Mormaço

Mormaço (2018) 

A conexão com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho é automática, prejudicial ao filme de Marina Meliande. Afinal, temos um prédio cujos moradores estão vendendo e saindo de seus apartamentos, a construtora que negocia quer realizar a demolição. Porém, há ainda poucos moradores reticentes, que não pretendem sair dali, entre eles a jovem advogada Ana (Marina Provenzzano). A trama se passa no Rio de Janeiro, pouco antes dos Jogos Olímpicos, a cidade em obras

A advogada defende um grupo de moradores de um local bem esquecido da cidade, onde o governo precisa retirá-los urgentemente para completar as obras das Olimpíadas. No meio desse clima tenso, de todos os lados, o filme insere um interessante elemento fantástico. Critica social e terror psicológico formam uma consistente atmosfera, por outro lado a semelhanças com o filme de KMF diminuem a sensação de frescor. Além de algumas interpretações nada inspiradas entre os não-atores coadjuvantes, resultando assim num filme irregular, ainda que necessário em seus pontos criticos e curioso por esse flerte com o inesperado.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Hivos Tiger Competition

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Café com Canela

Café com Canela (2018) 

Se passaram mais de trinta anos sem que uma mulher negra dirigisse um longa-metragem com estreia no circuito comercial brasileiro, é tão triste que um texto comece com um destaque desse tipo, mas é assim que as coisas são nesse país. O filme vem quebrar esse hiato, felizmente. Dirigido pela dupla Glenda Nicário e Ary Rosa, trata-se de um trabalho afetuoso, em meio as aguras e a vida cotidianda do Recôncavo Baiano.

Começa com um vídeo caseiro de uma festinha de aniversário de criança, intercala com um grupo de amigos fazendo um churrasco, bem familiar. Essas duas sequencias vão e voltam, se intercalam com a história das duasa mulheres que dominam a trama. Uma delas é a jovem Violeta (Aline Brunne), dessas mulheres lutadoras, sem papas nas línguas, que vende seus salgados e sempre fala o que pensa. De outro, a amargurada Margarida (Valdinéia Soriano), que nitidamente carrega o peso do mundo sob suas costas.

Através do cotidiano da vizinhança o filme desenvolve as histórias particulares dos personagens, enquanto no macro está representando toda uma comunidade negra. Sem levantar a bandeira de discursos anti-racismo, o filme encanta pela simplicidade com que personagens enfrentam suas dores, na forma como encontram para dividir e suportar entre eles. De pano de fundo está a questão social, mas a questão política é sempre posta de lado em detremimento do humano.

A dupla na direção também quebra o ritmo do formalismo, experimenta muito com a imagem, desde aspecto até enquadramentos. O resultado não é tão regular, mas a proposta permite a experimentação, e ela vem longe dos momentos em que os arcos dramáticos estão mais à flor da pele. Dessa forma, o lado experimental serve até para criar intimidade, para invadir com o padrão estético que o público tanto se acostumou, ousa sem medo de errar. Enquanto isso, os personagens nos cativam com a dor da perda, com o sofrimento desesperançado, haja café com canela para reencontrar um caminho menos tortuoso.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Pan-African Cinema Today

Siti

Siti (2014 – Indonésia) 

Siti é a heroína do dia-a-dia, a mulher que trabalha em dois empregos para sustentar filho, a mãe e seu marido (que não sai da cama após um acidente e praticamente não fala com ela). Num preto e branco charmoso, o diretor indonésio Eddie Cahyono filmas as aguras da vida cotidiana, a relação da sociedade com a opressão militar cotidiana, a questão da mulher protagonista em casa, mas coadjuvante de sua própria vida e até mal interpretada pelo próprio marido. Da beleza da construção dos planos, passando pela opção em fugir do sentimentalismo, Siti é belo pela própria dureza de sua realidade e por como Cahyono consegue condensar tudo na personagem e na melancolia de suas imagens. Um encontro de lirismo e aspereza, de miséria e desesperança, a carência e o orgulho como determinantes para novos rumos dos personagens.

The Hungry Lion

Ueta Raion / The Hungry Lion (2017 – JAP) 

A praga das Fake News! Expondo o sistema educacional japonês, o diretor Takaomi Ogata coloca em discussão o poder e a velocidade com que falsas noticias viralizam, causam polêmica e até se tornam verdades. No centro da trama, uma jovem estudante confundida num vídeo de sexo. A história ganha proporções maiores a cada dia, fogem do controle e o que era um simples negar, se torna uma perseguição com difamação e um nível de stress maior do que uma adolescente pode suportar.

O filme de Ogata é bem simples narrativamente, algumas cenas são quase documentais de tão verossímeis em diálogos e até na naturalidade das atuações, por mais que sem brilho ou grandes destaques. Porém, sua força está precisamente nos fins planejados pelo cineasta. Ogata leva a trama para além da resolução do caso polêmico, envolvendo mídia e até o rescaldo do que se torna verdade após a força das fake news.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices

A Obra do Século

La Obra del Siglo (2015 – CUB) 

Com esse segundo trabalho, já é possível afirmar que o cubano Carlos Machado Quintela é um dos nomes mais promissores do cinema latino atual. Dos quatro adolescentes deficientes de A Piscina, dessa vez, em preto e branco, acompanhamos o apartamento onde vivem três homens solteiros, três gerações de uma familia. O avô cuja maior preocupação é o peixe que ele mantém no aquário, o filho que sobrevive de seu fracasso profissional e a tentativa de arrumar uma nova companheira, e o neto, recém-separado, e preocupado com qual será sua próxima tatuagem.

Eles vivem no bairro onde viviam os trabalhadores responsáveis pela construção da usina nuclear patrocinada pelos sociéticos no início dos anos 80. Entre longos travellings, planos gerais e panorâmicos, Quintela invade a imensidão de desesperança desses três homens, simultaneamente com inserções de um programa de tv (cujo título era o mesmo do filme), do canal nuclear, que divulgada a imponente, e inacabada, construção.

O alvo de Quintela são os sinais do abandono financeiro após as mudanças políticas promovidas por Gorbachev, o quanto Cuba era dependente, um espelho do socialismo soviético na América durante a Guerra Fria. Mas, a política está de lado, sua narrativa é cheia de reflexões e provocações quanto ao incomodo de gerações que seguem estática, sufocada pela crise econômica, pela liberdade cerceada, através de uma obra milionária que foi abandonada após o acidente em Chernobyl. O cinema nebuloso de Quintela vem jogar um novo olhar de dentro para Cuba.


Festival: Rotterdã 2015

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Filme

 

 

A Tiger in Winter

A Tiger in Winter (2017 – COR) 

Kwang-kuk Lee é uma espécie de discípulo de Hong Sang-soo, assistente de direção em Ha Ha Ha e Conto de Cinema, chega a seu quarto longa-metragem como diretor, trazendo muito do que aprendeu com o famoso sul-coreano. A forma como enquadra os diálogos de personagens que se encontram pela rua (plano americano, personagens se olham, sem olhar para a câmera que os focaliza em perfil), o consumo de álcool como parte importante da trama, o vai-e-vem dos relacionamentos amorosos. Até mesmo a veia artística, afinal, o protagonistas é um frustrado aspirante a escritor que de repente perde o emprego e a namorada. Fica sem receita e sem dinheiro.

O tom de narrativa de Kwang-kuk é mais típico de um cinema que flerte com o melodrama, sem perder essa veia de melancolia seca,. Ele reencontra uma antiga namorada e revivem o relacionamento num grau de dependência predatória, de interesses momentâneos e o filme tenta costurar tudo isso os dramas de uma terceira mulher. Dessa necessidade de dilemas morais que seu filme derrapa, bem mais tradicional na forma do que Sang-soo, resta a curiosidade das semelhanças e diferenças entre eles.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices

Djon África

Djon África (2018 – POR) 

O caminho reverso em busca de suas raízes, é essa a escolha de Miguel Moreira, vulgo Djon África. A procura por seu pai é também a procura pela autodescoberta. Nascido em Portugal, porém filhos de imigrantes cabo-verdianos, Miguel não tem sua documentação legalizada, coisas que só as burocracias internacionais podem explicar, afinal, de onde é Miguel?

A dupla Filipa Reis e João Miller Guerra estreia na direção de longa-metragens, e ao utilizar do formato do docudrama, permite o mergulho mais autêntico da paisagem e dos personagens (não-atores) que cruzam à frente de Miguel por esse road movie. As informações do pai são poucas, apenas o que se lembra dos relatos da avó, mas se encontrar o pai é o mote, o importante é mesmo o caminho e nisso o filme estabelece sua maior fortaleza. A figura do novo a cada local descoberto se contrapõe com a saudade “de casa”, da namorada, e esse conflito flui por entre as ruas pobres e os vilarejos com pessoas simples e gentis.

Tão português quanto cabo-verdiano, e ainda assim sem identidade, a procura de um porto seguro que o possa se estabelecer entre duas culturas que dialogam ao mesmo tempo em que são diametralmente opostas em tantos quesitos.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Hivos Tiger Competition