Posts com Tag ‘Icíar Bolaín’

También la Lluvia (2010 – ESP)

O produtor (Luis Tosar) está radiante com os baixíssimos custos que as filmagens na Bolívia proporcionarão ao filme dirigido pelo cineasta idealista Sebastián (Gael García Bernal) que apenas está preocupado em apontar os interesses claros da coroa espanhola em obter ouro na viagem em que Colombo descobriu a América. O roteiro complexo traz essa equipe de filmagem à Cochabamba, enquanto uma jovem grava o making off das filmagens e a produção escolhe figurantes e atores locais para a produção, uma guerra civil está prestes a eclodir na cidade (de fato as manifestações ocorreram por lá em 2000) depois que a companhia de água foi privatizada para empresas estrangeiras gerando um aumento de 300% nas tarifas.

A cineasta Icíar Bolaín sabe muito bem acumular situações e sentimentos até a erupção de um vulcão (já foi assim no ótimo Pelos Seus Olhos) e aqui novamente. Primeiramente pela metáfora poderosa da relação entre os abusos mercantilistas de 500 anos e os atuais (os estrangeiros chegam, sugam o povo e ainda se divertem, incluindo a equipe de filmagem)  e depois por toda a sequência de guerra civil nas ruas que são de arrepiar. Conectar todos esses elementos, desenvolver uma enorme gama de personagens, e manter unidade são demonstrações do grau de maturidade de um trabalho.

 

Te Doy Mis Ojos (2003 – ESP)

O primeiro encontro se dá na porta da casa da irmã, há poucos dias ela fugira de casa com seu filho e se refugiara ali. Marido e mulher, parcialmente frente a frente, ele tenta se controlar, grita, bate na porta, ela com medo, se lembra de tudo que já passou, mágoa e amor se conflitam, ele toca-lhe o rosto, a cena é linda, difícil, espremida como os corpos pela janelinha da porta.

A diretora Icíar Bollaín discute a violência familiar, maridos que espancam suas esposas, os lares destroçados pelo medo, insegurança, ciúmes, pela falta de respeito e individualidade. Antonio (Luis Tosar) busca auxílio em terapias em grupo com outros homens que cometem violência doméstica, se esforça para controlar seus ímpetos de fúria. Pilar (Laia Marull) passa a trabalhar numa igreja de beleza impecável que repleta de obras de arte recebe turistas e visitantes; assim descobre as artes e uma paixão em compreender os quadros e a história de cada um deles. Não são mais as mesmas pessoas, numa cena ela empolgadíssima conta sobre seu trabalho, seu entusiasmo bate de frente com um muro, aquele homem egoísta e xucro só deseja que as coisas voltem a ser como antes, que sua esposa fique cuidando da casa e do filho para que ele chegue e encontre sua cerveja, a janta pronta e uma mulher sedenta por fazer amor.

Na reaproximação do casal o despertar da paixão faz novamente parte daqueles corpos e almas, mas é difícil entender que as pessoas amadurecem, aprendem, e Antonio acredita que meia dúzia de sessões de terapia foram capazes de controlar seus ímpetos agressivos, quer possuir sua esposa, ser dono de cada parte do seu corpo, só que nessa nova relação ela não mais lhe pertencem tem por ele amor, desejo, porém as coisas são diferentes e o ciúmes corrói o vendedor de geladeiras. Numa das grandes cenas do filme, Antonio conversa desesperado com o terapeuta, Pilar não havia atendido o celular e ele entrega seus sentimentos, seu medo de que ela encontre alguém interessante já que ele enxerga que no fundo ele tem muito pouco a lhe oferecer. Pelos Meus Olhos é daqueles filmes que guardam dois ou três momentos que ficaram guardados na memória, pela realidade crua, e principalmente pela capacidade de trazer a tona (em forma de metáfora ou não) os mesmos problemas que enfrentamos em nossas relações pessoais.