Coração e Alma

Reparer Les Vivants (2016 – FRA) 

Indicado a melhor roteiro no César e integrante da Mostra Horizonte, do Festival de Veneza, o novo filme da diretora Katell Quillévéré muda completamente a rota, da leveza dramática de seu filme anterior (Suzanne), para o peso do drama familiar que enfrenta tragédias e nova esperanças. De um lado a fatídica morte de um jovem, de outro a possibilidade de recuperar a vida com um transplante de órgãos.

Quillévéré cria a falsa leveza nas primeiras cenas, um acidente de carro quase hipnótico, para a seguir tratar da dor da perda dos pais, enquanto, em paralelo, corre a história de uma mãe que nem subir as escadas sozinha consegue e precisa, desesperadamente, de um coração. Não deixa de trazer à tona o sempre importante tema da doação de órgãos, mas não precisa gastar mais de vinte minutos vislumbrando um coração batendo, durante uma operação de transplante. Se perde num drama banal, para um tema tão urgente.

O Cidadão Ilustre

El Ciudadano Ilustre (2016 – ARG) 

Presente na Competição da última edição do Festival de Veneza, saindo com o prêmio de Melhor Ator (para Oscar Martínez), o novo filme argentino da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat foi sucesso de bilheteria em seu país e o escolhido a representa-los no Oscar. Uma divertida provocação ao estilo de vida pacato dos rincões do país, mais precisamente do tipo de sociedade hipócrita, egocêntrica e enferrujada – pelo menos na visão dos diretores.

Partimos do momento que inicia o hiato criativo do escritor Daniel Mantovani (Martínez), assim que recebe o prêmio Nobel de Literatura, e seu discurso questiona a posição do artista (ou o fim de sua arte) após tal reconhecimento de “especialistas”. Sua vida burguesa, de intelectual insatisfeito exatamente com o que conquistou, é colocada à prova quando recebe o convite para ser homenageado em sua cidade natal, de onde partiu há mais de quarenta anos.

A comédia explora os personagens interioranos, o ritmo de vida em câmera lenta de quem apenas sobrevive tranquilamente, numa cidade que parou no tempo e nem se preocupa com isso. Reencontrar amigos de infância, lidar com políticos e lideranças regionais, são alguns dos empecilhos que em pouco dias se tornam uma grande bola de neve. É verdade que o filme exagera em muitos pontos na necessidade de instaurar momentos inusitados par ao riso, mas há um retrato bem fiel e critico dessa sociedade parada do tempo, que ainda vive como há décadas passadas entre seu moralismo e incapacidade de sair fora da zona de conforto. Pelas imperfeições do filme e de seus personagens que descobrimos uma Argentina mais profunda, retrato até do tipo de política nacional retrograda que dominou tanto tempo o país.

A Mulher que Se Foi

Ang Babaeng Humayo / The Woman Who Left (2016 – FIL) 

Chega ao circuito comercial brasileiro o vencedor do último Leão de Ouro de Veneza, outro trabalho típico do cineasta filipino Lav Diaz: filmado em preto e branco, planos bem longos, a narrativa de imersão nos personagens, a passagem do tempo marcada e fundamental, os temas políticos de seu país. Roteiro adaptado do conto Deus Ve a Verdade, Mas espera, de Tolstoi.

Aqui, é via noticiário de tv que descobrimos a onda de sequestros nas Filipinas em 1996 e a interferência da devolução de Hong Kong, dos britânicos à China, na parte chinesa da população. Conhecemos também a situação de Horácia, prisa por trinta anos injustamente, e libertada após outra detenta assumir o crime e informar que ela foi vítima de uma vingança do ex-namorado.

Resta a essa mulher tão caridosa com todos na prisão a busca por reunir sua família, e o desejo de vingança que surge (tão conflitante de seu comportamento mais natural). Enquanto planeja sua vigança, Horácia oferece o bem à sua volta, da família que vive num terreno desua propriedade, ao vendedor ambulante que mora na favela, ou a travesti solitária que perâmbula na madrugada pelas ruas.

Talvez o filme sofra um pouco no ritmo narrativo (diferente do que ocorra em filmes bem mais longos do cineasta), por outro lado, Lav Diaz continua milimétrico em sua capacidade de criar momentos marcantes, e conduzir o público nesse tipo de história límpida e clara, mas de um poder quase perturbador ao analisar as relações humanas, a hipocrisia burguesa, e a comparação de princípios. O desfecho surge surpreendente, mas até ele, já estávamos entregues a sua capacidade de hipnotizar em seu ritmo pacato de contador de histórias.

Tarde para a Ira

tardeparaairaTarde para la Ira (2016 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Exibido na Mostra Horizonte, do Festival de Veneza, onde levou prêmio de Melhor Atriz e o grande vencedor dos Goya 2017 no último fim de semana (foram 4 prêmios, Melhor Filme, Roteiro Original, Diretor Estreante e Ator Coadjuvante para Manolo Solo, em participação relâmpago), era um desejo antigo do ator, e agora diretor estreante, Raúl Arévalo (protagonista de Pecados Antigos, Longas Sombras, que ganhou também Melhor Filme há alguns anos) que também assina o roteiro junto de David Pulido. Com mais esta vitória vai assim se formando uma tendência de filmes, com pegada de thriller policial, a serem os grandes premiados da grande festa do cinema espanhol.

O título já assume a vingança como o grande mote do roteiro. A primeira parte, subdividida em pequenos capítulos, está tentando embaralhar, um pouco, as possibilidades. Tudo começa num longo plano-sequencia vibrante, a câmera na mão posicionada no banco de trás de um carro. Rapidamente notamos que se trata de um assalto frustrado, e cuja fuga resulta num acidente de carro (filmada com veracidade e forte impacto). Um salto no tempo e a seguir chegamos ao protagonista, o calado e enigmático José (Antonio de La Torre), ao bar e os amigos do lugar, a atendente do bar, Ana (Ruth Díaz), e ao seu marido presidiário (Luis Callejo).

O roteiro realmente se esforça em não entregar ao público, imediatamente, os caminhos desta trama. Ao contrário, prefere camuflar a vingança com um triângulo amoroso, um namorado violento. Passada esta fase inicial, Arévalo demonstra exatamente a que seu filme veio. Fotografia suja e granulada, flashback’s resgatando o passado de cada personagem, e a mão pulsante do diretor por cada um dos planos fechados e tremulantes, se dá início o meticuloso plano de busca por seus alvos em prol de vingança. Ainda que não fuja do que já conhecemos do gênero, o resultado final é competente e bastante autoral dentro de sua proposta de banir o melodrama e se concentrar na dualidade de carinho e frieza de um personagem amargurado por um passado intransponível.

Sua celebração como filme do ano na Espanha demonstra, não só, essa repetida tendência temática, como a necessidade em se criar novos autores com algum apelo comercial que trafeguem no meio termo entre filmes muito autorais (como os de Albert Serra), ou de medalhões como Julieta de Pedro Almodóvar, ou ainda escapando em permitir que super coproduções, de Juan Antonio Bayona, com Hollywood, a deste ano ganhou 9 Goyas (Sete Minutos Depois da Meia-Noite), sejam a representação deste cinema Espanhol, meio cansado e pouco revigorado.

La La Land

lalalandLa La Land (2016 – EUA)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

De vez em quando um novo musical traz a sensação de frescor ao cinema, e a pergunta: será que os musicais podem voltar dessa vez? E o filme passa, o momento passa, e os que odeiam musicais respiram tranquilizados. Mais que qualquer outro gênero, o musical talvez tenha sido o que mais envelheceu, ou o que menos consegueu dialogar com o público moderno, ao mesmo tempo em que seja o que mais exige dos atores. É curiosa essa relação, e talvez por isso, alguns filmes sejam tão bem recebidos, de vez em quando.

Damien Chazelle já tinha a música como tema em seus dois trabalhos anteriores, Whiplash o mais conhecido. Agora, realiza uma brincadeira de trazer ao tempo presente, personagens que poderiam estar, facilmente, nos anos 50. Carregam seus celulares, mas se vestem como na época, combinam de ir ao cinema ver filme do James Dean. Ele (Ryan Gosling), então, ama o jazz, e tem como lema de vida, ser dono de um clube daqueles tempos.

Dividido por estações do ano, o filme conta a história do casal, poderia ser um filme de Woody Allen (Emma Stone como protagonista só corrobora com a semelhança) no espírito, mas a trama repete, em muito, o musical clássico francês Os Guarda-Chuvas do Amor. Não que isso seja problema algum, mas lhe escapa a orginalidade.  Ficar procurando problemas no filme talvez seja uma tarefa desnecessária, aparentemente Chazelle está tomado pelo clima romântico platônico (tal qual um musical deve repirar) e realiza um trabalho impecável tecnicamente, além de garantir bons sorrisos no rosto em qualquer um da plateia.

Planos-sequencias que dão ritmo à narrativa, aliados a detalhes que flertam com o sensível, e dois atores na crista da onda do cinema mundial. Eles cantam, em alguns momentos encantam, em outros nem tanto. Stone no típico papel que tem atuado, e Gosling com cara de um bronco-bonzinho, romântico enrustido. O que Chazelle não consegue tão bom é manter suas cenas além da mecânica planejada, é tudo tão bem ajeitadinho, mas no miolo essa tentativa de provar o amor infinito do casal, o nasceram-um-para-o-outro, está nas imagens, nem sempre no coração. Excesso de engenharia para um musical romântico.

Chega como favorito ao Oscar, nessa altura da temporada, e realmente vai estar entre os melhores filmes do ano, e todos estes senões citados acima podem ser excesso de rigor, mas La La Land não transforma em amor inflamado todo este romance, de altos e baixos, como todos os romances verdadeiramente são, que Chazelle tenta nos vender. Não se acanhe, entre romance e melancolia, o despertar desse relacionamento e o desfecho seminal, já fariam o filme valer muito a pena. Ainda vou me pegar, por um bom tempo, cantarolando City of Stars, assim, meio que de repente, a rat-tat-tat on my heart.

Quando Te Conheci

quandoteconheciEquals (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Romances futuristas são um tema que vem sido explorado em alguns filmes, mas os resultados são bastante questionáveis. A Ilha ou Não Me Deixe Jamais, e até mesmo um dos episódios da série Black Mirror, são alguns desses exemplos recentes, que naufragaram na tentativa de enxergar um futuro em que a humanidade viveria ludibriada por seus líderes, vivendo a vida entre ser um robô e gado. E em todos estes filmes, o amor é colocado como objeto da discórdia, da não-aceitação.

Foi a vez de Drake Doremus se aventurar, após o sucesso indie Like Crazy, que o colocou em destaque. E, tal qual os demais trabalhos do subgênero, seu filme peca pela excessiva preocupação com a frieza mecânica, em explicar apenas os mecanismos da nova sobrevivência social. São todos roteiros diferentes, mas quase filmes irmãos, como se houvesse uma convenção desse subgênero com regras claras e bem estipuladas (tons brancos por todos os lados, diálogos sem emoção, a revolta sentimental). Silas (Nicholas Hoult) e Nia (Kristen Stewart) são o casal às escondidas, que colocam em xeque o establishment para lutar pela sobrevivência de seus sentimentos. Quase sempre são filmes com final amargo, mas mesmo que eles tenham finais felizes, estão sempre presos dentro de uma estrutura que camufla qualquer assinatura autoral, gélidos como seus filmes-irmãos.

Animais Noturnos

Nocturnal Animals (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Elogiado e premiado na última edição do Festival de Veneza, o estilista de moda, Tom Ford, volta aos cinemas para seu segundo longa-metragem. De cara uma provocação ao mundo onde construiu sua carreira, num primeiro momento, mas que pode ser interpretada de maneira bem mais ampla. Mulheres obesas, dançando nuas, com alegria que modelos magérrimas fariam, expondo seus corpos sem pudores, numa galeria de arte burguesa.

Esse é o mundo profissional de Susan (Amy Adams), tão gélido e elegante quanto os planos que Ford usa e abusa (lindos, porém desnecessárias, frios quando queria ser tão quentes). Com esses planos frios que o cineasta tenta criar o universo sentimental de Susan, a decepção tanto amorosa, quanto profissional, e a estranha sensação de proximidade com o ex-marido (Jake Gyllenhaal) que acaba de lhe enviar seu recém-acabado primeiro romance.

A narrativa se divide, o passado e o presente de Susan se misturam à narrativa da história que o livro trata (uma família brutalmente agredida e violentada numa estrada vazia). O roteiro busca paralelos, de todo modo quer provocar sua protagonista, levar sua autoestima ainda mais ao chão, enquanto isso encena cenas de tensão e violência. Flerta com os últimos filmes de Denis Villeneuve, e cria um desengonçado arquétipo de um filme que tenta ser ácido e definitivo. O todo é de um caos didático que mesmo abusando dos planos fechados e melancólicos de Amy Adams, Tom Ford passa longe de se colocar na posição do cineasta que ele acredita ter se tornado.