The Hungry Lion

Ueta Raion / The Hungry Lion (2017 – JAP) 

A praga das Fake News! Expondo o sistema educacional japonês, o diretor Takaomi Ogata coloca em discussão o poder e a velocidade com que falsas noticias viralizam, causam polêmica e até se tornam verdades. No centro da trama, uma jovem estudante confundida num vídeo de sexo. A história ganha proporções maiores a cada dia, fogem do controle e o que era um simples negar, se torna uma perseguição com difamação e um nível de stress maior do que uma adolescente pode suportar.

O filme de Ogata é bem simples narrativamente, algumas cenas são quase documentais de tão verossímeis em diálogos e até na naturalidade das atuações, por mais que sem brilho ou grandes destaques. Porém, sua força está precisamente nos fins planejados pelo cineasta. Ogata leva a trama para além da resolução do caso polêmico, envolvendo mídia e até o rescaldo do que se torna verdade após a força das fake news.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices

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A Obra do Século

La Obra del Siglo (2015 – CUB) 

Com esse segundo trabalho, já é possível afirmar que o cubano Carlos Machado Quintela é um dos nomes mais promissores do cinema latino atual. Dos quatro adolescentes deficientes de A Piscina, dessa vez, em preto e branco, acompanhamos o apartamento onde vivem três homens solteiros, três gerações de uma familia. O avô cuja maior preocupação é o peixe que ele mantém no aquário, o filho que sobrevive de seu fracasso profissional e a tentativa de arrumar uma nova companheira, e o neto, recém-separado, e preocupado com qual será sua próxima tatuagem.

Eles vivem no bairro onde viviam os trabalhadores responsáveis pela construção da usina nuclear patrocinada pelos sociéticos no início dos anos 80. Entre longos travellings, planos gerais e panorâmicos, Quintela invade a imensidão de desesperança desses três homens, simultaneamente com inserções de um programa de tv (cujo título era o mesmo do filme), do canal nuclear, que divulgada a imponente, e inacabada, construção.

O alvo de Quintela são os sinais do abandono financeiro após as mudanças políticas promovidas por Gorbachev, o quanto Cuba era dependente, um espelho do socialismo soviético na América durante a Guerra Fria. Mas, a política está de lado, sua narrativa é cheia de reflexões e provocações quanto ao incomodo de gerações que seguem estática, sufocada pela crise econômica, pela liberdade cerceada, através de uma obra milionária que foi abandonada após o acidente em Chernobyl. O cinema nebuloso de Quintela vem jogar um novo olhar de dentro para Cuba.


Festival: Rotterdã 2015

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Filme

 

 

A Tiger in Winter

A Tiger in Winter (2017 – COR) 

Kwang-kuk Lee é uma espécie de discípulo de Hong Sang-soo, assistente de direção em Ha Ha Ha e Conto de Cinema, chega a seu quarto longa-metragem como diretor, trazendo muito do que aprendeu com o famoso sul-coreano. A forma como enquadra os diálogos de personagens que se encontram pela rua (plano americano, personagens se olham, sem olhar para a câmera que os focaliza em perfil), o consumo de álcool como parte importante da trama, o vai-e-vem dos relacionamentos amorosos. Até mesmo a veia artística, afinal, o protagonistas é um frustrado aspirante a escritor que de repente perde o emprego e a namorada. Fica sem receita e sem dinheiro.

O tom de narrativa de Kwang-kuk é mais típico de um cinema que flerte com o melodrama, sem perder essa veia de melancolia seca,. Ele reencontra uma antiga namorada e revivem o relacionamento num grau de dependência predatória, de interesses momentâneos e o filme tenta costurar tudo isso os dramas de uma terceira mulher. Dessa necessidade de dilemas morais que seu filme derrapa, bem mais tradicional na forma do que Sang-soo, resta a curiosidade das semelhanças e diferenças entre eles.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices

Djon África

Djon África (2018 – POR) 

O caminho reverso em busca de suas raízes, é essa a escolha de Miguel Moreira, vulgo Djon África. A procura por seu pai é também a procura pela autodescoberta. Nascido em Portugal, porém filhos de imigrantes cabo-verdianos, Miguel não tem sua documentação legalizada, coisas que só as burocracias internacionais podem explicar, afinal, de onde é Miguel?

A dupla Filipa Reis e João Miller Guerra estreia na direção de longa-metragens, e ao utilizar do formato do docudrama, permite o mergulho mais autêntico da paisagem e dos personagens (não-atores) que cruzam à frente de Miguel por esse road movie. As informações do pai são poucas, apenas o que se lembra dos relatos da avó, mas se encontrar o pai é o mote, o importante é mesmo o caminho e nisso o filme estabelece sua maior fortaleza. A figura do novo a cada local descoberto se contrapõe com a saudade “de casa”, da namorada, e esse conflito flui por entre as ruas pobres e os vilarejos com pessoas simples e gentis.

Tão português quanto cabo-verdiano, e ainda assim sem identidade, a procura de um porto seguro que o possa se estabelecer entre duas culturas que dialogam ao mesmo tempo em que são diametralmente opostas em tantos quesitos.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Hivos Tiger Competition

Gutland

Gutland (2017 – LUX) 

Num primeiro momento, a história nos faz lembrar de Western, com um solitário que chega da Alemanha a uma pequena cidade de Luxemburgo e faz amizades, arruma uma namorada e emprego, assim como causa estranhamento de outra parte da pequena sociedade. Sob direção de Govinda Van Maele, a narrativa bucólica e o quieto protagonista se misturam com a beleza da região e com os costumes. Quando, finalmente, a trama mostra a que veio, com plot twist e segredos vindo à tona, beira a banalidade com toques de violência numa história já visto por diversas vezes no cinema.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Bright Future

Tempo Comum

Tempo Comum / Ordinary Time (2018 – POR) 

Um bebê recém-nascido requer tantos cuidados e atenção integral dos pais que eles não conseguem falar de outro assunto que não seja o parto, as roupinhas, as noites de dormir, o processo de amamentação. Um fascínio autêntico e absolutamente dominante. A diretora Susana Nobre traz a rotina de um desses casos ao cinema, com narrativa singela onde prevalece a calmaria, um casal em Lisboa se desdobra nos cuidados com o bebê. Enquanto isso, a visita de amigos, o convívio com os avós, e as mudanças da rotina do próprio casal com a “novidade”.

O título é perfeito para resumir o filme de Nobre, sem reviravoltas, sem cenas de impacto, são simples diálogos, trocas de experiência, e o mundo que orbita em torno dessa criança. Uma fase de vida comum, de rotinas mais rígidas, de passar todo o tempo em casa, e dentro da repetição de fraldas e atividades, e os eternos problemas conjugais, ainda assim feliz.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Bright Future

Azougue Nazaré

Azougue Nazareth (2018- BRA) 

Não foi só premiado como melhor filme numa das mostra paralelas do Festival de Rotterdã (Bright Future), como parte da critica o colocou como um dos melhores filmes do festival holandês. É a região de plantações de cana de açúcar de Nazaré da Mata eclipsada ao mundo, com sua cultura local e rotina.

O estreante na direção Tiago Melo, cujas características de sua narrativa cinematográfica o colocam entre os filmes de Kleber Mendonça Filho e os de Gabriel Mascaro, vem a confirmar a prolífica cena do cinema pernambucano atual. Numa espécie de filme-mosaico, pequenas histórias individuais desse coletivo que vive no microcosmos de influências e, porque não, sobrevivência. Algo que representa a brasilidade (raça, matrimônio, cultura geral) e o regionalismo, tudo envolto sob crítica social.

Maracatu vs Evangélicos, um filme de embate entre cultos e cores, entre o popularesco e a crença absoluta. Uns que vivem pelo que acredita e os diverte (a cantoria provocativa na mesa de bar, as fantasias do maracatu), outros pela ingenuidade da religiosidade como única salvação. Nesse embate, o pastor que se converteu após ser Mestre do Maracatu é figura primordial. Azougue Nazaré poderia até dar mais espaço para seus personagens, mas vibra no que se propõe.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Bright Future

Prêmio: Melhor Filme