Posts com Tag ‘Hugo Carvana’

homemquecomprouomundoO Homem que Comprou o Mundo (1968) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Eduardo Coutinho entrou no proejto desse longa de ficção após alguém desistir do projeto, antes ele havia dirigido um segmento de um filme coletivo e trabalhado em alguns roteiros que viraram filmes. É uma sátira debochada, provocadora, inteligente. Flavio Migliaccio é um homem comum, que apenas sonha em se casar com sua noiva (Marilia Pera), mas um milinário árabe morre na rua e lhe deixa um cheque (com uma quantia que daria para comprar o mundo todo).

A ideia, aparentemente, ingênua se revira numa grande provocação. O país é fictício, assim como as duas potências que representas EUA e URSS. Autoridades se descabelam, militares tentam proteger a pátria, o dinheiro vira assunto nacional. O pobre do novo trilhionário vira refém das autoridades, dos interesses que podem causar uma guerra, difícil imaginar como o Brasil recebeu esse filme em pleno ano do AI-5.

Na segunda metade a comédia escrachada toma conta, o roteiro não se sustenta e o filme vai caindo fortemente. Personagens surgem do nada, desaparece, a narrativa vem no mesmo ritmo de caos que a situação se coloca. Hugo Carvana, Raul Cortez, Milton Gonçalves, o elenco é de peso, e a provocação garantida.

Toda Nudez Será Castigada (1973) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Na hipocrisia da “classe média” puritana e convervadora brasileira Nelson Rodrigues deita em rola com sua capacidade de “marginalmente” extravasar desejos e situações camufladas, em tentar expor a verdade sobre o brasileiro médio. Religião, sexo, álcool, o tripé que parece motivar (ou socialmente a sociedade revela como crucial) personagens entre os prazeres e deveres para com a etiqueta social e familiar.

O viúvo puritano, o filho religioso ultra-conservador, a paixão por uma prostituta, o irmão vagabundo que empurra o viuvo nesse mundo marginal. Arnaldo Jabor adapta o texto de Nelson Rodrigues, traz a tona esse mundo de devassidão e vergonha perante os familiares. Porém, Jabor conduz sua história de qualquer jeito, com cenas frouxas, com atuações qualquer nota e a sensação de que basta filmar os diálogos e o texto por si só torna-se forte. Daqueles filmes que envelheceram mal, que por mais que tenham temas universais à sociedade brasileira, já surgem com uma lingaguem tão defasada, uma devassidão tão de qualquer jeito, que acreditar nos tons de tragédias e nas paixões arrebatadoras se torna tarefa ingrata.

Terra_em_transeTerra em Transe (1967) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Acreditar que Eldorado é uma metáfora para o nosso país é injustiça com nossos vizinhos latino-americanos. Por isso, alguns nomes de personagens, e empresas, estão em espanhol. Esse é um filme sobre a América, de modo geral, todos os países do continente podem se sentir “homenageados” nesse contexto político-poético, cuja ferina câmera de Glauber Rocha teima em dilacerar, como uma metralhadora incisiva, de críticas diretas, objetivas e subjetivas. Sem meias palavras, ou mecanismo carregados de pomposo eufemismo.

Os personagens desdobram-se em monólogos teatrais. Mesmo em diálogos, olham diretamente para a câmera como se discursassem suas verdades. O poeta Paulo Martins (Jardel Filho), dentro de sua ilusória capacidade de fazer política, agoniza enquanto relembra sua trajetória na política, que está intimamente ligada a alguns figurões do governo. De um lado o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran), melindroso político, usa Deus como arma para angariar votos, quando apenas idolatra seus escusos objetivos, normalmente ligados aos de uma poderosa empresa.

De outro lado Filipe Vieira (José Lewgoy), o governador populista, que prometeu mundos e fundos, ao povo, e depois os despreza como nos desfazemos das migalhas. Os líderes populares e suas retrógradas ideologias, teóricas e démodé. Há ainda a figura do multi-empresário Julio Fuentes (Paulo Gracindo), o próprio retrato da burguesia, dono de quase toda Eldorado, e incansável por mais dividendos. Conchavos são expedientes necessários quando se sente acuado.

É a luta do rico contra o mais rico. O poeta quer aliar suas palavras com a política, mas naufraga porque elas caminham em direções opostas. Assim como o povo que agoniza em suas pobres terras, e que sofre barbáries constantes. É desse transe que fala Glauber Rocha, seu filme pulsa urgente, línguas afiadas declamam textos ricos, sob tantos aspectos, que o mais difícil seria descrevê-los. É um cinema verborrágico como nunca se viu, delirantemente perturbador em sua essência, tal qual a realidade que aborda. Entusiasmado, em sua paixão, pela relação público/filme, e em tudo o que ela pode despertar. Glauber não via o futuro, apenas compreendia por demais o presente, pena que nada mudou nesse tempo todo, com ou sem ditadura.

 

odragaodamaldadecontraosantoguerreiroO Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Um faroeste em pleno sertão nordestino. Em pleno apogeu da ditadura militar, surge Glauber Rocha com seus filmes de ferrenha crítica social, inventivos, verborrágicos. Filmados de maneira crua, repletos de referências do folclore nordestino, e transformando musicalidade em narrativa. Lá se foram trinta e cinco anos, mudam os personagens, mantem-se os papéis na vida política nacional.

Jardim das Piranhas é o típico vilarejo do sertão nordestino, regras e leis passam pelo latifundiário que controla a região, no caso o Coronel Horácio (Jofre Soares). É lá que Coirana (Lorival Pariz), diz ser a reencarnação de Lampião, decidem instaurar o caos. O delegado (afilhado político do coronel, e provável futuro prefeito, mesmo sendo a favor da reforma agrária) perde as rédeas e convoca Antonio das Mortes (Maurício do Valle), matador de cangaceiros.

A condição deplorável de sobrevivência é mais que acachapante no sertão, a luta do dragão da maldade contra o santo guerreiro remete a São Jorge. Também remete ao fim das injustiças, a luta de classes, e nesse ponto, o desiludido e bêbado Professor (Othon Bastos) pode ser a voz da esperança, talvez Glauber depositasse suas fichas na educação.

odragaodamaldadecontraosantoguerreiro2No velho-oeste apocalíptico de Glauber a luta cruel contra a fome, a sede e a miséria ganham aliados implacáveis, e tornam-se vilões maiores do que os que abusam e exploram. Quando o ferido cangaceiro Coirana, diz ao justiceiro Antonio das Mortes, que ele estava vestido de ouro, ouro que ganhou dos ricos para matar pobres; neste momento Antonio das Mortes caminha entre o povo que seguia o cangaceiro e percebe que lutava pela causa errada.

Glauber resume o sertão nordestino da década, faz jus ao cancioneiro, ao repente, dá espaço ao misticismo e a fé. Usa alguns personagens de seu clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol para enquadrar a realidade sonora de um Brasil sertanista, traduz peculiares alegorias regionais para expor a verdade do povo, talvez o melhor filme brasileiro de todos os tempos.