Posts com Tag ‘Gael Garcia Bernal’

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Neruda (2016 – CHL) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Rapidamente o cineasta chileno Pablo Larraín se tornou um dos sul-americanos mais queridinhos da crítica internacional. A consagração veio com o sucesso de No e O Clube, e que o levaram agora a Hollywood para a biografia de ninguém menos de Jackie Kennedy. Exceção a O Clube, todos os demais trabalhos de Larraín tem na ditadura militar chilena o foco, ou pano de fundo, porém há neles distinta estrutura narrativa, a ponto de não ser ainda possível captar as características cinematográficas principais de seu cinema, que não os temas grandiosos as quais trabalha.

E nada mais grandioso do que retratar o nome mais internacional de todo seu país, o poeta Pablo Neruda. Mas, para aqueles que esperavam uma cinebiografia, estão muito enganados, com toques de noir, e até de perseguição à la western, Larraín tratar de um período específico, o momento em que o Senador Neruda passa a ser acusado de suas convicções políticas e perseguido.

O filme parte de fatos históricos, mas cria um universo poético próprio, com personagens fictícios e diálogos construídos através da montagem de diferentes encontros entre os personagens, num misto de dinamismo e charme. A dificuldades de seu resultado final é fugir da pose de grandioso, de poesia narrada de forma didática, são tantas as construções de linguagem cinematográfica (planos-sequencias, close-up’s, delírios poéticos) que o todo surge como aquela árvore que crescem de forma desordenada, e a raiz invade a calçada.

No (2012 – CHL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Pablo Larraín volta a utilizar aquele aspecto de imagem suja, forjando o vídeo, anos 80. Dessa vez o artifício é utilizado devido ao grande acervo de imagens de arquivo. Estamos ao fim da ditadura de Pinochet, o país vive o plesbiscito que questiona a manutenção ou não de seu governo.

O tema político é levemente desviado para as campanhas de TV do Sim e do Não. Larraín narra com furor, com gana, e, obviamente que o aspecto histórico conta a seu favor. Ainda assim, seu filme não chega a brilhar, falta inflamar, começando pelo protagonista (Gael Garcia Bernal) ora contido, ora engajado (muito mais por suas convicções marqueteiras), tão velado quanto a repressão do militarismo do governo.

 

Amores Perros (2000 – MEX) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Câmera tremendo, respiração ofegante, um cão sangrando no banco de trás. Uma alucinante perseguição, um carro cruza o sinal vermelho, um acidente. Começa assim o filme de estreia do diretor Alejandro González Iñárritu (com roteiro de Guillermo Arriaga), e que estreia! São três histórias envolvendo amores e cães, conectadas a esse acidente de carro que se torna divisor de águas na vida dos envolvidos. Um drama denso e intrigante, narrado de maneira impactante e contundente. Os cães funcionam como um brilhante artifício para potencializar os desfechos. Iñárritu demonstra-se um diretor perito na maneira de posicionar a câmera, enquadramentos não convencionais e uma fotografia suja dão impressão ainda mais forte da atmosfera carregada que persegue os personagens. Além das competentes atuações, com destaque para Gael García Bernal e Emilio Echevarría.

A estrutura narrativa e a edição bebem das potencialidades do roteiro, para unidos, apresentarem um filme único, inovador, frenético, e coberto das angústias da vida moderna. A violência circunda as vidas, o amor tanto constrói quanto destrói, a política fragmenta pessoas, desmantela famílias. Octávio (Gael García Bernal) é apaixonado pela esposa de seu irmão. Susana (Vanessa Bauche) casou-se muito jovem com Ramiro (Marco Pérez) por estar grávida e agora é constantemente maltratada por esse assaltante de farmácias. Por ironia do destino Octávio descobre que seu cão é um exímio lutador, passa a lucrar com essa particularidade, juntando dinheiro para fugir com sua amada cunhada enquanto flerta com ela. Mergulha num sonho sem nem se preocupar se está devidamente acompanhado.

Daniel (Álvaro Guerrero) anda infeliz em seu casamento e decide largar sua esposa e família para morar com sua amante, a famosa modelo Valeria Maya (Goya Toledo). O acidente vem de encontro ao ápice da felicidade do casal, Valéria é submetida a delicadas cirurgias e fica presa a pinos e camas de hospital. De volta ao lar, o casal passa por momentos difíceis, Valeria vê seu sucesso profissional desmoronar ao perder toda a beleza e encanto que possuía. Sua situação deteriora-se quando seu estimado cão cai num buraco no assoalho e fica preso, a falta do querido animal de estimação atrapalha diretamente a recuperação de Valeria e a continuidade do relacionamento do casal.

Chivo (Emilio Echevarría) vive como um mendigo, anda moribundo pelas ruas, cercado por seus cães, ou isso é apenas um disfarce para seu trabalho como matador de aluguel? Passou muitos anos na cadeia após ter sido guerrilheiro e agora sobrevive desses “trabalhinhos”, mas é atormentado pela distância que o separa da filha. O fato divisor de águas funciona como sinal de mudança para que esse homem, a oportunidade de rever sua vida e traçar novos planos para seu futuro.

maeducacaoLa Mala Educación (2004 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

As especulações de que este seria um trabalho fortemente autobiográfico de Pedro Almodóvar surgiram desde as primeiras informações sobre o filme, com grandes expectativas de que fosse um retrato da infância do cineasta, e ainda uma ferrenha crítica à Igreja Católica. O personagem Enrique Goded (Fele Martínez) até é colocado como alter-ego de Almodóvar, mas o misto noir de drama e suspense, tem foco um pouco diferente.

As cores estão menos berrantes, o bizarro e o feio nem tão presentes, o roteiro com aquela pegada que só Almodóvar possui. Começa na década de sessenta, Ignacio (Gael Garcia Bernal) e Enrique estudam numa escola católica e se apaixonam, Padre Manolo (Daniel Giménez Cacho) também vive uma paixão por Ignacio e por ciúmes consegue afastar os dois garotos. Na década de oitenta eles se reencontram, como um cineasta de prestígio e um ator desempregado carregando debaixo do braço o livro “La Visita” contando a história deles.

Almodóvar filma um amor pedófilo, um amor reprimido na infância, um amor calcado em abusos sexuais de menores, ofensivo e repugnante, ainda assim amor. Os meandros do roteiro desvendam segredos, revelam passados, o filme dentro filme permite ao cineasta viajar entre passado e presente, escapar do tradicional para reencontrar seu cinema autoral e particular. Perde oportunidade ao Abster-se de criticar pontos nefrálgicos da sociedade e em desmistificar a efervescência cultural de época de Franco.

Almodóvar prefere pegar emprestado os fatos e contar seu caso de amor, com cenas de beleza irrepreensível, outras em que a ausência de diálogos oferece troca de olhares reveladores. E um Gael Garcia Bernal em papel duplo, veste-se como travesti e dá um espetáculo em cena.