Posts com Tag ‘François Truffaut’

Hitchcock-TruffautHitchcock/Truffaut (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Não se apegar a simplesmente adaptar o célebre livro deixa o documentário de Kent Jones com liberdade de ir e vir ao material. Algumas gravações, e fotos, dos encontros entre Truffaut e Hitchcock são intercalados com depoimentos de cineastas como Martin Scorsese, Wes Anderson, David Fincher ou Olivier Assayas. Enriquecendo assim o mergulho no cinema de Hitchcock, e até complementando ao livro, mas também trazendo o interesse da audiência que vê os consagrados diretores brincarem de fãs do mestre do suspense.

A estrutura convencional do documentário deixa claro que a proposta de Jones é deixar o deleite cinéfilo por conta do resgate dos filmes, dos detalhes de bastidores, e da relação de amizade construída entre os dois. Termine o filme e decida se a vontade maior é de comer o livro ou voltar para rever os filmes do Hitch.

Água Fria

Publicado: maio 2, 2011 em Uncategorized
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L’Eau Froide (1994 – FRA)

Talvez tenha sido o único a encontrar diálogo entre este filme e a obra-prima de François Truffaut, Os Incompreendidos. Talvez quisesse eu, um filme da saga Doinel, que explicasse a fase realmente adolescente do personagem, não ficando com esse hiato que foi o salto para a doce comédia Beijos Roubados. Olivier Assayas pega emprestado uma rebeldia jovem, uma inquietação irresistível, um sentido de movimento, de se manifestar, que muito me remete ao Doinel pueril. Aqui os personagens são um casal de adolescentes, o ato ilícito que abre o filme é determinante para o restante da história (roubo de vinis dos Stones e Deep Purple), uma separação anunciada, contra vontade. Utilização maciça e preciosa de uma trilha rock, a manifestação desse senso de liberdade reprimido, a festa rebelde determinante para esses jovens tão aflitos quanto pouco conseqüentes. Assayas nos oferece um filme de espírito, vivemos os anos setenta e toda uma necessidade aguçada de polemizar a si próprio, entre o balé das câmeras, uma demonstração concisa de uma juventude conflitante.

antoine-et-coletteL’ Amour à Vingt Ans: Antoine et Colette (1962 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Assistir a saga completa de Antoine Doinel e perder esse pequeno episódio seria lamentável, como um quebra-cabeças incompleto. Você consegue distinguir perfeitamente a figura, mas as peças ausentes incomodam, não te deixam apreciar o todo. Primeiro porque perder algumas das peripécias de Doinel (Jean-Pierre Léaud) é uma perda irreparável, começando pelo despertador, atrelado à vitrola, que o desperta pelas manhãs.

Este curta de Françcois Truffaut é dos cinco segmentos desse filme-coletivo sobre o amor, filmado em diversos países com outros renomados diretores no comando. Nosso desajeitado, Don Juan, é o rei das paixões definitivas, dos amores avassaladores. Avista uma linda jovem e a deseja compulsivamente, passa a segui-la, faz de tudo para se encontrarem pelo bairro, até que surge a oportunidade de iniciarem uma conversa. Entre eles surge amizade, pelo lado dela não passa disso. Doinel passa a freqüentar a casa de Colette (Marie-France Pisier), a família da garota se encanta pelo rapaz, praticamente o adota. Ele se muda ao apartamento em frente ao dela, declara-se, mas ela só o tem como amigo.

Como descrever a satisfação ao assistir Doinel na varanda de sua nova morada, e Colette e sua família surpreenderem-se com tal surpresa. Só mesmo Doinel seria capaz de uma deliciosa sandice como essa. Sua forma de abordar a moça, a maneira como descreve seu trabalho na indústria fonográfica, a hilária cena da tangerina. E principalmente quando se recorda, com o amigo que o acolheu em Os Incompreendidos, o momento em que o pai do garoto vê fumaça no quarto e finge não ver os pés de Antoine escondido atrás da cama. Já estou com saudades do inesquecível Doinel.

 

 

ohomemquenaoamavaasmulheresL’Homme Qui Aimait Les Femmes (1977 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Na porta de uma igreja, os recém-casados recebem os cumprimentos de amigos e familiares. No outro lado da rua, Bertrand Morane (Charles Denner) vislumbra aquela cena e afirma com desprendimento contumaz: “Esses acreditam em Papai Noel”. Se suspeitava que François Truffaut exibia ligeira queda por belas pernas femininas, nesse filme, a confirmação vem numa overdose de dezenas delas desfilando pelas lentes do cineasta.

O filme tem início num enterro, porém há algo de pitoresco. Somente mulheres acompanham o cortejo pelo cemitério. O falecido possuiu cada um delas, e de algum modo, elas sentem-se um pouco viúvas daquele homem. Bertrand Morane (o falecido) apresenta-se como mais um alter-ego de Truffaut, dessa vez numa fase muito mais madura, ainda assim mantendo a essência principal: o amor incondicional pelas mulheres.

Bertrand é aquilo que podemos chamar de paquerador nato, mas não aquele galanteador conhecido como Don Juan. Seu estilo é muito pessoal, a conquista não é o mais importante em seus affairs. Seu desejo é de esquivar-se da solidão. Ele as ama com toda a força de seu coração, por isso apela para sua agenda de telefones quando não há mulher alguma em vista.

Em certo ponto da vida, Bertrand resolve escrever um livro com suas aventuras amorosas, se entrega completamente a este projeto e assim rememoramos cada uma dessas conquistas, e as persistentes e criativas maneiras que o fizeram triunfar. Entre suas memórias há o dia em que ao ser medicado, com uma doença venérea, o médico pede para que a mulher com quem manteve relações sexuais seja informada. Durante alguns segundos Bertrand reflete, até relatar ao médico a dificuldade dessa atitude, afinal, pelo menos houvera meia-dúzia delas nos últimos dias. Em outra ocasião contrata uma baby-sitter, e quando a moça procura a criança pela casa, Bertand afirma categoricamente ser ele próprio o bebê.

A mãe recheada de amantes, a iniciação sexual ainda garoto com uma prostituta, o trabalho de engenheiro com protótipos (barcos, aviões). São inúmeras as características a ser observadas que estão presentes em seus outros filmes, cada vez mais Truffaut reafirma traços autobiográficos em seus alter-egos. Nesse filme é a maneira de amar as mulheres que se torna o ponto de análise do cineasta, amá-las integralmente mas descompromissadamente não é o bastante, ainda que haja o tom machista, ele acaba adocicado por essa visão poética das mulheres como a elevação da alma desse conquistador. Até a fatídica morte do personagem demonstra quão incorrigível pode ser um homem quando se trata de um belo par de pernas. E Truffaut filosofa construindo um filme tipicamente seu, Charles Denner assim como as mulheres que contracenam com ele, parecem suavizar seus movimentos, mais uma vez uma acalentadora atmosfera conserva a platéia compenetrada.

derepentenumdomingoVivement Dimanche! (1983 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O último filme de François Truffaut foi em cinema de gênero. Um típico romance policial com, algumas mortes, um suspeito em evidência, e alguém com espírito investigativo. Além, é claro de uma dose de romantismo, porque se ninguém é de ferro, Truffaut muito menos. Leve e com sugestivos pitacos de seu singular estilo, como na tara por belas pernas femininas. O cineasta as filma de salto alto e meia-fina, e sabe, como ninguém, buscar a sensualidade desse caminhar feminino. Torna esse marchar muito mais que sedutor, a leveza da imagem reconforta como se nos acariciasse o rosto. Num exímio exercício de estilo, Truffaut consegue a prazerosa sensação num simples movimento de sua atriz (seja ela qual for), uma categoria infalível e a demonstração que filmá-las é uma arte para poucos.

Com roteiro baseado no livro de Charles Williams, a trama cheia de segredos lida com o drama de um agente imobiliário (Jean-Louis Trintignant) acusado de duplo assassinato: sua esposa e um amigo, cujas investigações comprovam que eram amantes. Sua secretária, Barbara Becker (Fanny Ardant), lhe oferece um esconderijo e inicia investigação do verdadeiro culpado. Entre passagens secretas e surpresas mil, Truffaut trabalha bem com clichês, enquanto se aproveita da fotografia em preto e branco para atenuar o clima de mistério. O resultado é uma diversão que não envelhece com o tempo, e a parceria do cineasta com a interpretação de Ardant (sua época á época) oferecem humor, sem perder a sensualidade e o suspense. Vê-la em cena é sempre um prazer, com seu raro talento, e beleza estonteante que parece não envelhecer

 

umsopecadoLa Peau Douce (1964 – FRA/POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O único pecado a que se refere o título teria sido o primeiro impulso da infidelidade. O descuido comprometedor na inexperiência para encobri-lo. Mas não, este pecado não se iguala ao verdadeiro, ao desejo, essa incontrolável vontade de possuir aquilo que os olhos enxergaram. O desejo de Pierre (Jean Desailly) é despertado no elevador do hotel, o olhar penetrante sobre sua presa, a dócil aeromoça carregada de pacotes, que ele já observara no avião. No ápice dessa cobiça, Pierre delicadamente acaricia as pernas de Nicole (Françoise Dorléac) que exausta dorme na cama. Eles já se tornaram amantes. Ele retira a cinta-liga do corpo dela, o desejo já extrapola o tato, a visão, todos os sentidos.

Eles se conheceram numa viagem de negócios dele. Pierre, encantando por Nicole, inventa um pretexto para tomarem um drinque. A vida em casa, com a mulher (Nelly Benedetti) e a filha, andava bem, nada de se queixar. Mas o impulso foi mais forte, e logo Pierre está apaixonado. Talvez François Truffaut tenha sido o mais autobiográfico dos diretores, são inúmeros os filmes baseados em fases de sua vida, expõe-se de maneira vívida. Fico imaginando a sensação das mulheres ao se verem retratadas no cinema, o que essas emoções desencadearam nas vidas a sua volta.

A bandeira brasileira pintada no lado de fora do avião nos interessa, o romance é iniciado em Lisboa, e as pequenas frases em português de funcionários do hotel, ou de um restaurante nos soam muito familiares. Os personagens de Truffaut gostam de discutir a relação, mas não como os de Rohmer, eles categorizam comportamentos masculinos e femininos, lhes interessa o passado amoroso dos parceiros, estão sujeitos a formalidades mesmo a contragosto.

Como trama, o filme não traz invencionismos. É o drama de um triângulo amoroso, e o choque da desestabilização matrimonial. Então Truffaut usa de clichês para formalizar sua obra? Não, esse é o diferencial, seu roteiro é tão crível que parece estarmos ouvindo uma fofoca do vizinho. Truffaut transporta para tela sua vida, e conseqüentemente expõe as relações humanas tal como são, sem maneirismos e mutações. E como na vida, poucas vezes as coisas acabam bem para todos os envolvidos.

kinopoisk.ruTirez Sur Le Pianiste (1960 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Nas ruas de Paris, às escuras, um fugitivo corre de dois homens, cansado escorrega e cai na calçada. Um pedestre o auxilia, aparentemente livrou-se dos perseguidores. Somente François Truffaut poderia inserir um diálogo, como o que vem a seguir entre esses dois estranhos, um breve relato sobre a vida amorosa, um resumo matrimonial, o humor leve: “Paris é a cidade com maior número de virgens, proporcionalmente”.

Atirem no Pianista é o segundo filme de Truffaut, e já dava claros sinais de algumas características que seriam marcantes em seus filmes. O lado policial da história é paupérrimo, chulo mesmo, os sequestros mais se aproximam de conversas de bar. Lutas soam ridículas, fugas demasiadamente inocentes. Truffaut parece desdenhar disso tudo, usa o humor de forma suave, como se o lado policial fosse apenas formalidade para adaptação do livro de David Goodis.

A história de Charlie (Charles Aznavour), o pianista perseguido pelos ex-comparsas do irmão, que querem encontrar seu esconderijo, é mero pretexto para a história de Charlie, o tímido pianista clássico que viveu o sucesso e após um passado conturbado, tenta reencontrar-se com o amor, na figura da garçonete Lena (Marie Dubois). No bar, o retrato da marginalidade é tão diferente que quase parece uma festa social, prostitutas dançam com graça pelo salão, os homens muito bem vestidos bebericam ao som da banda comandada pelo piano.

O cantor Charles Aznavour assume o alterego de Truffaut, uma espécie de esboço para Antoine Doinel adulto. A timidez resulta em passagens graciosas, Charlie confidencia ao público seus pensamentos, mas na hora de agir, faz ao contrário. Sente o momento de avançar, o braço faz o trajeto para abraçar a moça que está quase entregue, mas no momento capital a mão titubeia, conta até dez nos dedos para acalmar-se. São essas pequenas coisas que fazem do filme algo fora dos padrões dos gêneros, durante um sequestro um dos bandidos jura pela morte da mãe sobre um assunto qualquer, a câmera corta e segundos depois a mãe cai morta, hilariante.

oamoremfugaL’Amour en Fuite (1978 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma fogosa loira não deixa Doinel terminar de se arrumar para sair, apaga as luzes do quarto e o seduz novamente. Enquanto são apresentados os créditos iniciais, ao fundo a imagem nublada traz apenas indícios do que ocorre, me pergunto: “E Christine?”. A resposta vem logo a seguir, o divórcio consensual de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) e Christine (Claude Jade) põe fim definitivo àquela história de amor.

No momento a relação amorosa de Doinel é com a vendedora de discos Sabine (Dorothée). Ele hesita em morarem juntos, há uma crise instaurada na relação. Talvez O Amor em Fuga seja mais do que um título, quase um estado de espírito do próprio sentimento. O amor dá sinais de alta mobilidade, de inconstância, como se estivesse fugindo o tempo todo. Nessa busca incessante de Doinel pelo amor, eis reaparece Colette (Marie-France Pisier), uma antiga paixão da juventude (do curta Antoine e Collete). Esse encontro resgata o passado e sinaliza caminhos para o futuro.

Aquela sensação de que cada frase, cada passo, cada personagem, flutuam à frente das câmeras é um trunfo que François Truffaut resgata em cada capítulo dessa saga. Esse filme é uma espécie de homenagem aos anteriores (ou de caça-níquel para fazer dinheiro a Truffaut). Em constantes flashbacks, cenas dos filmes anteriores são resgatadas, complementando passagens mau-explicadas, tudo forçado pelo romance autobiográfico de Doinel que é lido por Colette. Truffaut precisava desmistificar alguns pontos e exaltar o amor como argumento chave de toda essa história, o filme compromete-se para agregar valor aos anteriores.

Com o passar dos anos, Doinel não perdeu o estilo apressado e desajeitado de ser, o humor cedeu espaço para um pouco de maturidade e a impulsividade continua como característica presente em seu dia-a-dia. Um amigo afirma que Doinel sempre procura o mesmo tipo de mulher, ele retruca reafirmando que se apaixona primeiro pela família. Os relacionamentos nos deixam mais experientes, aprendemos a lidar melhor com as crises, mas sempre estamos procurando, a mesma coisa, da mesma forma. Aquela câmera em movimento brusco, alternando-se entre dois casais que se beijam, ao precioso som de L’Amour en Fuite (cantado por Alain Souchon) é a finalização lisonjeira para um personagem que fez de sua vida uma inquietante viagem, e que nos deixou acompanhar cada instante de seu legado.

domicilioconjugalDomicile Conjugal (1970 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um franzino e elegante par de pernas, vestidos com meias-fina, cruza a lente da câmera ao caminhar por uma calçada num vai-e-vem indeciso. A jovem é tratada polidamente pelos vendedores, mas com gosto e delicadeza os corrige prontamente: “Senhorita não, senhora”. Os personagens dispensam apresentações, Antoine Doinel e Christine (agora Doinel) vivem como numa pequena vila em Paris. Ela leciona, em casa, aulas de violino, enquanto ele trabalha tingindo flores brancas para uma floricultura.

Toda a abordagem dessa nova aventura de Doinel circula sobre a famigerada “vida de casado”. François Truffaut explora os pontos que acredita serem triviais a um matrimônio. Nele estão contidos os momentos românticos, as pequenas brigas, jantares com os parentes, a jovialidade dos primeiros anos de casados, a infidelidade masculina (pensamento extremamente machista), a crise e suas conseqüências. Aliás, o pensamento machista de Truffaut pode ser percebido em outros detalhes, normalmente ligados à infidelidade, caso da relação prostituição/casamento feliz.

O humor constante e usado de forma sutil, as características singulares de Doinel, o falso ar sem compromisso do filme anterior permanecem. A história é apimentada com a aparição de uma oriental na vida de Doinel, sua exótica beleza o atrai a ponto de Christine descobrir sua traição, mesmo com um filho pequeno o relacionamento declina. Essa é mais uma maneira de Truffaut “trivializar” este casamento, mostrar que em sua visão o amor é inconstante, volúvel.

Um grau de maturidade mais acentuado nos dois personagens centrais pode ser notado ativamente, esse processo entre a juventude e a fase adulta (onde está incluído o casamento) faz parte da transição. As recaídas infantis tornam-se saborosíssimas passagens. Jean-Pierre Léaud não perde o estilo e Claude Jade a ternura. As saídas no roteiro encontradas por Truffaut apenas aproximam o público dos personagens. A graça e o cômico permeiam cada situação numa colcha de gêneros que desfilam por essa comédia (drama, romance e até suspense dão o ar da graça). O epílogo tem representatividade muito maior do que ser o fim, de sagaz humor ele idealiza mais uma corriqueirice conjugal.

beijosproibidosBaisers Volés / Stolen Kisses (1968 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Agora oito, talvez dez anos mais velho, o garoto incompreendido Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) cresceu, e tornou-se um zero à esquerda no sentido sarcástico da expressão. Por motivos pessoais alistou-se no exército (detalhes são desnecessários), e após três anos foi expulso por incapacidade (chispa). Uma amostra da completa inaptidão deste jovem para qualquer atividade que seja. Sem emprego, Doinel encontra auxílio na acolhedora família Darbon, e seus interesses vão além, já que há tempos sente imenso amor pela filha do casal, Christine (Claude Jade).

“Mesmo quando eu te amava, não te admirava”, seria assim que Doinel pretendia conquistar o coração da doce Christine? Talvez não fosse o caminho mais fácil, porém é dessa maneira que a juventude iça suas relações, o desprezo mesmo involuntário é arma eficiente nos assuntos do amor. Pesa também a inexperiência, exemplo maior é a cena em que Doinel corre desesperadamente após sair do exército. O destino é um hotel fuleiro onde algumas prostitutas batem ponto. A testosterona a mil, a porta do quarto se fecha e ele tenta em vão lascar um beijo, imaginava que naquela relação haveria algo além da satisfação física.

O viço da juventude é notado em cada fotograma, o cineasta François Truffaut faz questão de situar o filme dentro do mundo de seu personagem central. Abordando o lado mais romântico da juventude, os aspectos que defrontam o amor, a descoberta do sexo, e a maneira singular com que esses jovens lidam com estes assuntos. A atração de garotos por belas e experientes mulheres e a fascinação que homens adultos sentem por lolitas. Truffaut manipula o desajeitado Doinel para aglutinar com inteligência dissonante todas essas abordagens.

Jean-Pierre Léaud é personificação do atrapalhado Doinel, o roteiro quis que ele acabasse trabalhando numa agência de detetives, palco magistral para o corrente e deleitável humor. Enquanto somos tragados pelas estripulias do rapazote, Truffaut busca consistência em suas abordagens com a leveza que só ele sabe guiar. Beijos Proibidos não é o segundo capítulo da saga de Antoine Doinel por acaso, em dois momentos o título literalmente entra na história (um deles já citado) e em ambos é a juventude o maior obstáculo para se atingir objetivos. Truffaut também não perde a militância, abre seu filme homenageando Henri Langlois com a câmera apontando para a Cinemateca Francesa trancada com correntes, espaço fundamental para formação do próprio cineasta e grande merecedora dessa incontestável lembrança.