Menashe

Menashe (2017 – EUA) 

Com certo destaque na última edição de Sundance, o filme dirigido por Joshua Z. Weinstein não vai além de trazer um pouco mais dos aspectos sociais da cultura judaica ortodoxa. No cerne, o viúvo atrapalhado que não pode morar com o filho, enquanto não tenha uma nova esposa. Nessa tentativa de retrato cultural que foge dos padrões ocidentais mais difundidos, o filme é cheio de boa vontade, mas passa longe de qualquer apuro cinematográfico. É só uma historinha sendo contada, com elementos religiosos e sociais importantes, que surgem como novidade aos que não fazem parte da comunidade judaica.


Festival: Sundance 2017

Mostra: Next <>

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Holiday

Holiday (2018 – DIN) 

A estreia na direção de Isabella Eklöf, lembra um pouco o cinema de Lars Von Trier, ou o que há de mais fraco em Happy End de Michael Haneke. A frieza com que enxerga seus personagens, o distanciamento com que narra a história da jovem problemática que desfruta das férias com seu namorado, mais velho e mafioso, enquanto se aproxima de outras pessoas que possam dialogar melhor com ela.

Há alguns momentos de diferentes cenas de violência e abuso contra a mulher, Eklöf as filma da mesma forma, de maneira fria, quase cínica e provocativa, mas parece interessada em aproveitar desses momentos para a construção das fragilidades de sua personagem, e nunca um debate sobre os temas. As férias de verão de quem entrega seu corpo e sua passividade, e, de resto, vive de liberdades limitadas e humilhações machistas.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema Dramatic

A Woman Captured

A Woman Captured (2017 – HUN) 

O documentário informa um número impressionante de pessoas mantidas como escravas, nos dias de hoje, por toda a Europa. Só na Hungria, se estima mais de dez mil. O filme de Bernardett Tuza-Ritter é chocante por capturar, com tantos detalhes, a forma com que a doméstica era tratada pela família, donos da casa onde vivia, sem receber salário e com limitada permissão para sair de casa, por anos e anos.

Os tempos do feudalismo no mundo contemporâneo. É até crueldade confundir com convencional o trabalho de Tuza-Ritter, só por sua narrativa seguir um padrão bem estabelecido no cinema, por mais que isso seja um fato, o feito é a riqueza do material, expositivo e cheio de afeto, mas facilmente revoltante por ainda se viver num mundo cão de exploração humana até os dias atuais.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema – Documentary

Os Iniciados

Inxeba / The Wound (2017 – AFS) 

Um dos nove pré-indicados ao Oscar de Filme Estrangeiro, o filme dirigido por John Trengove mergulha na masculinidade através do antigo costume dos Xhosa (uma das etnias sul-africanas) de realizar circuncisão em jovens, no meio da floresta, durante uma semana, como forma de estimular o amadurecimento como “homem”. Uma espécie de coming of age cru, razoavelmente agressivo, mas também uma maneira de manter a cultura tradicional entre as modernidades da vida contemporânea. No centro da trama a questão da sexualidade que complica as relações e exprime o poder do machismo.

Trengove filma com muitos planos fechados, câmera na mão acompanhando iniciados e curadores na montanha, cenas escuras da intimidade. O bullying e o machismo como tônica cabal das relações entre homens, e essa estranha congruência entre o tradicional e o novo (pintados de branco, vestimentas antigas, e brigando por um tênis colorido). E no meio de tudo uma relação à Brockback Mountain, com toda a expressão de possessividade e interdependência que um amor proibido pode oferecer.

Me Chame pelo Seu Nome

Call Me By Your Name (2017 – EUA) 

Com I Am Love e A Bigger Splash, o diretor Luca Guadagnino já vinha capturando a burguesia com olhos nem tão críticos, aproveitando de sua beleza para desenvolver histórias e personagens. Podem ter sido bons laboratórios para o que veria a seguir, já que seu novo filme tem arrebatado plateias, causado comoção numa forma identificação imediata com anseios e expectativas que só mesmo o cinema consegue corresponder.

Verão de 1983 na Itália, uma família de intelectuais recebe um visitante acadêmico americano, Oliver (Armie Hammer). O foco central está sob o filho de 17 anos, Elio (Timothée Chalamet), que se relaciona com amigos da região, descobre o sexo, enquanto desperta uma forte atração pelo visitante. Guadagnino estabelece os laços afetivos sem nenhuma preocupação com preconceito, são pessoas livres, que se apaixonam pelo sexo oposto ou não, com naturalidade. Talvez seja a principal fortaleza do filme, o amor, sem se preocupar com convenções.

O verão transcorre entre passeios de bicicleta, livros à beira da piscina, festas no vilarejo, e o simples florescer de Elio transcorrendo a nossa frente, de maneira fascinante. O desejo, o sexo, são o combustível dessa história tão sensível, de joguinhos amorosos, de libido latente. E a complexidade em dar espaço a tantos personagens e interrelacionamentos, e em buscar permear com a rotina culturamente rica da família. Alegria e sofrimento, descobertas e experimentações, tudo condensado no momento-chave, numa conversa pai e filho que é de uma sensibilidade e compreensão indescritíveis. E que venha o Oscar.


Festival: Sundance

Mostra: Premières

My Happy Family

Chemi Bednieri Ojakhi / My Happy Family (2017 – GEO) 

Trabalhar o dia todo, e quando se chega em casa, as obrigações estão apenas começando. Ainda tem que cuidar dos filhos e do marido, ouvir as reclamações da mãe, limpar, cozinhar, organizar. O filme da dupla Nana Ekvtimishvili e Simon Groß traz a coragem de uma mulher em romper com isso tudo, dar um basta na vida. Aos 52 anos, sem nenhum acontecimento específico, Manana (Ia Shygliashvili) causa espanto quando pega suas coisas, aluga um apartamento e se muda. Fica para trás toda a estrutura dependente, claustrofóbica e perturbadora de uma vida condicionada a servir

A coragem de romper com uma das maiores convenções sociais: a estrutura familiar. E assim, ter seu momento próprio, seu espaço. Abrindo assim a reflexão sob o quanto se sujeita e se explora, como se tal comportamento fosse uma obrigação de mão única, num processo cíclico de uma sociedade tão machista. Em tempos de discussões feministas acaloradas por igualdade e respeito, resta a geração anterior que ainda silenciosa assiste a esses movimentos, no caso dessa personagem, busca seu sossego, seu espaço.


Festival: Sundance

Mostra: World Cinema – Dramatic

Patti Cake$

Patti Cake$ (2017 – EUA) 

No fundo, não passa de uma história convencional de superação, de buscar seu sonho, como tantos outros filmes já narraram, seja pela música, pelos esportes, ou outras áreas. O que o estreante Geremy Jasper (que além de dirigir, escreveu as músicas) tem de inusitado é essa conectividade instantânea entre filme, o mundo do rap, e seu ritmo narrativo. Porque os personagens estão lá, à beira da amargura, movidos apenas pelo desejo de se sobressair enquanto vivem no subúrbio. Mas, o filme dialoga muito bem com esses pequenos guetos que frequentam, e com os dramas familiares que enfrentam.

Fora isso, é muito do carisma da dupla Danielle Macdonald e Siddharth Dhananjay que ri ou chora, sofre e se emociona, mas sempre se contagia quando a música ganha espaço. Jasper sabe lidar com essa empolgação de quem não tem nada, só seus sonhos e permite que eles possam transpor sua individualidade para, ao menos, tentar.


Festival: Sundance

Mostra: U.S. Dramatic

Prêmios: