Posts com Tag ‘Gérard Depardieu’

VALLEYOFLOVEThe Valley of Love (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo trabalho do diretor Guillaume Nicloux reune a dupla Isabelle Huppert e Gerald Depardieu, após trinta anos da filmagem de Loulou. Eles são pais separados, que vem aos EUA lamentar a morte do filho, e executar seu último desejo no Vale da Morte (California). Entre o calor desesperador e as cicatrizes do passado, os dois mergulham na lamentação da perda enquanto Nicloux insere pequenos elementos fantásticos nessa trama. É um filme de dor contida, de vidas reunidas para um pequeno momento. E também de misturar os problemas atuais da vida na terceira idade, e esse peso da culpa pela não proximidade da família de uma vida toda.

wanttogohomeI Want to Go Home (1989 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Alain Resnais sempre tentando incorporar outros tipos de arte aos seus trabalhos. Não basta ter um cartunista como protagonista, Resnais traz um pouco desse mundo para dentro de seu filme, personagens animados, pequenas colagens, um eterno renovador.

Pena que seja seu filme mais desengonçado. A eterna piada das diferenças entre as culturas americana e francesa, sempre naquele tom debochado, de quem acha estranho, e pode se encantar, ou não, mas que confere um tom de quase humor físico. Festas à fantasia, franceses pouco delicados com o visitante (que é convidado de honra), infidelidade desenfreada, filha fugindo do pai, nada muito excepcional. Falta mesmo acertar o tom da comédia, que flerta até com Fellini, e passa longe do charme costumeiro com que Resnais nos conduzia em seus filmes anteriores.

bemvindoanyWelcome to New York (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Estou para encontrar um filme tão corrosivo quanto este. Começa com uma “pequena entrevista” de Gérard Depardieu dizendo que não gosta de políticos, estaria justificando o porquê de entrar nesse projeto. A partir daí ele interpreta Sr. Georges Devereaux, que é apenas um codinome para Dominique Strauss-Kahn. Desde a primeira cena o ex-diretor-geral do FMI é deflagrado como um asqueroso viciado em sexo. Reuniões em escritório, orgias em hotéis, num patamar fora de controle.

É a destruição completa da figura pública, Abel Ferrara não poupa Devereaux da exposição vexaminosa em cena alguma. No decorrer do filme vem o caso do ataque a uma empregada de hotel que destruiu a carreira de Strauss-Kahn, que era tido como próximo presidente da França. Ferrara foge dos jornais, da repercussão da mídia. Seu foco é o íntimo da rotina de Devereaux. Não se trata de um estudo de um personagem, mas sim de uma destruição ácid. Desde as discussões com a esposa (Jacqueline Bisset), até os detalhes dentro da prisão (revistado nu pelos policiais, por exemplo).

Òbvio que Ferrara está imaginando diálogos, inventando, mas a construção de um personagem tão asqueroso parece mais crível do que a de qualquer vilão da vida real, que se tenha noticia. Arrependimento não existe, há o que o dinheiro pode comprar, e sua incapacidade de controlar suas investidas. Um homem movido por seu instinto sexual, por mais que esse instinto possa jogá-lo ainda mais na lama. Depardieu e Ferrara juntos perdem qualquer pudor e entregam aquela visão escrota que temos dos políticos mais corruptos, nesse caso o contexto é sexual, mas qualquer outro figurão poderia se colocar num mesmo contexto moral, trocando o sexo por mais fortuna vinda de corrupção.

Les Temps qui Changent/Changing Times (2004 – FRA)

Há aqui um fenômeno migratório, os personagens são atraídos a Tanger, Marrocos, por amor sob diversas formas, porém essencialmente por amor. É assim que Antoine (Gérard Depardieu) finalmente toma coragem de resgatar seu amor platônico congelado por mais de trinta anos por Cécile (Catherine Deneuve), ou que o filho dela vem acompanhado da namorada não só rever os pais mas encontrar sua relação proibida enquanto que a namorada liberal busca sua irmã gêmea após anos sem se reencontrarem.

André Téchiné filma tudo com câmera na mão, planos fechados (muitas cenas observadas pela nuca de um dos atores). Esse formato traz vitalidade, um pouco de desassossego, trazendo a imagem para dentro de como as relações pessoais se desenvolvem. Aliás, acima do mote amor, são as relações pessoais o grande tema do filme, não só os casais, principalmente essas inter-relações entre medico e amigo da esposa, mãe e namorada do filho, são essas pequenas diferenças entre como tratamos os mais íntimos e como se sentem desconfortáveis os menos íntimos que Téchiné trata de maneira bem elaborada e conflitante.

Potiche (2010 – FRA)

Que prazer quando um cineasta sabe utilizar artimanhas cinematográficas a seu favor, logo no primeiro diálogo François Ozon já imprime o que será o ritmo do filme (leve, divertido, e de temas discordantes, o feminismo principalmente), um casal discute sutilmente e naquele pequeno diálogo já estamos inseridos em quem são, no estilo de vida e o que mais relevante havia. Ozon talvez seja o mais versátil dos cineastas franceses na atualidade, aqui ele flerta com seu 8 Mulheres (Catherine Deneuve também encabeçava o elenco), mas o filme chega ao limite tênue entre comédia e musical, faltou quase nada para que os diálogos não se tornassem apresentações musicais.

O roteiro é bobinho, leva tudo com muito humor, a greve na fábrica, o feminismo, a sensação das mulheres de seu papel de “vaso” nas decisões familiares, a incongruência entre o artístico e o industrial. E Ozon une bem todos estes elementos, ainda com doses de crise conjugal e paixões do passado, a verdade é que o filme surge prazeroso, para aqueles que acreditam que, às vezes, precisamos de um filme bobo onde se pode deixar o cérebro em casa, Potiche vem provar que isso é uma ignorância profunda, é possível fazer um filme leve e versátil e cheio de elementos críticos e temas fortes. Atenção especial ao personagem da filha, talvez o mais próximo do real entre todos os personagens.

La Tetê en Friche (2010 – FRA)

O quarentão Germain Chazes (Gérard Depardieu) é daqueles sujeitos meio broncos, mais ligado à trabalhos braçais numa pequena cidade onde mora, divide-se entre os encontros diários com amigos num café, a namorada motorista de ônibus, e a relação complicada com a mãe. Nas tardes admira os pombos na praça, e ali surge amizade com a quase centenária Margueritte (Gisèle Casadesus) que aproveita o clima pacato e bucólico para ler romances. Os encontros diários tornam-se um incentivo para o semi-analfabeto descobrir a leitura, deixar de lado a aspereza de seu trato e ser mais terno nas relações pessoais. O filme de Jean Becker clama por singeleza, e até consegue, é daqueles filmes pequenos, capazes de emocionar muita gente, mas ele flerta apenas com uma dose de obviedade incapaz de oferecer um grande momento sequer, comédia dramática em banho-maria.

inimigopublicon1Mesrine: L’Instinct de Mort (2008 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A figura de Jacques Mesrine (Vincent Cassel) é extremamente cinematográfica, no sentido showman da coisa. Um bandido desmiolado capaz de atitudes mirabolantes, como a fuga, e posteriormente auxílio para a fuga de outros que com ele estavam presos num presídio de segurança máxima no Canadá (só em dois num carro e como único plano sair atirando para todos os lados), já é argumento para um filme de ação. Nas mãos de Jean-Fraçois Richet (e sua passagem pelo cinema de ação hollywoodiano) o filme perde os laços com o cinema europeu para flertar um pouco com o que estamos acostumados no mainstream, se bem que há um ar, um toque de Richet, principalmente na montagem rápida, nos cortes secos e no estilo “moderninho” de filmar.

A primeira parte da saga de Mesrine narra o início de sua vida no crime, sua relação com o chefão da máfia Guido (Gerard Depardieu), dois grandes amores à espanhola, Sofia (Elena Anaya) e Jeanne Schneider (Cécile de France), que trabalhando em dupla ganharam o apelido de Bonnie & Clyde. Richet recorre a participação de Mesrine na Guerra da Argélia (no fim da década de 50) numa forma de justificar a opção de Mesrine pelo mundo do crime, ao tomar partido escancara essa adoração por parte dos franceses a uma figura truculenta, violenta, e faz do seu filme um grande entretenimento com um personagem desajustado. É válida toda a seqüência inicial que deixa no ar uma armadilha para matar Mesrine, a seqüência se impõe com estilo, mas não chega ao impacto esperado (torna-se diapasão do próprio filme).

camilleclaudelCamille Claudel (1988 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um talento autodestrutível, uma obsessão compulsiva, e uma mania maníaca de acreditar que é boicotada por seu ex-amante. Esses comportamentos marcaram o fim da vida de Camille Claudel. A excepcional escultora passou seus últimos trinta anos num manicômio, trancafiada e distante da família, suplicando por atenção e afeto. Qual motivo levou essa mulher brilhante a um final tão triste? O amor.

O famoso diretor de fotografia Bruno Nuytten estreava na direção, sua escolha foi a de adaptar o livro de Reine-Marie Paris que segue a linha de raciocínio, defendida por alguns, que Camille Claudel seria mais talentosa e teria sido usada por seu amante Auguste Rodin (Gérard Depardieu). Para interpretar a escultora, Nuytten escolheu sua esposa à época, Isabelle Adjani, e abusou de seus conhecimentos para esbanjar na fotografia, recriando a França do século XIX, e intensificando o clima claustrofóbico da última fase da história.

A narração segue a ordem cronológica dos fatos, desde quando Camille conhece, e passa a trabalhar como aprendiz de Rodin. O escultor, já famoso, costumava relacionar-se com suas aprendizes. E com Camille não foi diferente. O caso de amor é tratado por Nuytten de forma burocrática e tradicional, desperdiçando-se assim a oportunidade de exaltar a arte. Pouco se explora das obras desses dois monstros da escultura ou de seus métodos e inspirações.

Pois bem, Camille não consegue permanecer como a amante, cobra de Rodin exclusividade e desfaz-se o relacionamento. Começa seu calvário, incapaz de domar seu próprio gênio. A cada dia afasta-se mais do convívio social, tranca-se em casa com suas esculturas, e passa a acusar Rodin de boicote, de podar seu sucesso. Nesse ponto entra em cena a capacidade de Adjani atuar, a angústia, a loucura, o auto-aprisionamento, tudo está prescrito no olhar da atriz. Adjani se coloca como um vulcão em erupção em cada cena, Camille quebra esculturas, atira pedras na casa de Rodin, exprime seu isolamento em cada detalhe melancólico de seu rosto, como nas esculturas de Camille que pouco faltavam para ganhar vida própria.

amulherdoladoLa Femme D’à Côté (1981 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Não poderia enveredar-se por outros caminhos, a história de amor envolvendo Bernard e Mathilde: “Nem com você, nem sem você”. O ambiente trágico é observado já no tom de abertura, conduzido pela encantadora Madame Odile Jouve, a administradora do clube de tênis que se presta a narrar os essenciais seis meses anteriores ao ocorrido.

Em Grenoble, interior da França, mora Bernard Coudray (Gérard Depardieu), com sua esposa e o pequeno Thomas. Escolheram a região para desfrutar da natureza e da tranqüilidade que o campo oferece. Após alguns anos, a casa ao lado finalmente é alugada. Como de praxe, Bernard é solicito, tenta ser gentil ao casal de novos vizinhos. Isso até descobrir quem eram os locatários do imóvel, o reencontro com Mathilde Bouchard (Fanny Ardant) traz a tona à paixão de oito anos perdida. O passado parece reviver ferozmente, e o reencontro demonstra que o conturbado romance apenas hibernava em seus corações.

Num primeiro momento relutam, escondem de seus cônjuges que já se conheciam, mas o amor asfixiado entra em erupção como um vulcão adormecido. O sentimento de ambos é explosivo e controverso, quanto mais querem distanciar-se, mais próximos ficam. Os motivos da separação anterior surgem com a mesma magnitude da paixão, não conseguem agir normalmente, é cada vez mais difícil esconder a situação. A atração física é muito mais forte do que a coerência que teima em separá-los.

Este não possui o mesmo frescor de trabalhos anteriores de François Truffaut, isso não significa demérito, apenas diferença. A fotografia é carregada nos tons escuros, os sentimentos estão sufocados, causando picos de dramaticidade e eclodindo em reações espontâneas e destemperadas. A história é narrada em estilo clássico e as atenções centradas nas atuações da dupla Ardant-Depardieu, como se o filme tivesse menos de Truffaut do que outros, e assim o cineasta dividisse o peso da responsabilidade com a dupla.

Cada passo do roteiro está antecipadamente descrito na mente do público, a ausência de surpresas faz da história coerente, porém marcada. Truffaut faz tudo corretamente, prova maior é a cena máxima que está coberta de suspense e beleza. Desenvolve os coadjuvantes para que não sejam apenas figuras decorativas, transforma o dia-a-dia do romance em arma para resgatar passagens que marcaram o passado deles juntos.

meutiodamaericaMon Oncle D’Amérique (1980 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela
O cineasta Alain Resnais e o biólogo Henri Laborit se dispuseram a analisar o comportamento humano, e suas variáveis, tendo por base de comparação o comportamento primitivo dos animais. O roteiro é baseado nos estudos de Laborit, que é o narrador da história. Esteticamente, o filme assemelha-se bastante com um vídeo de aula de ciências, onde ouvimos os conceitos propostos, e as imagens confirmando cada raciocínio. Claro que Resnais transforma isso em cinema de gente grande, trabalhando em cima de três personagens que têm suas vidas intercaladas.

De início, uma bagunçada chuva de imagens e frases disparadas sem muito sentido aparente. Elas formam uma espécie de resumo do que será a vida de cada um dos personagens centrais. Depois, o desenvolvimento de cada um desde a infância, René Ragueneau (Gérard Depardieu) torna-se um administrador burocrático de uma tecelagem e se vê pressionado quando colocam outro funcionário na mesma função da dele. Janine Garnier (Nicole Garcia) foi ativista comunista quando jovem, abandonou a família para ser atriz. E por fim, o burguês Jean Le Gall (Roger Pierre), que administra uma rádio estatal e decidiu separar-se da esposa para ficar com Janine.

Laborit divide o cérebro humano em três partes, estuda três humanos, explora três fases animais do comportamento. Manipula as ações dos personagens para provar suas afirmações. Com homenagens a clássicos do cinema e um humor de tom lisonjeiro, Resnais imprime ritmo tenro. Amadurece seus personagens, brinca com inteligência num roteiro repleto de consistentes teias. Nicole Garcia marca presença forte em cena, domina com ternura e presença marcante. O entrecruzar de personagens, e as experiências comparativas, dão mais do que embasamento empírico, trazem mesmo um frescor renovado que ganha esmero na fotografia cativante de Sacha Vierny. Por fim, Laborit conclui que usando a mente para dominar os outros as coisas nunca vão mudar.