cineasta (Jung Jae-young) chega a cidade para uma apresentação de um filme seu, conhece uma jovem pintora (Kim Min-hee) num templo e passam o dia conversando. Não espere diálogos ultra-elaborados ou ricos como em Antes do Pôr-do-Sol, o roteiro está calcado na simplicidade da fragilidade emocional da garota, do desejo sexual do homem, e da passagem de tempo nada calculada entre eles. Lá pela metade, quando o relacionamento e o dia tem seu desfecho, a trama volta ao ponto de partida. As cenas se repetem, com pequenas variações, é a doce brincadeira de apontar como pequenos detalhes podem ser determinantes, e aquele relaciomanento segue outro rumo e desemboca num novo desfecho. A segunda versão da trama parece mais interessante, até pela riqueza de informações que contextualizam melhor os personagens. Certo ou errado, Sang-soo segue brincando com suas obsessões e vendendo propostas novas, que não são tão novidade assim.