Pela Janela

Pela Janela (2017) 

Para ser demitido, basta estar empregado. A estabilidade nunca foi certeza no mercado de trabalho, as empresas mudam, a chefia muda, e decisões são tomadas. Rosália (Magali Biff, em atuação incrível) já passou dos sessenta anos, e mesmo com trinta anos na mesma fábrica tem o alicerce de sua vida derrubado quando é demitida.

De forma muito sensível a diretora estreante Caroline Leone transforma o drama dessa mulher num road movie, o irmão precisa levar um carro de São Paulo a Buenos Aires e carrega a irmã junto. Com um sorriso amarelo e a força de vontade quase no zero, ela parte por pequenas descobertas, com o ânimo pendurado numa gangorra.  É um filme de simplicidade, de intimidade entre público e a personagem que perdeu o rumo, e de diálogo direto com a questões que a política nacional decidiu colocar na pauta das discussões de botequim (previdência, leis trabalhistas). De fato, no Brasil, vivemos um grande cada um por si.

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Ponto de Fuga

pontodefugaVanishing Point (2015 – TAI) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Com fotos de recortes de jornal, de 1983, o diretor Jakrawal Nilthamrong resgata a tragédia de sua família. São imagens do acidente de carro onde morreram seus pais. O drama pessoal, exposto de forma tão direta, dá indícios de um trabalho particular, com significados mais intrínsecos ao próprio cineasta do que a qualquer um do público.

A trama contempla dois homens, com histórias distintas. Um jornalista horrorizado com o tratamento da polícia a um réu durante a reconstituição de um crime. O outro, um pai de família, dono de um hotel, cuja vida familiar lhe soa desoladora, vazia. Nilthamrong demonstra obsessão especial por planos nebulosos, o reflexo da luz sob o vidro do carro, objetos que atrapalhem a visão completa do espectador, ou a distância do plano geral que não nos permite entrar nos permonores das cenas. De resto, o filme constitui um conjunto de imagens evasivas, marcando o vazio existencial e o desgosto pela vida de ambos os personagens. Há subjetividade e exorcismos demasiado pessoais. Nilthamrong não se coloca capaz de dialogar com seu público, primeira ele precisava trabalhar suas questões para então criar de sua linguagem narrativa que flerta co a ousadia, um caminho rumo a um cinema autoral.

Pai e Filhos

paiefilhosFu Yu Zi / Father and Sons (2014 – CHI) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

No cinema, o pouco pode se tornar extremamente radical. Assim se coloca o cinema do chinês Wang Bing, poucos e longos planos, causando pela insistência esse recado de radicalidade. Num cubículo de uns 4 m2, esburacado, de terra batida, com um tatame sob blocos como cama, é o local onde dois adolescentes passam o dia entre a tv e os smartfones. O pai trabalha numa pedreira e chega ao final do dia, praticamente para colocar um ponto final e apagar as luzes.

Por mais de 80 minutos, o filme mantém-se fiel, num mesmo enquadramento, oferece a monotomia como arma exasperante a rotina familiar desumana. Alguns cachorros entram e saem do campo, e um (ou dois) dos garotos lá, envoltos num edredom vermelho, com a tv ligada. Aim, poderia ser um curta, mas é exatamente na longevidade da duração que Wang Bing demonstra melhor o aburdo questionador da despreocupação alheia com situação tão caótica.

Uma Noticia Inesperada

A117_C002_0418MHObvious Child (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Outro exemplar cheio de cacoetes do cinema indie americano. Comportamentos que geram estranheza, humor dramático, adultos infantilizados e losers, além de trilha sonora fofa. A revitalização de estilo do cinema nascido em Sundance é urgente, parece que o festival se tornou uma f’abrica de produção em série de filmes dentro dessa cartilha única.

Estreia na direção de Gilliam Robespierre, o filme é essa fofurinha de com’edia romântica torta, com sua protagonista torta (Jenny Slate) que chora pelo “pé na bunda” que tomou, e afeta diretamente suas apresenta’coes de stand-up, enquanto não sabe como agir quando surge um novo pretendente em sua vida.

Casa Grande

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Casa Grande (2014)  estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Em seu primeiro longa de ficção, o diretor Fellipe Barbosa pega emprestado a crise financeira vivida por sua própria família (conforme suas afirmações em entrevistas) para traçar assim dois paralelos: a crise da classe média alta carioca, e a discussão sobre o sistema de cotas nas universidades federais. A cena inicial, tecnicamente bem construída na sincronização de som e imagem, tem um plano geral do quintal da casa (grande), onde o pai (Marcelo Novaes) faz a ronda de apagar as luzes de todos os cômodos. É exemplo do quanto a câmera tenta sempre alcançar distanciamento particular, mesmo com toda a carga autobiográfica da história.

Finanças e política correm como pano de fundo. No centro, o personagem do adolescente Jean (Thales Cavalcanti), em vias de prestar vestibular, enquanto vive sob a rígida proteção paterna nessa fase de libertação, de inquietude sexual. Seus comportamentos variam entre os encontros inocentemente apimentandos com a empregada da casa, o namoro com a garota que conheceu no ônibus, a amizade com os colegas de classe e o discurso que tantas vezes repete o do pai, mesmo que ele tenha comportamentos diferentes que não ficam tão claros até o inevitável confronto.

O filme sabe muito bem olhar para o mundo da classe média alta, entender e desenvolver os personagens ricos, retratar este mundo e criticá-lo didaticamente (exemplo do jornal com a manchete sobre Eike Batista, referência desnecessariamente didática). Os mais pobres acabam abordados com afago, e só. Além disso, a necessidade do roteiro de problematizar tudo, como a cena que repete o drama do filme Chamada a Cobrar, ou a discussão acalorada no churrasco. Ao tentar exibir a arrogância da elite e o discurso de justiça racial, o filme funciona bem melhor em sua rigidez estética do que quando tenta impor esse discurso condescente com a crise institucional brasileira.

Algo a Romper

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Nånting måste gå sönder / Something Must Break (2014 – SUE) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Andrógino se apaixona por bad boy. Simples assim? A vida nunca é simples assim. Em poucas cenas fica clara a angústia de libertação de Sebastian (Saga Becker), a necessidade transexual, e os esforços para manter “a linha” em ambientes de trabalho. Por meio de detalhes, da simplicidade da câmera, da proximidade de Sebastian, é que a cineasta Ester Martin Bergsmark capta essa urgência de finalmente assumir riscos, assumir quem é.

Surge Andreas (Iggy Malmborg), jaqueta de couro, estilo. Uma noite, bate-papo, atração de um lado, do outro, não fica muito claro, talvez uma conexão apenas. Quando o filme parte para um relacionamento entre eles, envolvendo dramas, a dúvida da homossexualidade, e outras questões, este lado mais sensível perde o foco central. É uma pena, por mais que o filme consiga estabelecer-se numa postura distante de pré-conceitos, tornando-se o drama de duas pessoas, que se gostam, que tem seus problemas privados e em casal. Premiado no penúltimo Festival de Rotterdam, prima pela sensibilidade, por trabalhar os corpos (afinal, um personagem transexual tem no corpo um dilema) e principalmente por esse distanciamento de questões tabus.

Anatomia de um Clipe de papel

anatomiadeumclipedepapelYamamori Clip Koujo No Atari (2014 – JAP)  estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A proposta do cineasta Ikeda Akira é lúdica, prima pelo surreal, e tenta mirar nas tradições e costumes de sua cultura. A história é narrada através do trabalho, praticamente escravo, numa garagem improvisada como fábrica de clipes de papel. Os funcionários são maltratados e humilhados pelo gerente, todos apáticos aceitam calados. O filme segue o cotidiano de Kogure, seu comportamento passivo é comprovado em outros lugares de frequenta (na praça com um flerte, no restaurante, a dupla de marginais que lhe até as roupas).

Eis que surge uma borboleta, que entra em sua casa e se torna uma mulher. Ela fala uma língua estranha e passa a morar com ele. Por trás do lirismo dessa transformação borboleta-mulher, Akira se apega a uma narrativa por demais enfatilizada. A escassez de diálogos e repetição de cenários servem para intensificar a mecanização da vida cotidiana, mas representam pouco ao filme. Muita artificialidade nos comportamentos e ações, as evidências da cultura acabam quebradas por essa necessidade de passividade que vai além do minimamente humano.