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Double Take (2009 – BEL/HOL)

Alfred Hitchcock diz “se voce encontrar  seu duplo , deveria matá-lo”. O cineasta Johan Grimonprez aproxima, numa linha tênua alguns dos filmes do cineasta (além do óbvio Topázio, e Intriga Internacional, o principal é Os Pássaros) da Guerra Fria. Num documentário que mais parece uma tese ele coloca Hitchcock sendo preso durante o período bipolar de disputa acirrada pela hegemonia mundial. Com inúmeras imagens de arquivo entre comerciais e programas de TV com o Mestre do Suspense, e telejornais e debates envolvendo os presidentes dos EUA e URSS, o filme brinca com personagens e situações (como nos comerciais de uma marca de café em que homens são ofensivos com o café ruim feito pelas esposas).

EUA e URSS não seria o duplo do outro e portanto deveriam tentar anular o outro? Entre Kennedy, Nixon, Khrushchev, e Fidel Castro, até figuras mais atuais como Putin e Bush filho, o resgate da corrida espacial e a crise dos mísseis em Cuba são refletidas nos filmes e na figura de Hitchcock, criando-se uma intrigante visão sobre a época e sobre parte da obra de Hitchcock, tudo isso partindo de um fictício encontro imaginado por Jorge Luis Borges entre Hitckcock real e seu duplo no set de filmagem de Os Pássaros. E a tv não sai ilesa dessa história, com novas críticas de que ela mataria o cinema ou estaria pasteurizando o gosto do público, Grimonprez segue o tom do humor negro e nada ingênuo das aparições de Hitchcock, e coloca em debate novamente a disputa desenfreada que dividiu o mundo.

Tinker, Tailor, Soldier, Spy (2011 – ING)

Pelas mãos do cineasta Tomas Alfredson nasce um filme elegante sobre espionagem na Guerra Fria. Não que os britânicos fossem neutros no jogo de guerra velada entre capitalismo americano e comunismo soviético, mas eles eram um terceiro, que até flertavam com um lado, mesmo estando sempre mais propensos a outro. Nessa perspectivas de inexistencia (estrutural) de vilões, se desenvolve nova adaptação do livro escrito por John Le Carré (em 1979 fora uma mini-série da tv com Alec Guinness no elenco).

Primeira palavra a vir a mente é timing, Alfredson o estabelece e imprime em cada um dos fotogramas, há unidade, um compasso que segue sereno, harmonico. E o timing se estabelece também com a figura central da trama, o agente aposentado (Gary Oldman) após uma missão fracassada na Hungria, e que volta à tona para investigar e descobrir quem é o espião duplo entre a mais alta cupula da Inteligência Britânica.

 É bem verdade que falta ao roteiro um desenvolvimento dos personagens (principalmente dos suspeitos), são apenas tipos britânicos que desconfiamos e aguardamos descobrir qual deles é o vilão, sem que tenhamos perfis psicológicos, ou interesses mais explícitos (as subtramas até se encaixam no desfecho, ainda assim pouco relevantes). O filme é todo de Alfredson (sua escolha pelo mínimo de detalhes, oferecendo maior nuance aos atores, e isso não falta a Gary Oldman), destacando-se o virtuosismo que ele evoca ao todo, um desfilar sobre nossos olhos de maestria (por exemplo, numa cena, a câmera foca a nuca de Smiley, ele vira o rosto levemente, e só no movimento das sobrancelhas percebemos o ar de decepção).

 Momentos de tensão, de dúvida, sempre num tom calmo e sereno, em tons cinza e nebulosos. E a promiscuidade das relações , colocadas sempre de forma sutil, é daqueles filmes em que “o como” vale muito mais que o “o que”, engenhoso na trama e na forma de se contar, Alfredson se estabelece como um cineasta que merece todas as atenções. E aquele desfecho então, a canção francesa, os personagens em suas novas perspectivas, nenhuma fala, um charme.