Zama

Zama (2017 – ARG) 

Tão esperado e tão discutido, afinal, o novo filme de Lucrecia Martel acabou não sendo selecionado para a competição dos grandes festivais, apenas integrando as exibições especiais. E é um filme sobre o colonialismo europeia na América do Sul, e também um filme de sobrevivência.

O Zama do título é um oficial da coroa espanhola, que espera uma carta do rei com sua transfência à Europa. Os anos passam, a carta nunca vem, mas ele sempre se coloca submisso a qualquer governador da região, em busca de agradar e finalmente obter seu objetivo. No segundo ato, cansado da espera, ele parte em busca de um perigoso bandido pela selva da região (divisa com o Brasil).

É um filme mais claro em seus dilemas, ainda que também pessimista de Lucrécia. Filmar a América Colonial tem seu mostrado uma tarefa ingrata, o público não corresponde, o tema normalmente trafega pelo monótono. Por outro lado, há muito do cinema sensorial da argentina, onde sexo e racismo estão entre os panos de fundo, mas é a desesperança o combustível que carrega Zama por sua rotina diária burocrática e simplista. Lucrécia filma nossos primórdios, mais límpido que o Joaquim de Marcelo Gomes, porém mais reflexivo que a última leva de filmes que jogaram luz sobre essa época.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Fora da Competição

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Pequena Grande Vida

Downsizing (2017 – EUA) 

Estamos sempre esperando o grande filme de Alexander Payne, seus projetos tem prometido, criado expectativas, mas nem sempre correspondem. Com seu ar de sempre ter uma comédia dramática na manga, seu novo trabalho esteve na competição principal em Veneza, onde passou em branco. E o filme realmente prometia, afinal, há algo tão americano nele, essa ideia de vida perfeita em comunidade, pregando o bem a todos, vivendo em harmonia.

E de quebra, a oportunidade de tratar temas como aquecimento global, superpopulação, e possibilidades de preservar nosso planeta. Lembre-se de Querida, Encolhi as Crianças, e pense em tratar no tema de maneira séria. Um experimento que possa diminuir as pessoas de tamanho, dessa forma gastaríamos menos dinheiro com tudo, produziríamos menos lixo e etc.

O ponto é que o roteiro quer sair dos temas globais para ter algo mais individual, uma maneira de dramatizar e assim ter mais apelo com o público. Matt Damon é quem interpreta o personagem que nos permite invadir esse mundo de gente pequena, e com ele vem suas características dramas pessoais, e os temas são banalizados pela problemática pessoal de um personagem que já vimos zilhões de vezes no cinema. E os temas vão passando, desperdiçados, surge uma oportunidade de ouro quando trata diferença de classes, trabalhadores braçais, e rapidamente o tema se esvai. O que resta? Meia-duzia de personagens que orbitam em torno do protagonista, entre piadas e dramas de uma vida cotidiana, e tão trivialmente individual. Payne nos entrega seu pior filme, saudade do curta dele em Paris, Te Amo.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição Principal

O Insulto

The Insult (2017 – LIB) 

Aproveitando a herança do vizinho cinema iraniano, de pequenas histórias que sirvam como metáforas de alta critica social, o diretor libanês Ziad Doueiri chega, com chances, ao Oscar de Filme Estrangeiro. O ódio religioso, um passado de lutas, violência e injustiças, que permanece até hoje. E o quanto esse histórico pode influenciar, mesmo em situações corriqueiras.

Afinal, como uma briga de rua vem pode ir parar num tribunal, e envolver mídias e movimentos inflamados pelas ruas. É o peso de um passado que cobra preços mais caros por valores como honra e justiça, e promove a violência onde não se faz necessário. É possível discutir o alicerce por onde a história é construída, mas inegável que ao compreender um caso tão isolado, num contexto histórico, as proporções de um simples insulto são mesmo de discutir a origem do problema (palestino, judeus, cristianismo). É fácil gostar do filme de Doueiri, de sua visão imparcial dos lados, mas também é possível enxergar um filme que se estabelece, quase que exclusivamente, de seu grande tema como se o cinema fosse apenas isso.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator

Sarah Plays a Werewolf

Sarah Joue un Loup Garou / Sarah Plays a Werewolf (2017 – SUI) 

O filme de estreia de Katharina Wyss tem na claustrofobia o combustível para narrar a história de uma jovem de dezessete anos. Com grande dificuldade de se relacionar socialmente, Sarah (Loane Balthasar) se entrega ao teatro da escola, e o que deveria ajudar na socialização, a torna ainda mais obsessiva e compulsiva. A tragédia das peças (Julieta de Shakespeare  principalmente) reflete em seus próprios comportamentos, tornando-a ainda mais introspectiva e dissimulada.

O roteiro também dialoga bastante com temas que o cinema tem discutido escancaradamente, abuso e a posição da mulher. A familia, a ópera, a ausência do irmão mais velho, tudo colabora nesse universo sufocante a qual Sarah mergulha e nem sabemos se tudo é verdade ou mera imaginação. Wyss sintetiza numa quase bipolaridade toda a problematização de uma idade em que se cobra responsabilidades, em que a fase adulta bate à porta, e lidar com a nova realidade corre o risco de se tornar perturbador.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Semana da Crítica

A Forma da Água

The Shape of Water (2017 – EUA) 

O novo conto de fadas de Guillermo del Toro é romântico, da voz aos marginalizados, é bastante ousado sexualmente, algumas horas divertido, em outras canastrão com seus vilões. A atmosfera de O Labirinto do Fauno é transferida para um laboratório militar dos EUA em plena Guerra Fria. Espiões soviéticos infiltrados e um estranho anfíbio capturado das águas do Amazonas são as obsessões militares da base.

Nasce a improvável história de amor entre o monstro e uma faxineira muda, del Toro toma todos os cuidados com o tom romântico: da graça e leveza de Sally Hawkins, quase em hipnose, à trilha sonora aconchegante e a beleza com que a fotografia escura e de tons pesados (muito verde musgo) oferece num contraste entre sentimentos e ambientes.

O romance está lá, assim como todo o vilanismo da cúpula militar (Michael Shannon) em caricatura, violência e cegueira. Personagens periféricos são pouco desenvolvidos para que o romance comova, ainda que sempre envolto nesse universo da beleza impossível e dos marginalizados buscando seu espaço para encontrar sua felicidade.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Leão de Ouro – Melhor Filme

Suburbicon – Bem-Vindos ao Paraíso

Suburbicon (2017 – EUA) 

Curioso que Matt Damon esteja, no mesmo ano, em duas produções tão questionáveis, de cineastas consagrados, e que se passem em comunidades perfeitas para o sonho americano, e ambos com estreia mundial no mesmo festival. Pequena Grande Vida (de Alexander Payne) ainda vem ai, enquanto isso temos em cartaz esta nova comédia de humor negro, de George Clooney, com roteiro dos Irmãos Coen.

Suburbicon é um desses modelos perfeitos do american way of life dos anos 50, uma comunidade em que as casas não tem muros, o gramado bem cuidado e as famílias vivem em harmonia. Adicionando a questão racial, porque o ambiente perfeito é confrontado com a chegada de uma família negra no local. Os moradores protestam, fazem manifestação na casa do tipo de pessoas das quais eles tentaram fugir em Suburbicon.

Na casa vizinha, a verdadeira da trama ocorre, onde a família de Gardner Lodge (Damon) sofre as consequências da invasão violenta de bandidos em sua casa. Filho (Noah Jupe), esposa (Julianne Moore), e cunhada (Moore também) amordaçados, insultados, agredidos. Dai em diante, o roteiro tenta nos convencer da verdadeira personalidade de cada um dos personagens, um jogo de sordidez, golpes meticulosamente planejados e consequências tardias.

O todo sofre da mesma ingenuidade de seus personagens, e a comédia de erros soa frágil enquanto tenta se camuflar na panela de pressão racial prestes a explodir na casa ao lado. Caricaturas incongruentes e exagero de situações que tentam perpetuar toda a proposta do universo de personagens que os Coen consagraram no cinema (se bem que não é a primeira vez que não funcionam bem), enquanto isso, Clooney parece mais preocupado com o cacoetes desses personagens, do que em dar uniformidade ao seu filme.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Human Flow | Incorruptible

Human Flow (2017 – ALE) 

Incorruptible (2015 – SEN) 

As coincidências da vida me levaram a assistir aos dois filmes, no mesmo dia. E mesmo que não tenham o tema em comum, é possível encontrar paralelos, e reflexos de urgências globais, entre os interessantes documentários. Incorruptible (disponível na Netflix) é da diretora Elizabeth Chai Vasarhelyi e trata a questão eleitoral no Senegal, novamente um governante tentando se perpetuar no poder. Human Flow é a estreia do polêmico artista chinês Ai Weiwei (um dos grandes nomes da atualidade e que merece ser descoberto) tratando a inflamada questão dos refugiados.

Em ambos os casos temos fome, miséria e a população completamente jogada à sorte frente a decisão autoritária e egocêntrica de seus governantes. No Senegal, a corrupção política, a sede de poder, e o desrespeito as leis, despotismo, políticas infelizmente comuns nos países africanos. Chai Vasarhelyi acompanha o processo eleitoral, as ameaças e os confrontos, enquanto existe a real possibilidade da oposição disputar, voto-a-voto, a eleição que era tida como certa do presidente. Talvez, o mais impactante seja a imagem, já no segundo turno, dos mais de dez candidados derrotados, se alinhando ao opositor que chegou nessa segunda etapa. É impressionante como todos podem se unir numa escolha única, que esteja além de suas convicções políticas.

É decepcionante que Ai Weiwei tenha preferido uma narrativa tão quadrada e “jornalística”. De um artista tão inventivo, poderia se esperar o novo. Ele viaja à Europa, Oriente Médio, África e fronteira do México com EUA atrás de refugiados. Algumas entrevistas, porém o foco é mais o modus-operandi da vida de refugiado. Flagra da vida desumana, da ausência de necessidades básicas, da impossibilidade de voltarem a seus países e da total desesperança de uma solução a curto, médio ou longo prazo. Weiwei ousa mais quando se apodera da força das imagens, aéreas com drones, ou no epicentro dos dramas entre tempestades de areia, incêndios ou cidades completamente destruídas. Ainda que inegavelmente interessado em seus resultados, Weiwei vende essa ideia de plural, de democrático, e de mostrar o drama como-ele-é.


Human Flow

Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmios: