Samui Song

Mai Mee Samrab Ter / Samui Song (2017 – TAI) 

O cinema de Pen-Ek Ratanaruang já fez bem mais interessante do que sua mais recente safra de filmes, os destaques Last Life in the Universe, Onda Invisíveis e Ploy lhe deram prestigiam como outro expoente do cinema tailandês. Aqui ele até flerta com o noir no início, em branco e preto um acidente de carro, que o filme revisitará outrasa vezes (só que com cores). Um dos envolvidos é a famosa atriz de novelas locais (Laila Boonyasak) que no hospital acaba conhecendo o misterioso Guy (David Asavanond). É o típico suspense com supresas e revelações, alguma carga de erotismo e doses de religiosidade através do marido, um milionário europeu, que agora vive obcecado por um líder espiritual local. Sobram elementos e falta atmosfera, o filme de Ratanaruang fica pelo caminho das intenções.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Venice Days

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Uma Casa à Beira-Mar

La Villa (2017 – FRA) 

Robert Guédiguian é figura constante nas estreias de filmes franceses. Boa parte de seu cinema parece casar perfeitamente com um café para iniciar falando do filme, passar por política e acabar comentando sobre, algo como, seu gato. Tem constante tom de humanismo, diálogos bem redigidos e um sabor de tentar colocar reflexões brandas em seu público.

Aqui temos três irmãos que vem visitar o pai em estado catatônico. Mágoas do passado se confundem com a situação atual de cada um irmãos, que são enriquecidas com as características marcantes de cada um deles (o sarcástico, o que abdicou de tudo para seguir nas tradições e junto ao pai, a atriz deprimida. Guédiguian flerta com o resgate do passado, enquanto tenta trazer questões como velhice e o fim da vida, o tema dos refugiados, a vida burguesa e a nova juventude.

Seus filmes mais recentes não inspiram muito, alguns agradam mais, outros menos, mas todos tem essa sensação meio antiga de um ritual que seria ir ao cinema, e o passeio completo que pode proporcionar. Vai melhor nos temas mais próximos, e apenas arranha, de forma rasa, temas mais complicados como essa desenfreada imigração que a Europa tanto conflita.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição

A Região Selvagem

La Región Salvaje (2017 – MEX) 

Amat Escalante, dessa vez, flerta com o desconhecido, com o sobrenatural, enquanto volta a retratar um México rural. A sexualidade e a violência interligadas aos relacionamentos, personagens que de alguma forma vivem à margem da sociedade estão sempre em seus filmes. Um jovem casal com casamento em crise, o irmão dela um enfermeiro gay. Uma desconhecida que surge e passa a se relacionar com eles. Ali perto, uma estranha criatura e seus desejos sexuais saciados. O filme perturba por imagens ousadas, entre o belo e estranhíssimo, e essa reação do público é curiosa. Como também, essa proximidade entre a violência e a tensão sexual, além das possibilidades com que o ímpeto sexual pode manipular cada um, que o filme propõe.


Festival: Veneza 2016

Mostra: Competição

Prêmios: Direção

Hannah

Hannah (2017 – ITA) 

O cinema dos silêncios é uma arte dificílima. Afinal, numa era que tudo está tão acessível ao alcance da mãos, via smartphone, incluindo vídeos em tantas redes sociais, realizar um filme em que os silêncios são a figura dominante da estrutura narrativa, e conseguir assim deixar seu público intrigado, é algo raro. A sempre sensacional Charlotte Rampling foi escolhida melhor atriz em Veneza, não era por menos, o filme do italiano Andrea Pallaoro não se afasta um segundo de sua protagonista silenciosa.

Os planos fechados intensificam a rotina dessa mulher que sofre com o marido preso e com o distanciamento do filho. As informações são escassas, um quebra-cabeças pouco claro para o público, e bem curioso como a protagonista cria uma realidade paralela, quase uma negação dos fatos. Unir a familia parece impossível, mas ela segue ali, impassível ou apenas incapaz de enxergar a realidade bem diante dos seus olhos. Não é um filme arrebatador, mas é dentro do meticuloso que permite a compreensão dessa protagonista que não sabe, ou não quer acreditar no que possa ter ocorrido para destruir aquela familia.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor Atriz

Zama

Zama (2017 – ARG) 

Tão esperado e tão discutido, afinal, o novo filme de Lucrecia Martel acabou não sendo selecionado para a competição dos grandes festivais, apenas integrando as exibições especiais. E é um filme sobre o colonialismo europeia na América do Sul, e também um filme de sobrevivência.

O Zama do título é um oficial da coroa espanhola, que espera uma carta do rei com sua transfência à Europa. Os anos passam, a carta nunca vem, mas ele sempre se coloca submisso a qualquer governador da região, em busca de agradar e finalmente obter seu objetivo. No segundo ato, cansado da espera, ele parte em busca de um perigoso bandido pela selva da região (divisa com o Brasil).

É um filme mais claro em seus dilemas, ainda que também pessimista de Lucrécia. Filmar a América Colonial tem seu mostrado uma tarefa ingrata, o público não corresponde, o tema normalmente trafega pelo monótono. Por outro lado, há muito do cinema sensorial da argentina, onde sexo e racismo estão entre os panos de fundo, mas é a desesperança o combustível que carrega Zama por sua rotina diária burocrática e simplista. Lucrécia filma nossos primórdios, mais límpido que o Joaquim de Marcelo Gomes, porém mais reflexivo que a última leva de filmes que jogaram luz sobre essa época.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Fora da Competição

Pequena Grande Vida

Downsizing (2017 – EUA) 

Estamos sempre esperando o grande filme de Alexander Payne, seus projetos tem prometido, criado expectativas, mas nem sempre correspondem. Com seu ar de sempre ter uma comédia dramática na manga, seu novo trabalho esteve na competição principal em Veneza, onde passou em branco. E o filme realmente prometia, afinal, há algo tão americano nele, essa ideia de vida perfeita em comunidade, pregando o bem a todos, vivendo em harmonia.

E de quebra, a oportunidade de tratar temas como aquecimento global, superpopulação, e possibilidades de preservar nosso planeta. Lembre-se de Querida, Encolhi as Crianças, e pense em tratar no tema de maneira séria. Um experimento que possa diminuir as pessoas de tamanho, dessa forma gastaríamos menos dinheiro com tudo, produziríamos menos lixo e etc.

O ponto é que o roteiro quer sair dos temas globais para ter algo mais individual, uma maneira de dramatizar e assim ter mais apelo com o público. Matt Damon é quem interpreta o personagem que nos permite invadir esse mundo de gente pequena, e com ele vem suas características dramas pessoais, e os temas são banalizados pela problemática pessoal de um personagem que já vimos zilhões de vezes no cinema. E os temas vão passando, desperdiçados, surge uma oportunidade de ouro quando trata diferença de classes, trabalhadores braçais, e rapidamente o tema se esvai. O que resta? Meia-duzia de personagens que orbitam em torno do protagonista, entre piadas e dramas de uma vida cotidiana, e tão trivialmente individual. Payne nos entrega seu pior filme, saudade do curta dele em Paris, Te Amo.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição Principal

O Insulto

The Insult (2017 – LIB) 

Aproveitando a herança do vizinho cinema iraniano, de pequenas histórias que sirvam como metáforas de alta critica social, o diretor libanês Ziad Doueiri chega, com chances, ao Oscar de Filme Estrangeiro. O ódio religioso, um passado de lutas, violência e injustiças, que permanece até hoje. E o quanto esse histórico pode influenciar, mesmo em situações corriqueiras.

Afinal, como uma briga de rua vem pode ir parar num tribunal, e envolver mídias e movimentos inflamados pelas ruas. É o peso de um passado que cobra preços mais caros por valores como honra e justiça, e promove a violência onde não se faz necessário. É possível discutir o alicerce por onde a história é construída, mas inegável que ao compreender um caso tão isolado, num contexto histórico, as proporções de um simples insulto são mesmo de discutir a origem do problema (palestino, judeus, cristianismo). É fácil gostar do filme de Doueiri, de sua visão imparcial dos lados, mas também é possível enxergar um filme que se estabelece, quase que exclusivamente, de seu grande tema como se o cinema fosse apenas isso.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator