Três Anúncios para um Crime

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (EUA – 2017) 

E já temos o primeiro grande filme sobre a Era Trump. Porque essa conjunção de roteiro dramático com comédia de humor negro (à la irmãos Coen) remete a características socialmente marcantes no mandato do atual presidente dos EUA. De um filme sobre uma mulher (Frances McDormand) revoltada por a policia não ter conseguido desvendar o mistério do assassinato de sua filha, o diretor Martin McDonagh tece esse estudo social dos rincões desse país cuja liderança dá passos para trás e traz a intolerância como palavra de ordem.

Do inconformismo vem a ideia do anúncio provocativo nos três outdoors da cidade. A policia se revolta, e a cidade se divide apoiando ou revidando ao inconformismo dessa mãe. Surgem reações, reviravoltas, e atitudes inconsequentes e irracionais, onde o desrespeito pelo outro é presença central nas relações humanas. McDonaugh realmente se aproxima muito dos primeiros filmes do Coen, o humor e a violência são muito parecidos, mas essa carga dramática que tanto McDormand, como Woody Harrelson carregando em suas histórias é um elemento novo nesse cinema provocativo e ácido.

A trama leva alguns atos às últimas consequências, mas é um retrato tão vibrante de uma nação que está mais desunidada a cada dia, onde cada um pessoa exclusivamente em si mesmo, e troca o discordar (ou não aceitar) por brigar até aniquilar o que tenha visão de mundo contrária a sua. Trump e seu governo agressivo e intolerante são a linha mestra para um povo que perde sua unidade e só se deteriora em aspectos humanos. E nisso tudo, o novo filme de McDonaugh é feroz, elevando seu cinema a um patamar bem superior ao que realizou em seus dois trabalhos anteriores. Devemos vê-lo, com protagonismo, na corrida do Oscar, no Festival de Veneza já foi destacado com prêmio de Melhor Roteiro.

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Mãe!

Mother! (2017 – EUA) 

Entre vaias e aplausos que foi recebido o novo thriller psicológico dirigido por Darren Aronofsky durante a competição do Festival de Veneza. Mais ousado e pretensioso do que nunca (lembrem-se que ele dirigiu Noé e Fonte da Vida), o cineasta nova-iorquino provoca o público na estética, e principalmente na forma de síntese com que aglutina todas as mazelas do mundo.

Os posters e trailers já ofereciam a estranha sensação visual, algo entre o religioso brega e o dark misterioso, além da artificialidade gritante. E o filme não nega as aparências, repleto de planos-sequencias circulares e insanos, e a atmosfera da presença de um mal sobrenatural naquele lar, o casal começa a receber visitantes (sem convidá-los) e a hospitalidade do marido (Javier Bardem) assusta a passiva esposa (Jennifer Lawrence). Entre o medo e a insegurança e o ar acolhedor do poeta em bloqueio criativo, que o filme constrói arcos dramáticos que sempre colocam-na como a figura frágil e perturbada frente uma normalidade que não existe.

Mais adiante na história, desses arcos dramáticos surgem sequencias ainda mais insanas em que Aronofsky tenta refletir sua visão sobre nossa sociedade tão violenta e desumana. Nada de metáforas, é tudo explícito e visual, exagerado e acelerado. A cada novo horror, o filme faz referências a dramas pessoais ou universais como: crime, guerra, religião, maternidade, dor. Interpretações over, conceitos didáticos, Aronofsky não consegue dar cabo de nem metade de todos os conceitos que pretendia, e sua pretensão realmente incomoda muita gente. Por outro lado, sua ousadia em colocar tudo isso num filme de estúdio, com os grandes astros de Hollywood, vem de encontro com as pretensões que sempre estiverem fortemente claras em sua filmografia.

A Vida de Uma Mulher

Une Vie (2016 – FRA/BEL) 

Os filmes de Stéphane Brizé tem sido prestigiados pelas seleções dos principais festivais de cinema, este trabalho mais recente esteve presente na competição principal do festival de Veneza. O mais curioso é compará-lo com o trabalho anterior (O Valor de um Homem, prêmio de melhor ator em Cannes), os títulos em português deixam ainda mais evidente essa mudança antagônica de protagonismo, e de tentativa de capitar algo da essência de homem (no anterior) e mulher (no atual).

É uma história de época, Judith Chemla vive a represetanção da vida de uma mulher burguesa durante o século XIX. O casamento, as dificuldades de relacionamento, a decadência financeira, as fragilidades. É uma protagonista sofrida, passiva, sempre dominada por homens (marido ou o filho). Brizé opta por uma janela quadrada, que dá a sensação mais claustrofóbica de seus dramas, é uma escolha acertada, dentro de uma narrativa quase modorrenta de tão batida.

Coração e Alma

Reparer Les Vivants (2016 – FRA) 

Indicado a melhor roteiro no César e integrante da Mostra Horizonte, do Festival de Veneza, o novo filme da diretora Katell Quillévéré muda completamente a rota, da leveza dramática de seu filme anterior (Suzanne), para o peso do drama familiar que enfrenta tragédias e nova esperanças. De um lado a fatídica morte de um jovem, de outro a possibilidade de recuperar a vida com um transplante de órgãos.

Quillévéré cria a falsa leveza nas primeiras cenas, um acidente de carro quase hipnótico, para a seguir tratar da dor da perda dos pais, enquanto, em paralelo, corre a história de uma mãe que nem subir as escadas sozinha consegue e precisa, desesperadamente, de um coração. Não deixa de trazer à tona o sempre importante tema da doação de órgãos, mas não precisa gastar mais de vinte minutos vislumbrando um coração batendo, durante uma operação de transplante. Se perde num drama banal, para um tema tão urgente.

O Cidadão Ilustre

El Ciudadano Ilustre (2016 – ARG) 

Presente na Competição da última edição do Festival de Veneza, saindo com o prêmio de Melhor Ator (para Oscar Martínez), o novo filme argentino da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat foi sucesso de bilheteria em seu país e o escolhido a representa-los no Oscar. Uma divertida provocação ao estilo de vida pacato dos rincões do país, mais precisamente do tipo de sociedade hipócrita, egocêntrica e enferrujada – pelo menos na visão dos diretores.

Partimos do momento que inicia o hiato criativo do escritor Daniel Mantovani (Martínez), assim que recebe o prêmio Nobel de Literatura, e seu discurso questiona a posição do artista (ou o fim de sua arte) após tal reconhecimento de “especialistas”. Sua vida burguesa, de intelectual insatisfeito exatamente com o que conquistou, é colocada à prova quando recebe o convite para ser homenageado em sua cidade natal, de onde partiu há mais de quarenta anos.

A comédia explora os personagens interioranos, o ritmo de vida em câmera lenta de quem apenas sobrevive tranquilamente, numa cidade que parou no tempo e nem se preocupa com isso. Reencontrar amigos de infância, lidar com políticos e lideranças regionais, são alguns dos empecilhos que em pouco dias se tornam uma grande bola de neve. É verdade que o filme exagera em muitos pontos na necessidade de instaurar momentos inusitados par ao riso, mas há um retrato bem fiel e critico dessa sociedade parada do tempo, que ainda vive como há décadas passadas entre seu moralismo e incapacidade de sair fora da zona de conforto. Pelas imperfeições do filme e de seus personagens que descobrimos uma Argentina mais profunda, retrato até do tipo de política nacional retrograda que dominou tanto tempo o país.

A Mulher que Se Foi

Ang Babaeng Humayo / The Woman Who Left (2016 – FIL) 

Chega ao circuito comercial brasileiro o vencedor do último Leão de Ouro de Veneza, outro trabalho típico do cineasta filipino Lav Diaz: filmado em preto e branco, planos bem longos, a narrativa de imersão nos personagens, a passagem do tempo marcada e fundamental, os temas políticos de seu país. Roteiro adaptado do conto Deus Ve a Verdade, Mas espera, de Tolstoi.

Aqui, é via noticiário de tv que descobrimos a onda de sequestros nas Filipinas em 1996 e a interferência da devolução de Hong Kong, dos britânicos à China, na parte chinesa da população. Conhecemos também a situação de Horácia, prisa por trinta anos injustamente, e libertada após outra detenta assumir o crime e informar que ela foi vítima de uma vingança do ex-namorado.

Resta a essa mulher tão caridosa com todos na prisão a busca por reunir sua família, e o desejo de vingança que surge (tão conflitante de seu comportamento mais natural). Enquanto planeja sua vigança, Horácia oferece o bem à sua volta, da família que vive num terreno desua propriedade, ao vendedor ambulante que mora na favela, ou a travesti solitária que perâmbula na madrugada pelas ruas.

Talvez o filme sofra um pouco no ritmo narrativo (diferente do que ocorra em filmes bem mais longos do cineasta), por outro lado, Lav Diaz continua milimétrico em sua capacidade de criar momentos marcantes, e conduzir o público nesse tipo de história límpida e clara, mas de um poder quase perturbador ao analisar as relações humanas, a hipocrisia burguesa, e a comparação de princípios. O desfecho surge surpreendente, mas até ele, já estávamos entregues a sua capacidade de hipnotizar em seu ritmo pacato de contador de histórias.

Tarde para a Ira

tardeparaairaTarde para la Ira (2016 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Exibido na Mostra Horizonte, do Festival de Veneza, onde levou prêmio de Melhor Atriz e o grande vencedor dos Goya 2017 no último fim de semana (foram 4 prêmios, Melhor Filme, Roteiro Original, Diretor Estreante e Ator Coadjuvante para Manolo Solo, em participação relâmpago), era um desejo antigo do ator, e agora diretor estreante, Raúl Arévalo (protagonista de Pecados Antigos, Longas Sombras, que ganhou também Melhor Filme há alguns anos) que também assina o roteiro junto de David Pulido. Com mais esta vitória vai assim se formando uma tendência de filmes, com pegada de thriller policial, a serem os grandes premiados da grande festa do cinema espanhol.

O título já assume a vingança como o grande mote do roteiro. A primeira parte, subdividida em pequenos capítulos, está tentando embaralhar, um pouco, as possibilidades. Tudo começa num longo plano-sequencia vibrante, a câmera na mão posicionada no banco de trás de um carro. Rapidamente notamos que se trata de um assalto frustrado, e cuja fuga resulta num acidente de carro (filmada com veracidade e forte impacto). Um salto no tempo e a seguir chegamos ao protagonista, o calado e enigmático José (Antonio de La Torre), ao bar e os amigos do lugar, a atendente do bar, Ana (Ruth Díaz), e ao seu marido presidiário (Luis Callejo).

O roteiro realmente se esforça em não entregar ao público, imediatamente, os caminhos desta trama. Ao contrário, prefere camuflar a vingança com um triângulo amoroso, um namorado violento. Passada esta fase inicial, Arévalo demonstra exatamente a que seu filme veio. Fotografia suja e granulada, flashback’s resgatando o passado de cada personagem, e a mão pulsante do diretor por cada um dos planos fechados e tremulantes, se dá início o meticuloso plano de busca por seus alvos em prol de vingança. Ainda que não fuja do que já conhecemos do gênero, o resultado final é competente e bastante autoral dentro de sua proposta de banir o melodrama e se concentrar na dualidade de carinho e frieza de um personagem amargurado por um passado intransponível.

Sua celebração como filme do ano na Espanha demonstra, não só, essa repetida tendência temática, como a necessidade em se criar novos autores com algum apelo comercial que trafeguem no meio termo entre filmes muito autorais (como os de Albert Serra), ou de medalhões como Julieta de Pedro Almodóvar, ou ainda escapando em permitir que super coproduções, de Juan Antonio Bayona, com Hollywood, a deste ano ganhou 9 Goyas (Sete Minutos Depois da Meia-Noite), sejam a representação deste cinema Espanhol, meio cansado e pouco revigorado.