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Museo / Museum (2018 – MEX) 

Inicialmente temos um filme de assalto, baseado em fatos reais. São dois jovens e amadores assaltantes planejando o roubo de várias peças do museu de Antropologia da Cidade do México. Para tanto, além de deflagar a vergonhosa (falta de) segurança do museu, o  filme se preocupa em desenvolver seus dois personagens centrais. Noite de Natal, as festas em família, os pequenos conflitos, a dependência de um pai doente, a ambição de crescer na vida, rapidamente, o confronto com os pais.

O cineasta Alonso Ruizpalacios usa todos esses elementos para representar o México da década de 80. Ele filma, tanto o assalto, como as relações familiares, com linguagem cinematográfica diferente do usual (montagem acelerada, cenas mais intimistas ou quase claustrofóbicas), como quem quer transmitir sentimentos além do que os atores possam entregar. E, a seguir ao roubo, o filme ganha outros contornos, mesmo sem sair do seu tom, e apresenta os dois ingênuos em busca de um comprador, numa espécie de road movie por esse México  decadente, enquanto a população se mobiliza por peças de museu que pouca importância davam.

Esses contrastes transformam o filme de Ruizpalacios em algo além do simples filme de assalto, há algo da identidade de um povo, além da transformação que os dois personagens passam ao longo desse processo de investigação, fuga, e tentativa de serem grandes negociadores quando não enganam ninguém.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Roteiro

También la Lluvia (2010 – ESP)

O produtor (Luis Tosar) está radiante com os baixíssimos custos que as filmagens na Bolívia proporcionarão ao filme dirigido pelo cineasta idealista Sebastián (Gael García Bernal) que apenas está preocupado em apontar os interesses claros da coroa espanhola em obter ouro na viagem em que Colombo descobriu a América. O roteiro complexo traz essa equipe de filmagem à Cochabamba, enquanto uma jovem grava o making off das filmagens e a produção escolhe figurantes e atores locais para a produção, uma guerra civil está prestes a eclodir na cidade (de fato as manifestações ocorreram por lá em 2000) depois que a companhia de água foi privatizada para empresas estrangeiras gerando um aumento de 300% nas tarifas.

A cineasta Icíar Bolaín sabe muito bem acumular situações e sentimentos até a erupção de um vulcão (já foi assim no ótimo Pelos Seus Olhos) e aqui novamente. Primeiramente pela metáfora poderosa da relação entre os abusos mercantilistas de 500 anos e os atuais (os estrangeiros chegam, sugam o povo e ainda se divertem, incluindo a equipe de filmagem)  e depois por toda a sequência de guerra civil nas ruas que são de arrepiar. Conectar todos esses elementos, desenvolver uma enorme gama de personagens, e manter unidade são demonstrações do grau de maturidade de um trabalho.