Campo Grande

campograndeCampo Grande (2015) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Em dado momento de Mutum, o belo filme anterior da diretora Sandra Kogut, uma mãe entregava o filho a outra família almejando melhores oportunidades à criança. Neste novo filme, que pega emprestado o nome do bairro carioca (mesmo que pouco o aproveite), Sandra traz o questionamento do que vem a seguir com essas crianças, e com essas famílias. Quer dizer, essa parece a proposta inicial, já seu desenrolar leva a outros caminhos.

São duas famílias em desconstrução. Uma mãe deixando duas crianças na porta de um prédio na Zona Sul é um sinal claro, mas a própria família de classe média também tem seus dramas. Um casamento já na fase de separação, a filha adolescente dividida entre pai e mãe. São dois momentos caóticos que se encontram, que não estão só ligados a aspectos financeiros.  O filme se divide entre essa questão das classes sociais, mas também nas mutações urbanísticos da capital fluminense. Sandra filma muito bem, desde a inocência e graça da crianças (não-atores), às tentativas de sensibilidade nos dramas “mais adultos”. O tom dramático é que destoa dessa capacidade de explorar o apartamento, a cidade e a mobilidade dentro dela.

Pode-se enxergar ligação temática com Que Hora Ela Volta?, mas as comparações param por ai, no decorrer a ligação mais forte é com Central do Brasil (parte do filme soa como uma quase variação do trabalho de Walter Salles), e por mais que Sandra nos faça no sentir tão próximos daqueles personagens, daquelas crianças, a visão macro da trama é antagônica, de uma burguesia que teme e esquiva regiões mais longínquas e tem na indiferença a base da relação Zona Sul x subúrbio.

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O Abutre

oabutreNightcrawler (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Freelancers alucionados por imagens chocantes, que possam ser vendidas aos noticiários de tv, e assim levantar uma boa grana. Grata surpresa a estreia na direção do roteirista Dan Gilroy, a óbvia critica ao show de horror que se tornou o sensacionalismo do jornalismo televisivo, ávidos por casos policiais, traz a tona os limites da ética, do bom senso, e da privacidade. Mas o filme não é só isso.

A noite, escura, profunda, fosca, explorada estilosamente pela fotografia de Robert Elswit, se torna o palco para a alucinante vida de Louis Bloom (Jake Gyllenhaal). Um sujeito exemplar na arte de não ter excrúpulos. Filho prodígio da internet, sem estudos, foi na rede que ele aprendeu técnicas de negócios, discursos empreendedores e os demais traquejos assustadores com que conduz suas relações em sociedade. Um Gyllenhaal alucinante, de olhares obcecados e uma sede de abutre sob a carniça da noticia entre tiroteiros, acidentes de carro e assaltos com vítimas.

Se o filme é manipulador, talvez picareta, consegue imprimir tensão em sequencias de suspense e perseguição, com timing e dramaticidades equivalentes à persona do freelancer sedento por ocupar seu espaço. Novamente a mídia transformando, catapultando comportamentos caóticos, esquizofrênicos, repugnantes. Gilroy provoca a grande mídia com as discussões éticas nas salas de edição, com Rene Russo desesperada por novos “furos”, é verdade que Gilroy não consegue absorver todos os personagens, não permite o outro lado, seu filme só dá lugar aos abutres, aos rastejantes nortunos (do título original), ainda assim funciona hermeticamente no mundo de exageros repugnantes que constrói.

Vidas ao Vento

thewindrisesThe Wind Rises / Kaze Tachinu (2013 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Hayao Miyazaki declarou estar de aposentando com esse filme, exatamente quando ele deixa de lado as animações mais infantis, ao retratar a interessante biografia de Jiro Horikoshi. Se bem que, o cineasta não perde suas origens, seu filme guarda doçura e o mundo de fantasia de seus trabalhos anteriores. Abordando desde a infância de sonhos de Jiro, em ser um designer de aviões, passando pelo romance e a dedicação do engenheiro, já na fase adulta.

A grande beleza desse trabalho de Miyazaki é de trazer elementos fortes como terremoto no Japão, e suas consequências, além da Segunda Guerra e a aproximação japonesa dos Nazistas. Por outro lado, o cineasta japonês recicla muito de outros filmes seus, fato que pode ser visto como autohomenagem, mas também como um desgaste criativo. De todas as formas, fazem The Wind Rises encaixar-se, perfeitamente, no conjunto de sua obra.

Jiro está em busca de realizar seus sonhos, fascinado pela engenharia e novas ideias, enquanto trabalha para a aeronáutica em aviões de guerra – essa dicotomia é pura poesia nos belos traços dos desenhos de Miyazaki. E uma forma de discutir, o quanto fazemos, com amor, coisas que podem ser tão tortas, incompreendidas, ou não bem quistas por todos.

Blood Ties

Blood_TiesBlood Ties (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em 2008, Guillaume Canet foi um dos protagonistas do thriller policial frances Les Liens du Sang. Agora, pela primeira vez dirigindo nos EUA, ele decidiu por um remake, dessa vez ficando atrás das câmeras. Seu filme resgasta o Brooklyn nova-yorquino dos anos 70, e Canet teve ajuda de James Gray no roteiro (um de seus filmes tem temas bem semelhantes).

Os carrões, as roupas estilosas, e uma familia em pé de guerra pelos irmãos em lados opostos da lei. Fank (Billy Crudup) é policial, e Chris (Clive Owen) saindo da penitenciárias após alguns anos de cana. Por mais que boa parte do início seja sobre adaptação, após a prisão, como emprego e manter-se longe do crime, o foco é mesmo a explosiva relação familiar. Pai (james Caan), irmã (Lili Taylor) e os dois irmãos, perdão,orgulho e união.

Chris tem sua vida antes da cadeia, filhos e a ex-esposa (Marion Cotilard) e a nova namorada, Natalie (Mila Kunis). Frank também tem seus problemas amorosos com Vanessa (Zoe Saldana) e outro delinquente com quem ela vive (Matthias Schonaerts). O jantar de Ação de Graças que vira uma guerra interna, o Natal com a polícia à procura de Chris, parece que não há paz naquela família, que o passado e presente formam uma dissociação imutável.

Muitos críticos reclamam que o filme é lento, demora a engrenar. Trata-se dessa carga dramática, do peso dos atos, do passado, e remorso. Esses sentimentos movem os personagens, essa lenga-lenga é a chave para a fase final e o final apoteótico. Canet filma de forma vibrante. Tiroteios, brigas, a reconstituição flamejante da década. E, perto do fim, quando os personagens mostram seus sentimentos derradeiros, é que essa carga dramática se mostra mais que justificável, e a sequencia final ainda mais representativa.

Um Plano Brilhante

thelovepunchThe Love Punch (2013 – FRA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

É notório que as carreiras de Emma Thompson e Pierce Brosnan já passaram do auge. Depois de ser o protagonista do 007, e ela com algumas indicações ao Oscar, chegaram num momento em que poucos atores se mantém na crista. Só reparar em seus últimos trabalhos para confirmar isso. Eis que unidos pelo diretor Joel Hopkins surgem nessa comédia (romantica, pastelão, chamem como quiserem).

Parte de uma ideia absurda para justificar seus absurdos, e nisso o diretor e seu roteiro não economizam. Ex-casados, os protagonistas se metem numa confusão envolvendo roubo de jóia, com o intuito de fazer justiça e salvar a vida financeira deles e dos colegas de trabalho dele, quando a empresa onde ele trabalhava é, misteriosamente, fechada.

Eles ainda contam, nesse momento de loucura, com outro casal, Timothy Spall e Tuppence Middleton, para que as estripulias sejam realizadas. E haja estripulia, cruzar um lago a nado para irem a um casamento, disfarçados, é só um exemplo. Tudo é tão absurdo, mas tão bem humorado, que as risadas vem do ridículo, das situações, e de ver os atores nesse patético misto de aventura romântica e comédia tola.

How I Live Now

howilivenowHow I Live Now (2013 – ING) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Adaptação de Kevin MacDonald, do best-seller, escrito por Meg Rosoff, sobre um romance, em meio a uma suposta Terceira Guerra Mundial. É intrigante imaginar nossa vida atual em tempos de guerra, não só sem eletricidade, mas com cidades como Londres e Paris sendo tomadas, as pessoas tendo que viver sob confinamento, ou trabalhando em áreas militares. Mas, não é esse o interesse do diretor, ele procura uma história sobre a força do amor, quem se guiar pela sinopse cairá numa armadilha.

Trata-se de uma adolescente (Saiorse Ronan) metida a roqueira rebelde que vai parar na casa dos primos no interior da Inglaterra, se apaixona por um deles (George MacKay). MacDonald transforma essa menininha mimada em heroína (Ronan quase reedita seu papel no péssimo Hana). Das doses de romantismo às cenas de perseguição, tudo está impregnado por essa necessidade de amor além das fronteiras, uma amor contra uma guerra. Por mais que seja bem narrado, é um disparate tão sem noção, um exagero cinematográfico de proporções que praticamente eliminam a guerra e o tornam a saga de uma jovem em busca de reencontrar seu amado.

Como Não Perder Essa Mulher

DON JONDon Jon (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A estreia na direção de Joseph Gordon-Levitt mostra um pouco de quem é o ator, além da forma como ele vê o mundo. Na apresentação do filme, ele diz que esse personagem seria sua visão de um Don Juan moderno. Um cara que conquista as garotas na balada e transa em casa, que malha todos os dias, enfim, ele definiu o novo Don Juan como um conquistador barato. E, adicionou, por sua conta, um pequeno ingrediente: torná-lo viciado em sexo.

Com todos esses elementos em mãos é obvio que irá aparecer a garota (Scarlett Johansson) que o fará sair dessa vida de vadiagem, o diferente é o modo como Gordon-Levitt narra tudo isso. Um humor meio bruto, quase como se um saradão estivesse contando para os amigos o que é namorar uma garota que fantasia romance em tudo. Ele vem com uma pegada mais bruta, com piadas de sempre, mas há espalhado pelo filme um plano-sequencia aqui, um diálogo robusto ali.

Como comédia funciona nos padrões, mas eis que Gordon-Levitt resolveu profetizar, partir em busca da “salvação” desse viciado. E o filme mete os pés pelas mãos completamente, aparece Julianne Moore e os padrões de sua personagem são inconsistentes, e com uma carga dramática que perde todo o “punch” de outrora. Deveria ter ficado na comédia adolescente e encontrado um final por ali.