Vida Selvagem

 

Wildlife (2018 – EUA) 

Registrar a denconstrução de um matrimônio através dos olhos do filho adolescente não é um formato novo no cinema. Adaptando o livro de Ricard Ford, o ator Paul Dano estreia na direção marcando cacoetes de uma cinema autoral, que tenta ser intimista, mas padece de um ritmo narrativo que possa tornar essa história no mínimo interessante.

A trama se passa nos anos 60, um pai orgulhoso que não encontra um trabalho fixo, a mãe destrambelhada quando o marido se afasta um pouco de casa. Acompanhamod tudo através do garoto tão bondoso, de longe o mais maduro da casa. Nem chegamos a compreender exatamente o garoto, o foco fica todo sob a fragilidade da mãe (Carey Mulligan). É muito pouco repetir-se em cenas de constrangimento do garoto e sua necessidade de assumir um papel em casa, que não deveria ser seu. Em meio disso tudo, algumas cenas das paisagens selvagens de Montana e o clima de bucólico, de um mundo a ser descoberto. O mesmo de sempre, sem algo novo, não parece o material e ritmo certo para um estreante.


Festival: Sundance 2018

Mostra: U.S. Dramatic Competition

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Culpa

Den Skyldige / Guilty (2018 – DIN) 

Guarda muitas semelhanças com o sucessinho indie que se tornou Buscando… Não só por ambos terem sido lançados em Sundance, se o thriller americano é todo exibido através de câmeras de computador ou telas de dispositivos (celulares), com toda a trama transcorrendo diante de navegação na internet, o filme do estreante Gustav Möller também se concentra longe da correria dos fatos, num local, praticamente, imóvel.

Asger Holm (Jakob Cederbren) trabalha numa dessas centrais de emergência da polícia, em Copenhagen. Quase no fim do turno ele se depara com uma chamada de uma mulher sequestrada. A partir dai, o filme jamais sairá do foco nele, sua arma é o telefone, o banco de dados da polícia e persistência. Liga daqui, perseguição acolá, todo o suspense transcorre entre os telefonemas e os sons, muitos sons (choro, passos, gritos e sirenes da polícia).

A montagem, focalizando, seu rosto de diversos pontos, busca dinamismo, enquanto o roteiro tenta surpreender e agarrar a atenção do público. O filme é bem competente nesse ponto, mas falha um pouco em tentar trazer um drama particular do personagem para margear a trama do sequestro. De resto, vale imaginar a total impossibilidade de um filme deste tipo ser feito no Brasil, imagine a atualização e acesso rápido ao banco de dados com os telefones, endereço e propriedades de todos os cidadãos brasileiros.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema Dramatic

Prêmio: do público

Benzinho

Benzinho (2018 – BRA) 

Antes de falar no filme, é importante destacar que o diretor Gustavo Pizzi escreveu o roteiro com sua ex-esposa, a atriz Karine Telles, que protagoniza a história. Essa parceria de direção/atuação/roteiro já havia ocorrido no filme anterior da dupla: Riscado. Já pela escalação do elenco nota-se uma pretensão maior, estamos falando de um potencial bem maior de público do que aquele trabalho quase experimental. E o sucesso de repercussão internacional já o coloca como um dos possíveis escolhidos pelo Brasil ao Oscar.

Dito isso, o roteiro é de fácil conexão com muita gente, dos que deixaram suas cidades em busca de melhores oportunidades profissionais (em outras cidades ou países). Ou, simplesmente, das mães que facilmente sentem essa dor da separação, mesmo quando o filho se muda para a rua ao lado, só por não estar sob o mesmo teto, o que dirá outro país, outra língua. E, nesse ponto, Benzinho fala genuinamente com essas mães. A atuação de Karine Telles é precisa, principalmente nesses pequenos sabores de algo sair errado e o filho, simplesmente, seguir em seu ninho. Não que a mãe não torça pelo filho, mas, sabe como é, se ele estiver aqui pertinho…

Conhecemos essa familia de quatro filhos, quando vivem esse momento de euforia do primogênito que ganha convite para jogar handbol na Alemanha. A crise central é a da separação, enquanto a questão se resolve, acompanhamos tudo o orbita ao redor dessa familia. As finanças familiares ruindo, a irmã enfrentando problemas conjugais, os irmãos adolescentes que precisam ser babás dos mais novos enquanto os pais tentam ganhar a vida. Está tudo ali, a cidade de Petrópolis como palco do ruir das finanças.

Entre tantos dramas e esperanças de um futuro melhor, o roteiro intercala cenas cotidianas com aqueles momentos que deveriam ser marcantes. Se na rotina diária o filme é tenro e delicado, nessas cenas impactantes as ideias parecem melhores que a realização, numa pitadinha de artificialismo que diminui o emotivo esperado. A comparação com Que Horas Ela Volta? é compreensível, eles fazem parte de um conjunto de personagens aproximados pela classe social, suas diferenças estão nesses momentos-chave, um aspecto bem subjetivo, mas que faz toda a diferença na hora de se ganhar o carimbo de grande filme.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Dramatic Competition

O Conto (The tale)

The Tale (2018 – EUA) 

Um dos destaques da última edição do Festival de Sundance, o drama autobiográfico de Jennifer Fox tem os temas perfeitos para algumas das grandes bandeiras do feminismo e do empodeiramento: abuso sexual de menores, mulheres fortes.

Laura Dern é o alter-ego da diretora, essa mulher que enfrenta o resgate de quando tinha treze anos e teve um relacionamento com um adulto. Não chega a ser totalmente tradicional em sua narrativa, mas longe de ser um primor de cinema, sua força está realmente concentrada na maneira sóbria e delicada com que trata as mulheres da história (Jennifer em duas épocas, a mãe, a treinadora), enquanto encontra na insegurança das memórias uma forma de dar ainda mais humanidade à personagem.

Dessa forma, Jennifer se lembra dos fatos, e o filme vai contando sua história enquanto ela parte ao reencontro de todos que viveram ao seu lado aquele momento, a memória a confunde, alguns ajudam a completar e assim o filme volta a algumas cenas para reconstruir. Tudo isso, sem perder seu foco nos dilemas do abuso sexual, e na necessidade de discutirmos o tema até que quem sabe a prática seja erradicada e crianças libertadas de situações tão traumáticas e sujas.

Seu filme nem transforma vilões em monstros, assim bem como a frase final em que a pequena Jennifer dá outro significado, que não ser vítima, na situação. Dessa forma, o filme ganha ainda mais força e promete causar impacto, pena que não será visto nos cinemas, foi comprado e já exibido na tv pela HBO nos EUA.

Menashe

Menashe (2017 – EUA) 

Com certo destaque na última edição de Sundance, o filme dirigido por Joshua Z. Weinstein não vai além de trazer um pouco mais dos aspectos sociais da cultura judaica ortodoxa. No cerne, o viúvo atrapalhado que não pode morar com o filho, enquanto não tenha uma nova esposa. Nessa tentativa de retrato cultural que foge dos padrões ocidentais mais difundidos, o filme é cheio de boa vontade, mas passa longe de qualquer apuro cinematográfico. É só uma historinha sendo contada, com elementos religiosos e sociais importantes, que surgem como novidade aos que não fazem parte da comunidade judaica.


Festival: Sundance 2017

Mostra: Next <>

Holiday

Holiday (2018 – DIN) 

A estreia na direção de Isabella Eklöf, lembra um pouco o cinema de Lars Von Trier, ou o que há de mais fraco em Happy End de Michael Haneke. A frieza com que enxerga seus personagens, o distanciamento com que narra a história da jovem problemática que desfruta das férias com seu namorado, mais velho e mafioso, enquanto se aproxima de outras pessoas que possam dialogar melhor com ela.

Há alguns momentos de diferentes cenas de violência e abuso contra a mulher, Eklöf as filma da mesma forma, de maneira fria, quase cínica e provocativa, mas parece interessada em aproveitar desses momentos para a construção das fragilidades de sua personagem, e nunca um debate sobre os temas. As férias de verão de quem entrega seu corpo e sua passividade, e, de resto, vive de liberdades limitadas e humilhações machistas.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema Dramatic

A Woman Captured

A Woman Captured (2017 – HUN) 

O documentário informa um número impressionante de pessoas mantidas como escravas, nos dias de hoje, por toda a Europa. Só na Hungria, se estima mais de dez mil. O filme de Bernardett Tuza-Ritter é chocante por capturar, com tantos detalhes, a forma com que a doméstica era tratada pela família, donos da casa onde vivia, sem receber salário e com limitada permissão para sair de casa, por anos e anos.

Os tempos do feudalismo no mundo contemporâneo. É até crueldade confundir com convencional o trabalho de Tuza-Ritter, só por sua narrativa seguir um padrão bem estabelecido no cinema, por mais que isso seja um fato, o feito é a riqueza do material, expositivo e cheio de afeto, mas facilmente revoltante por ainda se viver num mundo cão de exploração humana até os dias atuais.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema – Documentary