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Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (EUA – 2017) 

E já temos o primeiro grande filme sobre a Era Trump. Porque essa conjunção de roteiro dramático com comédia de humor negro (à la irmãos Coen) remete a características socialmente marcantes no mandato do atual presidente dos EUA. De um filme sobre uma mulher (Frances McDormand) revoltada por a policia não ter conseguido desvendar o mistério do assassinato de sua filha, o diretor Martin McDonagh tece esse estudo social dos rincões desse país cuja liderança dá passos para trás e traz a intolerância como palavra de ordem.

Do inconformismo vem a ideia do anúncio provocativo nos três outdoors da cidade. A policia se revolta, e a cidade se divide apoiando ou revidando ao inconformismo dessa mãe. Surgem reações, reviravoltas, e atitudes inconsequentes e irracionais, onde o desrespeito pelo outro é presença central nas relações humanas. McDonaugh realmente se aproxima muito dos primeiros filmes do Coen, o humor e a violência são muito parecidos, mas essa carga dramática que tanto McDormand, como Woody Harrelson carregando em suas histórias é um elemento novo nesse cinema provocativo e ácido.

A trama leva alguns atos às últimas consequências, mas é um retrato tão vibrante de uma nação que está mais desunidada a cada dia, onde cada um pessoa exclusivamente em si mesmo, e troca o discordar (ou não aceitar) por brigar até aniquilar o que tenha visão de mundo contrária a sua. Trump e seu governo agressivo e intolerante são a linha mestra para um povo que perde sua unidade e só se deteriora em aspectos humanos. E nisso tudo, o novo filme de McDonaugh é feroz, elevando seu cinema a um patamar bem superior ao que realizou em seus dois trabalhos anteriores. Devemos vê-lo, com protagonismo, na corrida do Oscar, no Festival de Veneza já foi destacado com prêmio de Melhor Roteiro.

Hail, Caesar!Hail, Caesar! (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A nova comédia dos Irmãos Coen é mais um filme sobre a indústria cinematográfica de Hollywood. Eles já foram muito bem sucedidos no tema com Barton Fink, mas dessa vez voltam muito mais irônicos numa espécie de provocação aos áureos anos 50 dos estúdios de cinema. É interessante como os Coen são capazes de reunir todas as suas características, como se fosse um breve resumo da carreira, englobando desde a série de comédias, até os personagens mais “interioranos” (Alden Ehrenreich como ator chulo de westerns é a melhor coisa do filme) e, como em outros de seus filmes, personagens sequestrados. Só a violência fria e calculada passa longe dessa vez, substituída por esse humor de deboche.

A trama central tem um executivo (Josh Brolin) responsável por fazer com que as filmagens funcionem. Ele trata dos egos das celebridades, acompanha dia-a-dia de orçamentos e filmagens, participa do casting, e usa métodos que forem necessários para tudo transcorra bem. Nesse dia, um dos astros (George Clooney) é sequestrado por um grupo Comunista.

Desse plot, os Coen criam uma série de coadjuvantes e subtramas, que funcionam como esquetes de humor. A somatório é irregular, mas tem seus momentos imperdíveis (como a curta cena com Frances McDormand ou a apresentação musical com Channing Tatum). O conjunto unificado das esquetes não dá um filme redondo, principalmente porque os personagens centrais (de Brolin e Clooney) soam frios à plateia, burocráticos dentro da narrativa. Além, é claro, que muitas das piadas ou inserções parece que funcionaram melhor na cabeça dos criadores do que em sua realização. O lançamento do filme, no Festival de Berlim, já era indício de que este seria um filme menos inspirado, afinal, os Coen teriam lugar garantido em Cannes, e mais ainda na corrida a qualquer Oscar.

gostodesangueBlood Simple. (1984 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Sabe aqueles filmes de estreia em que o cara mostra a que veio? Pois bem, essa foi a estréia dos Irmãos Coen. Bem a seu estilo, com a atmosfera típica do Texas, a frieza na violência, e aquela sensação de que tudo vai dar errado, e que só piora mais adiante. Triângulo amoroso, detetive particular, uma das tramas mais batidas da história do cinema. Joel e Ethan Coen destilam o sabor amargo de seus olhos, não há glamour no romance, muito menos no homem traído que perde a compostura. É tudo fétido, sujo e árido. Como se os sentimentos sofressem influencia do próprio clima texano.

Gosto de Sangue é para se desfrutar da vivacidade de quem está começando, de um jeito que parece que já filmavam há décadas. Há maturidade em cada plano, estilo arrojado e ambicioso, a criação de uma atmosfera que ficaria marcada pelo resto da carreira dos irmãos. Cenas implacáveis, posicionamentos de câmera que potencializam o suspense com um toque falta de horror. O filme cheira a suor, a sangue escuro e grudento, e a hipocrisia da ganância.

terraprometidaPromised Land (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Gus Van Sant é um cineasta de lógica quase indecifrável, sua carreira vive no vai-e-vem de projetos de apelo comercial, com outros extremamente delicados e únicos, remake de clássico de Hitchcock, outros vagarosos e incríveis, até melodramas por excelência. Um dos principais interesses comuns é o indivíduo, das mais diferentes personalidades, Van Sant sempre tenta buscar algo mais de seus personagens.

O conteúdo político não poderia ser mais atual, porém a lembrança de ein Brockovich será imediata no público. A exploração de gás natural em regiões rurais nos EUA, familias vendendo a concessão em troca de um dinheiro fácil que pode aliviar, em muito, suas vidas. Matt Damon e Frances McDormand são os responsáveis pelos contratos, por garantir o menor valor por cada acre.

Se o diretor quer esfregar no rosto de todos os passos pouco éticos desses grandes conglomerados, não seria necessário, aparentemente todo mundo já entendeu a exploração e a quantidades de crimes ambientais que estão ocorrendo. Van Sant quer estudar a ética do perspicaz vendedor, testar os limites morais, as mudanças de comportamento. Resolve todas as questões de forma branda, morna, tal qual a vida limitada dos moradores dos rincões americanos.

Moonrise Kingdom (2012 – EUA) 

Wes Anderson conseguiu imprimir marca autoral, uma assinatura clara, e isso é um ponto que respeito em cineastas. Antagonicamente, toda essa característica própria e ímpar soa tão artificial, falsa. A repetição de personagens e situações, onde a esquisitice, sem graça, impera como um comportamento que almeja ser cool.

Os enquadramentos trabalham como uma aula de perspectiva, com profundidade, explorando os ambientes. Afinal, Anderson não quer deixar nenhum detalhe da direção de arte de fora do quadro. Cores berrantes, objetos estranhos, reações mecânicas, tudo faz parte do seu jogo de cena, onde a melancolia tende ao excêntrico. E essa excentricidade opaca, sem vida e nem cor. Inodora, incapaz de explorar além da mesmice de sua fórmula se torna mais e mais a base de sua filmografia.

Dessa vez a história volta aos anos 60. Dois adolescentes desajustados, um bando de adultos esquisitinhos, o primeiro amor e um desejo de romper com os limites impostos pelos pais. Tantas tolices entre as relações entre adultos, enquanto o que de realmente interessante está naqueles dois jovens e em sua fuga, o misto de inocência e rebeldia. O melhor do filme está ali, nos dois jovens atores desconhecidos, o peso do elenco de estrelas pretende trazer alívio cômico (tão desnecessário).

O Homem Que Não Estava LáThe Man Who Wasn’t There (2001 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A atmosfera noir adaptada a estrutura narrativo-contemporânea dos irmãos Coen parece a conjunção perfeita para retomar o extinto gênero que marcou a década de quarenta. A belíssima fotografia em preto e branco corrobora de forma espetacular para essa mutação. É o próprio protagonista quem narra, em off, a história. Ele é Ed Crane (Billy Bob Thornton), apenas um pacato e quieto barbeiro, casado com a contadora (Frances McDormand) de uma loja de departamento. Ela, supostamente, vive um caso com o chefe (James Gandolfini).

O barbeiro vê uma chance de investimento e chantageia o chefe da esposa. Desencadeia uma série de acontecimentos negativos (algumas mortes), movimento típico dos filmes dos Coen, onde o idealizador perde completamente o controle da situação. Advogados, tribunal, a culpa que ele tenta aliviar transferindo algum apoio a filha de um amigo que toca piano (Scarlett Johansson).

A trama bebe do clima noir, mas troca o mistério por pequenos elementos sobrenaturais e uma tortuosa forma de fazer justiça. As soluções não soam como as melhores possíveis, porém Billy Bob Thornton e os Coen conduzem tudo com um tempo tão precisoso em cada cena que menos importante se torna o fim, o prazer está em apenas seguir a trama deixando ser conduzido por ela.

Almost Famous (2000 – EUA) 

É tão claro o quanto de carinho, o quanto de pessoal há nesse filme de Cameron Crowe. William Miller (Patrick Fugit) é seu alter-ego, revivendo um Crowe que, assim como tantos jovens, queria ser jornalista de rock n’roll, influencia das coleções de LP’s da mãe (The Who, Led Zeppelin). Mas, no caso dele, na raça e na cara de pau, consegueu espaço numa famosa revista do gênero e cai dentro da turnê de uma banda bastante promissora.

Mergulhamos numa deliciosa viagem pelos bastidores do mundo do rock na década de 70, longe da profundidade dramática de tentar compreender ídolos, conflitos de bandas e dependências mais graves de drogas, o filme carrega mesmo esse clima feel good, entre paixões e emoções de quem tem a chance de viver sua paixão. É o momento “está acontecendo” eclipsado na vida de um jovem atrevido que foi lá e nos representa. E nesse clima, o destaque é todo da tiete Penny Lane (Kate Hudson) com sua graciosidade intrigante. Isso, sem falar em Frances McDormand, na pele da mãezona que persegue os passos do filho, e dispara aquele jargão velho conhecido “Não use drogas”. Filme par estar sempre perto, no alcance das mãos.