Posts com Tag ‘Henri Langlois’

IMG_2233A idéia é simples: conhecer todas as cinematecas do mundo. Prazo para cumprir esse plano? A vida toda. Nas próximas semanas posts de algumas que já tive oportunidade de visitar, e a promessa de a cada viagem incluir no roteiro os cantinhos de cinema mais queridos desse planeta. As cinematecas são locais de conservação e preservação de negativos, são bibliotecas do audivisual, além de desempenharem um papel muito importante da difusão de filmes novos e clássicos, resgatando filmografias e oferecendo mostras especiais. São o paraíso de qualquer cinéfilo!

De toda as Cinematecas do mundo, a de Paris é a mais famosa e festejada, por isso os posts começam por ela. Seja por sua importância política nos movimentos de 1968, pela militância cinematográfica dos grandes nomes da Nouvelle Vague, ou por sua estrutura de fazer inveja, La Cinémathèque Française é sempre a primeira lembrança quando se fala em cinemateca.

Hoje o diretor da Cinemateca Francesa é o diretor de cinema Costa-Gavras.

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Foi a primeira fundada no mundo (por Henri Langlois e Georges Franju em 1935), e em 1951 encontrou seu esndereço definitivo no 12th arrondissement de Paris (próximo ao metrô, mas longe do burburinho da região da Torre Eiffel ou da Champs-Elysées). Bem a sua frente um jardim homenageando Yitzhak Rabin. Lá dentro um café delicioso (e sempre movimentado por jovens discutindo cinema e artes), além de 3 salas de cinema (se não me falha a memória) com a mais variada programação de retrospectivas e mostras especiais. Além da costumeira loja de dvds (onde não resisti e voltei com um pequeno box do Wong Kar-Wai), livros e outros artigos do gênero.

 

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O local é exuberante, em especial o museu contando a história do cinema, principalmente pelos figurinos de grandes filmes que estão em exposição. Uma passada rápida traz uma sensação estranha de estar desperdiçando possibilidade de aproveitar tudo com mais tempo, saborear os detalhes. Se cinematecas são o paraíso, a de Paris é o Jardim do Éden das cinematecas do mundo.

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Estive lá em Fevereiro de 2013, mas foi uma passada bem rápido já que queria conhecer o máximo de Paris possível. E a Cinemateca é lugar para se frequentar diariamente, daqueles que deveriam ser lugares cativos mais frequentados que a sala da sua casa. Entre os filmes exibidos à época estavam retrospectivas de Maurice Pialat e Robert Guédiguian, além de clássicos do cinema americano. Ler o livreto com a programação já dá uma sensação de desconsolo por não poder aproveitar tudo aquilo. Mas fica a lembrança daquele local que mistura o simples da decoração com o sofisticado de cada canto que transpira cinema.

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beijosproibidosBaisers Volés / Stolen Kisses (1968 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Agora oito, talvez dez anos mais velho, o garoto incompreendido Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) cresceu, e tornou-se um zero à esquerda no sentido sarcástico da expressão. Por motivos pessoais alistou-se no exército (detalhes são desnecessários), e após três anos foi expulso por incapacidade (chispa). Uma amostra da completa inaptidão deste jovem para qualquer atividade que seja. Sem emprego, Doinel encontra auxílio na acolhedora família Darbon, e seus interesses vão além, já que há tempos sente imenso amor pela filha do casal, Christine (Claude Jade).

“Mesmo quando eu te amava, não te admirava”, seria assim que Doinel pretendia conquistar o coração da doce Christine? Talvez não fosse o caminho mais fácil, porém é dessa maneira que a juventude iça suas relações, o desprezo mesmo involuntário é arma eficiente nos assuntos do amor. Pesa também a inexperiência, exemplo maior é a cena em que Doinel corre desesperadamente após sair do exército. O destino é um hotel fuleiro onde algumas prostitutas batem ponto. A testosterona a mil, a porta do quarto se fecha e ele tenta em vão lascar um beijo, imaginava que naquela relação haveria algo além da satisfação física.

O viço da juventude é notado em cada fotograma, o cineasta François Truffaut faz questão de situar o filme dentro do mundo de seu personagem central. Abordando o lado mais romântico da juventude, os aspectos que defrontam o amor, a descoberta do sexo, e a maneira singular com que esses jovens lidam com estes assuntos. A atração de garotos por belas e experientes mulheres e a fascinação que homens adultos sentem por lolitas. Truffaut manipula o desajeitado Doinel para aglutinar com inteligência dissonante todas essas abordagens.

Jean-Pierre Léaud é personificação do atrapalhado Doinel, o roteiro quis que ele acabasse trabalhando numa agência de detetives, palco magistral para o corrente e deleitável humor. Enquanto somos tragados pelas estripulias do rapazote, Truffaut busca consistência em suas abordagens com a leveza que só ele sabe guiar. Beijos Proibidos não é o segundo capítulo da saga de Antoine Doinel por acaso, em dois momentos o título literalmente entra na história (um deles já citado) e em ambos é a juventude o maior obstáculo para se atingir objetivos. Truffaut também não perde a militância, abre seu filme homenageando Henri Langlois com a câmera apontando para a Cinemateca Francesa trancada com correntes, espaço fundamental para formação do próprio cineasta e grande merecedora dessa incontestável lembrança.