Posts com Tag ‘Hirokazu Kore-eda’

Manbiki Kazoku / Shoplifters (2018 – JAP) 

Não são poucos os filmes de Hirokazu Kore-eda com crianças. O cineasta japonês, em boa parte de sua filmografia, deu foco a personagens dóceis e cativantes, ora em quase aventuras dramáticas, ora em dramas destruidores (Ninguém Pode Saber). Dessa vez, ele dá um passo além, não só por ter ganho a Palma de Ouro, mas por complicar a trama com ousadia, sem sair de seu ritmo cinematográfico.

Um garotinha é encontrada quase congelando nas ruas, e acaba “agregada” por uma família meio torta que vive de bicos e pequenos assaltos a supermercados para sobrevivência. Homem, mulher, avó, filhos, a relação familiar não é exatamente essa, mas a posição dentro daquela casa (provalvemente invadida) é essa. São personagens totalmente à margem da sociedade japonesa, que o filme facilmente prova que mesmo “péssimos exemplos” para a sociedade, se tornam amáveis e um lar bem mais indicado do que a casa de classe media cheia de violência em que a garota morava.

Kore-eda nos faz mergulhar por entre as contradições e inseguranças desses personagens, pela moralidade de seus atos e sentimentos, e o quanto a sociedade hipócrita, mas que mantenha seus segredos e defeitos trancafiados, é de fácil aceitação, do que essas imperfeições dos que vivem além dos padrões e etiquetas sociais. No seu filme mais corajoso, Kore-eda nos coloca em tilt, sem sair do tom de cenas melosas, ou até melodramáticas, mas que oferecem a reflexão sobre as convenções e o quanto julgamos pela aparência e não pelo que de fato é importante notar.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Palma de Ouro

depoisdatempestadeAfter the Storm (2016 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A cozinha da casa das avós, quase sempre, é o principal ponto de encontro familiar. Local onde as confidências e questionamentos, mais contundentes (ou meras futricas), são elencados, enquanto se cozinha, ou se come uma fruta. O ambiente trivial se mostra convidativo, uma intimidade automática. A cada novo filme, Hirokazu Kore-eda tenta desenvolver novos aspectos de dramas familiares bem genuínos e presentes na cultura japonesa. Seu último filme, apresentado na Un Certain Regard, tem como figura central o atrapalhado Ryota (Abe Hiroshi). Atrapalhado por ser um escritor decadente, um pai pouco presente após o divórcio, e de tão viciado em jogos de azar, trabalha como detetive particular e não consegue pagar a pensão. Talvez, o mais sólido que ele carrega é o amor por sua ex-esposa.

Inicialmente, Kore-eda parecia interessado em desenvolver e investigar esse personagem peculiar. A relação “aproveitadora” com a mãe, a relação ultradependente com o parceiro do trabalho, um adulto ainda imaturo. Com sua narrativa acalentadora e simplista, sempre focada em sua capacidade de abraçar seu público, mesmo que desengonçada em alguns momentos, o cineasta japonês prepara o terreno para o tufão que obriga esses personagens a permanecerem juntos, num mesmo local. São quinze, talvez vinte minutos de possibilidades de proximidade pai-filho, ex-marido e esposa, nora e sogra, relações estas que desconhecemos o passado, porém trazem o peso da atmosfera e do momento de cada um: carência, arrependimento, desesperança e amor. O que fica depois da tempestade, o filme responderá a seu modo.

nossairmamaisnovaUmimachi Diary (2015 – JAP) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Quem acompanha a carreira de Hirokazu Kore-eda já sabe o que esperar de seus filmes. Melodramas adocicados e sensíveis, sempre com cunho familiar (como Ninguém Pode Saber, Pais e Filhos, O que Eu Mais Desejo, Hana), ou acrescento a relação das memórias (Depois da Vida, Tão Distante) com a vida das pessoas. Habitué da competição principal de Cannes, o cineasta virou sinônimo desse cinema moderno japonês que tanto lembra os filmes de Ozu.

Na trama, o pai de três irmãs adultas morre, e elas descobrem uma irmã mais jovem (que já perdeu a mãe), que acaba se mudando para morar com as irmãs. E o filme é isso, as recordações familiares, o dia-a-dia de convívio entre elas, seus problemas e angústias. Além, é claro, dessa possibilidade de integração com a irmã mais jovem, a adaptação. Como nos demais filmes, é tudo singelo, muito gracioso, e bem repetitivo dentro de sua filmografia. Kore-eda chegou num ponto em que é difícil desagradar, mas já não consegue emocionar como em seu grande filme (Ninguém Pode Saber).

paisefilhosSoshite chichi ni naru / Like Father, Like Son (2013 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Definitivamente, Hirokazu Kore-eda se coloca como um contador de histórias, especialista em crianças. São sempre temas delicados, narrados de forma terna e envolvente, com diversos momentos lacrimosos cuja presença de lenços para amparar seu público se faz necessária. A verdade é que você já sabe o que esperar quando entra numa sessão de seus trabalhos, essa constância na abordagem, amarra seus filmes a poucas possibilidades, mas cria um público cativo.

Like Father Like Son film stillEstamos diante de uma história de troca de bebes na maternidade. O foco central é sob o pai de uma dessas crianças, o sujeito bem sucedido, pouco carinhoso, e sem tempo para a família. A história está sempre “privilegiando” o seu lado, a forma como ele se relaciona com os fatos, seja de forma doce, até momentos mais cruéis. Kore-eda prova que não há solução definitiva para o tema, trocar as crianças ou deixar como era, nunca é uma decisão fácil, e acima de tudo, impossível de evitar sequelas, feridas e a necessidade de se envolver amplamente com tal situação.

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Dia de confusão em Cannes, ladrões roubando joias que seriam emprestadas a algumas atrizes para o festival. Polícia prendendo pessoas que dispararam armas com balas de festim durante a gravação de um programa de tv que contava com a participação de Christopher Waltz e Daniel Auteuil. A coisa foi agitada na noite de ontem.

Os irmãos Bob e Harvey Weinstein divulgaram hoje filmes que serão lançados ao longo do ano, Nicole Kidman interpretando Grace Kelly em Grace of Monaco, The Butler sobre um mordomo de muitos anos da Casa Branca com Oprah Winfrey e Forrest Whitaker, e August: Osage County com Julia Roberts e Meryl Streep. Com o poder que os Weinstein tem, um deles deve estar na lista dos oscarizáveis.

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LIKE FATHER, LIKE SON

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Hirokazu Kore-eda despontou no cinema abordando a morte como tema central, e há alguns anos que as crianças se tornaram seu tema favorito. E são elas novamente que o fizeram emocionar parte do público com esse drama sobre bebes trocados na maternidade.

Críticas: The Telegraph – El País – Cine-Vue

Termômetro: de olho

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JIMMY P.

jimmypJá o primeiro trabalho de Arnaud Desplechin desagradou bastante. Com Benicio del Toro e Mathieu Amalric, o filme trata da relação entre um índio que volta da II Guerra Mundial com problemas de saúde e um antropólogo frances que realiza com ele algumas sessões de psicoanálise. Teatro filmado.

Críticas: Otros Cines – HitFixThe Guardian

Termômetro: pé atrás

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L’INCONNU DU LAC | STRANGER BY THE LAKE

l-inconnu-du-lacE no boca a boca da crítica o grande destaque é o filme do frances Alain Guiraudie, presente na mostra Un Certain Regard. Um thriller incomum, homens à procura de homens à beira de um lago, poucos personagens e locações, um crime, relacionar-se com um assassino.

Críticas: Revista ContinenteHitFixScreen Daily

Termômetro: quero ver

oqueeumaisdesejoKiseki (2011 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Hirokazu Kore-eda volta a trabalhar com crianças e demonstrar sua sensibilidade em tratar de temas ligados aos pequenos. Dois irmãos separados pelo divórcio dos pais formam o elo de ligação entre dois grupos de crianças. A vontade de voltar a viverem juntos, mobiliza os amigos numa expedição de trem, onde, diz a “lenda,” no encontro de dois trens bala, se poderia pedir um pedido que acabaria realizado.

Kore-eda não fica focado apenas nos irmãos, o filme é basicamente sobre crianças, seu dia-a-dia, sonhos e a forma de se relacionar. Estamos falando de fofura, de esperança, de traquinagens. Fácil entender porque encanta a tantos (crianças doces serão sempre encantadoras), por mais que não passe de uma fórmula leve e simples de tratar temas tão debatidos, sua beleza está na própria simplicidade que não o deixa galgar voos maiores.

Hana

Publicado: novembro 13, 2007 em Cinema, Mostra SP
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hanaHana Yori mo Naho (2006 – JAP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um samurai que precisa honrar a morte do pai, a obrigação social da vingança. Mas, a vocação da espada não lhe pertence, aliás nem essa sede de vingança. Vivendo num pequeno vilarejo, ele passa o tempo entre cortejar (timidamente) uma viúva, e dar aulas de matemática, redação e etc, para as crianças da região. A sua volta, uma comunidade de perdedores, pessoas vivendo do lixo ou ganhando ninharias pelas fezes que defecam.

Fico pensando onde estava a cabeça de Hirokazu Kore-eda para levar, às telas, essa comédia sem eira nem beira. Cheia de personagens tão tolos, que fica impossível imaginar todos juntos, vivendo numa mesma comunidade. E o filme segue manco até seu final, não se decidindo por nada, não nos levando a nada. Tudo bem que a sacada final é genial, e a sátira, aos samurais, termina por soar bem empregada (mas nada que redima seu fraco desenvolvimento).

depoisdavidaWandâfuru Raifu (1998 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Não havia outro caminho a seguir. O saudosismo sistemático, implacavelmente seria veículo para que a narrativa fluísse vagarosa e constante, como o leito de um rio. Um singelo filme de memórias, mas não apenas isso, do tema vida-após-a-morte surgem galhos, cada um desses galhos se refere a história de vida de um personagem. Das recordações traçamos os principais aspectos que formam o jeito de ser, o caráter, o estilo de vida, as oportunidades e decepções de cada um deles. É um jogo enigmático, decifrar a complexidade de um ser humano.

O que acontece após a morte? Para o cineasta Hirokazu Kore-eda seríamos enviados a uma espécie de albergue, aonde passaríamos uma semana, enquanto os conselheiros do local nos solicitam que escolhamos apenas uma das recordações que mantemos na memória. Depois, uma equipe reconstituirá o acontecimento (como num filme), até que sejamos enviados a um outro plano, e de nossa memória tudo será apagado, exceto a recordação escolhida. Como escolher somente um momento, uma única recordação, de uma vida toda? Onde estão nossas melhores recordações?

A infância é a resposta da maioria, porém momentos amorosos, de muito carinho e emoção, também têm presença constante. A felicidade poderia ser medida pela quantidade de pequenos momentos felizes que passamos, porque ser feliz 100% do tempo é tarefa impraticável. Câmera estática, longos planos, as entrevistas divergem de qualquer tipo de dinamismo. Serenidade é a palavra de ordem naquele lugar. Afinal estão todos mortos, não há mais pressa para nada.

Dentro desse quadro, Kore-eda esmiúça a alma de um dos conselheiros, para que saboreemos uma espécie de filosofia proposta pelo cineasta. São micro lições de vida, de onde surgem os mais variados temas, como amor, respeito, afeto, e uma infinidade de sentimentos. De todas as proposta de Kore-eda, aquela que se apresenta como desfecho para o personagem central é de uma beleza imensurável. É na simplicidade, e honestidade, que se torna ainda mais bela e cativante essa simples explanação de um dos significados do amor, de um dos significados da vida. Tolo é quem não percebe a importância de uma recordação como aquela, ou melhor, do ato de ser recordado.

 

distanceDistance (2001 – JAP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

É bem provável que o fato gerador tenha sido o ataque terrorista promovido, em 1995, com gás Sarin, por uma seita religiosa, no metrô de Tóquio, deixando dezenas de feridos e mortos, aterrorizando o país. O que o diretor Hirokazu Kore-eda propõe, no filme, é expor uma visão perpendicular sobre o terrorismo. Muito mais do que um pacifista, o cineasta preocupa-se em cultivar as memórias, de cada um daqueles que trocaram a vida por suas crenças e ideais.

Na história, uma seita religiosa contaminou alguns reservatórios de água em Tóquio, causando sérios problemas à população. Milhares de feridos, e inclusive mais de cem mortos. As razões não ficam nada explicadas, mas, sucessivamente, dezenas de participantes dessa seita promovem um suicídio coletivo, e as cinzas jogadas num lago próximo ao local onde habitavam.

O filme parte da reconstituição precária das lembranças de um grupo de quatro pessoas, que perderam parentes nesse evento. A esposa, um irmão ou um amigo, não importa. Eles reúnem-se, anualmente, numa peregrinação junto ao tal lago, onde foram lançadas as cinzas. Prestam homenagem aos que se foram, lamentam profundamente o ocorrido, e tentam entender as razões para que terem largado suas vidas e se embrenhado nesse caminho de crenças e estranhos ideais. Dessa vez, devido a um assalto, conhecem no local um sobrevivente, que conviveu com os respectivos parentes de cada um, inicia-se um relato do dia-a-dia, do convívio, um martírio necessário para cada um expurgar suas mágoas.

O que incomoda em Tão Distante é a ligeira impressão de barco a deriva que o filme possui, a montagem é confusa, os personagens pouco explorados, a fotografia é linda quando se pretende contemplar a paisagem. O filme possui um quê de profundo, mas se alicerça em flashbacks pouco elucidativos que apenas recriam o momento de tensão pré-ingresso na seita pelos seguidores. O interesse de Kore-eda é muito mais voltado ao íntimo dos integrantes de um grupo desse tipo. E como preferiu um filme de lembranças, visto pelas pessoas que mais tinham preconceito do grupo, fica uma sensação de pré-julgamentos. Assim, seu filme além de confuso, lento e tão distante, está também impregnado de uma repreensão nada benéfica a seus personagens.

 

ninguempodesaberDare Mo Shiranai / Nobody Knows (2004 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Antes de começar, o filme esclarece que é baseado em fatos reais, ocorridos em Tókio, porém os personagens e os acontecimentos são fictícios. Antes tudo fosse ficção. Só de imaginar a possibilidade de ter ocorrido fato igual, ou parecido, traz um automático sentimento de desgosto com a humanidade. O egoísmo ascendeu a primeira faísca, e com ele vieram outros males, o descaso é o menor.

O cineasta japonês Hirokazu Kore-eda não quer impacto imediato, prefere que as cenas fiquem martelando o público, durante o resto do dia. Por isso, não exibe momentos impactantes ou decisivos, nos poupa do pior para imprimir sensibilidade apurada e aguçado refinamento. A música parece pingar em nossos ouvidos, como se uma torneira gotejasse a confirmação das imagens. A transformação física de Akira (Yuya Yagira) resume o estado de espírito familiar, quase no fim o olhar vago é constante, o cabelo seboso e sem corte, a pele com aspecto suado, o mal cheiro do garoto e do apartamento quase estão impregnados na película.

Yagira interpreta com urgência, o garoto, que aos doze anos assumiu a responsabilidade que muitos pais nunca assumiram. Atuação vibrante e compassiva, de uma serenidade incrível. Essa criança aprendeu cedo as responsabilidades da vida adulta, com a mãe e os três irmãos (duas meninas e um menino) menores mudaram-se para um pequeno apartamento. O condomínio não tolera famílias grandes ou crianças. Para evitar a expulsão, os irmãos vivem escondidos, sem permissão de fazer barulho, ir a janela, e muito menos sair à rua. Akira é o único que pode andar livremente, faz as compras e cuida da casa, até a mãe chegar. Mas a mãe nem sempre chega, longas jornadas de trabalho. Até que um dia ela parte de vez, mandando eventualmente algum dinheiro aos filhos pelo correio.

Sim, a mãe desaparece, e chega um momento que o dinheiro acaba. Luz e água são cortadas, Akira e os irmãos passam a viver moribundos, como mendigos. Dependem da boa vontade de alguns para se alimentarem, enchendo baldes de água na praça para usarem em casa. Kore-eda vai mais além do que pura e simplesmente mostrar a triste circunstância. O cineasta discute a situação de uma criança num imbróglio desses, a necessidade de se divertir, e a inversa possibilidade de manter o equilíbrio o tempo todo.

A conjuntura sai do controle com a ausência da mãe, não que ela fosse presente, mas sua figura trazia austeridade e um mínimo de receita familiar. Sem ela, Akira perde o leme, o apartamento transforma-se num depósito de lixo, e a alegria que marcava o coração daquelas crianças, pouco a pouco é decepada. Assim percebemos que não há ninguém a olhar por essas crianças, se elas são nosso futuro, como ficará esse mundo? Cada dia amadurecem mais rápido, assumem responsabilidades mais cedo e perdem detalhes importantes de sua formação que farão falta quando adultas. Mantê-los trancafiados, é um golpe baixo de egoísmo enojante.