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360 (2011 – ING/AUT/FRA/BRA)

O pecado é a obviedade, e ela está tão concentrada no roteiro de Peter Morgan (inspirado livremente numa peça teatral de Arthur Schnitzler) que realmente parece um filme de Morgan, com uns toquezinhos modernos do Fernando Meirelles e sua trupe. Enquanto o roteirista se mostra obcecado pela ideia de que “quando encontrar uma bifurcação, escolha um dos lados do caminho”, e contecta pessoas do mundo todo, sempre com o sexo como mote. Meirelles brinca de split-screen, de espertos movimentos de câmera, e cortes dinâmicos nos diálogos.

A fluidez de Meirelles até consegue tornar o tom palatável, já a história envolvendo prostituta eslovaca, traições, estuprador sofrendo tentação e uma série de outros percalços não vai além de uma eterna redundância que precisa ser justificada com diálogos e cenas que expliquem o que já está tão óbvio.

No fundo, nos tornarmos testemunhas de histórias que pouco nos interessam, clichês da vida moderna conectados para mostrar que estamos tão ligadas que o destino de um, depende do outro. É uma premissa frágil se não temos atração por aqueles personagens e seus dramas de cores tão pastéis. Vidas sem brilho, filme sem emoção, por mais que haja certo clímax na relação tensa criada no aeroporto (envolvendo Maria Flor e Ben Foster). Mas é pouco, e no final, ainda teremos mais doses desse mantro moral sobre tomar um caminho (e mudar o destino dos demais).

Lønsj (2008 – NOR)

Tem algo de quero-ser-o-Magnolia-noruegues, e coitado porque tudo até seguia interessante com aquele começo que tendia a comédia quando o garoto destrói o fuzil de um prédio e conseqüentemente cortado a luz de um edifício e aquilo se torna ponto de partida para acontecimentos de cinco pequenas histórias. O que vem a seguir são personagens esquecidos, cenas sem inspiração e um bando de personagens que não sabem bem aonde ir, culminando num final com uma das cenas mais grotescas e de mau gosto da história do cinema. Aparentemente Eva Sørhaug é daquelas diretoras que não se contenta com pouco, aqueles pássaros sobrevoando a cidade, aquele vai-e-vem de personagens histéricos (ou histericamente calados), o trocadilho lhe cai bem, é pior que comida fria.

Babel (2006 – EUA)

O tema está presente explicitamente no título, trata-se de um filme sobre a incomunicabilidade. Buscando abordar horizontes mais amplos, a globalização chega às telas de cinema, até então tínhamos co-produções multi-geográficas, agora a história o é. A fronteira México-EUA, Marrocos, Japão, um tiro, um feroz desencadeamento de situações dramáticas. É novamente Guillermo Arriaga no roteiro e Alejandro González Iñárritu na direção.

A meu ver, o grande problema é o próprio tiro, a preocupação em se formar uma poderosa ligação entre as três histórias (além do tema incomunicabilidade), seguindo os moldes de seus filmes anteriores, acarreta em quebra do ritmo nas histórias, em fracas interligações entre as mesmas, em exagero de coincidências. Se as histórias fossem individuais, teriam o mesmo impacto (já que de tensão Iñarritu sabe tudo e mais um pouco) e menos distorções. Poderiam assim desenvolver melhor o lado político e suas proporções, a sensibilidade da relação de alguns personagens, e os dramas das escolhas erradas em momentos de alta pressão.

Um casal norte-americano passa férias num país exótico tentando superar a crise conjugal. Uma doméstica mexicana decide levar os filhos de seu patrão para um casamento de um parente seu, por não ter encontrado quem ficasse com as crianças. Dois garotos marroquinos tentam evitar que chacais ataquem o magro rebanho que seu pai os incumbiu de levar para pastar. Uma adolescente japonesa surda-muda vive seus momentos de descoberta da sexualidade.

Em todos os casos a falta de diálogo é latente, a incomunicabilidade assola cada um dos envolvidos, cada uma das vidas, é o casal que não consegue mais dialogar devido a dramas recentes. A adolescente japonesa que mesmo interagindo com a cultura J-pop sofre pelas coisas mais simples, falta-lhe compreensão, diálogo, carinho. A babá mexicana que não consegue entender o drama vivido por seus patrões, ao mesmo tempo em que não consegue encontrar uma solução plausível para seu problema. Os jovens marroquinos que se divertem como duas crianças normais, assumindo responsabilidades de adultos, quando sofrem dos mesmos dilemas pueris de qualquer parte do mundo, só que aprendem tudo pela vida, já que o diálogo familiar é escasso, cheio de tabus.

Iñarritu nos oferece uma visão preconceituosa, de que os dramas dos terceiro-mundistas resumem-se a violência e o controle de seus instintos selvagens. Enquanto os ricos sofrem com seus problemas psicológicos e intimistas. Será que o dinheiro é o único instrumento regulador à problemática da humanidade ou será que temos visões deturpadas e generalistas sobre o que afligem cada um de nós em cada canto do planeta?
Mostrar que vivemos numa torre de babel, onde não nos comunicamos como deveríamos, ocasionando em problemas, em dificuldade para enfrentar situações, é o lado mais competente do filme. Volto a frisar que a insistência em manter diálogo entre as histórias é prejudicial, como se Iñarritu fosse vítima da própria incomunicabilidade que ele mesmo criticou. Brad Pitt ao telefone com o filho, o momento de despedida do ônibus do pequeno vilarejo, são pequenos instantes de tensão-limite, impossível não se emocionar. Há também algumas cenas com Rinko Kikuchi (e toda sua sensualidade adolescente) simplesmente inesquecíveis. Uma mudança na estrutura faria muito bem ao filme, muito irregular, mas Babel tem muita coisa boa, e não é um filme que você irá esquecer facilmente.

Muito cinema ultimamente, mas não no circuito comercial, ontem sessão lotadíssima par a Mostra de Godard (pretendo ver pelo menos seis nessa semana). Fiz sessão-dupla e na segunda encontrei Marcelo V e Ana Paul. Na semana passada foi a vez da Mostra de Neo-realismo, mais uma sessão-dupla dessa vez com Eduardo Aguilar e duas amigas dele… E ainda vou dar um jeito de ver o novo do Forster, mas tá difícil.