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Ilha

Publicado: agosto 8, 2019 em Cinema
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Ilha (2018)

Depois do sucesso de critica, a dupla Glenda Nicário e Ary Rosa volta com altas doses de experimentação. Começando pela trama onde um jovem da periferia quer fazer um filme sobre sua vida e sequestra um cineasta baiano e o obriga a realizar as filmagens. Muita licença poética na forma de convencer, de evoluir entre ficção e docudrama, enquanto os diretores filmam ângulos mais que inusitados e um ritmo narrativo que foge, completamente, dos padrões estabelecidos.

Tanta experimentação é um risco que a dupla corre, e nem tudo funciona. Algumas cenas são vistosas e funcionais, outras ficam apenas na vontade de experimentar formatos e maneiras de abordar esse misto de repulsa, amizade e atração. Música, o beira-mar, o vento do fim de tarde, e o resgate de memórias afetivas ou traumáticas, está longe do onírico, mas quase radical em muitas de suas propostas.

Café com Canela (2018) 

Se passaram mais de trinta anos sem que uma mulher negra dirigisse um longa-metragem com estreia no circuito comercial brasileiro, é tão triste que um texto comece com um destaque desse tipo, mas é assim que as coisas são nesse país. O filme vem quebrar esse hiato, felizmente. Dirigido pela dupla Glenda Nicário e Ary Rosa, trata-se de um trabalho afetuoso, em meio as aguras e a vida cotidianda do Recôncavo Baiano.

Começa com um vídeo caseiro de uma festinha de aniversário de criança, intercala com um grupo de amigos fazendo um churrasco, bem familiar. Essas duas sequencias vão e voltam, se intercalam com a história das duasa mulheres que dominam a trama. Uma delas é a jovem Violeta (Aline Brunne), dessas mulheres lutadoras, sem papas nas línguas, que vende seus salgados e sempre fala o que pensa. De outro, a amargurada Margarida (Valdinéia Soriano), que nitidamente carrega o peso do mundo sob suas costas.

Através do cotidiano da vizinhança o filme desenvolve as histórias particulares dos personagens, enquanto no macro está representando toda uma comunidade negra. Sem levantar a bandeira de discursos anti-racismo, o filme encanta pela simplicidade com que personagens enfrentam suas dores, na forma como encontram para dividir e suportar entre eles. De pano de fundo está a questão social, mas a questão política é sempre posta de lado em detremimento do humano.

A dupla na direção também quebra o ritmo do formalismo, experimenta muito com a imagem, desde aspecto até enquadramentos. O resultado não é tão regular, mas a proposta permite a experimentação, e ela vem longe dos momentos em que os arcos dramáticos estão mais à flor da pele. Dessa forma, o lado experimental serve até para criar intimidade, para invadir com o padrão estético que o público tanto se acostumou, ousa sem medo de errar. Enquanto isso, os personagens nos cativam com a dor da perda, com o sofrimento desesperançado, haja café com canela para reencontrar um caminho menos tortuoso.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Pan-African Cinema Today