Posts com Tag ‘Festival de San Sebastian’

Patrick (2019 – POR)

“- Do que você tinha mais saudade? Da língua”. Reproduzido um pequeno diálogo, já na reta final do filme, que não dá nenhum spoiler da história, mas me pareceu bem representativo da odisseia do personagem. Reconduzido a Portugal, apos ser raptado, levado à França, e abusado sexualmente, ainda garoto, Patrick só é identificado por molestar uma mulher.

Molestado quando garoto e agora sai de controle em prol de seus ímpetos sexuais. Talvez alimentado pelo meio em que viveu, talvez por ter aprendido na pele que esse comportamento é normal, o fato é que o jovem é reconduzido à casa dos pais e surge a difícil, quiçá impossível, tarefa, de todos os familiares, em readaptar. O estreante Gonçalo Waddington até envereda por algum tipo de respostas no final, mas até lá nos entrega um filme de silêncios, de impulsividade, de amargura, nunca de arrependimentos.

Blind Spot

Publicado: janeiro 7, 2019 em Cinema
Tags:,

Blindsone / Blind Spot (2018 – NOR) 

O filme de Tuva Novotny foi sensação no recém encerrado Festival de San Sebástian. Todo gravado num único plano-sequencia, começa acompanhando uma adolescente saindo do treino de handball e voltando para casa com a família. Um incidente, hospital, pais enlouquecidos. Enquanto acompanhamos a reação e o desespero, e alguns fatos surgem para explicar mais sobre os personagens, os médicos operam a paciente.

É mais uma tentativa interessante desse cinema real-time, de acompanhar os acontecimentos dos fatos sem elipses, minuto a minuto. O enfermeiro que tenta acalmar a familia, os médicos trazendo boletins e o drama pessoal de uma família norueguesa comum, enfrentando seus dilemas. Por outro lado, é outro típico produto que chama mais atenção pelo cuidado técnico em fazer acontecer num único plano-sequencia, alguns vão achar desnecessário, outros interessados nessa capacidade de dar dinamismo, sem cortes.


Festival: San Sebastian 2018

Mostra: Competição

Rojo (2018 – ARG) 

Benjamin Naishtat surge como um cinema bem interessante dentro da cena argentina, por mais que seus dois trabalhos anteriores empolgavam mais na proposta do que no resultado final. Bem Perto de Buenos Aires e O Movimento, flertava com a atmosfera de terror ou do western, sempre dentro de uma marca bastante autoral. Segue com esse cinema diferente aqui, dessa vez em ritmo de thriller, nos oferece duas primeiras cenas curiosas. Na primeira, a porta de um casa e um entra e sai de vizinhos, móveis carregados, algo muito estranho. Na seguinte, uma briga, inusitada, num restaurante.

Esses dois momentos quase parecem não convergir com o restante da história, em grande parte da narrativa, até finalmente serem reincorparadas. Até lá estamos seguindo a rotina de um advogado de uma pequena cidade argentina, já sabendo o que se passou e o que ele carrega de segredo. Naishtat preocupa-se muito com a atmosfera de mistério quando um investigador chega a cidade para descobrir o paradeiro do outro envolvido na briga no restaurante.

Aonde toda essa atmosfera vai nos levar que é bastante questionável, a estranheza do embate entre investigador e advogado nos leva a uma festa ou ao deserto, em reações descontrolados na praia. Mas, Naishtat não parece saber, tão bem, o que fazer com tal atmosfera. A parte final não quer ser onírica, mas te um quê, e o resultado final é um avanço em sua carreira.


Festival: San Sebastián 2018

Mostra: Competição

Julia e a Raposa (Julia y El Zorro, 2018 – ARG) 

Tarde para Morrer Jovem (Tarde Demais para Morir Joven / Too Late to Die Young, 2018 – CHL) 

A principal semelhança entre os filmes é a trajetória das cineastas jovens, ambas já realizaram curtas e seu longa de estreia e aqui flertam, de alguma forma com o bucólico, mesmo que de forma distintas. Inés María Barrionuevo nos leva a região de Córdoba, na chegada de atriz e sua filha a uma casa quase abandonada, que pertencia ao marido recém-falecido. Na cas dos quarenta anos, a mãe vive uma crise generalizada, carreira, solidão, e até a demonstração de imaturadidade em criar uma criança. Prefere ainda a irresponsabilidade de um esprírito livre. As primeiras cenas na casa lembram O Pântano (Lucrécia Martel), mas o filme segue outros caminhos, um amigo da mãe vem passar alguns dias na casa, e discretamente permite a desestabilização completa dessa relação torta que parecia não coexistir bem.

Já Dominga Sotomayor traz uma comunidade que preferiu largar Santiago e viver no campo, quase uma comunidade hippie (mas nem tanto). O foco ali são três adolescentes, idades diferentes, num coming-of-age a cineasta flerta com o fim da ditadura militar chilena, mas está mesmo interessada nas desventuras amorosas, na puberdade, e questões da idade. Mas, o destaque principal não está na trama, e sim na maneira com que a diretora filme pessoas x natureza, ainda que um local que nem seja de uma beleza ímpar, Sotomayor demonstra destreza em escapar do óbvio e buscar nessa relação com o bucólico, e até na questão de viver em comunidade, mas ter sua individualidade, um desafio curioso para um cineasta. Pena que a trama vá escapando de suas mãos, e a conclusão de que de forma em que a busca pelo poético não dialogue com o estado de espírito de seus personagens.

Ejercicio de Memoria (2016 – PAR) 

E a cineasta paraguaia Paz Encina acertou novamente. Através de imagens quase oníricas ou abstratas, que refazem as lembranças de criança de três irmãos, através dos depoimentos de suas memórias, o documentário resgata a época do desaparecimento de Agustín Goiburú durante seu exílio na Argentina. Maior adversário político da ditadura de Alfredo Stroessner, seu corpo ou pistas do paradeiro jamais foram encontrados desde deixou de ser visto em 1976.

É um filme em que Encina segue pregando o distanciamento, a preocupação em permitir que a narrativa transcorra através de fluxos, dessa sensação de que a memória é quem conduz o todo. Foge de um discurso inflamado para conquistar através do singelo, num envolvente exercício de memória que dá novos significados ao já tão combalido, pelo cinema, temas das ditaduras militares sul-americanas.

The Disaster Artist (2017 – EUA) 

James Franco é uma figura frenética no mundo da arte, despontou no Homem-Aranha, mas desde então dirigiu muitos filmes, além de ser um costumeiro arroz-de-festa em eventos artísticos.Como cineasta, figura presente nos Festivais, ainda que seus filmes passem desapercebidos ou recebam críticas desagradáveis (até Faulkner ele já adaptou). Eis que seu novo filme não só participou da Competição em San Sebastian, como levou o prêmio de Melhor Filme.

E talvez seja seu trabalho mais sincero, aquele que combina com a persona de Franco. A biografia de Tommy Wiseau, um dos candidatos a pior cineasta da história do cinema. The Room é seu filme mais célebre, e com o tempo se tornou cultuado num nicho que se diverte com um cinema mais trash. Franco e seu irmão interpretando Wiseau e seu grande amigo, em todo o processo de tentar a carreira no cinema em Los Angeles. Não deixa de ser um Ed Wood, com um outro retratado. Por outro lado, além da sacada de trazer à tona esse sujeito tão “lunático”, pouco resta a não ser a imitação de alguém que já é uma caricatura ambulante. É divertido, mas é apenas uma cópia, uma simples repetição de gestos (e os créditos finais teimam em confirmar isso).

Wo Bu Shi Pan Jinlian / I Am Not Madame Bovary (2016 – CHI) 

A trama sobre a teimosia de uma mulher em lutar pelo que é certo, judicialmente, ganha contornos mais interessantes quando o conceito cultural chinês da Pan Jinlian (uma espécie de Madame Bovary) é colocado na história. Honra em jogo, que a elegância das inúmeras cenas em que o quadro em forma de círculo potencializa (sim ao invés da tela retangular, ela é circular). Pena que o diretor Feng Xiangang não consiga desenvolver muito além disso, e s duas horas de filme se calcam nesses dois pontos enquanto anos e anos se passam de um impasse impressionante.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor Filme e Melhor Atriz