Posts com Tag ‘François Truffaut’

Les Quatre Cents Coups (1959 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

De crítico da Cahiers du Cinema a um dos cineastas precursores daquele que talvez seja o maior movimento cinematográfico da história, a Nouvelle Vague, François Truffaut surgia definitivamente como diretor de cinema aqui, com um filme tão autobiográfico e que causou furor no Festival de Cannes. Nascia a saga de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), que nesse filme resumia a própria vida do jovem ator, assim como a do diretor. Duas vidas coincidentes se encontrando ao acaso do destino.

O filme caminha suntuosamente pela perda da inocência, a deliberada vontade de impor-se, a autoafirmação tão pertinente à juventude. Truffat caminha pelo labirinto da idade, parece conhecer seus atalhos, abstraindo a inconstância pueril, os acessos rebeldes e a maneira jovial e imatura de uma personalidade em processo de formação. Doinel vive em seus treze anos a vontade de descoberta, a certeza de já poder caminhar por suas próprias pernas.

Porém a liberdade desejada esbarra no autoritarismo do professor, seu seguido implacável, ou no desprezo da mãe e a fraca presença do padrasto. Como toda criança num casamento esfacelado, ele se torna um peso, foge de casa, prefere viver ao esmo nas ruas de Paris sob a guarida de seu fiel amigo René (Patrick Auffay).

De pequenos delitos ao reformatório, Doinel é a figura da força da libertação pelo próprio espírito libertário. Parece incorrigível, quando é apenas carente, perdido, marginalizado pela falta de estrutura a sua volta que o apoiasse. Na cena da entrevista ele se apresenta sem máscaras, a verdade de uma criança exposta de maneira crua, totalmente nua, Truffaut alcança o ápice de seu cinema logo em seu primeiro filme.

osincompreendidos2Jean-Pierre Léaud possui um desejo de revolta enrustido, um ar infante, mistura com sapiência essas explosivas e peculiares formas de se expressar alcançando com maestria a onipresença de um garoto dessa idade. Truffaut faz de seu filme de estreia um acontecimento atemporal, que nunca perde-se pelo tempo, sentimentos vivenciados por jovens de todas as partes, de todas as localidades. Problemas rotineiros que permeiam gerações, a falta ou não de tato dos familiares provoca a predisposição para as escolhas dos filhos. Truffaut enlaça seu roteiro com um humor leve, tolo, em imagens de profunda poesia, a chegada ao mar, a citada entrevista com a psicóloga, enveredamos por respostas para compreendermos parte das causas, nunca a solução.

Jules et Jim (1961 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Um filme sobre o amor livre? Adaptando o livro de Henri-Pierre Roché, o cineasta François Truffaut revive a Paris da Belle Époque com toda sua efervescência, o mundo das artes impulsionando jovens pelas ruas, cafés e boates. Transpirando um mundo de descobertas, de pontos de vista, opiniões defendidas com afinco e uma soberba compassível. A ebulição parisiense transcendendo aos corações que quase nos enganam em não sofrer.

Um narrador em ritmo quase alucinante apresenta o início da sólida amizade entre o francês (Jim – Henri Serre) e o alemão (Jules – Oskar Werner) nos primórdios do século XX. Inseparáveis, essa amizade de tão intensa, chega ao ponto de não ferir o amigo ser a maior preocupação quando cada um defende sua pátria na Primeira Guerra Mundial. Truffaut resgata a suavidade das relações e a fragilidade dos sentimentos no encontro desses três, Jules conhece Catherine (Jeanne Moreau), se apaixona, é o primeiro sinal de ruptura da estrutura, ele pede ao amigo “ela não”.

O triângulo amoroso é inevitável, Catherine é um espírito livre, Jules e Jim mantêm a amizade como uma rocha. Nasce um relacionamento tão complexo e sem fronteiras, Truffaut mantém o ritmo narrativo acelerado, impõe a efervescência de Paris a esse estranho caso de amores faceiros, de instabilidade harmônica, de uma trama envolvendo liberdade e a completa ausência da sensação de posse. Mas também brinca com congelamento de imagem, ou a sutileza da liberdade na corrida na ponte, se não são vidas sem limites, ao menos são sensações ilimitáveis.