Posts com Tag ‘Festival de Veneza’

Tchelovek Kotorij Udivil Vsekh / The Man Who Surprised Everyone (2018 – RUS)

Casado, a mulher grávida do segundo filho, vivendo num vilarejo na floresta da Sibéria, Egor parecia ter a vida estabilizada até descobrir que tem câncer terminal. Qual sua reação? Passa a se vestir de mulher. Já imaginou como poderia ser recebido por essa sociedade conservadora dos rincões da Rússia. O filme da dupla Aleksey Chupov e Natalya Merkulova é sobre a crise de identificade, mas acima de tudo sobre a não aceitação, sobre o exemplo negativo, enfim, sobre aparências. Violência, respeito, dor, tudo está ali, de maneira simples, direta, distante de sentimentalismo, da mesma maneira crua  com que aquela sociedade se estabelece.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte

Prêmio: Melhor Atriz

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Behemoth

Publicado: fevereiro 11, 2019 em Cinema
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Bei xi mo shuo / Behemott (2015 – CHI) 

As imagens são belíssimas, a paisagem quase sempre cinza ou verde nos longos planos abertos dão sensação de uma imensidão única. O diretor Liang Zhao traz a tona a condição das minas de carvão na Mongólia Interior (província na China ao sul da Mongólia). Cidades fantasmas cujo governo tenta povoar são o menor dos problemas, a situação médica dos trabalhadores das minas é que é chocante. Numa das inúmeras cenas exasperantes um deles mostra as mãos cheias de calos, apenas uma pequena amostra do que o cinema pode oferecer entre dor e beleza. Mas Liang também quer ser poeta, e essa tarefa é bem mais difícil e nem sempre tão bem sucedida.


Festival: Veneza 2015

Mostra: Competição

Roma

Publicado: dezembro 13, 2018 em Cinema
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Roma (2018 – MEX) 

Sempre difícil lidar com o filme que você cria em sua cabeça através das expectativas. E no caso do novo trabalho de Alfonso Cuarón elas são altas, diria altíssimas. E realmente é um grande filme, e tão pessoal ao cineasta que foi resgatar a história da babá que cuidava dele, e dos irmãos, no México de tantos conflitos nos anos 70. Todo filmado em preto e branco, o primeiro destaque é o clima de nostalgia (potencializado pelo uso constante de travelings pela casa) e de grandiosidade, quando trata de uma história pequena e pessoal, os dramas de uma empregada doméstica.

Tem um pouco da proposta de Santiago, mas as coincidências param em dar foco a empregados da época de infância dos cineasta que foram muito marcantes em suas vidas. O filme de João Moreira Salles tem uma proposta bem mais radical, a de Cuarón é mais afetiva, e elaborada no plano visual. Esses travelings desnudam ambientes, a casa parece viva, cada canto com sua vida própria. As coisas vão acontecendo com tantos filhos e empregadas.

Roma guarda a grandiosidade nas pequenas coisas, nos pequenos e grandes dramas de Cleo (Yalitza Aparicio) que vive a vida dos donos da casa, que cuida das crianças em tempo integral e tem pouco espaço para sua individualidade. E quanto há espaço, são problemas, desilusões e alguns raios de felicidade. O novo filme de Cuaron não vem redescobrir novas formas de contar histórias, mas de dar voz a personagens coadjuvantes, mas que falam tanto de uma parcela tão grande da população. É um personagem das massas, que dá de frente com a violência das ruas, com a fragilidade de sua situação financeira e com a relação quase umbilical com seus chefes.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Filme

The Ballad of Buster Scruggs (2018 – EUA) 

Se engana quem julga que se trata de uma obra menor dos Irmãos Coen, só por serem seis histórias pequenas, que juntam formam um longa-metragem, e que mesmo com unidade, tenham suas particularidades que não  as tornam diretamente conectadas. A produção super bem cuidada, e o retorno dos cineastas ao Velho Oeste, demonstra que eles ainda tem muitas histórias para contar por aquelas bandas.

Entre o humor negro, o melodrama e outros estilos e subgêneros, há em todos os capítulos, dessa antologia, o tema da morte em comum. Seja no ladrão de banco condenado à forca, no minerados à procura de ouro, os burgueses em buscar de explorar novas terras, ou o Buster Scruggs do título, com seu gatilho  tão rápido, a morte está sempre rondando todos os personagens. Pode-se identificar mais com uma do que com outra das histórias, mas é o sabor narrativo do cineastas que torna esse lançamento da Netflix bem melhor do que ser apenas mais uma das estreias de uma sexta-feira qualquer do poderoso serviço de streamings. São os Coen revisitando essa região e demonstrando sua capacidade de modernizar a visão do Velho Oeste, por mais que tenha um gostinho de requentado.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Roteiro

22 de Julho

Publicado: novembro 26, 2018 em Cinema
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22 July (2018 – NOR/EUA) 

O novo filme de Paul Greengrass não vai muito além do correto. Narra os detalhes finais do plano do extremista que planegou o ataque combinado (bombas em Oslo e o tiroteio num acampamento de jovens numa ilha). Somados, os ataques causaram mais de 70 mortes e, obviamente, horrorizaram a sociedade norueguesa e mundial.

No meio de tantas vítimas, o roteiro dá mais foco na história de dois irmãos, um deles muito prejudicado pelos disparos, e a necessidade de meses em recuperação. Enquanto isso, o filme tenta decifrar um pouco do personagem que preza pela intolerância, o autoritarismo e outros comportamentos que a extrema-direita tem pregado na Europa nos últimos anos. Além do resgate da discussão sobre comportamentos humanos em que a violência é a forma encontrada para oprimir ideologias retrógradas e fanatismo intransigente, Greengrass não escapa da obviedade cinematográfica.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal

The Favourite (2018 – RU) 

Yorgos Lanthimos já tratou de jogos de poder antes, mas de forma muito mais repugnante. Mas, aqui ele está falando com um público bem maior, filmado em inglês, astros do cinema, por isso mesmo uma versão bem mais palatável de seu estilo de cinema irônico, provocador e altamente manipulador, mas ainda assim um estudo sobre jogos de poder nas relações humanas, e que não poderia ser mais atual pela domínio feminino em cena e no protagonismo da direção do reinado.

Seu roteiro se baseia na história, Inglaterra do século XVIII, e três mulheres dominando e manipulando a corte britânica, são elas: a rainha Anne (Olivia Colman), sua conselheira fiel e amante (Rachel Weisz) e a prima da conselheira (Emma Stone). A rainha emocionalmente fragilizada e as duas mulheres em ambições próprias por mais espaço no poder. A eterna ironia de Lanthimos encontra aqui o veneno de constatar táticas nada ortodoxas nos movimentos de cada uma delas para alcançar o que querem, desde seguir em guerra com a França, até apenas galgar melhores posições na corte.

O mais impresssionamente mesmo é como o cineasta grego filma tudo isso, o preto presente em quase todas as cenas, a iluminação de velas em algumas cenas, a grande ocular que captam a grandeza de grandes halls do castelo. Tudo orquestrado com cenas de sexualidade seca, de frieza nos relacionamentos e de diálogos onde essa tal ironia parece serr a única tônica (ok que aqui alguns até passam do tom por tamanha perfeição de ironismo). Esse visual vigoroso, as atuações impecáveis (principalmente a desconstrução da nobreza de Colman) e a beleza de cenários e figurinos devem ser um prato cheio ao Oscar, mas o filme é mais que isso, é também esse panfleto feminista, ainda que critico de que com o poder, as mulheres também manipulam interesses e sentimentos, usam o sexo a seu favor e a violência como forma de alcançar um bem maior.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

Amanda

Publicado: outubro 31, 2018 em Cinema, Mostra SP
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Amanda (2018 – FRA) 

Mikhaël Hers volta a falar de perda, com sua melancolia colorida, a fluidez da tristeza. Em seu filme anterior, o surpreendente Aquele Sentimento do Verão, a morte da de uma garota aproximava a irmã dela do namorado, mas não um envolvimento romântico, e sim um companheirismo pelo luto, um sentimentoq eu não estamos muito acostuamados a ver retratado.

A figura central é de um jovem, de 24 anos, que vive de empregos temporários e é muito ligado a sua irmã e sobrinha. Uma tragédia assola a familia, Hers insere aqui questões da violência e da intolerância com um ataque terrorista em Paris, e a dinâmica de todos os personagens muda drasticamente. Equilibrando a narrativa entre o drama e a leveza, é encantador descobrir cada um se adaptando a nova realidade, os relacionamentos que se fragmentam, as responsabilidades que aumentam, a adaptação que é delicada e pede urgência.

É pela leveza da nova rotina e das tarefas diárias que Hers insere a dor, a tristeza, uma saudade que traz lágrimas aos personagens, ao público, a qualquer um que se envolva minimamente com dramas tão possíveis e doloridos. E Hers faz tudo isso sem jogar sujo, a dor vem de repente, num momento qualquer, e passa, por um tempo, mas passa. Casos amorosos, a ajuda da familia e o se redescobrir, é tudo uma tarefa que não há cartilha, mas que enfrentar é a única solução. O filme é lindo por essa capacidade de ser tocante e puro, de olhar o futuro com otimismo, mas sem se esquecer das pedras que surgem pelo caminho.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte