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Lady Bird (2017 – EUA) 

Chega como um dos filmes mais badalados da corrida do Oscar, estreia na direção de uma das atrizes queridinhas do indie americano (Greta Gerwig, eternizada como Frances Ha e a musa do Mumblecore). Surpreende os mais tradicionalistas por tanto destaque para um típico coming-of-age, que se coloca como representante do início desse século, num mundo pré-smartphone.

Saiorse Ronan é Lady Bird, a garota intensa que sonha em ser artista e vive em pé de guerra com sua mãe durona (Laurie Mecalf). E ela é realmente a luz, o brilho, por sua capacidade de externar todos os anseios, inseguranças, explosividade e melancolia de uma jovem intensa, corajosa e cheia de si. Bem possível que o grande sucesso do filme esteja em sua interpretação tão capaz de causar empatia imediata.

O sucesso da estreia de Greta parece ser a sinceridade com que dirige, é possível notar algo parecido com suas interpretações, mas ela não nega que há muito de autobiográfico (além de ser a mesma cidade onde ela cresceu, ter estudado num colégio católico e ser filha de uma enfermeira), é quase a adolescência de Frances Ha, uma prequel espiritual.

Alguns diálogos de impacto, quase sempre calcados do desequilíbrio comportamental, na velocidade de mudança de humor. A garota prestes a florescer, a eclodir, por mais que tenha que magoar, passar por cima, e em outros momentos, ser tão doce. O cinema pede filmes femininos, conduzidos por mulheres, e ao preencher essa lacuna, o filme talvez esteja ocupando mais espaço do que mereceria, por outro lado, é tão raro o tema ser levado mais “a sério”, e não apenas, visto como outra comédia só para divertir. Greta traduz a idade, a seu modo, mas não o faz gratuitamente, e a simplicidade aparente é apenas a camada superficial de uma cebola que merece ser descascada e descoberta.

oplanodemaggieMaggie’s Plan (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Agora é a vez de Rebecca Miller dirigir Greta Gerwig num tipo de papel que a atriz não tem cansado de se repetir. Porque nada mais é a Francês Ha (dos filmes de Noah Baumbach), só qué dirigido por Miller que tem notória carreira de personagens com tons femininos. Mas, a baixa originalidade não para por aí porque Ethan Hawke também traz tratos marcantes do Jesse (da trilogia de Richard Linklater) e assim temos esse estranho encontro impensável.

É a velha história do homem maduro, num casamento desgastado, que se encanta pela mulher jovial. Há também a questão de egos profissionais entre o casal (Juliane Moore), mas tudo isso são apenas elementos para complicar ainda mais a vida de nossa eterna atrapalhada heroína. Miller jamais deixará a zona de conforto que criou e brinca de desenvolver e e baralhar os três personagens enquanto tenta dar novos graus de amadurecimento a cada um deles.

mistressmaericaMistress America (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A nova parceria da dupla Noah Baumbach (direção) e Greta Gerwig (atuação e roteiro) é clara continuação de Frances Ha. Não da história em si, mas do clima, do universo, e até da personagem que só ganha outro nome de batismo e alguns anos de idade. Greta, ou melhor Frances, ops, desculpe, Brooke é a mesma personagem perdida, divertida, que corre para todos os lados e não sai do lugar. Aqui ela ganha sua versão mais jovem, a aspirante a escritora Tracy (Lola Kirke), que torna Greta/Frances/Brooke em sua guru para preencher as desilusões e inseguranças de seu primeiro semestre na universidade.

Novamente Baumbach e essa geração Sundance aproveitando-se dos hipsters, sempre com humor melancólico e sequencias que flertam com catarse e só parecem inverossímeis, mas devem agradar muita gente, pelo visto. O falso humor puro que encontra na bagunça o seu modus-operandi, tal qual Brooke, tal qual Baumbahch e essa geração Sundance resolveram vender a seu público.

oultimoatoThe Humbling (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Anda meio esquecido o nome do diretor Barry Levinson, cujo auge foi nos anos 80. Al Pacino também é outro que na velhice não é nem sombra do ator do passado. Juntos nessa história que tenta ser moderna, e trazer o mundo do teatro ao cinema, baseado num livro de Philip Roth. Seu resultado é, no mínimo, equivocado.

As histórias de atores famosos em crise são costumeiras no cinema moderno, a depressão e tendências suicidas são caminhos clichês. Enquanto tenta se recuperar da fase complicada, Simon Axler (Pacino) se envolve com uma lésbica (Greta Gerwig), além de mais jovem, filha de um casal de amigos. O que deveria ajudar, graduamente eleva o caos. Inseguranças e fragilidades, a rotina da relação enquanto Axler percebe a decadência financeira, e natural necessidade de reencontrar maneiras de trabalhar. Há ainda o psiquiatra via Skype, uma forma de tentar organizar melhor as ideias da própria audiência. Tudo tão equivocado que explica bem porque os filmes de Barry Levinson passam em branco, e praticamente não são mais lançados no cinema brasileiro.

eden

Eden (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O cinema de Mia Hansen-Love sugere a comparação a um avião planador. Seus filmes sobrevoam personagens com leveza, observam num voyeurismo contemplativo. A sutileza ocupa o espaço do peso dramático, ela sempre opta pelo singelo, se permite evitar o profundo, sem que se esquive das dificuldades (a morte do pai em O Pai das Minhas Filhas, a fase problemática do protagonista neste novo filme). Hansen-Love surge como um novo expoente do cinema novo francês, mas, mesmo selecionado para o Festival de San Sebastian, seu novo trabalho se coloca apenas num segundo escalão de destaques do ano.

Baseando-se livremente na vida de seu irmão, Hansen-Love foca seu olhar na cena eletrônica francesa, que nos anos 90 começou a ganhar destaque (tendo como seu grande nome o Daft Punk). Paul (Félix de Givry) surge nessa época num duo de house-garage, e por meio de capítulos (que constituem 20 anos), o filme traça o perfil de alguém que tentou viver da música, aproximou-se do sucesso, mas não conseguiu solidificar a carreira. O filme vai da empolgação aos amores frustrados, das raves e amizades até os desprazeres provocados por excesso de drogas, as expectativas e decepções maternas. A palavra Eden remete a um “local de prazeres”, e a vida de Paul sempre foi um eden inconsequente, um sonho levado ao extremo do possível.

Do mundo underground, a visão de Hansen-Love é bela, recheada desse contemplativo que equilibra o ritmo das músicas e a “vida loca” da juventude. Com naturalidade, o filme dosa essa equação entre pura agitação e leveza, num travelling de 180º filma  a galera vibrando com o setlist de Paul, a câmera trafega lentamente, os corpos pulam ao ritmo da música, é um conjunto que só fica harmônico no filme. Há outras cenas desse tipo de beleza, a cineasta não parece interessada em ir muito além da cena musical da época, nem mergulhar nas profundezas de Paul, prefere essa posição intermediária de quem observa tudo sem julgamentos.

Filmes de Mia Hansen-Løve aqui na Toca: O Pai das Minhas Filhas | Adeus, Primeiro Amor

Frances_HaFrances Ha (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Depois do fiasco retumbante de seu filme anterior (Greenberg), o cineasta Noah Baumbach tenta fugir um pouco da cena indie americana, buscar refugio na Nouvelle Vague francesa. Na maneira de filmar temas com um quê de fugaz, juventude, Na presença constante da trilha sonora francesa, e até mesmo o preto e branco da fotografia. Em dado momento do filme, a citação a Jean-Pierre Léaud, no fundo Frances Ha (Greta Gerwig) quer ser o célebre Antoinel Doinel de Truffaut, com aquele jeito atrapalhado e o retardar do amadurecimento.

Resta saber o quanto de Greta Gerwig há em Frances Ha, a protagonista escreveu o roteiro com Baumbach, mas pode, muito bem, estar falando dela mesma. Essa nouvelle vague, à americana, para mulherzinha, guarda pouco do frescor pretendido, e sobra muito do histerismo e de uma imaturidade à la Peter Pan. Frances não quer crescer, e os a sua volta não conseguem desenvolver diálogos que possam encontrar a magia do movimento frances de décadas passadas. Os jovens continuam em festas, se embebedando para falar das aflições, se apaixonando, tentando se estabelecer profissional e pessoalmente, mas Noah Baumbach não tem a tarimba de Godard, aquela de transformar o simples no belo e inspirador.