Vermelho Sol

Rojo (2018 – ARG) 

Benjamin Naishtat surge como um cinema bem interessante dentro da cena argentina, por mais que seus dois trabalhos anteriores empolgavam mais na proposta do que no resultado final. Bem Perto de Buenos Aires e O Movimento, flertava com a atmosfera de terror ou do western, sempre dentro de uma marca bastante autoral. Segue com esse cinema diferente aqui, dessa vez em ritmo de thriller, nos oferece duas primeiras cenas curiosas. Na primeira, a porta de um casa e um entra e sai de vizinhos, móveis carregados, algo muito estranho. Na seguinte, uma briga, inusitada, num restaurante.

Esses dois momentos quase parecem não convergir com o restante da história, em grande parte da narrativa, até finalmente serem reincorparadas. Até lá estamos seguindo a rotina de um advogado de uma pequena cidade argentina, já sabendo o que se passou e o que ele carrega de segredo. Naishtat preocupa-se muito com a atmosfera de mistério quando um investigador chega a cidade para descobrir o paradeiro do outro envolvido na briga no restaurante.

Aonde toda essa atmosfera vai nos levar que é bastante questionável, a estranheza do embate entre investigador e advogado nos leva a uma festa ou ao deserto, em reações descontrolados na praia. Mas, Naishtat não parece saber, tão bem, o que fazer com tal atmosfera. A parte final não quer ser onírica, mas te um quê, e o resultado final é um avanço em sua carreira.


Festival: San Sebastián 2018

Mostra: Competição

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Julia e a Raposa | Tarde para Morrer Jovem

Julia e a Raposa (Julia y El Zorro, 2018 – ARG) 

Tarde para Morrer Jovem (Tarde Demais para Morir Joven / Too Late to Die Young, 2018 – CHL) 

A principal semelhança entre os filmes é a trajetória das cineastas jovens, ambas já realizaram curtas e seu longa de estreia e aqui flertam, de alguma forma com o bucólico, mesmo que de forma distintas. Inés María Barrionuevo nos leva a região de Córdoba, na chegada de atriz e sua filha a uma casa quase abandonada, que pertencia ao marido recém-falecido. Na cas dos quarenta anos, a mãe vive uma crise generalizada, carreira, solidão, e até a demonstração de imaturadidade em criar uma criança. Prefere ainda a irresponsabilidade de um esprírito livre. As primeiras cenas na casa lembram O Pântano (Lucrécia Martel), mas o filme segue outros caminhos, um amigo da mãe vem passar alguns dias na casa, e discretamente permite a desestabilização completa dessa relação torta que parecia não coexistir bem.

Já Dominga Sotomayor traz uma comunidade que preferiu largar Santiago e viver no campo, quase uma comunidade hippie (mas nem tanto). O foco ali são três adolescentes, idades diferentes, num coming-of-age a cineasta flerta com o fim da ditadura militar chilena, mas está mesmo interessada nas desventuras amorosas, na puberdade, e questões da idade. Mas, o destaque principal não está na trama, e sim na maneira com que a diretora filme pessoas x natureza, ainda que um local que nem seja de uma beleza ímpar, Sotomayor demonstra destreza em escapar do óbvio e buscar nessa relação com o bucólico, e até na questão de viver em comunidade, mas ter sua individualidade, um desafio curioso para um cineasta. Pena que a trama vá escapando de suas mãos, e a conclusão de que de forma em que a busca pelo poético não dialogue com o estado de espírito de seus personagens.

Exercícios de Memória

Ejercicio de Memoria (2016 – PAR) 

E a cineasta paraguaia Paz Encina acertou novamente. Através de imagens quase oníricas ou abstratas, que refazem as lembranças de criança de três irmãos, através dos depoimentos de suas memórias, o documentário resgata a época do desaparecimento de Agustín Goiburú durante seu exílio na Argentina. Maior adversário político da ditadura de Alfredo Stroessner, seu corpo ou pistas do paradeiro jamais foram encontrados desde deixou de ser visto em 1976.

É um filme em que Encina segue pregando o distanciamento, a preocupação em permitir que a narrativa transcorra através de fluxos, dessa sensação de que a memória é quem conduz o todo. Foge de um discurso inflamado para conquistar através do singelo, num envolvente exercício de memória que dá novos significados ao já tão combalido, pelo cinema, temas das ditaduras militares sul-americanas.

Artista do Desastre

The Disaster Artist (2017 – EUA) 

James Franco é uma figura frenética no mundo da arte, despontou no Homem-Aranha, mas desde então dirigiu muitos filmes, além de ser um costumeiro arroz-de-festa em eventos artísticos.Como cineasta, figura presente nos Festivais, ainda que seus filmes passem desapercebidos ou recebam críticas desagradáveis (até Faulkner ele já adaptou). Eis que seu novo filme não só participou da Competição em San Sebastian, como levou o prêmio de Melhor Filme.

E talvez seja seu trabalho mais sincero, aquele que combina com a persona de Franco. A biografia de Tommy Wiseau, um dos candidatos a pior cineasta da história do cinema. The Room é seu filme mais célebre, e com o tempo se tornou cultuado num nicho que se diverte com um cinema mais trash. Franco e seu irmão interpretando Wiseau e seu grande amigo, em todo o processo de tentar a carreira no cinema em Los Angeles. Não deixa de ser um Ed Wood, com um outro retratado. Por outro lado, além da sacada de trazer à tona esse sujeito tão “lunático”, pouco resta a não ser a imitação de alguém que já é uma caricatura ambulante. É divertido, mas é apenas uma cópia, uma simples repetição de gestos (e os créditos finais teimam em confirmar isso).

Eu Não Sou Madame Bovary

Wo Bu Shi Pan Jinlian / I Am Not Madame Bovary (2016 – CHI) 

A trama sobre a teimosia de uma mulher em lutar pelo que é certo, judicialmente, ganha contornos mais interessantes quando o conceito cultural chinês da Pan Jinlian (uma espécie de Madame Bovary) é colocado na história. Honra em jogo, que a elegância das inúmeras cenas em que o quadro em forma de círculo potencializa (sim ao invés da tela retangular, ela é circular). Pena que o diretor Feng Xiangang não consiga desenvolver muito além disso, e s duas horas de filme se calcam nesses dois pontos enquanto anos e anos se passam de um impasse impressionante.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor Filme e Melhor Atriz

Uma Espécie de Familia

Una Especie de Familia (2017 – ARG) 

Adotar um bebê recém-nascido não é prática tão incomum na América do Sul, por mais ilegal que a prática seja. O argentino Diego Lerman eleva um desses casos as últimas consequências, com personagens desesperados, outros aproveitadores, e outras situações que apenas aumentam a possibilidade de desequilíbrio numa situação-limite.

É realmente interessante a discussão, os dilemas morais e a dor da separação da mãe biológica são questões discutíveis, mas Lerman prefere o exagero, opta por colocar sua protagonista cada vez mais desesperada e isolada (marido viajante, chantageada, acidente de carro), um pouco de mais para uma familia que está prestes a adotar um bebe, e portanto dar uma guinada total em sua rotina. Por outro lado, é um cinema de fácil conexão co o público, com temas populares e factíveis.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Roteiro

Pororoca

Pororoca (2017 – ROM) 

É outro típico exemplar do cinema romeno, desde as tendências estéticas de longos e temas densos e humanos, a até a forma com que se estabelece os diálogos com agentes da polícia. No filme de Constantin Popescu, a crise familiar se estabelece com o desaparecimento inexplicado, em um parque, de um dos filhos do casal, enquanto as crianças passeavam com o pai.

Pororoca é o fenômeno do encontro violento das águas do mar e do rio. Corre a investigação enquanto os pais tentam sobreviver à realidade desesperadora da ausência. Se equilibrar entre as buscas e a dor da perda, a responsabilidade e a culpa, o casamento dilacerado e até a proximidade com a loucura. Popescu filma toda a dureza da situação com uma câmera vigilante aos pequenos detalhes que indicam o natural afastamento do casal e da realidade com que viviam até culminar no final apoteótico num longo plano-sequencia de sentimentos desaflorando versus a inércia da própria vida.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator