Caminhos Perigosos

caminhosperigososMean Streets (1973 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

E assim surgia a faceta de Martin Scorsese que mais conheceríamos, o cineasta da máfia, das gangues de Nova York. Conhecia Little Italy como ninguém, foi lá que Scorsese cresceu, e foi sob suas lembranças que ele criou o filme que impulsionou seu nome à indústria do cinema. Repleto de malandos, deboches, violência, pequenos golpes. Religião, família, os pilares da sociedade são os grandes dilemas vividos pelo mafioso Charlie (Harvey Keitel). Namoro escondido, as visitas à Igreja, e o trabalho como coletor para o tio (chefão da máfia).

Foi a primeira parceria de Robert De Niro e Scorsese, ele faz o garoto problema que atrapalha ainda mais a vida de Charlie, mas a alma do filme é Keitel e a vida noturna de Little Italy. Os letreiros luminosos, cigarros, ternos, cédulas de dólares amassadas, e a urgência com que Scorsese explora a vida notuna. São morcegos elegantes, sanguessugas desequilibrados, que ainda carregam os pilares aprendidos dos antepassados italianos. O roteiro leva os personagens pelos tais “caminhos perigosos”, Scorsese dá sinais de um estilo vibrantes prestes a nascer, personagens tortuosos, brigas marginais, cortes bruscos entre planos-sequencias vivos e closes rápidos. E o humor escroto de quem está prestes a sacar sua arma e disparar no primeiro engraçadinho que cruzar à sua frente.

A Juventude

youthYouth (2015 – ITA/FRA/SUI/RU) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Os últimos filmes de Paolo Sorrentino tem clara predileção pela terceira idade. O escritor de A Grande Beleza (que lhe rendeu o Oscar de Filme Estrangeiro), o roqueiro de Aqui é o Meu Lugar, até mesmo o político de Il Divo, estão todos passando pela crise da velhice. A diferença crucial entre estes filmes é a abordagem do cineasta italiano, que a cada vez flerta com o abstrato, o subjetivo. Isso, sem falar em quão pedantes eles se tornam.

Um hotel luxuoso abriga uma série de celebridades, em férias, que tentam se afastar dos holofotes da mídia. Atores e cineastas, músicos, jogadores de futebol, até a Miss Universo se hospeda ali. Os personagens que serão desenvolvidos orbitam a vida do regente Fred Ballinger (Michael Caine). Entre diálogos repletos de “experiências de vida” e imagens superlativas que provocam o contraste entre velhice e juventude, Sorrentino tenta estabelecer a melancolia da idade avançada, enquanto os jovens sofrem por outros tipos de mazelas e arrogâncias.

São tantas imagens plasticamente bonitas, tantas alucinações metafóricas, aliadas os discursos sobre passado ou bom-senso, é tanto que Sorrentino busca poetizar seus fotogramas, que a arrogância de discurso de seu cinema vai chegando a proporções em que ignorá-lo seja o melhor caminho. Parte do público poderá encontrar identificação, mas de modo geral Sorrentino coloca seus filmes num pedestal inalcançável como se assisti-los fosse uma experiência transcendental de clareza da vida.

Rio Eu Te Amo

rioeuteamoRio, Eu Te amo / Rio, I Love You (2014 – BRA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A versão para a Cidade Maravilhosa, da série Cities of Love, é um desserviço ao Rio de Janeiro e ao cinema nacional. Nenhum dos 10 curtas consegue, nem de forma ligeira, condensar qualquer traço do charme, beleza e encanto da cidade. Se o modelo de filme-coletivo sofre pela irregularidade, dessa vez, este se torna o menor dos problemas.

Primeiro que a cidade é colocada em segundo plano. Alguns dos curtas nem conseguem se identificar com a cidade, os demais praticamente tornam os cartões-postais em clichês hediondos. As visões são as mais simplistas possíveis, os roteiros almejam o natural, quando apenas encontram uma artificialidade de finais que desejavam representar grandes sacadas. Começa com Andrucha Waddington e a história do neto que encontra sua avó (Fernanda Montenegro) vivendo como mendiga, por opção.

Paolo Sorrentino vai ao limite dos clichês com a jovem ricaça (Emily Mortimer) e seu marido idoso, doente e podre de rico, que passam férias na cidade. Fernando Meirelles e Cesar Charlone não conseguem imprimir ritmo à história do escultor (Vincent Cassel) de areia que se apaixona por uma jovem, o curta não passa de uma ideia de trama.

Constrangedora é a história dirigida por Stephan Elliot, um astro do cinema (Ryan Kwanten) decide escalar o Pão de Açúcar, do nada, com a roupa do corpo, e carrega seu guia (Marcelo Serrado) nessa aventura pelo amor inesperado. Totalmente insosso, e que nada mostra além de dois takes do mar, é o curta dirigido por John Turturro, sobre um casal (ele e Vanessa Paradis) em tom de despedida. Guillermo Arriaga retoma parte do clima de Amores Brutos, troca a briga de cães por lutas clandestinas e desce fundo no poço das propostas indecentes (que só devem existir na cabeça de cineastas mesmo).

O morro do Vidigal é tomado por vampiros na visão de Im Sang-soo, com direito a samba, garçom estiloso e prostituta mulata. Carlos Saldanha até consegue um aspecto visual interessante na apresentação do casal de bailarinos (Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer), mas o drama do casal e suas discussões durante a apresentação são de um melodrama que pouco acrescenta ao clima de amor à cidade. Wagner Moura é o instrutor de asa-delta frustrado que xinga o Cristo Redentor durante um voo, sabe-se lá as intenções de José Padilha, além de trazer seus temas críticos da cidade à tona.

Mesmo carregado de clichês, a simpatia da história criada por Nadine Labaki é a que mais se aproxima do que se esperava deste projeto. Um garoto de rua, gringos (ela e Harvey Keitel) encantados por seu jeito cativante, se passam por Jesus para realizar suas fantasias. E a cereja estragada do bolo são as transições, que ganharam vida própria, personagens próprios, e direção de Vicente Amorim. Primam pela artificialidade, e mais embaralham do que funcionam como conexão para os curtas. Além de intensificarem o padrão visual do filme que trafega entre um Globo Filmes e uma campanha publicitária de tv (aliás, marcas de patrocinadores quase se tornaram protagonistas das transições).

O Congresso Futurista

ocongressofuturistaLe Congrès / The Congress (2013 – ISR/BEL/FRA/EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O cineasta israelense Ari Folman continua aproveitando de formatos pouco explorados, a seu favor. Da mistura de animação com falso documentário, no ótimo Valsa de Bashir, agora em sua livre adaptação do livro de Stanislaw Lem, num misto de live-action com animação adulta, e uma corrosiva crítica a Hollywood e ao culto do estrelato.

Robin Wright é uma das produtoras do filme, e ela expõe sua própria vida e carreira em favor de sua personagem. Interpreta a si própria, uma atriz de mais de quarenta anos, que foi promessa de talento e se escondeu atrás de seus fracassos. Surge a proposta de abandonar a carreira, em troca uma fortuna, ela seria escaneada e o estúdio aproveitaria sua imagem para o tipo de filmes que quisesse. Vinte anos mais tarde um Congresso, pílulas que transformam todos em animações e levados a um lugar onírico (onde Michael Jackson é garçom, por exemplo).

A crítica duríssima de Folman, na fase live-action, com Robin Wright representando mais que si mesma, e sim a imensa maioria da classe artítistca que fracassa em suas escolhas, ou na necessidade de gerar sua imagem, acaba dissipada por um universo de fantasia excêntrica regada a alucinações coletivas. O ácido parece emanar das animações, e desestabilizar a proposta ácida e corajosamente corrosiva que Folman e Wright se dispunham a compactuar..

Vício Frenético

viciofreneticoBad Lietenaunt (1992 – EUA)

Harvey Keitel é o policial corrupto alucinado por seus vícios. Frenético, inquieto, ele vive no submundo de Nova York, em busca de drogas, de um dinheiro fácil tomado de marginais, da obsessão pelas apostas em jogos de baseball. Abel Ferrara traz a tona essa figura pertubadora, execrável, completamente perdida.

Longas cenas viscerais onde a insuação a sexo e consumo de drogas se dividem ao ritmo maluco com que esse policial leva seu dia. O estupro de um freira, a busca insana por dinheiro para cobrir suas dívidas, Ferrara e Keitel deixam transpirar o odor fétido dessa Nova York infernal, levantam a questão humana motivada por seus interesses e principios éticos duvidosos.

COTAÇÃO: estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Cães de Aluguel

caesdealuguelReservoir Dogs (1992 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Numa manhã qualquer, um bando de homens engravatados (com cara de mafiosos) tomam tranquilamente um café da manha, discutem sobre a música da Madona, brigam por causa de uma gorjeta, tudo parece calmo. Quentin Tarantino acompanha aquela mesa-redonda matinal com uma câmera espreita, eram os primeiros passos de um cineasta que chegara para imprimir seu ritmo e causar frisson, reinventar a união do pop e do cinema autoral.

De um assalto “frustrado” a uma joalheria, e uma diversidade de flashbacks, somos apresentados a cada um daqueles figurões do crime. A narrativa é cuidadosa em traçar seus perfis, nos deliciando com humor áspero permeado pelo vermelho sangue que anda espalhado pelos poucos cenários. Dentro de suas excentricidades, cada personagem é charmosamente estudado, e Tarantino ousa nos fazer apaixonar por cada um daqueles brutamontes cruéis e fascinantes, num filme simples, direto e assumidamente cool que encontra a perfeição da violência gráfica e os primeiros passos desse cineasta cheio de tendências e paixões que fariam de Cães de Aluguel um clássico cult imediato.

Pulp Fiction – Tempo de Violência

pulp-fictionPulp Fiction (1994 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

“Não odeia isso? O quê? Os silêncios que incomodam. Por que temos que falar de idiotices para nos sentirmos bem? Não sei. É uma boa pergunta. É assim que sabe que encontrou alguém especial. Quando pode calar a boca um minuto e sentir-se à vontade em silêncio.” A seqüência é longa, mas do detalhe do milk shake até a caminhada ao banheiro, há um quê de genial em cada detalhe. A câmera pegando os atores em perfil, o jogo de plano contra-plano, os cortes entre um Vincent (John Travolta) incomodado, e Mia (Uma Thurman) com olhar penetrante, a música compassada ao ritmo do diálogo, o ambiente anos 50, o tom de voz, o uso do canudo, tudo. Quentin Tarantino me ganhou, aliás, já havia me ganhado momentos antes, na primeira aparição de Mia, ou melhor, apenas seus lábios vermelhos ao microfone.

A esta altura do campeonato, falar de Pulp Fiction é chegar atrasado na festa, quando já comeram os brigadeiros. Tarantino teceu uma fascinante homenagem a literatura Pulp, criou um filme cult, inaugurou um estilo próprio e pop. Agradou q a quase todos Gregos e Troianos, ganhou da Palma de Ouro a um público cativo. Tudo isso com essa violência sanguinária, com a forte influência do Exploitation, e com essa pega tarantinesca de humor e fascínio. São inúmeras cenas inesquecíveis, que mereceriam ser detalhadas, revistas. o diálogo pré-assalto de Tim Roth, os dois gangsteres com paletós ensanguentados, os acontecimentos na loja de som, toda as sequencias com Harvey Keitel.

O sangue e a violência estão por toda a parte, a narrativa, com cronologia bagunçada é somente mais uma peça chave desse quebra-cabeças. Referências espalhada por todos os frames (espada, moto, twist), é a maneira como Tarantino orquestra tudo que gera o fascínio. Violência romântica, quase deliramos com um apertar de gatilho, o sangue jorrando, o humor sarcástico dos assassinos. Num filme sem mocinhos, os bandidos ficam mais fascinantes. Pulp Fiction é puro deleite, e delírio, cinéfilo.