Exercícios de Memória

Ejercicio de Memoria (2016 – PAR) 

E a cineasta paraguaia Paz Encina acertou novamente. Através de imagens quase oníricas ou abstratas, que refazem as lembranças de criança de três irmãos, através dos depoimentos de suas memórias, o documentário resgata a época do desaparecimento de Agustín Goiburú durante seu exílio na Argentina. Maior adversário político da ditadura de Alfredo Stroessner, seu corpo ou pistas do paradeiro jamais foram encontrados desde deixou de ser visto em 1976.

É um filme em que Encina segue pregando o distanciamento, a preocupação em permitir que a narrativa transcorra através de fluxos, dessa sensação de que a memória é quem conduz o todo. Foge de um discurso inflamado para conquistar através do singelo, num envolvente exercício de memória que dá novos significados ao já tão combalido, pelo cinema, temas das ditaduras militares sul-americanas.

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Artista do Desastre

The Disaster Artist (2017 – EUA) 

James Franco é uma figura frenética no mundo da arte, despontou no Homem-Aranha, mas desde então dirigiu muitos filmes, além de ser um costumeiro arroz-de-festa em eventos artísticos.Como cineasta, figura presente nos Festivais, ainda que seus filmes passem desapercebidos ou recebam críticas desagradáveis (até Faulkner ele já adaptou). Eis que seu novo filme não só participou da Competição em San Sebastian, como levou o prêmio de Melhor Filme.

E talvez seja seu trabalho mais sincero, aquele que combina com a persona de Franco. A biografia de Tommy Wiseau, um dos candidatos a pior cineasta da história do cinema. The Room é seu filme mais célebre, e com o tempo se tornou cultuado num nicho que se diverte com um cinema mais trash. Franco e seu irmão interpretando Wiseau e seu grande amigo, em todo o processo de tentar a carreira no cinema em Los Angeles. Não deixa de ser um Ed Wood, com um outro retratado. Por outro lado, além da sacada de trazer à tona esse sujeito tão “lunático”, pouco resta a não ser a imitação de alguém que já é uma caricatura ambulante. É divertido, mas é apenas uma cópia, uma simples repetição de gestos (e os créditos finais teimam em confirmar isso).

Eu Não Sou Madame Bovary

Wo Bu Shi Pan Jinlian / I Am Not Madame Bovary (2016 – CHI) 

A trama sobre a teimosia de uma mulher em lutar pelo que é certo, judicialmente, ganha contornos mais interessantes quando o conceito cultural chinês da Pan Jinlian (uma espécie de Madame Bovary) é colocado na história. Honra em jogo, que a elegância das inúmeras cenas em que o quadro em forma de círculo potencializa (sim ao invés da tela retangular, ela é circular). Pena que o diretor Feng Xiangang não consiga desenvolver muito além disso, e s duas horas de filme se calcam nesses dois pontos enquanto anos e anos se passam de um impasse impressionante.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor Filme e Melhor Atriz

Uma Espécie de Familia

Una Especie de Familia (2017 – ARG) 

Adotar um bebê recém-nascido não é prática tão incomum na América do Sul, por mais ilegal que a prática seja. O argentino Diego Lerman eleva um desses casos as últimas consequências, com personagens desesperados, outros aproveitadores, e outras situações que apenas aumentam a possibilidade de desequilíbrio numa situação-limite.

É realmente interessante a discussão, os dilemas morais e a dor da separação da mãe biológica são questões discutíveis, mas Lerman prefere o exagero, opta por colocar sua protagonista cada vez mais desesperada e isolada (marido viajante, chantageada, acidente de carro), um pouco de mais para uma familia que está prestes a adotar um bebe, e portanto dar uma guinada total em sua rotina. Por outro lado, é um cinema de fácil conexão co o público, com temas populares e factíveis.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Roteiro

Pororoca

Pororoca (2017 – ROM) 

É outro típico exemplar do cinema romeno, desde as tendências estéticas de longos e temas densos e humanos, a até a forma com que se estabelece os diálogos com agentes da polícia. No filme de Constantin Popescu, a crise familiar se estabelece com o desaparecimento inexplicado, em um parque, de um dos filhos do casal, enquanto as crianças passeavam com o pai.

Pororoca é o fenômeno do encontro violento das águas do mar e do rio. Corre a investigação enquanto os pais tentam sobreviver à realidade desesperadora da ausência. Se equilibrar entre as buscas e a dor da perda, a responsabilidade e a culpa, o casamento dilacerado e até a proximidade com a loucura. Popescu filma toda a dureza da situação com uma câmera vigilante aos pequenos detalhes que indicam o natural afastamento do casal e da realidade com que viviam até culminar no final apoteótico num longo plano-sequencia de sentimentos desaflorando versus a inércia da própria vida.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator

Lady Macbeth

Lady Macbeth (2016 – RU) 

Destaque da competição do Festival de San Sebastian em 2016, marca a estreia como diretor de longa-metragens do britânico Wiliam Oldroyd, de carreira mais destacada no teatro. Trata-se da adaptação do livro clássico de Nikolai Leskov, uma visão totalmente focada em sua protagonista, claramente (e declaradamente em entrevistas) uma opção para caber dentro do baixo orçamento.

Sua relação com o teatro é facilmente notada, seus planos são rigorosos, mas há uma linha imaginária que separa o público do set, delimitando o espaço e profundidade. Nesse “tablado”, quase todo filmado dentro da casa onde a jovem, tão cheia de vida, se enche de tédio, num casamento arranjado. Quase uma esposa transformada em prisioneira, tão jovem, com seus vestidos vistosos, apaixona-se durante a ausência do marido.

Amor obsessivo, despreocupação com aparências, a jovem vai acima dos limites para manter sua felicidade, mesmo que isso resulte em assassinato. Oldroyd pode não dialogar tanto com o público, mas é austero em sua forma de mostar uma mulher que vai do explosivo à calculista, abandonando as barreiras do bom-senso, ainda que se possa questionar algumas opções do roteiro. Tanto vigor emocional fica preso pela fixação do diretor de ter tudo sob seu controle visual, onde as explosões de emoção parecem contidas dentro de sua direção rigorosa.

Nocturama

Nocturama (2016 – FRA) 

O cinema de Bertrand Bonello não é para deixar ninguém indiferente. Esperado para ser exibido em Cannes, acabou na competição em San Sebastian, e segundo os rumores seria pelo receio das cicatrizes do tema dentro da França. Trata de um grupo de jovens executando atentados terroristas simultâneos em Paris. Portanto, é compreensível a posição do festival, por outro lado, não é filme para se perder de vista.

A primeira parte é silenciosa e com edição bem ágil, mostra os integrantes do grupo se encontrando nos locais planejados e executando os atentados, como num filme de assalto.Frios, determinados, o jogo de edição do filme de Bonello remete ao clima de expectativa e adrenalina entre eles. Com a cidade empolvorosa e alguns prédios em chamas, todos se escondem numa loja de departamentos, completamente vazia pela madrugada. Ali o clima muda, ganhamos alguns flashbacks dos dias anteriores ao atentado, os encontros planejando o dia do ataque, descobrimos as motivações daquela garotada.

Ou melhor, Bonello reduz os executores ao vazio político de suas ideologias, um reflexo profundo de uma geração alienada e acostumada a ter o mundo em suas mãos através do joystick de seus videogames. As horas de insegurança com o passar do tempo entre diferentes seções vazias daquela loja enorme, são tão desesperadoras e silenciosas que ecoam como gritos dentro daquelas mentes perversas e irresponsáveis. É verdade que como um todo, o filme de Bonello peca por manter do início ao fim essa linha narrativa do vazio, mesmo que o tipo de tensão mude drasticamente até o desfecho de cada um dos terroristas juvenis.