Posts com Tag ‘Festival do Rio’

cavalodinheiroCavalo Dinheiro (2014 – POR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

As fotos em preto e branco, que abrem o filme, antes da aparição de Ventura e o restante do elenco de não-atores cabo-verdianos, trazem qual tipo de conexão? Imigração e suas mazelas? Não consigo encontrar outra resposta, afinal, a imigração é tema que ecoa no cinema de Pedro Costa. O bairro de Fontainhas (em Lisboa), que não existe mais, era o local de concentração dos imigrantes de Cabo Verde. Restam sobreviventes do bairro.

Delírios, esse filme-ensaio é formado por delírios do pedreiro aposentado (Ventura) que já confunde sua idade (chega a dizer ter 19 anos e alguns meses), mistura comentários de pessoas vivas e mortas, perdeu-se no tempo. Sombras rigorosas diminuem ainda mais o campo de visão (exibido em 4:3 que já encolhe a tela bastante), e esse negro forte traz brilho e profundidade intensos. Olhares dispersos e falas desconexas, o sofrimento nas rugas, nos olhares. Costa é profundo e surreal. O filme é de pequenos fragmentos desses delírios. Pessoas doentes, internadas num manicômio, que se lembram da chegada a Portugal, de seus casamentos, de amores, com pesar e ternura. Ventura preso e perdido na floresta de sua mente, recordações de seus cavalos (entre eles o que se chama Dinheiro).

Costa ainda retorna ao terror do elevador em que Ventura e um soldado ficaram “presos” em seu segmento do filme Centro Histórico. A situação se repete, o claustrofóbico também, as falas sobre a ditadura são substituídas por outros delírios de Ventura. Costa faz de Cavalo Dinheiro uma experiência, abandonamos os roteiros e partimos para um cinema de imersão entre memórias e angústias, entre a pureza e a decadência (física, mental, social).

ocompadremendozaEl Compadre Mendoza (1934 – MEX) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Revolução Mexicana, década de 1910, de um lado as tropas do governo do ditador Diaz, de outro as do revolucionário Zapata. O astuto fazendeiro Rosalio Mendoza (Alfredo Del Diestro) faz fortuna fazendo negócio, e dando apoio, aos dois lados. Um dos maiores clássicos do cinema mexicano, o filme dirigido por Fernando De Fuentes e Juan Bustillo Oro é de um ritmo narrativo impressionante. Quase em sua totalidade filmado numa fazenda, a fita consegue concentrar conflitos militares, acordos negociados, a relação de cumplicidade de amigos e um triângulo amoroso que não vai além da vontade.

Por todas essas características, o filme é puro, e enraizado por essa festividade latina. O empregado que precisa mudar o quadro com a foto do líder, dos lados opostos, que bebe e os segredos proferidos por sua boca não são levados a sério. Acima de um drama político, Oro e Fuentes representam o latinfundiário mexicano do início do século XX. Os negócios vão bem, ou vão mal, a rsponsabilidade familiar, a amizade com lados opostos que, de alguma forma, acabará o colocando no corner. Mendoza tem suas escolhas, mas jamais resistirá ao nocaute sentimental.

Festival-Do-Rio2014Ontem foi a festa de abertura, com O Sal da Terra (documentário de Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders sobre Sebastião Salgado), e a partir de hoje começam as sessões para os cinéfilos. Serão 2 semanas de outra safra bem interessante de filmes que serão lançados em breve, ou tiveram grande destaque nos festivais deste ano. Tempo de maratonas, correr atrás de ingressos, montar programações, e lamentar os filmes que não vieram (parte dos ausentes farão parte da Mostra SP, outros não).

Como dito, a safra é diversificada, filmes dos mais aguardados do ano. Continua com uma presença respeitável dos filmes mais “pop”, além de se tornar a plataforma de lançamento dos principais filmes nacionais do ano. Se minhas estatísticas não falharam, são quase 80 filmes dos principais festivais fazem parte da programação. Este post ficará fixo até o final do festival, atualizado com links para textos dos filmes vistos, que estiverem na programação, Segue abaixo destaques e considerações de acordo com os festivais mais prestigiados:

Sundance:

  • Ida [Pawel Pawlikowski] – rodou muitos festivais o ano todo com destaque no boca-a-boca
  • Frank [Lenny Abrahamson]
  • Cold in July [Jim Mickle]
  • Life Itself – A Vida de Rober Ebert [Steve James]
  • The Skeletons Twins [Craig Johnson]
  • Os Mais Jovens [Jake Paltrow]
  • Kumiki [David Zellner]
  • Nick Cave – 20.000 Dias na Terra [Iain Forsyth eJane Pollard]
  • Whiplash – Em Busca da Perfeição [Damien Chazelle] – grande vencedor de Sundance 2014
  • A Most Wanted Man [Anton Corbijn]
  • Pescando Sem Redes [Cutter Hodierne]

Berlim:

  • Carvão Negro [Diao Yi’nan] vencedor do Urso de Ouro
  • Boyhood: Da Infância à Juventude [Richard Linklater] – dispensa comentários
  • Jornada ao Oeste [Tsai Ming-Liang]
  • Bem Perto de Buenos Aires [Benjamin Naishtat]
  • 71 [Yann Demange] – destaque na competição
  • Stations of the Cross [Dietrich Brüggemann] – destaque na competição
  • A Terceira Margem [Celina Murga]
  • Massagem Cega [Lou Ye]
  • Catedrais da Cultura 3D [Wim Wenders, Michael Glawogger, Michael Madsen, Robert Redford, Margreth Olin e Karim Aïnouz]
  • Stratos [Yannis Economides]
  • Aloft [Claudia Llosa]

Cannes:

  • Mapa para as Estrelas [David Cronenberg] – melhor atriz em Cannes para Julianne Moore
  • Timbuktu [Abderrahmane Sissako] – grande destaque na competição
  • Maidan – Protestos na Ucrânia [Sergei Loznitsa] – passou fora da competição, causou impacto
  • Mr. Turner [Mike Leigh] – melhor ator em Cannes para Timothy Spall
  • Pessoas-Pássaro [Pascale Ferran] – destaque Un Certain Regard
  • Uma Garota à Porta [July Jung]  – destaque Un Certain Regard
  • National Gallery [Frederick Wiseman] – destaque Quinzena dos Realizadores
  • Mommy [Xavier Dolan] – prêmio do Juri
  • Jimmy’s Hall [Ken Loach]
  • O País de Charlie [Rolf de Heer]
  • Bande de Filles [Celine Sciamma] – destaque Quinzena dos Realizadores
  • O Sal da Terra [Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado]
  • Te Peguei Dormindo Nicole [Stéphane Lafleur]
  • Exército Vermelho [Polsky Gabe]
  • Incompreendida [Asia Argento]
  • The Disappearence of Eleanor Rigby [Ned Benson]
  • El Ardor [Pablo Fendrik]
  • Xenia [Panos Koutras]
  • Ao Seu Lado [Asaf Korman]
  • Party Girl [Marie Amachoukeli,Claire Burger, Samuel Theis]
  • Coma Seus Mortos [Jean-Charles Hue]
  • Aleluia [Fabrice Du Welz]
  • Um Dia Difícil [Seng-Hun Kim]
  • Corrente do Mal [David Robert Mitchell]
  • Água Prateada, um autorretratro da Síria [Mohammed Ossama]
  • Fantasia [Chao Wan]
  • Mais Sombrio que a Noite [Sebastiano Riso]
  • Titli [Kanu Behl]
  • Gente de Bem [Franco Lolli]
  • Coming Home [Zhang Yimou]

Rotterdã:

não acompanhei a repercussão do festival, por isso não sei se há outros filmes em destaque. Tres filmes foram eleitos o melhor filme, dois deles estão na programação

 Locarno:

Veneza:

  • Amnésia Vermelha [Xiaoshuai Wang] – destaque da competição
  • Contos Iranianos [Rakhshan Bani E’Temad] – destaque da competição
  • Manglehorn [David Gordon Green]
  • Falando com Deus [Guillermo Arriaga, Emir Kusturica, Amos Gitai, Mira Nair, Warwick Thornton, Hector Babenco, Bahman Ghobai, Hideo Nakata, Alex de la Iglesia]
  • O Preço da Glória [Xavier Beauvois]
  • Corações Famintos [Saverio Costanzo]
  • Burying the Ex [Joe Dante]
  • Só Deus Sabe [Josh Safdie, Ben Safdie]
  • O Presidente [Mohsen Makhmalbaf]
  • The Humbling [Barry Levinson]
  • Três Corações [Benôit Jacquot]
  • O Ciúme [Philippe Garrel] – da competição de 2013
  • Dente por Dente [Kim Ki-duk]
  • Metamorfóses [Christophe Honoré]

Nova York:

San Sebastian:

  • Coração Mudo [Bille August]
  • Ar Livre [Anahí Berneri]

Outros Filmes:

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Mostra SP:

Quem olha essa lista e se pergunta: sobrou algum filmes para a Mostra SP? Calma, sobrou sim, É verdade que com a excluvisidade, a acirrada disputa entre os 2 festivais tem dividido os destaques do ano, com isso quem perde é o público. Mas, mesmo com a extensa lista do Festival do Rio, sobrou ainda muitos filmes que podem (ou não estar presentes na programação do festival paulistano). Segue abaixo alguns exemplos:

  • Winter Sleep [Nuri Bilge Ceylan] – Palma de Ouro em Cannes
  • Force Majeure [Ruben Ostlund] – dos filmes mais comentados do ano, passou em Un Certain Regard – Cannes
  • Goodbye to Language [Jean-Luc Godard] – prêmio do Juri em Cannes
  • Leviathan [Andrey Zvyaginstev] – destaque da competição principal de Cannes
  • Jauja [Lisandro Alonso] – destaque na Un Certain Regard
  • Two Days, One Night [Jean-Pierre and Luc Dardenne] – outro destaque da competição de Cannes
  • From What Is Before [Lav Diaz] – melhor filme em Locarno
  • The look of Silence [Joshua Oppenheimer] – Grande Premio em Veneza
  • Fidelio L’Odyssee D’Alice [Lucie Borleteau] – destaque da competição em Veneza
  • The Postman’s White Night [Andrei Konchalovsky] – destaque da competição em Veneza
  • Relatos Selvagens [Damian Szifron] – destaque em Cannes, confirmado na Abertura da Mostra SP
  • Le Meraviglie [Alice Rohrwacher] – grande premio em Cannes
  • A Pigeon Sat On A Branch Reflecting On Existence [Roy Andersson] – Leão de Ouro em Veneza
  • Tribe [Myroslav Slaboshpytskiy] – melhor filme da Semana da Crítica – Cannes
  • Li’l Quinquin [Bruno Dumont] – Cannes
  • White Dog [Kornél Mundruczó] – melhor filme Un Certain Regard
  • She’s Funny That Way [Peter Bogdanovich] – retorno do diretor, passou em Veneza
  • Pasolini [Abel Ferrara] – Veneza
  • O Velho do Restelo [Manoel de Oliveira] – Veneza
  • Tsili [Amos Gitai] – Veneza
  • La Chambre Bleue [Mathieu Amalric] – Cannes
  • Still the Water [Naomi Kawase] – Cannes
  • Phoenix [Christian Petzold] – San Sebastian

Festival do Rio 2013

Publicado: setembro 27, 2013 em Cinema, Festivais no Radar
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festivaldorio13Começou ontem o Festival do Rio, sem dúvida, hoje, a maior plataforma de exibição de filmes do país. Infelizmente, não estarei lá, mas alguns dos filmes presentes na seleção deste ano já foram postados aqui no blog. Abaixo link com os textos desses filmes, e nos próximos dias mais alguns que lá estarão presentes. E bom festival aos que estiverem aproveitando!

A Cidade Abaixo, de Christoph Hochhäusler

A Doença do Sono, de Ulrich Köhler

Alabama Monroe, de Felix Van Groeningen

Apenas Deus Perdoa, de Nicolas Widing Refn

Behind the Candelabra, Steven Soderbergh

Blue Jasmine, de Woody Allen

Como Não Perder Essa Mulher, de Joseph Gordon-Levitt

Moebius, de Kim Ki-Duk

O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer

O Espírito de 45, de Ken Loach

Terra Prometida, de Gus Van Sant

The Canyons, de Paul Schrader

Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho, de Danis Tanovic

Entre os dias 27 de Setembro e 6 de Outubro, o Rio de Janeiro terá a oportunidade de assistir a muitos dos principais filmes do ano, em mais uma daquelas maratonas cinéfilas que enlouquecem os fãs da Sétima Arte.

Mesmo não podendo estar presente ao evento, separo abaixo alguns links de filmes que fazem parte da seleção do Festival e que já foram comentados por esse blog:

Another Year, de Mike Leigh ****

César Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani ***

Elefante Branco, de Pablo Trapero **1/2

Elena, de Andrei Zvyagintsev ***1/2

Hemingway & Gellhorn, de Philip Kaufman **

Hysteria, de Tanya Wexler **

Parada em Pleno Curso, de Andreas Dresen ***

Drive (2011 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O solitário-caladão (Ryan Gosling) divide sua vida entre o trabalho de piloto-dublê, em produções em Hollywood, e os “bicos” como piloto de fuga em assaltos planejados pela máfia. O filme faz questão de identificá-lo como um sujeito que parece não ter passado, futuro, perspectivas, ambições. Ele simplesmente vive sem prazeres, sem sonhos (talvez até o tenha, piloto de stock-car, mas talvez seja o sonho de seu amigo-chefe), nenhuma direção.

Quando o solitário conhece a vizinha Irene (Carey Mulligan), um raio de sol quase brilha no céu cinzento do sujeito, que permanece caladão, fechado, mas agora até sorri, invariavelmente. Do interesse mútuo vem a confusão amorosa, mas não é exatamente esse o mote do filme. A razão de existir é o exercício estilístico do cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn, seu universo de referências praticamente se impõe como uma colagem de vários cineastas (temos Tarantino, Lynch, Sofia Coppola, Scorsese, até Kar-Wai). E, dessa salada cinéfila que se constitui seu próprio estilo, sim porque há tantas colagens e referências que se tornam sua própria assinatura.

Desconstruindo gêneros, um filme de ação com narrativa lenta, personagens silenciosos. Um filme violento com cenas em câmera lenta e música pop estilo anos 80. Um filme de máfia pontuado por uma cena de beijo antes de uma luta, no elevador. Uma sequência de perseguição eletrizante e momentos tolos de um flerte sem jeito. Essa miscelânea toda traz um cinema dos anos 70-80 dialogando com algo muito contemporâneo, e funciona bem. Alguns frames são praticamente quadros magníficos, o uso de cores mortas (o cuidado com sombras e tons de verde e vermelho). Tudo hermeticamente pensado, tão pensado que as vezes peca pela artificialidade. Nesse exercício todo, Refn não deixa seu filme decolar, mantendo-o na mesma vibração de seu protagonista low-profile, quase um Clint Eastwood atrás do volante que por não ter “passado” nada teria a perder/temer.

Festival do Rio 2011

Publicado: outubro 6, 2011 em Festivais no Radar
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Sexta-feira começa mais uma edição do Festival, se o Indie é o aperitivo, o Festival do Rio e a Mostra SP são os pratos principais de exibição de grande parte dos principais filmes do ano no cenário mundial. É a oportunidade de assistir o que está causando burburinho mundo a fora e encontrar os ótimos desconhecidos. Além de marcar a temporada de estréia de alguns desses filmes no circuito brasileiro. Alguns grandes destaques, inúmeras ausências, dentro de cada festival há um pequeno festival acontecendo, o seu próprio festival, com os filmes que seu gosto próprio garimparam e quem acompanha esses eventos fica afoito em finalmente conferir este ou aquele. Segue abaixo uma lista de alguns dos filmes que estarão presentes nesta edição do Festival do Rio (alguns bons, outros ótimos, já outros nem tanto) e já ganharam posts aqui na Toca, nos próximos dias outros mais surgirão, é só conferir e bons filmes.

Amador, de Fernando Léon de Aranoa

Até a Chuva, de Icíar Bollaín

Entre Segredos e Mentiras, de Andrew Jarecki

Ganhar ou Ganhar – A Vida é um Jogo, de Tom McCarthy

Nostalgia da Luz, de Patrício Guzmán

O Cavalo de Turim, de Béla Tarr

O Último Dançarino de Mao, de Bruce Beresford

Os Crimes de Snowtown, de Justin Kurzel

Post-mortem, de Pablo Larrain

Todas as Canções Falam de Mim, de Jonás Trueba