The Idea of a Lake

La Idea de un Lago / The idea of a Lake (2016 – ARG) 

Nasce uma nova forma de abordar, no cinema, as violentas ditaduras militares sul-americanas. Batalha do Chile e Exercícios de Memória são exemplos que resgatam desaparecidos através das memórias dos parentes que até hoje nunca tiveram clareza do que realmente ocorreu com tais vítimas. Em seu segundo longa, a diretora argentina Milagros Mumenthaler traz um pouco da visão feminina, entre a perda, e as fragilidades da memória infantil.

Por entre flashback’s que resgatam as memórias dos anos 70, e  os dias atuais em que a fotografa vive numa fase emocionalmente conturbado, durante sua gravidez, a narrativa se escora nesse jogo de vai e vem do tempo para, margear, o drama pessoal do desaparecimento do pai durante o período militar. Além dos filmes citados, há também a cumplicidade que já vimos no brasileiro Elena, essa coisa de fluxos de memórias e sentimentos que se misturam com o granulado das imagens antigas. É uma nova forma, que suspira pela novidade, talvez possa cansar no futuro,mas no hoje tem rendido bons frutos.


Festival: Locarno 2016

Mostra: Competição Principal

Anúncios

Cocote

Cocote (2017 – RDO) 

A religião ainda é um dos pilares fundamentais dos povos latinos. O primeiro filme da Republica Dominicana a ter destaque, em muito tempo, talvez desde sempre, representa muito essa importância religiosa, aliada aos costumes ainda tradicionais de dignidade e necessidade de justiça. O mote é um jardineiro, que precisaa retornar da capital, para o funeral do pai. Ele é católico, a família se converteu evangélica.

Os conflitos não param por ai, a morte foi por assassinato, executado por um dos influentes da cidade, e agora sua família clama que ele execute a vingança. Não pense que o filme é só sobre o peso da dor e da pressão por cometer um ato que vai de encontro às crenças religiosas. O diretor Nelson Carlo de Los Santos Arias, em rimo quase documental (incluindo os travellings em 360 que dão dimensão exata dos ambientes), filma as discussões, as cerimonias religiosas. Tudo de maneira crua e vivida, de forma a causar imersão e levar o público para dentro dessa ilha latina, numa riqueza, por vezes desgastante, possibilidade de testemunhar a pluralidade cultural e religiosa como combustível para manutenção social.


Festival: Locarno 2017

Mostra: Signs of Life

Prêmio: Melhor Filme

El Mudo

El Mudo (2013 – PER) 

Os irmãos Daniel e Diego Vega voltam com um retrato da corrupção peruana. A história de um juiz, totalmente integro e correto, que sofre um atentado e seus superiores tentam convencê-lo que foi um acidente, uma coincidência, uma bala perdida.

Ele perde a fala, logo um juiz que precisa vociferar sentenças, questionar testemunhas. Vê sua vida mudar, até algumas de suas convicções, enquanto tenta provar que houve um complô premeditado por seu assassinato. A comédia de humor negro é curiosa, deflagra situações de cargos do governo que qualquer cidadão latino está cansado de saber, mas o filme perde um pouco do que havia de genuíno no trabalho anterior (Outubro).


Festival: Locarno 2013

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Ator

Lucky

Lucky (2017 – EUA) 

O sabor de envelhecer. John Carrol Lynch e seu simpático filme sobre a inevitável luta contra o envelhecimento, esse caminho sem volta para a máquina que é o corpo humano. Em seu último filme, o ator Harry Dean Stanton expõe toda as marcas do tempo em seu corpo, enquanto o filme constrói um sólido personagem através da sua rotina e de seus relacionamentos sociais. Teimosia, passatempos, e o sabor agridoce de enfrentar o medo da morte, a solidão e a forma como encarar o mundo. David Lynch faz participação especial, mas é a entrega de Harry Dean Stanton e seu estilo tão expressivos que tornam o filme nessa bela homenagem à velhice.

9 Dedos

9 Doigts / 9 Fingers (2017 – FRA) 

Sempre filmando em branco e preto, F.J. Ossang é uma espécie de Jim Jarmusch francês. Músico, cineasta e outras tantas atividades artísticas, com seu novo filme saiu premiado como melhor diretor em Locarno, e, realmente, são os aspectos visuais e seu virtuosismo estético que torna seu noir expressionista experimental num interessante representante do cinema dos festivais de 2017.

De uma simples fuga para evitar que a polícia cheque seus documentos, um encontro com um homem á beira da morte e passa a ser perseguido por uma gangue que o obriga a embarcar num navio, com alguma mercadoria valiosa. O fagulho de roteiro que permite a Ossang destilar seu estilo narrativo, seus planos fechados, ou cenas belíssimas com mar. Diálogos complexos, ritmo quebradiço, é um filme que vislumbra mais pelo que pode ser visto, do que pelo que tem a dizer. É cinema puro, ainda que guarde atenção de poucos.

3/4

¾ (2017 – BUL) 

O búlgaro Ilian Metev volta a se destacar no cenário dos festivais internacionais, após seu filme meio documental A Ultima Ambulancia de Sofia. Dessa vez, como o grande vencedor da mostra Cineasta do Presente, no Festival de Locarno. Planos longos, acompanhando os irmãos caminhando, na volta da escola, ou passeando pelo parque com o avô. É uma pegada completamente diferente do seu tedioso filme-denuncia da saúde pública búlgara.

Um retrato das relações familiares, singelo e falsamente despretensioso. A dificuldade de se relacionar, seja na irmã que quer ser pianista, e sofre a pressão da audição que se aproxima, mas o irmão (mais jovem) só quer provoca-la. Seja no pai professor, mas que age ainda refutando a vida adulta e suas responsabilidades. Familias são assim, esse misto de sentimentos, relacionamentos confusos e afetuosos, e nesse emaranhado de emoções, Metev realiza um filme puro, saboroso, e tão verossímil quanto delicado. Não inova, não inventa, apenas dá liberdades a seus personagens se desenvolverem, frente às câmeras.

Verão Danado

Verão Danado (2017 – POR) 

Está acontecendo a 70ª edição do Festival de Locarno, e em primeira mão assistimos a estreia na direção do português Pedro Cabeleira, um dos destaques da seção Cineasti del Presente. O jovem cineasta realiza um filme todo engajado em suas convicções, mesmo com pouco dinheiro e muita gente que acaba de se formar em cinema, e que sabe falar muito bem com o público da sua idade (na casa dos 20 anos).

Chico (Pedro Marujo) é o mais próximo que temos de um protagonista. Recém formado em Filosofia, se muda para Lisboa. É alguém “se enturmando” enquanto a abstrata câmera de Cabeleira capta as interrelações de forma sensorial. Pequenas reuniões de amigos em casa, ou festas com musica eletrônica, tensões sexuais, álcool e drogas, em meio a conversas, momentos, o tempo que passa. Tudo isso captado por muitos planos sequencias e uma preocupação de testemunhar, de capturar a essência. Nada do que é dito é muito importante, os gestos, os olhares, os momentos é que ditam a verdadeira importância desses encontros, dos interesses, das paixões e desejos.

Não é um filme sobre sexo, como Kids ou Shortbus, ele é apenas figura presente. Cabeleira está realmente traduzindo momentos importantes de uma geração “curtindo a vida”, e nisso ele é preciso e lírico. As motivações sã parecidas, a imaturidade e a descobertas são quase senhores do destino desses personagens tão solares, espontâneos e cheios de vida.