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Nocturama

Publicado: abril 3, 2017 em Cinema
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Nocturama (2016 – FRA) 

O cinema de Bertrand Bonello não é para deixar ninguém indiferente. Esperado para ser exibido em Cannes, acabou na competição em San Sebastian, e segundo os rumores seria pelo receio das cicatrizes do tema dentro da França. Trata de um grupo de jovens executando atentados terroristas simultâneos em Paris. Portanto, é compreensível a posição do festival, por outro lado, não é filme para se perder de vista.

A primeira parte é silenciosa e com edição bem ágil, mostra os integrantes do grupo se encontrando nos locais planejados e executando os atentados, como num filme de assalto.Frios, determinados, o jogo de edição do filme de Bonello remete ao clima de expectativa e adrenalina entre eles. Com a cidade empolvorosa e alguns prédios em chamas, todos se escondem numa loja de departamentos, completamente vazia pela madrugada. Ali o clima muda, ganhamos alguns flashbacks dos dias anteriores ao atentado, os encontros planejando o dia do ataque, descobrimos as motivações daquela garotada.

Ou melhor, Bonello reduz os executores ao vazio político de suas ideologias, um reflexo profundo de uma geração alienada e acostumada a ter o mundo em suas mãos através do joystick de seus videogames. As horas de insegurança com o passar do tempo entre diferentes seções vazias daquela loja enorme, são tão desesperadoras e silenciosas que ecoam como gritos dentro daquelas mentes perversas e irresponsáveis. É verdade que como um todo, o filme de Bonello peca por manter do início ao fim essa linha narrativa do vazio, mesmo que o tipo de tensão mude drasticamente até o desfecho de cada um dos terroristas juvenis.

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American Pastoral (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O ator escocês, com eterna cara de bom moço, estréia como diretor adaptando o denso livro homônimo de Philiph Roth com conteúdo político tão americano. A escolha é das mais ousadas, afinal o contexto envolve protestos contra Guerra do Vietña, Black Powers, e todo o aspecto político da sociedade americana da década de 60-70.

A missão era complicadíssima, e Ewan McGregor opta por um estilo cinematográfico bem acadêmico, que muito lembra o cinema dos anos 50, o american way of life. Adapta os fatos, em cena temos a total desconstrução da família burguesa perfeita, mas são apenas os fatos, nem sinal das reflexões que McGregor sonhava transpor do livro. No Festival de San Sebastián, McGregor afirmou que queria contar não só a história de uma família, mas de toda a América, no script era o que devia ser feito.

O foco é o pai de família (o próprio McGregor, sempre um ator esforçado), atleta exemplo na universidade, que assume os promissores negócios do pai, se casa com uma candidata a Miss New Jersey e vive numa casa de campo com a filha (Dakota Fanning quando adulta). Os problemas internos surgem quando a gagueira da filha é diagnosticada como possível ciumes da atenção do pai a mãe tão linda (Jennifer Connelly), e vai parar na filha na clandestinidade como terrorista. O pai é o exemplo de postura, amor à família, e perfeição burguesa no trato com os empregados e assim McGregor tenta resumir anos tão libertários e conflituosos de toda uma nação tão heterogênea e inquieta.

yourselfandyoursDangsinjasingwa dangsinui geot / Yourself and Yours (2016 – COR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo filme de Hong Sang-soo, presente na última edição do Festival de San Sebastián e escolhido melhor direção na mostra principal) traz uma das obsessões do cineasta para tema central da trama. Seus personagens continuam se encontrando em restaurantes e bebendo Soju enquanto falam da vida e vivem encontros e desencontros amorosos. Só que, dessa vez, o álcool também é um problema particular, a ponto de um casal de namorados discutir, impor limites a quantidade que ela poderia consumir, e até colocar fim ao relacionamento pelos excessos.

Sang-soo começa a brincadeira quando não sabemos bem se a personagem central tem uma irmã gêmea, sofre de amnésia alcoólica, ou simplesmente é dissimulada. E o filme brinca com essa possibilidades enquanto a moça encontra diferentes homens no bar, afirma não conhece-los, causa paixões e irritações. É um argumento meio ingênuo, mas não deixa de manter o ritmo prazeroso dos diálogos de seus filmes e desenvolver situações cômica, românticas ou dramáticas. Enquanto isso, o ex-namorado vive o sofrimento da perda, até o reencontro e acerto de contas, numa da cenas finais mais simples e bonitas do cinema de Sang-soo.

Primeiro post de uma série de filmes vistos no Festival de San Sebastián que foi encerrado ontem.

elleElle (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Com tela escura, a cena inicial dá indícios de violência contra uma mulher. O que Paul Verhoeven e Isabelle Huppert fazem a seguir é construir essa personagem, com riqueza de detalhes e nuances que a tornam única e fascinante. Além, de um jogo do público, testando os limites da inquietude e da libertação feminina dos estereótipos que tão bem conhecemos.

Por isso, com o forte movimento de clamor feminino dos tempos atuais, o filme de Verhoeven não poderia chegar em melhor hora. Michelle (Huppert) e Anna (Anne Consigny) são sócias de uma empresa que desenvolve videogames, duas mulheres entre os 50 e 60 anos, com vida sexual e social ativa e trabalhando neste ramo já é a primeira quebra de qualquer paradigma. Enquanto descobrimos mais de Michelle ao testemunharmos seus relacionamentos com o filho, a mãe, o ex-marido, os vizinhos e etc, surge um passado familiar nebuloso que  lhe afasta de delatar à polícia o estupro.

Por meio de uma trilha sonora precisa e de uma sofisticação narrativa absurda, a dupla Verhoeven-Huppert constrói relações, fragilidades e fortalezas dessa mulher ainda mais inquietante que a própria trama de saber qual a identidade do violentador. O ato de violência se torna, apenas, mais um ponto crucial da vida de Michelle. Ela é mais o todo que a cerca, e suas respostas a cada um, do que uma frágil e indefesa presa fácil de um violento perseguidor anônimo. Michelle representa a mulher moderna, talvez menos sentimental do que seja possível, ou talvez mais calejada do que qualquer uma para enfrentar seus tramas e criar a autodefesa necessária para não se abater, e essas armas escondem as fragilidades, mas principalmente intimidam a maioria. Sexo, a influência católica, o mundo da tecnologia, uma nova concepção de liberdade e familia moderna, Elle é um estudo intrigante do que seria um encontro de Caché e Claude Chabrol.

trumanTruman (2015 – ESP/ARG)  estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Eis o grande vencedor da última edição dos prêmios Goya (filme, ator, ator coadjuvante e etc). Trata-se de outro filme bastante masculino do diretor Cesc Gay. O que os Homens Falam era uma comédia de costumes masculinos, bem ruim por sinal. E neste novo trabalho, Gaye repete parte da fórmula, e dois dos atores desse filme anterior (Ricardo Darín Jávier Cámara).

Eles são os dois amigos inseparáveis à procura de uma família adotiva para o cão de Julian (Darín) que está com câncer em estágio avançado. O mote das despedidas e outras crises sentimentais pessoais, ou de pessoas próximas, é bastante óbvio. É um filme carregado de melancolia, de olhares adocicados e trilha sonora tranquila, enquanto assiste a essas despedidas, pequenos acertos de contas, e comportamentos amáveis do galã de teatro que vem o fim próximo. O resultado é outro filme de pobreza cinematográfica, calcado apenas nesse contar uma história para emocionar.

pardaisSparrows (2015 – ISL) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O jovem cineasta islandês Rúnar Rúnarsson novamente ganhando destaque no mundo dos festivais. Com um curta-metragem chegou ao oscar, em seu primeiro longa-metragem, o melodramático Vulcão, despertou curiosidade e adeptos em Cannes. E logo no seguinte filme, Rúnarsson já saiu vencedor no último Festival de San Sebastian. Do sentimentalismo na terceira idade, o diretor aborda agora o despertar da adolêncencia.

O primeiro plano focalizando formas geométricas, cujo movimento de câmera desvenda ser uma igreja, oferede a falsa impressão da presença do aspecto religioso na história. Não vai além do talento de Ari (Atli Oskar Fjalarsson) em participar do coral. Os temas são outros, mais precisamente todos os clichês da adolescência. Das primeiras experiências sexuais, ao confronto familiar, a dificuldade de relacionamento em grupos, o primeiro emprego. Filho de pais separados, Ari é obrigado a morar com o pai, em sua cidade-natal, distante de tudo e de todos. Pela adaptação que Rúnarsson desenvolve os dramas de Ari e registra o ritmo de vida de uma cidade interiorana na Islândia.

Enquanto trabalha com os clichês,  Rúnarsson tenta imprimir ao protagonista uma maturidade precária. É apenas no telefonema a mãe que Ari volta a agir como uma criança imatura, de resto, resguardar-se em sua timidez ou no distanciamento que a falta de convívio com familiares e amigos da região lhe permite. É pela integridade inabalável de um gesto que o filme tenta calcar o tom de beleza, além das belas imagens da natureza do local. O gesto é bonito, oferece ao filme o tom agradável que Vulcão também tinha, mas nada que signifique o destaque exagerado pelo começo de carreira deste cineasta.

oapostataEl Apóstata (2015 – ESP) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O título faz referência a quem desej abandonar sua religião. No caso específico, Gonzalo (Álvaro Ogalla) entra com um longo processo, na Igreja Católica, para ter seu nome eliminado de livros e demais banco de dados. Filmando na Espnha, o uruguaio Federico Veiroj desenvolve essa comédia sobre um personagem em crise de identidade, já na vida adulta, mas ainda dependente dos pais, incapaz de se estabelecer financeiramente e que carrega a rebeldia de ideias como cerne para a vida.

Veiroj dá um tom infatilóide, enquanto tenta expressar a confusão da vida do personagem, refletida por suas próprias convicções frágeis. E esse quê de ingenuidade do roteiro é ainda mais flagrante na relação de Gonzalo com as mulheres, um adolescente já em pele de adulto.

magical-girlMagical Girl (2014 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O título faz referência a um sub-gênero dos mangás, especificamente personagens femininas com poderes mágicos. E o segundo filme de Carlos Vermut, eleito melhor filme na edição de 2014 do Festival de San Sebastian, se coloca como uma espécie de thriller com pitadas dos quadrinhos japoneses. Cada personagem ou movimento hermeticamente planejados pelo filme, os tons pastéis, a utilização lateral dos planos (mesmo em ambientes fechado). Tudo muito cuidadoso, principalmente os detalhes da trama.

São dois núcleos unificados, em um deles um pai desespregado (Luis Bermejo) fraquejando para agradar a filha (Lucía Pollán). A garota, que sofre de leucemia em estado terminal, é fissurado pelos personagens japoneses e deseja um vestido (caríssimo) de aniversário. De outro lado há a misteriosa Bárbara (Bárbara Lennie), casamento em crise e passado misterioso.

Os personagens se encontram pelo acaso, e do encontro surge a possibilidade de chantagem, e formas de se proteger delas. Nesse ponto o roteiro passa aser ainda mais esquematizado, enquanto o presente dramático de Luis é intensificado, o passado de Bárbara volta a assombrá-la (com temas subentendidos, nunca explícitos), Carlos Vermut enxerga o momento de inserir outro personagem misterioso na trama, o já senhor Damián (José Sacristián) e sua fortíssima relação com Bárbara, que só é desvendada nas cenas finais, ainda que nem tudo fique límpido e claro como poderia.

umanovaamigaUne Nouvelle Amie (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A carreira de François Ozon dava sinais mais promissores do que efetivamente se estabeleceu. A sensualidade nos suspenses (À Beira da Piscina), a predominância feminina nas comédias (8 Mulheres), e o tom intimista nos dramas (O Tempo que Resta) – só para citar filmes produzidos num espaço curto de tempo – passou. Ozon carrega o eclético, como também o irregular. Os temas permanecem (sensualidade, sexualidade, prioridade pelo feminino), a pegada, e a desenvoltura, há tempos não é mais a mesma. Neste novo filme, Ozon lembra Almodovar, porém faz de seu galã (Romain Duris), e protagonista, uma caricatura de um travesti. Aprofundamento raso, a comédia quase avergonhada.

Infelizmente, o filme faz todo sentido na carreira de Ozon, principalmente dentro dessa irregularidade que parece ser a tônica da última década. O cineasta parece o típico nome que goza de prestígio, mas que teima em não acertar mais. O inusitado em ver Duris, vestido como uma diva, se sustenta por poucos minutos. A falta de profundidade só traz uma simpatia marota pelos personagens, e um desenrolar de trama profundamente desinteressante.

ocapitalLe Capital (2012 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Constantin Costa-Gavras já foi um cineasta bem mais interessante. Nunca deixou de estar próximo aos temas políticos, nem que fosse a política de dentro do Vaticano. Mais recentemente, seu novo alvo é a globalização, o mundo corporativo de forma geral. Não deixa de ser um alvo correto, e também perigoso, afinal, filmes sobre o mundo corporativo dificilmente dão certo.

Enquanto o roteiro tenta destrinchar jogos de interesse entre banqueiros e milionários de fundos de investimento, o Costa-gavras tenta manter o foco em pontos mais “socialistas” como o emprego, as garantias sociais, e até mesmo a ética. As tentativas são devoradas pela narrativa manjada, pedagógica, explicando questões que o público nem deve estar interessado em entender. Costa-gavras não percebeu que mudou de público, que seu discurso deixou de ser de esquerda, seus filmes são de uma direita que prima pela ética, que pretendem expor corruptos, porém, são apenas representações interpretadas de artigos de cadernos de economia, sem a vivacidade, sem a esperança de construir, sem urgência. E quanto se perder esse espírito, resta pouco de cinema a se apreciar.