Posts com Tag ‘Festival de Veneza’

La Llorona (2019 – GUA)

Cada mais condizente incorporar o gênero do horror a temas políticos. Não há terror maior do que os abusos políticos que afetam tanto a população, mas parecem menos graves do que um bandido com uma arma na mão. Recentemente, o cinema tem explorado bem esse inesperado casamento.

O cineasta guatemalteco Jayro Bustamante se aproveita da lenda da Llorona para resgatar os genocídios de militares nos anos 80 em seu país. Milhares de indígenas foram mortos, ditos revoltosos, quando estavam mesmo na região onde se podia explorar petróleo “atrapalhando” o desenvolvimento.

Trinta anos depois, o personagem fictício do general (claramente inspirado no general ditador Efraín Ríos Montt, que governou o país entre 82-82, após um golpe de estado), está sob julgamento desse genocídio e começa a ser assombrado pelo choro de uma mulher. O encontro do realismo fantástico com o homem senil e sob forte pressão psicológica (na porte de sua casa o povo protesta) está no filme, mas as figuras centrais são as mulheres daquela casa: a filha, a mãe, as empregadas, e como elas lidam com a situação, as descobertas e tudo mais. O novo filme de Bustamente não chega a me encantar no todo, mas é de uma força importante, e lidamente filmado em todos os aspectos daquela casa em efervescência particular. A esposa que defende o marido, a filha que questiona, as empregada que abandonam. A linha tênue entre o drama político e o terror paranormal parece ser reescrita aqui.

WASP Network (2019 – EUA/BRA)

Olivier Assayas não conseguiu, dessa vez, realizar um thriller de espionagem daqueles. Adaptando o livro escrito por Fernando Morais, e entre tanta preocupação em contar mais e mais fatos da trama de espiões cubanos, em Miami, infiltrados para desmantelar grupos anticastristas, o que o filme deixou foi a sensação de faltar aquele punch. O todo é genérico, tal qual o elenco de estrelas latinas, de diversos países, tentando imitar o sotaque cubano.

O cineasta francês é sempre elegante na forma de filmar, e aqui realiza, talvez, seu filme mais radiante, influenciado pelo sol dos mares que separam EUA e Cuba. Porém, O resultado é um conjunto de fatos embaralhados em ordem não-cronologica, sem que você entenda muito bem o porquê de embaralhar tanto arcos e fatos que corriam paralelamente, mas são revelados tão a posterior. A trama era intrigante por si, afinal tantos agentes infiltrados, a Rede Vespa, e os arcos quase se fecham como capítulos, quase como um seriado. Destaque mesmo para Penelope Cruz e os dramas de uma esposa de militar envolvido em atividades de guerrilha.

Tchelovek Kotorij Udivil Vsekh / The Man Who Surprised Everyone (2018 – RUS)

Casado, a mulher grávida do segundo filho, vivendo num vilarejo na floresta da Sibéria, Egor parecia ter a vida estabilizada até descobrir que tem câncer terminal. Qual sua reação? Passa a se vestir de mulher. Já imaginou como poderia ser recebido por essa sociedade conservadora dos rincões da Rússia. O filme da dupla Aleksey Chupov e Natalya Merkulova é sobre a crise de identificade, mas acima de tudo sobre a não aceitação, sobre o exemplo negativo, enfim, sobre aparências. Violência, respeito, dor, tudo está ali, de maneira simples, direta, distante de sentimentalismo, da mesma maneira crua  com que aquela sociedade se estabelece.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte

Prêmio: Melhor Atriz

Behemoth

Publicado: fevereiro 11, 2019 em Cinema
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Bei xi mo shuo / Behemott (2015 – CHI) 

As imagens são belíssimas, a paisagem quase sempre cinza ou verde nos longos planos abertos dão sensação de uma imensidão única. O diretor Liang Zhao traz a tona a condição das minas de carvão na Mongólia Interior (província na China ao sul da Mongólia). Cidades fantasmas cujo governo tenta povoar são o menor dos problemas, a situação médica dos trabalhadores das minas é que é chocante. Numa das inúmeras cenas exasperantes um deles mostra as mãos cheias de calos, apenas uma pequena amostra do que o cinema pode oferecer entre dor e beleza. Mas Liang também quer ser poeta, e essa tarefa é bem mais difícil e nem sempre tão bem sucedida.


Festival: Veneza 2015

Mostra: Competição

Roma

Publicado: dezembro 13, 2018 em Cinema
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Roma (2018 – MEX) 

Sempre difícil lidar com o filme que você cria em sua cabeça através das expectativas. E no caso do novo trabalho de Alfonso Cuarón elas são altas, diria altíssimas. E realmente é um grande filme, e tão pessoal ao cineasta que foi resgatar a história da babá que cuidava dele, e dos irmãos, no México de tantos conflitos nos anos 70. Todo filmado em preto e branco, o primeiro destaque é o clima de nostalgia (potencializado pelo uso constante de travelings pela casa) e de grandiosidade, quando trata de uma história pequena e pessoal, os dramas de uma empregada doméstica.

Tem um pouco da proposta de Santiago, mas as coincidências param em dar foco a empregados da época de infância dos cineasta que foram muito marcantes em suas vidas. O filme de João Moreira Salles tem uma proposta bem mais radical, a de Cuarón é mais afetiva, e elaborada no plano visual. Esses travelings desnudam ambientes, a casa parece viva, cada canto com sua vida própria. As coisas vão acontecendo com tantos filhos e empregadas.

Roma guarda a grandiosidade nas pequenas coisas, nos pequenos e grandes dramas de Cleo (Yalitza Aparicio) que vive a vida dos donos da casa, que cuida das crianças em tempo integral e tem pouco espaço para sua individualidade. E quanto há espaço, são problemas, desilusões e alguns raios de felicidade. O novo filme de Cuaron não vem redescobrir novas formas de contar histórias, mas de dar voz a personagens coadjuvantes, mas que falam tanto de uma parcela tão grande da população. É um personagem das massas, que dá de frente com a violência das ruas, com a fragilidade de sua situação financeira e com a relação quase umbilical com seus chefes.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Filme

The Ballad of Buster Scruggs (2018 – EUA) 

Se engana quem julga que se trata de uma obra menor dos Irmãos Coen, só por serem seis histórias pequenas, que juntam formam um longa-metragem, e que mesmo com unidade, tenham suas particularidades que não  as tornam diretamente conectadas. A produção super bem cuidada, e o retorno dos cineastas ao Velho Oeste, demonstra que eles ainda tem muitas histórias para contar por aquelas bandas.

Entre o humor negro, o melodrama e outros estilos e subgêneros, há em todos os capítulos, dessa antologia, o tema da morte em comum. Seja no ladrão de banco condenado à forca, no minerados à procura de ouro, os burgueses em buscar de explorar novas terras, ou o Buster Scruggs do título, com seu gatilho  tão rápido, a morte está sempre rondando todos os personagens. Pode-se identificar mais com uma do que com outra das histórias, mas é o sabor narrativo do cineastas que torna esse lançamento da Netflix bem melhor do que ser apenas mais uma das estreias de uma sexta-feira qualquer do poderoso serviço de streamings. São os Coen revisitando essa região e demonstrando sua capacidade de modernizar a visão do Velho Oeste, por mais que tenha um gostinho de requentado.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Roteiro

22 de Julho

Publicado: novembro 26, 2018 em Cinema
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22 July (2018 – NOR/EUA) 

O novo filme de Paul Greengrass não vai muito além do correto. Narra os detalhes finais do plano do extremista que planegou o ataque combinado (bombas em Oslo e o tiroteio num acampamento de jovens numa ilha). Somados, os ataques causaram mais de 70 mortes e, obviamente, horrorizaram a sociedade norueguesa e mundial.

No meio de tantas vítimas, o roteiro dá mais foco na história de dois irmãos, um deles muito prejudicado pelos disparos, e a necessidade de meses em recuperação. Enquanto isso, o filme tenta decifrar um pouco do personagem que preza pela intolerância, o autoritarismo e outros comportamentos que a extrema-direita tem pregado na Europa nos últimos anos. Além do resgate da discussão sobre comportamentos humanos em que a violência é a forma encontrada para oprimir ideologias retrógradas e fanatismo intransigente, Greengrass não escapa da obviedade cinematográfica.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal