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O cinema brasileiro deu o que falar em 2016. Começando pelo grande sucesso internacional de 2 filmes, que, não por acaso, encabeçam a lista de favoritos deste blog. Ambos entraram em listas de melhores do ano, como New York Times e Cahiers du Cinema. Kleber Mendonça Filho causou frisson em Cannes, e Boi Neon se destacou em Veneza, no ano anterior. Mas, não foram só os elogios, houve também a questão política, a manifestação, e mais tarde a polêmica na escolha do filme que o Brasil optou para ser o concorrente no Oscar.

Enquanto isso, os filmes brasileiros continuam buscando seu espaço, vivendo das comédias globais ou dos lançamentos minúsculos que rapidamente saem de cartaz. Fora eles, só meia dúzia de filmes alcançam realmente um público maior, e neles alguns nomes se solidificam, como Marco Dutra e Anna Muylaert.

Cinema de gênero (um thriller e musical), documentários intimistas, além dos sucessos de Gabriel Mascaro e KMF, os 5 filmes dessa lista de destaques do ano carregam a urgência de um cinema que precisa ser visto, descoberto pelo público e com mais espaço de midia, salas e alcance.

 

Aquarius

 

  1. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  2. Boi Neon, de Gabriel Mascaro
  3. O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
  4. A Paixão de JL, de Carlos Nader
  5. Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

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boineonBoi Neon (2015) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza 

Gabriel Mascaro segue os rumos, inclusive no sucesso internacional, de seu filme anterior, Ventos de Agosto. Segue porque há continuidade no ritmo narrativo, e no retratar personagens do nordeste brasileiro pincelando personagens na multidão. Desse modo, ele dá voz diferenciada a tipos, até comuns, que no cinema são capazes de oferecer esse olhar singular. As Vaquejadas ainda são traços de uma cultura enraizada pelo nordeste agrário. Sob as lentes desnudantes de Mascaro, acompanhamos um pequeno recorte de um grupo trabalhando nos espetáculos da Vaquejada.

Galega (Maeve Jenkings) é a motorista do caminhão da boiada, num ambiente tão masculino, ela carrega consigo a filha adolescente, e mantem-se em pé de igualdade, ainda que encontrem espaço para extrapolar a feminilidade em seus shows secretos de stripper. Iremar (Juliano Cazarré) é um dos responsáveis por tratar dos bois, pisa muito em bosta para que estejam nos trinques para a aparição ao público. Enquanto isso mantém a chama vida de seu sonho de ser estilista de moda feminina. Sim, temos a troca de papéis que facilmente soa com naturalidade sem estereótipos contra seus gêneros sexuais.

O diretor explora muito do ambiente, aproveitando toda a horizontalidade da extensão da tela. Expõe corpos com naturalidade impressionante enquanto, novamente, coloca-se numa posição passiva de observar, sem interferências. Cria assim um estilo próprio que dialoga com seus primeiros trabalhos como documentarista (Domésticas), ainda que resulte em menor envolvimento com parcela considerável do público. Trabalha praticamente na ausência de sentimentos, ainda que exale suor, tensão e essa constante presença física a cada plano.

ventosdeagostoVentos de Agosto (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A vida nos rincões, o famigerado Brasil grande, aquele distante das cidades. O filme tem o casal Shirley (Dandara de Morais) e Jeison (Geová Manoel) como fio condutor para essa vida rudimentar. A vida ganha com a pesca, ou com o “catar coco”, o mínimo de influência tecnológica (o celular não pega bem, as casas não tem endereço e nem numeração). O diretor Gabriel Mascaro insere suas experiências em documentário nesse ritmo primitivo de viver. O banho de coca-cola, o corpo que descansa sob o caminhão de cocos, ou o barquinho que invade o oceano.

Outros elementos são incorporados, aos poucos, o técnico de som que capta o vento, as águas raivosas que invadem as praias, a moto ou a cultura rock que tenta se adapta ao ritmo do lugar. Shirley veio para cuidar de uma senhora, Jeison fica fascinado com ossadas que encontra no mar, ou na praia. E os ventos que cortam o mês de Agosto, e mudam com aspectos do clima, e o fascínio que mexe com os interesses de Jeison, a incorporação do inesperado causando reações. O filme traz essa brasilidade divertida e inocente, mas não consegue ir além do insinuar. Suas ambições são pequenas, quase tão primitivas quanto o pequeno vilarejo, esquecido do mundo. A câmera quer se integrar ao local, fazer parte da paisagem, a herança do documentário traz essa riqueza de sons e sensações, e afasta a ficção da etnologia.