Posts com Tag ‘Guillaume Canet’

Double Vies / Non-Fiction (2018 – FRA) 

As mutações do mercado literária frente o crescente avanço do digital. Olivier Assayas traz o debate ao cinema através das figuras centrais que protagonizam seu novo filme. O editor (Guillaume Canet) que tem dúvida quanto a modernidade editorial de abandonar livros e viver de e-books e áudiolivros, de perder a figura do critico em detrimento de algoritmos e robôs que indicam o que os leitores devem apreciar. A trama não cansa (o público talvez um pouco) em trazer a discussão à tona em casa, no escritório, em paletras, ou na cama com a amante. Em alguns momentos o discurso soa gasto, meio ultrapassado, em outros mais vívido e interessante frente a realidade que bate à porta dessa indústria cultural.

De outro lado há o autor (Vincent Macaigne), que só consegue escrever autoficção (ou seus relacionamentso amorosos com alguma licença poética). É ele quem traz o tem que vai se tornando central na segunda parte do filme, essa questão do desgaste dos casamentos, da infidelidade, do amor por mais que haja traição. Enfim, as vidas duplas do título. Nesse ponto a trama cai em mais estereótipos de como o mundo vê os franceses, além de tecer uma frágil convicção de que a monogamia está fradada ao completo fracasso e que os adultos são maduros o bastante para tais tipos de relacionamentos.

Assayas tenta intricar um pouco isso tudo, traz doses de humor mordaz (mas pouco usual), e desequilibra ainda mais com outros temas e complexidades: como Juliette Binoche como a atriz de teatro fazendo sucesso em uma série qualquer de tv. A vida e os caminhos econômicos da literatura são ainda mais complexos do que tudo isso.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

Rock’n Roll (2017 – FRA) 

A crise masculina dos 40 anos, Guillaume Canet optou pelo bom-humor, abriu as portas de sua vida, e entregou essa comédia de ficção, mas tão autobiográfica. Estão lá sua esposa Marion Cotillard, um garoto representando o filho deles, amigos, colegas de trabalho, e a vida deles entre filmagens, fazer a janta, e pegar o filho na escola. O cinema levado para dentro da vida real deles, difícil distinguir o quanto de piada interna, o quanto de invenção e o quanto de verdade há naquele retrato de relacionamento. Pouco importa, os personagens que eles criam, para eles mesmos, refletem tantas semelhanças com qualquer outro casal, e esse bom-humor em retratar a crise de um galã vendo seu trono ruir (ou sua posição na lista de desejados pelas mulheres despencar.

Na segunda metade, o filme perde do humor mais natural, a trama traça um caminho mais ficcional do personagem e Canet não sabe trabalhar tão bem, ainda assim há reflexões interessantes dentro daquele humor ingênuo, de um personagem ingênuo, dentro dessa dificuldade masculina em perceber que aquele tempo já passou e o momento é de descobrir as coisas boas de um novo ciclo. Rock’n Roll é sobre Canet, é sobre ser casado com Marion, e, principalmente, sobre lidar com as mudanças físicas e comportamentais que o tempo impõe sobre todos nós.

ohomemqueelasamavamdemaisL’Homme que’on Aimait Trop (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo elegante drama de André Téchiné é baseado numa polêmica que balançoou a França há poucos anos. Revive uma história ocorrida há 30 anos, envolvendo uma dona de cassino na Riviera Francesa, sua filha e um advogado conselheiro da família. Téchiné realiza uma adaptação livre de Une Feem Face à la Mafia, escrito por Jean-Charles e Renée Le Roux. Estranhamente o cineasta tenta esconder a fase atual da história, focando quase toda a duração de seu filme em possíveis fatos que formaram a relação entre as mulheres da família Le Roux e o advogado.

Os personagens são criados de forma rica, a matriarca poderosa e astuta para os negócios. O advogado manipulador, conquistador e interesseiro. A jovem, reçem-divorciada, romântica e carente, que pouco interesse tem com os assuntos financeiros da família. Téchiné e seu costumeiro requinte, repetindo o piloto automático de seus trabalhos anteriores, confirma (o que nem necessário era) sua capacidade de exímio narrador, mas ainda tento entender porque um filme tão francês guarda segredo do paradeiro de seus personagens, para ser encerrado de forma tão acelerada e abrupta, como um filme de tribunal. Os créditos finais revelando os últimos fatos, tudo tão corrido, apressado, enquanto Téchiné calmamente desenhava as relações políticas entre cassinos e máfia, ou a doçura da paixão que a frágil mulher deixara se entregar por completo.

Ano chegando ao fim, hora de eleger os preferidos. A primeira lista é composta com filmes (vistos em 2013) que não estreiaram no circuito nacional, e nem estão programados (segundo o FilmeB). Só valem filmes produzidos entre 2011-2013.

Felizmente, o circuito brasileiro anda cada vez melhor, a oferta de bons filmes melhorando com novas distribuidoras. Mas, ainda assim, esses filmes fizeram falta nos nossos cinemas em 2013. Documentários surpreendentes, diretores bem conhecidos em filmes pequenos, e até outros com grandes astros que acabaram preteridos pelas distribuidoras.

top 10 2013 off Circuito

Blood_TiesBlood Ties (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em 2008, Guillaume Canet foi um dos protagonistas do thriller policial frances Les Liens du Sang. Agora, pela primeira vez dirigindo nos EUA, ele decidiu por um remake, dessa vez ficando atrás das câmeras. Seu filme resgasta o Brooklyn nova-yorquino dos anos 70, e Canet teve ajuda de James Gray no roteiro (um de seus filmes tem temas bem semelhantes).

Os carrões, as roupas estilosas, e uma familia em pé de guerra pelos irmãos em lados opostos da lei. Fank (Billy Crudup) é policial, e Chris (Clive Owen) saindo da penitenciárias após alguns anos de cana. Por mais que boa parte do início seja sobre adaptação, após a prisão, como emprego e manter-se longe do crime, o foco é mesmo a explosiva relação familiar. Pai (james Caan), irmã (Lili Taylor) e os dois irmãos, perdão,orgulho e união.

Chris tem sua vida antes da cadeia, filhos e a ex-esposa (Marion Cotilard) e a nova namorada, Natalie (Mila Kunis). Frank também tem seus problemas amorosos com Vanessa (Zoe Saldana) e outro delinquente com quem ela vive (Matthias Schonaerts). O jantar de Ação de Graças que vira uma guerra interna, o Natal com a polícia à procura de Chris, parece que não há paz naquela família, que o passado e presente formam uma dissociação imutável.

Muitos críticos reclamam que o filme é lento, demora a engrenar. Trata-se dessa carga dramática, do peso dos atos, do passado, e remorso. Esses sentimentos movem os personagens, essa lenga-lenga é a chave para a fase final e o final apoteótico. Canet filma de forma vibrante. Tiroteios, brigas, a reconstituição flamejante da década. E, perto do fim, quando os personagens mostram seus sentimentos derradeiros, é que essa carga dramática se mostra mais que justificável, e a sequencia final ainda mais representativa.

APraiaThe Beach (2000 – ING/EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Danny Boyle e Leonardo DiCaprio vão em busca da alma mochileira, a coisa da aventura acima de tudo, desbravar o desconhecido, o que seus conhecidos nunca visitaram. Não deixa de ser um lado dos que se aventuram com uma mochila na costa e um destino mal traçado. As novas amizades, as bebedeiras com aqueles que desconhecidas passam a melhor amigo.

Só que as extravagâncias faziam parte do livro adaptado por Boyle, e de jovens viajantes, o filme vai parar numa comunidade isolada do mundo. Nada contra a proposta, mas não, as questões não são bem tratadas, as relações pouco fundamentadas, e A Praia quer ser tudo, menos aquilo que se propunha a ser. Um thriller com tubarões, um thriller contra traficantes cultivadores de maconha, uma descoberta existencialista, o amor arrebatador. Temas demais, loucura demais, filme de menos.

Les Petits Mouchoirs (2010 – FRA)

O grande mérito do filme dirigido por Guillaume Canet é tecer essa rede de amizades, e relações entre os personagens ou o mundo fora desse grupo de amigos, e deixar o público envolvido com cada um dos tramas pessoais. Algo como sentir-se um observador dentro daquela viagem de férias onde o grupo de amigos aproveita a praia, passeia de barco, mas briga entre si e o desgaste torna-se óbvio (por mais que haja intimidade, e alegria de se estar juntos.

Canet consegue essa façanha de nos envolver, de traçar um grau de intimidade que em pouco mais de duas horas já nos sentimos tão próximos que temos vontade de dar pitacos, de sugerir e se intrometer na vida de cada um. Enquanto isso um dos amigos desse grupo está no hospital, sofreu um acidente na primeira cena (num longo plano-sequencia frenético), eles carregam o peso da preocupação, mas se contentam em deixar que a situação do amigo (Jean Dujardin) melhore em breve.

Mas as pessoas não são assim mesmo, não contam pequenas mentiras até aos mais próximos porque é mais fácil lidar dessa forma com tudo? O filme descamba ao sentimentalismo, ao romance exacerbado, ao drama barato, ainda assim pode emocionar grande parte do público, afinal, estamos presos a essa teia, a esse bando de franceses chiques que não perdem a classe na praia, mas perdem a compostura na frente de qualquer um.