Os Irmãos Lobo

osirmaosloboThe Wolfpack (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Andando por Manhattan, Crystal Moselle deu de cara com seis adolescentes, de óculos escuros e vestidos como em Cães de Aluguel. Fez amizade com eles, e descobriu que viveram confinados, 14 anos, num apartamento ali perto. Desse encontro nasce o documentário, entre muitas imagens de arquivo e depoimentos desses jovens, da mãe, e do pai, a jovem diretora Crystal Moselle traz a tona novo capítulo sobre os absurdos humanos.

Privados de convívio social, o pai era o único que tinha a chave e saia de casa diariamente. Criados com carinho excessivo e zelo extremado, descobriram o mundo através do cinema. Era a única válvula de escape e conexão com o que estava lá fora. São jovens ingênuos e dóceis, que mesmo na revolta, a expressam de maneira branda. Moselle registra os detalhes, dá grande foco a essa ligação com o cinema, tornando o absurdo da criação dos filhos um empecilho menor, ainda que condenável. Falta a contundência que o tema pede, sobra a simpatia com que Moselle é recebida por aquela família que poderia ter saído de um filme do novo cinema grego.

Love & Mercy

loveandmercyLove & Mercy (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A cinebiografia de Brian Wilson (vocalista dos reis do surfin music, os Beach Boys) tenta fugir o padrão. Dirigida por Bill Pohlad e narrada em dois tempos, anos 80 (John Cusack) e nos 60 (Paul Dano), sempre pesa para os momentos dramáticos do cantor, sem que o tom seja pesado demais (movimento contínuo do bate e assopra). Na fase jovem, o foco maior está na fase de loucura do cantor, quando a banda já tinha sucesso e ele parte para aventuras em LSD que refletem diretamente em suas canções.

Nos dias de hoje, Brian Wilson sofre de esquizofrência, ouve vozes, e tem a vida dominada por seu médico (Paul Giamatti), até o flerte com Melinda (Elizabeth Banks) é friamente observado pelo médico. Os Beach Boys são postos de lado frente os dramas de Wilson (relacionamento com o pai, desentrosamento com a banda, e o sofrimento atual), assim como fases felizes de sua vida. Ainda assim, é um biografai honesta, feita sob encomenda para o final feliz.

Resultados

resultadosResults (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Depois sólida carreira pelo cinema indie americano, Andrew Bujalski em seu primeiro filme com atores renomados. E é pelo excesso de criatividade que seu filme se dissolve. Os cacoetes clichês dos filmes de Sundance aportam aqui, dessa vez, com personagens loser por excelência, tratados de maneira fofa. Mas, o problema maior é roteiro bagunçado que nem consegue brincar com as filosofias de vida pregadas pelo instrutor Trevor (Guy Pearce), e muito menos soa interessante no triângulo amoroso que se desenha. Discussões blasè que tentam mirar no romântico (Cobie Smulders bem histérica) e resoluções sexuais apresentadas de forma tão atrasadas complementam essa miscelânea mal capitaneada por Bujalski.

 

 

Mia Madre

minhamaeMia Madre (2015 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A mãe de Nanni Moretti faleceu durante o período de filmagens de seu último filme. Trabalhando seus dramas pessoais, o cineasta italiano resgata esse capítulo de sua vida. Ele assume o personagem coadjuvante do homem que larga o emprego para cuidar dos últimos dias de vida da mãe, e principalmente abrir os olhos de sua irmã de que ela chegou à reta final.

A irmã é a verdadeira protagonista da história, alter-ego do próprio Moretti, uma Margherita (Margherita Buy) dividida pelas dificuldades da filmagem de seu próximo trabalho, os cuidados com a filha adolescente e a situação da mãe. É tudo muito bonito pela nítida comoção de Moretti com o conteúdo, por outro lado soa como um próprio adeus do cineasta (rumores de que seja o último filme de Moretti), e dessa forma um tanto preguiçoso, com muitos planos americanos e a carga dramática contida de quem quer prestar uma homenagem sem exagerar em nenhum ponto sequer.  John Turturro tenta ser o alívio cômico, marca registrado dos filmes de Moretti, mas seu ator excêntrico, que esquece as falas, não chega a ser nada marcante para o filme.

Um Amor a Cada Esquina

umamoracadaesquinaShe’s Funny That Way (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A volta de Peter Bogdanovich vem com um sopro de despretensão. Repetindo fórmulas que Woody Allen tem usado à exaustão (nem sempre acertando), o veterano cineasta cria uma comédia de incorrigíveis. Repleta de tolices que unificam um pequeno grupo de personagens, em situações divertidas e improváveis. O mundo do teatro conectado a psicólogos, detetives, prostitutas e confusões tão óbvias quanto graciosas.

Do bondoso infiel à histérica psicóloga, o roteiro brinca com encontros, destinos e jogos de interesse, sempre com cunho amoroso, sem nunca perder o bom-humor. Bogdanovich brinca até nos enquandramentos e no estilo moderninho, sempre privilegiando o clima leve, o aspecto agradável. Ficamos com tão pouca opções com as comédias americanas dominadas por Judd Apatow, e sua turma, que esse levante despretensioso, embalado pelo jazz e pela histeria ingênua, soam como um bem-vindo afresco de tonalidades pueris. Um doce alívio entre tanto humor carregado de tom apelativo.

O Peso do Silêncio

opesodosilencioThe Look of Silence (2014 – DIN) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Foram 12 anos de filmagens de Joshua Oppenheimer na Indonésia, destrinchando a tortura e a matança comandada pelo governo, que até hoje está no poder. O documentário anterior, O Ato de Matar, foi o feito que causou choque pelo material impensável, onde torturadores narram detalhes e simulam atos violentos do passado. O americano radicado na Dinamarca ainda tinha mais material, e com ele montou este segundo documentário. Dessa vez, há um personagem central, um oftalmologista cujo irmão mais velho foi um dos assassinados pelo regime.

Ele vai à casa dos torturadores, realizando uma consulta médica, e puxa o assunto dos massacres. O resultado é o confronto verbal, o arrependimento desculpado pelas obrigações militares. É até triste frisar, mas o choque do filme anterior já não nos atinge tanto. Por isso que o subterfúgio da “acareação” dá sobrevida a este material. Oppenheimer segue remoendo a brasa dessa fogueira, e exibe o pior do ser humano, essa faceta hedionda e criminosa. Mesmo que sem tanto brilho, com bastante melodrama, e com o peso da repetição, ainda assim é a confirmação da coragem do cineasta, e do absurdo que transformou qualquer reclamante indonésio em comunista, marcados por rótulos e perseguidos até à morte. Maior que o cinema, segue sendo o feito histórico.

Festival do Rio 2015

festivaldorio2015

A crise financeira obrigou o Festival do Rio (assim como acontecerá com a Mostra SP) a se reinventar, mais enxuto. Pela seleção de filmes do Festival, cujo pontapé inicial é hoje, essa escassez econômica não significou perder em atrações interessantes. Pelo contrário, a seleção parece bem melhor que do ano passado. É verdade que este ano o evento do Rio não conseguiu os principais premiados nos 3 grandes festivais (nessa disputa de egos com o evento de São Paulo), porém não perdeu glamour com outros grandes destaques, além daquela preferência por filmes de nomes famosos que atraem o público nem tão cinéfilo.

Nas retrospectivas, uma homenagem a Orson Welles com alguns de seus filmes e documentários sobre o cineasta. Outra homenagem fica ao Estúdio Ghibli, garantindo muitos títulos imperdíveis como O Túmulo dos Vagalumes, Meu Vizinho Totoro e Porco Rosso. O pouco conhecido cinema noir mexicano também não deveria passar batido aos olhos mais apurados. Wes Craven será lembrado com sessão especial de Pânico, por outro lado, até filme da Xuxa o festival resolveu programar.

Falando agora do cinema contemporâneo, segue abaixo lista dos filmes que este blog considera imperdíveis, entre grandes nomes (Sokurov, Garrone e Moretti) ou aqueles que causaram elogios (como o novo dos diretores portugueses de E Agora? Lembra-Me, ou do dinamarquês que dirigiu O Ato de Matar), ao longo do ano, pela crítica internacional especializada:

 

Imperdíveis:

Francofonia, de Aleksandr Sokurov [Veneza – competição]

O Peso do Silêncio, de Joshua Oppenheimer [Veneza – competição]

Os Irmãos Lobo, de Crystal Moselle [Sundance – US Documentary]

No Andar Debaixo, de Radu Muntean [Cannes – Un Certain Regard]

Rabo de Peixe, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel [Berlim – Forum]

Minha Mãe, de Nanni Moretti [Cannes – Competição]

Boi Neon, de Gabriel Máscaro [Veneza – Orizzonti]

Anomalisa, de Michel Gondry e Duke Johnson [Veneza – Competição]

A Obra do Século, de Carlos Machado Quintela [Rotterdã – Competição]

Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven [Cannes – Quinzena dos Realizadores]

Green Room, de Jeremy Saulnier [Cannes – Quinzena dos Realizadores]

 

 

Lista de Filmes para ficar de olho:

11 minutos, de Jerzy Skolimowski [Veneza – Competição]

À Sombra de uma Mulher, de Phillipe Garrel [Cannes – Quinzena dos Realizadores]

Lugar Certo, História Errada, de Hong Sang-soo [Locarno – Competição] – vencedor melhor filme

O Pica Pau Russo, de Chad Garcia [Sundance – World Cinema Doc]

600 Milhas, de Gabriel Ripstein [Berlim – Panorama Especial]

Pecados antigos, longas sombras, de Alberto Rodríguez [San Sebastian – Competição] – vencedor Goya melhor filme

Tribunal, de Chaitanya Tamhane [Veneza – Orrizonti]

Eu, Você e a Garota que Vai Morrer, de Alfonson Gomez-Rejon [Sundance – US Dramatic] – melhor filme

O Final da Turnê, de James Ponsoldt [Sundance – Premières]

La Belle Saison, de Catherine Corsini  [Locarno – Piazza Grande]

Tikkun, de Avishai Sivan [Locarno – Competição]

Bela e Perdida, de Pietro Marcello [Locarno – Competição]

Eu, Soldado, de Laurent Lariviere [Cannes – Un Certain Regard]

Paulina, de Santiago Mitre [Cannes – Semana da Crítica]

O Outro Lado, de Roberto Minervini [Cannes – Un Certain Regard]

Um amor a cada esquina, de Peter Bogdanovich [Veneza]

Sociedade Indiferente, de Rodrigo Plá [Veneza – Orizzonti]

Em Trânsito, de Albert Maysles, Lynn True e etc [Tribeca]

Malala, de David Guggenheim [Telluride]

Dreamcatcher, de Kim Longinotto [Sundance]

Coro, de François Delisle [Sundance – World Cinema Dramatic]

The Diary of a Teenage Girl, de Marielle Heller [Sundance – US Dramatic]

O Pesadelo – Paralisia do Sono, de Rodney Ascher [Sundance]

A Corrida contra a Extinção, de Louie Psihoyos [Sundance – US Doc]

Tangerina, de Sean Baker [Sundance]

Mediterrânea, de Jonas Carpignano [Cannes – Semana da Crítica]

Rainha do Mundo, de Alex Ross Perry [Berlim – Forum]

Não é um Filme Caseiro, de Chantal Akerman [Locarno – Competição]

Resultados, de Andrew Bujalski [Sundance – US Dramatic]

Rabin, the Last Day, de Amos Gitai [Veneza – Competição]

Les Chevaliers Blancs, de Joachim Lafosse [San Sebastian – Competição]

Truman, de Cesc Gay [San Sebastian – Competição]

Em Jackson Heights, de Frederic Wiseman [Veneza]

 

Alguns dos outros filmes presentes em festivais:

O Conto dos Contos, de Matteo Garrone [Cannes – Competição]

Montanha da liberdade, de Hong Sang-soo [Veneza – Orrizonti]

Paz para nós em nossos sonhos, de Sharunas Bartas  [Cannes – Quinzena dos Realizadores]

A rua da amargura, de Arturo Ripstein [Veneza]

Argentina, de Carlos Saura [Veneza]

Necktie Youth, de Sibs Shongwe-La Mer [Tribeca]

Ned Rifle, de Hal Hartley [Toronto]

Miss You Already, de Catherine Hardwicke [Toronto]

Dope, de Rick Famuyiwa [Sundance]

Going Clear: Scientology and the Prison of Belief, de Alex Gibney [Sundance]

Je Suis Charlie, de Daniel e Emmanuel Leconte [Toronto]

Grandma, de Paul Weitz [Toronto]

In Natura, de Ole Giæver, Marte Vold [Toronto]

Estórias de nossas vidas, de Jim Chuchu [Toronto]

A Academia das Musas, de José Luis Guerín [Locarno]

Transtorno, de Alice Winocour [Cannes]

Sol a Pino, de Dalibor Matanic [Cannes]

As Escolhidas, de David Pablos [Cannes]

Sicário: Terra de Ninguém, de Denis Villeneuve [Cannes]

Nahid, de Ida Panahandeh [Cannes]

The Lobster, de Yorgos Lanthimos [Cannes]

O Incêndio, de  Juan Schnitman [Berlim]

Sr. Holmes, Bill Condon [Berlim]

Paraíso Fétido, de Nathan Solver [Rotterdã]

Aspirantes, de Ives Rosenfeld [Karlovy Vary]