Uma Espécie de Familia

Una Especie de Familia (2017 – ARG) 

Adotar um bebê recém-nascido não é prática tão incomum na América do Sul, por mais ilegal que a prática seja. O argentino Diego Lerman eleva um desses casos as últimas consequências, com personagens desesperados, outros aproveitadores, e outras situações que apenas aumentam a possibilidade de desequilíbrio numa situação-limite.

É realmente interessante a discussão, os dilemas morais e a dor da separação da mãe biológica são questões discutíveis, mas Lerman prefere o exagero, opta por colocar sua protagonista cada vez mais desesperada e isolada (marido viajante, chantageada, acidente de carro), um pouco de mais para uma familia que está prestes a adotar um bebe, e portanto dar uma guinada total em sua rotina. Por outro lado, é um cinema de fácil conexão co o público, com temas populares e factíveis.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Roteiro

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Pororoca

Pororoca (2017 – ROM) 

É outro típico exemplar do cinema romeno, desde as tendências estéticas de longos e temas densos e humanos, a até a forma com que se estabelece os diálogos com agentes da polícia. No filme de Constantin Popescu, a crise familiar se estabelece com o desaparecimento inexplicado, em um parque, de um dos filhos do casal, enquanto as crianças passeavam com o pai.

Pororoca é o fenômeno do encontro violento das águas do mar e do rio. Corre a investigação enquanto os pais tentam sobreviver à realidade desesperadora da ausência. Se equilibrar entre as buscas e a dor da perda, a responsabilidade e a culpa, o casamento dilacerado e até a proximidade com a loucura. Popescu filma toda a dureza da situação com uma câmera vigilante aos pequenos detalhes que indicam o natural afastamento do casal e da realidade com que viviam até culminar no final apoteótico num longo plano-sequencia de sentimentos desaflorando versus a inércia da própria vida.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator

Lady Macbeth

Lady Macbeth (2016 – RU) 

Destaque da competição do Festival de San Sebastian em 2016, marca a estreia como diretor de longa-metragens do britânico Wiliam Oldroyd, de carreira mais destacada no teatro. Trata-se da adaptação do livro clássico de Nikolai Leskov, uma visão totalmente focada em sua protagonista, claramente (e declaradamente em entrevistas) uma opção para caber dentro do baixo orçamento.

Sua relação com o teatro é facilmente notada, seus planos são rigorosos, mas há uma linha imaginária que separa o público do set, delimitando o espaço e profundidade. Nesse “tablado”, quase todo filmado dentro da casa onde a jovem, tão cheia de vida, se enche de tédio, num casamento arranjado. Quase uma esposa transformada em prisioneira, tão jovem, com seus vestidos vistosos, apaixona-se durante a ausência do marido.

Amor obsessivo, despreocupação com aparências, a jovem vai acima dos limites para manter sua felicidade, mesmo que isso resulte em assassinato. Oldroyd pode não dialogar tanto com o público, mas é austero em sua forma de mostar uma mulher que vai do explosivo à calculista, abandonando as barreiras do bom-senso, ainda que se possa questionar algumas opções do roteiro. Tanto vigor emocional fica preso pela fixação do diretor de ter tudo sob seu controle visual, onde as explosões de emoção parecem contidas dentro de sua direção rigorosa.

Nocturama

Nocturama (2016 – FRA) 

O cinema de Bertrand Bonello não é para deixar ninguém indiferente. Esperado para ser exibido em Cannes, acabou na competição em San Sebastian, e segundo os rumores seria pelo receio das cicatrizes do tema dentro da França. Trata de um grupo de jovens executando atentados terroristas simultâneos em Paris. Portanto, é compreensível a posição do festival, por outro lado, não é filme para se perder de vista.

A primeira parte é silenciosa e com edição bem ágil, mostra os integrantes do grupo se encontrando nos locais planejados e executando os atentados, como num filme de assalto.Frios, determinados, o jogo de edição do filme de Bonello remete ao clima de expectativa e adrenalina entre eles. Com a cidade empolvorosa e alguns prédios em chamas, todos se escondem numa loja de departamentos, completamente vazia pela madrugada. Ali o clima muda, ganhamos alguns flashbacks dos dias anteriores ao atentado, os encontros planejando o dia do ataque, descobrimos as motivações daquela garotada.

Ou melhor, Bonello reduz os executores ao vazio político de suas ideologias, um reflexo profundo de uma geração alienada e acostumada a ter o mundo em suas mãos através do joystick de seus videogames. As horas de insegurança com o passar do tempo entre diferentes seções vazias daquela loja enorme, são tão desesperadoras e silenciosas que ecoam como gritos dentro daquelas mentes perversas e irresponsáveis. É verdade que como um todo, o filme de Bonello peca por manter do início ao fim essa linha narrativa do vazio, mesmo que o tipo de tensão mude drasticamente até o desfecho de cada um dos terroristas juvenis.

American Pastoral

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American Pastoral (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O ator escocês, com eterna cara de bom moço, estréia como diretor adaptando o denso livro homônimo de Philiph Roth com conteúdo político tão americano. A escolha é das mais ousadas, afinal o contexto envolve protestos contra Guerra do Vietña, Black Powers, e todo o aspecto político da sociedade americana da década de 60-70.

A missão era complicadíssima, e Ewan McGregor opta por um estilo cinematográfico bem acadêmico, que muito lembra o cinema dos anos 50, o american way of life. Adapta os fatos, em cena temos a total desconstrução da família burguesa perfeita, mas são apenas os fatos, nem sinal das reflexões que McGregor sonhava transpor do livro. No Festival de San Sebastián, McGregor afirmou que queria contar não só a história de uma família, mas de toda a América, no script era o que devia ser feito.

O foco é o pai de família (o próprio McGregor, sempre um ator esforçado), atleta exemplo na universidade, que assume os promissores negócios do pai, se casa com uma candidata a Miss New Jersey e vive numa casa de campo com a filha (Dakota Fanning quando adulta). Os problemas internos surgem quando a gagueira da filha é diagnosticada como possível ciumes da atenção do pai a mãe tão linda (Jennifer Connelly), e vai parar na filha na clandestinidade como terrorista. O pai é o exemplo de postura, amor à família, e perfeição burguesa no trato com os empregados e assim McGregor tenta resumir anos tão libertários e conflituosos de toda uma nação tão heterogênea e inquieta.

Yourself and Yours

yourselfandyoursDangsinjasingwa dangsinui geot / Yourself and Yours (2016 – COR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo filme de Hong Sang-soo, presente na última edição do Festival de San Sebastián e escolhido melhor direção na mostra principal) traz uma das obsessões do cineasta para tema central da trama. Seus personagens continuam se encontrando em restaurantes e bebendo Soju enquanto falam da vida e vivem encontros e desencontros amorosos. Só que, dessa vez, o álcool também é um problema particular, a ponto de um casal de namorados discutir, impor limites a quantidade que ela poderia consumir, e até colocar fim ao relacionamento pelos excessos.

Sang-soo começa a brincadeira quando não sabemos bem se a personagem central tem uma irmã gêmea, sofre de amnésia alcoólica, ou simplesmente é dissimulada. E o filme brinca com essa possibilidades enquanto a moça encontra diferentes homens no bar, afirma não conhece-los, causa paixões e irritações. É um argumento meio ingênuo, mas não deixa de manter o ritmo prazeroso dos diálogos de seus filmes e desenvolver situações cômica, românticas ou dramáticas. Enquanto isso, o ex-namorado vive o sofrimento da perda, até o reencontro e acerto de contas, numa da cenas finais mais simples e bonitas do cinema de Sang-soo.

Elle

Primeiro post de uma série de filmes vistos no Festival de San Sebastián que foi encerrado ontem.

elleElle (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Com tela escura, a cena inicial dá indícios de violência contra uma mulher. O que Paul Verhoeven e Isabelle Huppert fazem a seguir é construir essa personagem, com riqueza de detalhes e nuances que a tornam única e fascinante. Além, de um jogo do público, testando os limites da inquietude e da libertação feminina dos estereótipos que tão bem conhecemos.

Por isso, com o forte movimento de clamor feminino dos tempos atuais, o filme de Verhoeven não poderia chegar em melhor hora. Michelle (Huppert) e Anna (Anne Consigny) são sócias de uma empresa que desenvolve videogames, duas mulheres entre os 50 e 60 anos, com vida sexual e social ativa e trabalhando neste ramo já é a primeira quebra de qualquer paradigma. Enquanto descobrimos mais de Michelle ao testemunharmos seus relacionamentos com o filho, a mãe, o ex-marido, os vizinhos e etc, surge um passado familiar nebuloso que  lhe afasta de delatar à polícia o estupro.

Por meio de uma trilha sonora precisa e de uma sofisticação narrativa absurda, a dupla Verhoeven-Huppert constrói relações, fragilidades e fortalezas dessa mulher ainda mais inquietante que a própria trama de saber qual a identidade do violentador. O ato de violência se torna, apenas, mais um ponto crucial da vida de Michelle. Ela é mais o todo que a cerca, e suas respostas a cada um, do que uma frágil e indefesa presa fácil de um violento perseguidor anônimo. Michelle representa a mulher moderna, talvez menos sentimental do que seja possível, ou talvez mais calejada do que qualquer uma para enfrentar seus tramas e criar a autodefesa necessária para não se abater, e essas armas escondem as fragilidades, mas principalmente intimidam a maioria. Sexo, a influência católica, o mundo da tecnologia, uma nova concepção de liberdade e familia moderna, Elle é um estudo intrigante do que seria um encontro de Caché e Claude Chabrol.