Posts com Tag ‘François Truffaut’

oamoremfugaL’Amour en Fuite (1978 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma fogosa loira não deixa Doinel terminar de se arrumar para sair, apaga as luzes do quarto e o seduz novamente. Enquanto são apresentados os créditos iniciais, ao fundo a imagem nublada traz apenas indícios do que ocorre, me pergunto: “E Christine?”. A resposta vem logo a seguir, o divórcio consensual de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) e Christine (Claude Jade) põe fim definitivo àquela história de amor.

No momento a relação amorosa de Doinel é com a vendedora de discos Sabine (Dorothée). Ele hesita em morarem juntos, há uma crise instaurada na relação. Talvez O Amor em Fuga seja mais do que um título, quase um estado de espírito do próprio sentimento. O amor dá sinais de alta mobilidade, de inconstância, como se estivesse fugindo o tempo todo. Nessa busca incessante de Doinel pelo amor, eis reaparece Colette (Marie-France Pisier), uma antiga paixão da juventude (do curta Antoine e Collete). Esse encontro resgata o passado e sinaliza caminhos para o futuro.

Aquela sensação de que cada frase, cada passo, cada personagem, flutuam à frente das câmeras é um trunfo que François Truffaut resgata em cada capítulo dessa saga. Esse filme é uma espécie de homenagem aos anteriores (ou de caça-níquel para fazer dinheiro a Truffaut). Em constantes flashbacks, cenas dos filmes anteriores são resgatadas, complementando passagens mau-explicadas, tudo forçado pelo romance autobiográfico de Doinel que é lido por Colette. Truffaut precisava desmistificar alguns pontos e exaltar o amor como argumento chave de toda essa história, o filme compromete-se para agregar valor aos anteriores.

Com o passar dos anos, Doinel não perdeu o estilo apressado e desajeitado de ser, o humor cedeu espaço para um pouco de maturidade e a impulsividade continua como característica presente em seu dia-a-dia. Um amigo afirma que Doinel sempre procura o mesmo tipo de mulher, ele retruca reafirmando que se apaixona primeiro pela família. Os relacionamentos nos deixam mais experientes, aprendemos a lidar melhor com as crises, mas sempre estamos procurando, a mesma coisa, da mesma forma. Aquela câmera em movimento brusco, alternando-se entre dois casais que se beijam, ao precioso som de L’Amour en Fuite (cantado por Alain Souchon) é a finalização lisonjeira para um personagem que fez de sua vida uma inquietante viagem, e que nos deixou acompanhar cada instante de seu legado.

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domicilioconjugalDomicile Conjugal (1970 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um franzino e elegante par de pernas, vestidos com meias-fina, cruza a lente da câmera ao caminhar por uma calçada num vai-e-vem indeciso. A jovem é tratada polidamente pelos vendedores, mas com gosto e delicadeza os corrige prontamente: “Senhorita não, senhora”. Os personagens dispensam apresentações, Antoine Doinel e Christine (agora Doinel) vivem como numa pequena vila em Paris. Ela leciona, em casa, aulas de violino, enquanto ele trabalha tingindo flores brancas para uma floricultura.

Toda a abordagem dessa nova aventura de Doinel circula sobre a famigerada “vida de casado”. François Truffaut explora os pontos que acredita serem triviais a um matrimônio. Nele estão contidos os momentos românticos, as pequenas brigas, jantares com os parentes, a jovialidade dos primeiros anos de casados, a infidelidade masculina (pensamento extremamente machista), a crise e suas conseqüências. Aliás, o pensamento machista de Truffaut pode ser percebido em outros detalhes, normalmente ligados à infidelidade, caso da relação prostituição/casamento feliz.

O humor constante e usado de forma sutil, as características singulares de Doinel, o falso ar sem compromisso do filme anterior permanecem. A história é apimentada com a aparição de uma oriental na vida de Doinel, sua exótica beleza o atrai a ponto de Christine descobrir sua traição, mesmo com um filho pequeno o relacionamento declina. Essa é mais uma maneira de Truffaut “trivializar” este casamento, mostrar que em sua visão o amor é inconstante, volúvel.

Um grau de maturidade mais acentuado nos dois personagens centrais pode ser notado ativamente, esse processo entre a juventude e a fase adulta (onde está incluído o casamento) faz parte da transição. As recaídas infantis tornam-se saborosíssimas passagens. Jean-Pierre Léaud não perde o estilo e Claude Jade a ternura. As saídas no roteiro encontradas por Truffaut apenas aproximam o público dos personagens. A graça e o cômico permeiam cada situação numa colcha de gêneros que desfilam por essa comédia (drama, romance e até suspense dão o ar da graça). O epílogo tem representatividade muito maior do que ser o fim, de sagaz humor ele idealiza mais uma corriqueirice conjugal.

beijosproibidosBaisers Volés / Stolen Kisses (1968 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Agora oito, talvez dez anos mais velho, o garoto incompreendido Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) cresceu, e tornou-se um zero à esquerda no sentido sarcástico da expressão. Por motivos pessoais alistou-se no exército (detalhes são desnecessários), e após três anos foi expulso por incapacidade (chispa). Uma amostra da completa inaptidão deste jovem para qualquer atividade que seja. Sem emprego, Doinel encontra auxílio na acolhedora família Darbon, e seus interesses vão além, já que há tempos sente imenso amor pela filha do casal, Christine (Claude Jade).

“Mesmo quando eu te amava, não te admirava”, seria assim que Doinel pretendia conquistar o coração da doce Christine? Talvez não fosse o caminho mais fácil, porém é dessa maneira que a juventude iça suas relações, o desprezo mesmo involuntário é arma eficiente nos assuntos do amor. Pesa também a inexperiência, exemplo maior é a cena em que Doinel corre desesperadamente após sair do exército. O destino é um hotel fuleiro onde algumas prostitutas batem ponto. A testosterona a mil, a porta do quarto se fecha e ele tenta em vão lascar um beijo, imaginava que naquela relação haveria algo além da satisfação física.

O viço da juventude é notado em cada fotograma, o cineasta François Truffaut faz questão de situar o filme dentro do mundo de seu personagem central. Abordando o lado mais romântico da juventude, os aspectos que defrontam o amor, a descoberta do sexo, e a maneira singular com que esses jovens lidam com estes assuntos. A atração de garotos por belas e experientes mulheres e a fascinação que homens adultos sentem por lolitas. Truffaut manipula o desajeitado Doinel para aglutinar com inteligência dissonante todas essas abordagens.

Jean-Pierre Léaud é personificação do atrapalhado Doinel, o roteiro quis que ele acabasse trabalhando numa agência de detetives, palco magistral para o corrente e deleitável humor. Enquanto somos tragados pelas estripulias do rapazote, Truffaut busca consistência em suas abordagens com a leveza que só ele sabe guiar. Beijos Proibidos não é o segundo capítulo da saga de Antoine Doinel por acaso, em dois momentos o título literalmente entra na história (um deles já citado) e em ambos é a juventude o maior obstáculo para se atingir objetivos. Truffaut também não perde a militância, abre seu filme homenageando Henri Langlois com a câmera apontando para a Cinemateca Francesa trancada com correntes, espaço fundamental para formação do próprio cineasta e grande merecedora dessa incontestável lembrança.

Les Quatre Cents Coups (1959 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

De crítico da Cahiers du Cinema a um dos cineastas precursores daquele que talvez seja o maior movimento cinematográfico da história, a Nouvelle Vague, François Truffaut surgia definitivamente como diretor de cinema aqui, com um filme tão autobiográfico e que causou furor no Festival de Cannes. Nascia a saga de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), que nesse filme resumia a própria vida do jovem ator, assim como a do diretor. Duas vidas coincidentes se encontrando ao acaso do destino.

O filme caminha suntuosamente pela perda da inocência, a deliberada vontade de impor-se, a autoafirmação tão pertinente à juventude. Truffat caminha pelo labirinto da idade, parece conhecer seus atalhos, abstraindo a inconstância pueril, os acessos rebeldes e a maneira jovial e imatura de uma personalidade em processo de formação. Doinel vive em seus treze anos a vontade de descoberta, a certeza de já poder caminhar por suas próprias pernas.

Porém a liberdade desejada esbarra no autoritarismo do professor, seu seguido implacável, ou no desprezo da mãe e a fraca presença do padrasto. Como toda criança num casamento esfacelado, ele se torna um peso, foge de casa, prefere viver ao esmo nas ruas de Paris sob a guarida de seu fiel amigo René (Patrick Auffay).

De pequenos delitos ao reformatório, Doinel é a figura da força da libertação pelo próprio espírito libertário. Parece incorrigível, quando é apenas carente, perdido, marginalizado pela falta de estrutura a sua volta que o apoiasse. Na cena da entrevista ele se apresenta sem máscaras, a verdade de uma criança exposta de maneira crua, totalmente nua, Truffaut alcança o ápice de seu cinema logo em seu primeiro filme.

osincompreendidos2Jean-Pierre Léaud possui um desejo de revolta enrustido, um ar infante, mistura com sapiência essas explosivas e peculiares formas de se expressar alcançando com maestria a onipresença de um garoto dessa idade. Truffaut faz de seu filme de estreia um acontecimento atemporal, que nunca perde-se pelo tempo, sentimentos vivenciados por jovens de todas as partes, de todas as localidades. Problemas rotineiros que permeiam gerações, a falta ou não de tato dos familiares provoca a predisposição para as escolhas dos filhos. Truffaut enlaça seu roteiro com um humor leve, tolo, em imagens de profunda poesia, a chegada ao mar, a citada entrevista com a psicóloga, enveredamos por respostas para compreendermos parte das causas, nunca a solução.

Jules et Jim (1961 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Um filme sobre o amor livre? Adaptando o livro de Henri-Pierre Roché, o cineasta François Truffaut revive a Paris da Belle Époque com toda sua efervescência, o mundo das artes impulsionando jovens pelas ruas, cafés e boates. Transpirando um mundo de descobertas, de pontos de vista, opiniões defendidas com afinco e uma soberba compassível. A ebulição parisiense transcendendo aos corações que quase nos enganam em não sofrer.

Um narrador em ritmo quase alucinante apresenta o início da sólida amizade entre o francês (Jim – Henri Serre) e o alemão (Jules – Oskar Werner) nos primórdios do século XX. Inseparáveis, essa amizade de tão intensa, chega ao ponto de não ferir o amigo ser a maior preocupação quando cada um defende sua pátria na Primeira Guerra Mundial. Truffaut resgata a suavidade das relações e a fragilidade dos sentimentos no encontro desses três, Jules conhece Catherine (Jeanne Moreau), se apaixona, é o primeiro sinal de ruptura da estrutura, ele pede ao amigo “ela não”.

O triângulo amoroso é inevitável, Catherine é um espírito livre, Jules e Jim mantêm a amizade como uma rocha. Nasce um relacionamento tão complexo e sem fronteiras, Truffaut mantém o ritmo narrativo acelerado, impõe a efervescência de Paris a esse estranho caso de amores faceiros, de instabilidade harmônica, de uma trama envolvendo liberdade e a completa ausência da sensação de posse. Mas também brinca com congelamento de imagem, ou a sutileza da liberdade na corrida na ponte, se não são vidas sem limites, ao menos são sensações ilimitáveis.