Nós Somos as Melhores

nososmosasmelhoresVi ar bast!/We Are the Best! (2013 – SUE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Adaptação de uma história em quadrinhos dos anos 80, o novo filme do director sueco Lukas Moodysson é uma versão leve, doce, e divertida, da adolescência rebelde, num ritmo Sessão da Tarde. Três jovens metidas à punk, decidem formar uma banda. Punk. Enquanto elas se esgueiram pelo mundo de baterias, baixo e outros instrumentos, a vida adolescente corrente comitantemente.

Intrigas amorosas, relacionamento com pais, ou professores, união e amizades. Tudo tratado de forma amena, suave, Moodysson brinca com suas personagens e trata a rebeldia como algo nato, por mais que seja uma rebeldia domesticada, e um grau de politização simpático e engajado.

 

 

Anatomia de um Clipe de papel

anatomiadeumclipedepapelYamamori Clip Koujo No Atari (2014 – JAP)  estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A proposta do cineasta Ikeda Akira é lúdica, prima pelo surreal, e tenta mirar nas tradições e costumes de sua cultura. A história é narrada através do trabalho, praticamente escravo, numa garagem improvisada como fábrica de clipes de papel. Os funcionários são maltratados e humilhados pelo gerente, todos apáticos aceitam calados. O filme segue o cotidiano de Kogure, seu comportamento passivo é comprovado em outros lugares de frequenta (na praça com um flerte, no restaurante, a dupla de marginais que lhe até as roupas).

Eis que surge uma borboleta, que entra em sua casa e se torna uma mulher. Ela fala uma língua estranha e passa a morar com ele. Por trás do lirismo dessa transformação borboleta-mulher, Akira se apega a uma narrativa por demais enfatilizada. A escassez de diálogos e repetição de cenários servem para intensificar a mecanização da vida cotidiana, mas representam pouco ao filme. Muita artificialidade nos comportamentos e ações, as evidências da cultura acabam quebradas por essa necessidade de passividade que vai além do minimamente humano.

O Senhor Fez em Mim Maravilhas

osenhorfezemmimmaravilhasEl Senyor Ha Fet Em Mi Meravelles (2011 – ESP) W/O

Parte de um projeto intitulado Correspondências Fílmicas, do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, o documentário de Albert Serra é endereçado ao cineasta Lisando Alonso. Serra e a equipe que filmou Honra de Cavaleiros parte pelos locais por onde passou Don Quixote, ne La Mancha. Ali filmam o cotidiano de filmagens, conversas sobre futilidades, um diário de estrada.

A imagem quadrada quebra os planos abertos e hipnóticos do cinema de Serra, perde aquela sensação de corpos que se misturam com o ambiente, por mais que ele mantenha o foco distante, as conversas que nem sempre batem com a imagem. É um distanciamente tão grande de qualquer foco que o público vai perdendo também o interesse. A imensa maioria desiste da sessão, chega ao ponto em que a sensação da proposta já está resolvida e o desinteresse torna-se tão intenso que resta seguir os passos dos demais, e também abandonar o filme, antes de seu final com a sensação de não estar perdendo nada que seja bom ou ruim, apenas desinteressante..

Exibição

exibicaoExhibition (2013 – ING) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

 

D (Vivi Albertine) artista plástica. H (Lilam Gillick), arquiteto. Casados há 18 anos. Decidem vender a casa onde mora. Não se trata de uma casa qualquer, foi construída em detalhes, cada ambiente, cada detahe, os diferentes materiais que se complementam. O ponto intrigante é este: por que eles pretedem vender aquilo que os representa?

Joanna Hogg foca na composição visual. Os corpos se misturam com a decoração, servem de inspiração para o trabalho do arquiteto e da artista. A isso se mistura o desgaste matrimonial e a sexualidade. Ela não parece mais tão interessada nele, vive uma fase de explorar seu corpo e outras formas que se relacionam ao trabalho. Ele tenta, insiste. Ela também não parece aberta a falar sobre trabalho, teme críticas. Suas inseguranças parecem dominar a artista, ainda assim decideram mudar de casa.

Hogg filma por reflexos em vidros, capta sons da rua, do desconhecido, a persianaque permite a visão parcial. Explora essa relação da casa dos os corpos. Usa da inspiração, a narrativa é induzida, os diálogos raros. Os conflitos camuflados. Até a cena final, a casa se torna o personagem principal, seja quem forem os coadjuvantes que a habitarem.

Queda Livre

quedalivreSzabadesés (2014 – HUN) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O diretor Gyorgi Pálfi e seu conjunto de histórias estranhíssimas que pretendem fazer um irônico paralelo da sociedade húngara moderna. Todas calcadas no fantástico, no absurdo, Pálfi é provocador, por mais que isso não resulte em contundência. Seu filme está mais um objeto de bizarrices de uma mente criativamente oca. As histórias começam pela senhora, de vida tediosa, que pula da janela do apartamento. Entre os vizinhos do edifício surgem outras histórias, da mulher que está nua numa festa de gala, do casal extrapolando as preocupações com assepsia, a mulher com seu bebê que vai ao médico realizar um inimaginável procedimento cirúrgico ou o garotinho que morre de medo do bode (que só ele vê).

Todos os capítulos flertam com o absurdo, o complicado é buscar as conexões menos óbvias na proposta de Pálfi. Sua crítica à sociedade vai de religião à convivência social, do tédio aos medos infantis, sem que consiga condensar o humor negro em inteligentes propostas críticas. Parece mais um conjunto de bizarrices de uma mente provocativa, porém gratuita. Chocante e oco.

O Ministério das Ferrovias

oministeriodasferroviasThe Iron Ministry (2014 – CHI/EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Saí da sessão para um rápido lanche antes de outro filme, eu que já estive 3 vezes na China carregava uma impressão inicial pouco impactante. Alguém puxou conversa na saída e me impressionou o quanto as diferentes experiências possam trazer novas percepções. O que não causava tanto efeito, em mim, era um panorama extremamente atraente, descobertas sobre uma sociedade que até pouco tempo era um mistério, uma caixa-preta aos olhos do mundo. Parte integrante do mesmo projeto (de Harvard) que apresentou filmes como Leviathan e Manakamana, o documentário dirigido por J. P. Sniadecki passou 3 anos por vagões de ferrovias chinesas. Registrando diversos públicos, 1ª classe ou popular, e comportamentos que resumem transformações e influencias capitalistas na China moderna.

As mulheres que embarcam carregando enormes quantidades de alface e outras verduras, por portas tão estreitas. O lixo acumulado pelos viajantes dando impressão de grande lixão na chegada ao destino. As discussões sobre sobrecarga de trabalho, não existência de eleições no país, política x democracia.

Assim como em Leviathan, a câmera vai muito além do registro documental. Invade o trem o transformando numa fera que engole o caminho. O som do ferro nos trilhos, o imenso prateado que cruza os caminhos, o povo chinês vive em eterno movimento, obrigado a se mover de suas cidades para onde há empregos. Registrar um microestudo num vagão é aspecto curioso, possibilidade de resumir uma sociedade tão grande, se bem que o garoto debochado que brinca com todos os que se apertavam para guardar suas malas já consegue fazer isso de maneira eficaz, provoca com ironias os procedimentos dos que são tratados como sardinhas em lata.

Dois Disparos

doisdisparosDos Dispáros (2014 – ARG) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Mariano (Rafael Federman), um jovem com seus 16 anos, encontra uma arma em casa. Sem pensar, sumariamente, dispara dois tiros contra si. O suicídio não foi bem sucedido. É intrigante como o cineasta Martín Rejtman dá ênfase total, em sua primeira metade, a Mariano, a relação com a família, ou com o grupo musical, a qual ele toca flauta doce, para, na segunda metade, optar por tornar um verão argentino o protagonista de seu filme.

O roteiro segue como um barco à deriva, por mares calmos. Personagens surgem numa transição suave, em dado momento, Mariano inexiste naquela história, dando lugar ao foco na mãe, no irmão e os flertes a uma garota, num casal que vai passar férias na praia, etc. Se Rejtman já não tentava assumir nenhum tema central para seu filme, nenhum drama em particular, essa guinada abre um leque quase irresponsável de possibilidades, que jamais se fecharão (não que isso seja problema).

A questão é que a maneira como ele lida com as tramas jovens funciona melhor que no caso dos personagens adultos. O humor é incipiente. Rejtman insinua pretender apenas filmar situações, e elas estão interligadas apenas por personagens que, em algum momento, tiveram algo em comum. Não é nem um filme coral, ou até é, mas eles nunca estão ligados propriamente, são vidas que seguem e se encontram. Se intriga pelas opções, não prima por nada além desse conjunto de cenas, que falsamente confundem e pouco dizem.