Posts com Tag ‘Festival de Sundance’

The Kindergarten Teacher (2018 – EUA) 

Remake americanos de filmes estrangeiros sofrem quase sempre na comparação, porque resgatam a história, nem sempre o melhor do cinema que havia. Esse é o caso desse trabalho da diretora Sara Colangelo, homônimo do filme israelense de Nadav Lapid, sobre a professora que se torna tão maravilhada pela poesia precoce de um seus alunos, que a admiração se torna obsessão.

A trama é a mesma, o pai ausente, a professora que ama poesia e o garoto que solta versos, mas só quer ser uma criança normal e brincar, quando possível. O filme traz o incômodo através dos comportamentos da professora, que algumas vezes ultrapassa a irresponsabilidade. O peso da cultura está em seus discursos aos filhos, a babá do garoto, a todos a sua volta. E acompanhamos, passo-a-passo, o desequilíbrio gerado por sua compulsividade em notar e intensificar um possível dom precoce. É bem possível acompanhar, com interesse, o desenrolar desse relacionamento, tentar compreender as fragilidades dessa mulher madura, enquanto Colangelo busca a visão intimista e delicada, mas fica bem aquém do que Lapid oferecia com o filme original.

Minding the Gap (2018 – EUA) 

Skate Kitchen (2018 – EUA) 

Skate e Sundance. Além de ambos terem sido destaque no festival indie, chama atenção nos dois filmes dessa ligação umbilical de seus personagens com a prancha com rodinhas. O primeiro é um documentário que acompanha a vida de três amigos (o diretor, Bing Liu, é um desses personagens) entre as pistas de skate e detalhes da vida pessoal, o que temos é um retrato de juventude em uma cidade americana cujo empregos se tornam mais escassos ao longo da vida. Quase um coming-of-age documental, Bing aprofunda o relacionamento de cada um deles com os pais, abusos infantis, paternidade precoce, e o resultado do amadurecimento de cada um.

Já Crystal Moselle havia se destacado pelo documentário Irmãos Lobo, e agora ataca na ficção com a história de uma garota, de origem latina, e todas as dificuldades de sua juventude. Esse sim um típico coming-of-age traz a relação com a internet, a descoberta de novas amizades e afinidades, a relação com drogas e sexo, e os eternos problemas com os pais. Por quase uma hora, Moselle mantém sua câmera e narrativa numa proximidade que quase desnuda sua protagonista, na parte final não mantém o mesmo ritmo. Ainda assim, novamente se coloca como uma cineasta para se manter no radar.


Festival: Sundance 2018

Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot (2018 – EUA) 

Como é curiosa, e nada retilínea, a carreira de Gus Van Sant. Um cineasta de filmes inspiradores, outros quase experimentais, comedias e melodramas sentimentais. A cinebiografia do cartunista é John Callahan (Joaquin Phoenix) se enquadra nessa leva de seus filmes mais básicos e que inspiram pela história de vida edificante, e não por um tipo de cinema inspirador.

Do alcoolatra que sofre um acidente e fica tetraplégico, até sua redescoberta como viver, incluindo sua “vocação” para sua provocante carreira artística, o que temos é um filme que busca reconstiuir época e recriar a historia, mas sempre amarrado num estilo quadrado, por mais controverso que o personagem possa ser.


Festival: Sundance 2018

Mostra: Premières

 

Wildlife (2018 – EUA) 

Registrar a denconstrução de um matrimônio através dos olhos do filho adolescente não é um formato novo no cinema. Adaptando o livro de Ricard Ford, o ator Paul Dano estreia na direção marcando cacoetes de uma cinema autoral, que tenta ser intimista, mas padece de um ritmo narrativo que possa tornar essa história no mínimo interessante.

A trama se passa nos anos 60, um pai orgulhoso que não encontra um trabalho fixo, a mãe destrambelhada quando o marido se afasta um pouco de casa. Acompanhamod tudo através do garoto tão bondoso, de longe o mais maduro da casa. Nem chegamos a compreender exatamente o garoto, o foco fica todo sob a fragilidade da mãe (Carey Mulligan). É muito pouco repetir-se em cenas de constrangimento do garoto e sua necessidade de assumir um papel em casa, que não deveria ser seu. Em meio disso tudo, algumas cenas das paisagens selvagens de Montana e o clima de bucólico, de um mundo a ser descoberto. O mesmo de sempre, sem algo novo, não parece o material e ritmo certo para um estreante.


Festival: Sundance 2018

Mostra: U.S. Dramatic Competition

Den Skyldige / Guilty (2018 – DIN) 

Guarda muitas semelhanças com o sucessinho indie que se tornou Buscando… Não só por ambos terem sido lançados em Sundance, se o thriller americano é todo exibido através de câmeras de computador ou telas de dispositivos (celulares), com toda a trama transcorrendo diante de navegação na internet, o filme do estreante Gustav Möller também se concentra longe da correria dos fatos, num local, praticamente, imóvel.

Asger Holm (Jakob Cederbren) trabalha numa dessas centrais de emergência da polícia, em Copenhagen. Quase no fim do turno ele se depara com uma chamada de uma mulher sequestrada. A partir dai, o filme jamais sairá do foco nele, sua arma é o telefone, o banco de dados da polícia e persistência. Liga daqui, perseguição acolá, todo o suspense transcorre entre os telefonemas e os sons, muitos sons (choro, passos, gritos e sirenes da polícia).

A montagem, focalizando, seu rosto de diversos pontos, busca dinamismo, enquanto o roteiro tenta surpreender e agarrar a atenção do público. O filme é bem competente nesse ponto, mas falha um pouco em tentar trazer um drama particular do personagem para margear a trama do sequestro. De resto, vale imaginar a total impossibilidade de um filme deste tipo ser feito no Brasil, imagine a atualização e acesso rápido ao banco de dados com os telefones, endereço e propriedades de todos os cidadãos brasileiros.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema Dramatic

Prêmio: do público

Benzinho (2018 – BRA) 

Antes de falar no filme, é importante destacar que o diretor Gustavo Pizzi escreveu o roteiro com sua ex-esposa, a atriz Karine Telles, que protagoniza a história. Essa parceria de direção/atuação/roteiro já havia ocorrido no filme anterior da dupla: Riscado. Já pela escalação do elenco nota-se uma pretensão maior, estamos falando de um potencial bem maior de público do que aquele trabalho quase experimental. E o sucesso de repercussão internacional já o coloca como um dos possíveis escolhidos pelo Brasil ao Oscar.

Dito isso, o roteiro é de fácil conexão com muita gente, dos que deixaram suas cidades em busca de melhores oportunidades profissionais (em outras cidades ou países). Ou, simplesmente, das mães que facilmente sentem essa dor da separação, mesmo quando o filho se muda para a rua ao lado, só por não estar sob o mesmo teto, o que dirá outro país, outra língua. E, nesse ponto, Benzinho fala genuinamente com essas mães. A atuação de Karine Telles é precisa, principalmente nesses pequenos sabores de algo sair errado e o filho, simplesmente, seguir em seu ninho. Não que a mãe não torça pelo filho, mas, sabe como é, se ele estiver aqui pertinho…

Conhecemos essa familia de quatro filhos, quando vivem esse momento de euforia do primogênito que ganha convite para jogar handbol na Alemanha. A crise central é a da separação, enquanto a questão se resolve, acompanhamos tudo o orbita ao redor dessa familia. As finanças familiares ruindo, a irmã enfrentando problemas conjugais, os irmãos adolescentes que precisam ser babás dos mais novos enquanto os pais tentam ganhar a vida. Está tudo ali, a cidade de Petrópolis como palco do ruir das finanças.

Entre tantos dramas e esperanças de um futuro melhor, o roteiro intercala cenas cotidianas com aqueles momentos que deveriam ser marcantes. Se na rotina diária o filme é tenro e delicado, nessas cenas impactantes as ideias parecem melhores que a realização, numa pitadinha de artificialismo que diminui o emotivo esperado. A comparação com Que Horas Ela Volta? é compreensível, eles fazem parte de um conjunto de personagens aproximados pela classe social, suas diferenças estão nesses momentos-chave, um aspecto bem subjetivo, mas que faz toda a diferença na hora de se ganhar o carimbo de grande filme.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Dramatic Competition

The Tale (2018 – EUA) 

Um dos destaques da última edição do Festival de Sundance, o drama autobiográfico de Jennifer Fox tem os temas perfeitos para algumas das grandes bandeiras do feminismo e do empodeiramento: abuso sexual de menores, mulheres fortes.

Laura Dern é o alter-ego da diretora, essa mulher que enfrenta o resgate de quando tinha treze anos e teve um relacionamento com um adulto. Não chega a ser totalmente tradicional em sua narrativa, mas longe de ser um primor de cinema, sua força está realmente concentrada na maneira sóbria e delicada com que trata as mulheres da história (Jennifer em duas épocas, a mãe, a treinadora), enquanto encontra na insegurança das memórias uma forma de dar ainda mais humanidade à personagem.

Dessa forma, Jennifer se lembra dos fatos, e o filme vai contando sua história enquanto ela parte ao reencontro de todos que viveram ao seu lado aquele momento, a memória a confunde, alguns ajudam a completar e assim o filme volta a algumas cenas para reconstruir. Tudo isso, sem perder seu foco nos dilemas do abuso sexual, e na necessidade de discutirmos o tema até que quem sabe a prática seja erradicada e crianças libertadas de situações tão traumáticas e sujas.

Seu filme nem transforma vilões em monstros, assim bem como a frase final em que a pequena Jennifer dá outro significado, que não ser vítima, na situação. Dessa forma, o filme ganha ainda mais força e promete causar impacto, pena que não será visto nos cinemas, foi comprado e já exibido na tv pela HBO nos EUA.