Posts com Tag ‘Glauber Rocha’

Der Leone Have Sept Cabeças (1970 – ITA/BRA)
 
Em seu primeiro filme no exílio, Glauber Rocha direcionava sua verborragia energizante à África. O cineasta vê as proximidades com o continente sul-americano e novamente cria um filme panfletário, engajado socio-politicamente. Em diálogos que mais parecem monólogos teatrais ele expõe o colonialismo, mistura a ânsia de independência e a colocação no poder do zumbi (e só de estar no poder mostra a mudança no trato, nas vestimentas) e a presença de revolucionários sul-americanos. Entre aquelas cores, aquela presença tribal africana, e os discursos repetitivos que parecem pregar na mente como numa lavagem cerebral, Glauber dá novas mostras de sua visão política anárquica. Num filme esquemático e fragmentado o cineasta que estava a frente de seu tempo em muitos conceitos e anseios, apresenta aqui um filme de difícil apreciação, completamente despegado da lógica de uma construção de roteiro para focar unicamente na força de seu discurso plural.

barraventoBarravento (1962) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

 

 

Se eu tivesse assistido ao filme, em seu lançamento, provavelmente teria em mente uma frase do tipo: “esse rapaz tem futuro!”. Tratava-se da estréia na direção de certo Glauber Rocha, apenas um jovem. Ainda não havia a urgência tão presente em seus filmes posteriores, mas existe ali o início de um discurso, a voz que começava a ecoar pelo ar, sem preocupação com as restrições dos que irão ouvir. É Glauber, é dinâmico, é político, é popular e erudito, como o mesmo afirmou “Um ensaio cinematográfico, uma experiência de iniciante.”.

Barravento faz referência a violência, o encontro de ar e mar em momento de transformações. Uma colônia de pescadores na Bahia segue fielmente antigos cultos míticos do candomblé, a atividade da pesca é comandada sob as mesmas rédeas da escravidão. Aruã (Aldo Teixeira) é tido como filho de Yemanjá, aquele que deverá permanecer virgem para proteger aos pescadores.

Voltando de Salvador, Firmino (Antônio Pitanga) rebela-se contra o contraste que seu novo estilo de vida apresenta-se, em comparação a vida pacata do local. Firmino é a voz que Glauber escolheu para entoar suas críticas àquela sociedade, porém o personagem não encontra naquele povo simples, analfabeto e miserável, uma platéia capaz de se envolver com suas idéias. Resolvido a dar fim àquelas crenças religiosas arcaicas (em sua visão), Firmino traça planos diabólicos para desacreditar os líderes religiosos.

Por um lado o folclore e toda a cultura africana tão enraizada naquela vila de caiçaras, de outro a visão cosmopolita de alguém que trocou a pobreza por uma vida levemente melhor na cidade. No meio disso tudo a crendice popular, a religiosidade, e todo seu poder de controle da sociedade. O Barravento está nos fenômenos naturais, mas está também nessa eterna rivalidade entre crendices, o respeito às seitas, a cegueira dos menos favorecidos, as lendas. E a paixão da única personagem branca de todo o filme por Aruã é apenas mais uma das provocações de Glauber.

Comparado a seus filmes posteriores, o discurso é menos enfático, a câmera mais centrada, e os sentimentos menos trepidantes. Parece um experimento do que mais tarde se tornaria um dos diretores com carga mais autoral e características mais próprias do cinema nacional. Glauber começava contestando, capaz de expor sua visão crítica em um assunto tão intricado (a religião e seu poder de controlar as pessoas), e ainda envenenar o próprio caminho que escolheu para desmoralizar essas próprias crendices.

Terra_em_transeTerra em Transe (1967) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Acreditar que Eldorado é uma metáfora para o nosso país é injustiça com nossos vizinhos latino-americanos. Por isso, alguns nomes de personagens, e empresas, estão em espanhol. Esse é um filme sobre a América, de modo geral, todos os países do continente podem se sentir “homenageados” nesse contexto político-poético, cuja ferina câmera de Glauber Rocha teima em dilacerar, como uma metralhadora incisiva, de críticas diretas, objetivas e subjetivas. Sem meias palavras, ou mecanismo carregados de pomposo eufemismo.

Os personagens desdobram-se em monólogos teatrais. Mesmo em diálogos, olham diretamente para a câmera como se discursassem suas verdades. O poeta Paulo Martins (Jardel Filho), dentro de sua ilusória capacidade de fazer política, agoniza enquanto relembra sua trajetória na política, que está intimamente ligada a alguns figurões do governo. De um lado o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran), melindroso político, usa Deus como arma para angariar votos, quando apenas idolatra seus escusos objetivos, normalmente ligados aos de uma poderosa empresa.

De outro lado Filipe Vieira (José Lewgoy), o governador populista, que prometeu mundos e fundos, ao povo, e depois os despreza como nos desfazemos das migalhas. Os líderes populares e suas retrógradas ideologias, teóricas e démodé. Há ainda a figura do multi-empresário Julio Fuentes (Paulo Gracindo), o próprio retrato da burguesia, dono de quase toda Eldorado, e incansável por mais dividendos. Conchavos são expedientes necessários quando se sente acuado.

É a luta do rico contra o mais rico. O poeta quer aliar suas palavras com a política, mas naufraga porque elas caminham em direções opostas. Assim como o povo que agoniza em suas pobres terras, e que sofre barbáries constantes. É desse transe que fala Glauber Rocha, seu filme pulsa urgente, línguas afiadas declamam textos ricos, sob tantos aspectos, que o mais difícil seria descrevê-los. É um cinema verborrágico como nunca se viu, delirantemente perturbador em sua essência, tal qual a realidade que aborda. Entusiasmado, em sua paixão, pela relação público/filme, e em tudo o que ela pode despertar. Glauber não via o futuro, apenas compreendia por demais o presente, pena que nada mudou nesse tempo todo, com ou sem ditadura.

 

odragaodamaldadecontraosantoguerreiroO Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Um faroeste em pleno sertão nordestino. Em pleno apogeu da ditadura militar, surge Glauber Rocha com seus filmes de ferrenha crítica social, inventivos, verborrágicos. Filmados de maneira crua, repletos de referências do folclore nordestino, e transformando musicalidade em narrativa. Lá se foram trinta e cinco anos, mudam os personagens, mantem-se os papéis na vida política nacional.

Jardim das Piranhas é o típico vilarejo do sertão nordestino, regras e leis passam pelo latifundiário que controla a região, no caso o Coronel Horácio (Jofre Soares). É lá que Coirana (Lorival Pariz), diz ser a reencarnação de Lampião, decidem instaurar o caos. O delegado (afilhado político do coronel, e provável futuro prefeito, mesmo sendo a favor da reforma agrária) perde as rédeas e convoca Antonio das Mortes (Maurício do Valle), matador de cangaceiros.

A condição deplorável de sobrevivência é mais que acachapante no sertão, a luta do dragão da maldade contra o santo guerreiro remete a São Jorge. Também remete ao fim das injustiças, a luta de classes, e nesse ponto, o desiludido e bêbado Professor (Othon Bastos) pode ser a voz da esperança, talvez Glauber depositasse suas fichas na educação.

odragaodamaldadecontraosantoguerreiro2No velho-oeste apocalíptico de Glauber a luta cruel contra a fome, a sede e a miséria ganham aliados implacáveis, e tornam-se vilões maiores do que os que abusam e exploram. Quando o ferido cangaceiro Coirana, diz ao justiceiro Antonio das Mortes, que ele estava vestido de ouro, ouro que ganhou dos ricos para matar pobres; neste momento Antonio das Mortes caminha entre o povo que seguia o cangaceiro e percebe que lutava pela causa errada.

Glauber resume o sertão nordestino da década, faz jus ao cancioneiro, ao repente, dá espaço ao misticismo e a fé. Usa alguns personagens de seu clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol para enquadrar a realidade sonora de um Brasil sertanista, traduz peculiares alegorias regionais para expor a verdade do povo, talvez o melhor filme brasileiro de todos os tempos.