Posts com Tag ‘Indie 2015’

otesouroComoara / The Treasure (2015 – ROM) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Corneliu Porumboiu está de volta com outra comédia dramática, eficaz em seu humor peculiar, e altamente crítica à situação política romena pós-revolução de 1989. Um pai (Toma Cuzin) lê histórias de Robin Hood para embalar o sono do filme, nada é colocado ao acaso. O vizinho que lhe pede dinheiro emprestado, uma proposta tentadora. Mas, quem da classe média vive conforto financeiro nos dias de hoje?

Pronto, já estamos inseridos na situação econômica dos países do leste europeu, dentro da zona do euro. Um tesouro que estaria enterrado, desde a 2ª Guerra Mundial, no quintal da casa do avô, de um homem atualmente falido. Desesperado por 800 euros para alugar um detector de metais que auxiliaria na procura.

Por meio do humor seco de Porumboiu, se desenvolve essa caça ao tesouro. O cineasta tece essa pequena fábula moral (estão lá a corrupção do dia a dia, a aceitação de comportamentos morais incorretos, a sede capitalista, por exemplo) e política, estabelecendo as faixas de humor e de conto moral, de seu novo filme, exatamente entre seus dois primeiros filmes (À Leste de Bucareste, mais humorístico, e Polícia, Adjetivo, mais ligado à condutas morais).

Sempre com seus planos longos e fixos, em sua maioria planos gerais, que aproveitam muito bem o extracampo. Porumboiu discute, por meio de linguagem aparentemente tão simples, tantas questões e comportamentos, comprovando ser um dos grandes expoentes desse cinema romeno destacado e curioso.

O Longo Adeus

Publicado: setembro 30, 2015 em Cinema, Festivais no Radar
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olongoadeusDolgie Provody / The Long Farewell (1971 – UCR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Impressionante como Kira Muratova extrai aqui uma das mais genuínas histórias de amor. Cheia de imperfeições, irregularidades no comportamento entre os dois, e a capacidade de relevar com a naturalidade que só o amor entre mãe e filho consegue compreender.

A mãe divorciada, o filho rebelde quer morar com o pai na Sibéria. Ela sofre, não quer se distanciar da cria, é natural, é um comportamento humano e compreensível. Assim como, é compreensível que o amor possa, pouco-a-pouco, reaceitar a ideia. Em seu segundo longa-metragem solo, Muratova filma com tanta beleza essa relação de altos e baixos, de idas e vindas. PPersonagens cheios de fragilidades, e simultaneamente capazes de comportamentos intempestivos.

Há um quê de Truffaut (especialmente Jules e Jim), e uma leveza dócil que Muratova carregaria em outros filmes (como em Conhecendo o Grande e Vasto Mundo),, enquanto experimentava em sua estrutura narrativa ousada (principalmente para a época, o governo considerou o filme subversivo e o baniu por longos anos). A mãe que busca um novo amor, mas abre mão de tudo em prol da felicidade do filho. O jovem, rebelde como a idade, posicionando sua personalidade enquanto vive essa eterna relação de amor e ódio com a mãe. Decepções, angustias, são temas tão comuns, e que nem sempre chegaram aos cinemas com essa beleza de quem conseguiu resumir sensivelmente os inquebráveis laços dessa relação.

omovimento

El Movimiento (2015 – ARG) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Não é um western, como não é Jauja (de Lisandro Alonso), mas flerta com os dois de maneira charmosa. Na Argentina de 1835, entre a anarquia e a peste, e pequenos grupos de homens que com violência lutam por sua forma de justiça ou moral. Neste cenário caótico, o cineasta Benjamin Naishtat estabelece (Pablo Cedrón) como o líder de um braço do Movimento que luta contra a anarquia. Eles pedem financiamento de pobres camponeses, em tempos de crise, de miséria. Igreja Católica, delírios políticos, a imposição da violência como forma de estabelecer alianças com o povo.

Naishtat vai estabelecendo seu espaço no cinema internacional, após seu primeiro filme (Bem Perto de Buenos Aires) ser selecionado para Berlim, desta vez foi Locarno que exibiui este novo trabalho. Filmado em preto e branco, destaca-se por essa proximidade com os costumes gaúchos, enquanto tece a loucura desse porta-voz maldito do Movimento. A proximidade da câmera no rosto dos personagens, com pequenos tremores típicos da câmera na mão, oferecem essa profundidade dos devaneios alucinados enquanto o discurso se impõe da hipocrisia política que permanece até hoje.

Se Naishtat passa longe de inovar, ou de alcançar a fantasia que o filme de Alonso se desenvolvia, o jovem argentino demonstra possibilidade de trafegar entre o contemporâneo (de seu primeiro filme) e o século XIX, traçando um paralelo obcesno entre as duas épocas, como narrativas irregularidades porém singulares.

 

pontodefugaVanishing Point (2015 – TAI) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Com fotos de recortes de jornal, de 1983, o diretor Jakrawal Nilthamrong resgata a tragédia de sua família. São imagens do acidente de carro onde morreram seus pais. O drama pessoal, exposto de forma tão direta, dá indícios de um trabalho particular, com significados mais intrínsecos ao próprio cineasta do que a qualquer um do público.

A trama contempla dois homens, com histórias distintas. Um jornalista horrorizado com o tratamento da polícia a um réu durante a reconstituição de um crime. O outro, um pai de família, dono de um hotel, cuja vida familiar lhe soa desoladora, vazia. Nilthamrong demonstra obsessão especial por planos nebulosos, o reflexo da luz sob o vidro do carro, objetos que atrapalhem a visão completa do espectador, ou a distância do plano geral que não nos permite entrar nos permonores das cenas. De resto, o filme constitui um conjunto de imagens evasivas, marcando o vazio existencial e o desgosto pela vida de ambos os personagens. Há subjetividade e exorcismos demasiado pessoais. Nilthamrong não se coloca capaz de dialogar com seu público, primeira ele precisava trabalhar suas questões para então criar de sua linguagem narrativa que flerta co a ousadia, um caminho rumo a um cinema autoral.

O Paraíso

Publicado: setembro 29, 2015 em Cinema, Festivais no Radar
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oparaisoLe Paradis (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O cineasta Alain Cavalier segue com sua aproximação entre a ficção e o ducmentário, aproveitando da facilidade da câmera digital as possibilitades de sua liberdade criativa. Seus filmes recentes, na forma, fazem lembrar do cinema de Godard atual, porém ele troca o discurso por questões pessoais explicitas como se a imagem pudesse traduzir o íntimo de Cavalier.

As depressões que viveu, a terceira idade, dessas cicatrizes que Cavalier parte para uma aproximação da infância, com carinho especial por objetos e animais, temas relacionados a Jó e Ulisses. Ou a reconstituição da crucificação de Cristo por meio de um pato de borracha e um pequeno robô. O termo “sem filtro” talvez seja bem empregado para este senhor cuja demonstração clara é a de não temer a exposição, questionando pela reaproximação da infância, ou da mitolofia, temas caros a qualquer um de nós.

cemiteriodoesplendorCemetery of Splendour (2015 – TAI) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma escola transformada em hospital provisório, onde soldados enfrentam uma doença misteriosa de viverem em sono profundo. A narrativa é tranquila como uma canção de ninar. Voluntárias, entre elas Jenjira (Jenjira Pongpas) auxiliam os soldados, deitados nos leitos, que variavelmente acordam e passam algumas horas pelo local bucólico, até caírem em sono repentinamente. Uma jovem médium realiza a comunicação quando os soldados estão dormindo, lendo seus sonhos.

O cinema de Apichatpong Weerasethakul, “Joe” para faciliar o texto, já passou do estágio de ser novidade. Mesmo levando em conta a forte presença do místico, essa ligação direta com lendas e crenças tailandesas, afinal, elas trazem elementos capazes de sempre oferecer o novo, o inesperado. Deixar de ser novidade não é sinal de desgaste, talvez de uma zona de conforto que conecta o cineasta e seu público. Um dos sinais dessa fase de sua carreira pode ser notada pelas opções de Cannes de preterir seus últimos filmes da competição principal.

A verdade é que Joe cria outra de suas peças imaginativas, de beleza visual indescritível (as luzes interligadas ao sono dos soldados oferece um aspecto completamente oposto ao arcaico do local), e repleta de significados, sejam eles visuais, ou extraídos das conversas pacatas. Nesse local misterioso (que guarda um passado mitológico) quase tudo parece possível, desde estátuas que se tornam jovens, de carne e osso, e passam a conversar com Jenjira, até estranhos animais, se banhando no lago, e tratados de maneira extremamente natural pelos humanos. Como se o diretor quisesse tornar a estranheza algo tão natural, quanto harmônico.

Seu discurso anti-belicista é claro, um dos soldados chega dizer que não há futuro no exército. Por outro lado, os momentos de estranheza ganham algumas cenas desnecessárias, além desse tom contemplativo que sempre deixará mais questionamentos do que um mínimo de respostas sobre estes personagens.

montanhadaliberdadeJayuui Eondeok / Hill of Freedom (2015 – COR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Todos que conhecem o cinema de Hong Sang-soo sabem que ele brinca com pequenas variações do mesmo todo. Resta ao público, identificar-se com essa brincadeirinha, ou receber com distanciamento por não comprar a ideia. Histórias de amor, pequenos jogos de encontros e desencontros, sempre envoltos com muitos cafés, restaurantes e bebedeiras. Algumas intrigas de amor, um quê de Eric Rohmer ou Ozu, e uma proximidade cada vez maior com Woody Allen.

As atuações continuam pecando pela artificialidade, os diálogos que não soam tão naturais. Ainda assim, é compreensível quem goste, e quem desgoste de seus trabalhos. Dessa vez um japonês vai a Seul atrás de sua amada, e passa dias esperando que ela retorne a casa dela. Enquanto espera, faz amizade com outros hospedes do hotel, e flerta com a dona de um pequeno café. São pequenas confusões humanas, tratadas de maneira dócil, e muitas vezes além do infantil.

Conhecendo o Grande Vasto Mundo

Publicado: setembro 21, 2015 em Cinema
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conhecendoograndeevastomundoPoznavaia Belyi Svet / Getting to Know the Big, Wide World (1979 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A doce Liuba (Nina Ruslanova) e o esquentado Nicolay (Aleksey Zharkov) pegam carona no caminhão de Michail (Sergei Popov), o destino deles é uma nova cidade prestes a surgir em torno da nova fábrica de tratores que será inaugurada. Por mais que haja grande conexão com o cinema de Kieslowski, dos anos 60-70, em muitos aspectos, o filme dirigido por Kira Muratova não trata de questões políticas. Ao construir, naturalmente, um triângulo amoroso, a cineasta está mais preocupada com questões humanas, com o microcosmos humano.

Nem mesmo o êxodo causado pelas políticas industrais-expansionistas do governo comunista situam-se além de margear a história. Muratova está mais interessada em pontuar a atenção, o carinho, como formas de afeto capazes de contornar relacionamentos, expectativas financeiras, ou qualquer outro empecilho que o filme coloca no caminho dos personagens. Aliás, que bela construção de cada um deles, da explosividade de Nicolay à timidez carinhosaa de Michail, cada um, a seu jeito, tentando manter/conquistar o afeto de Liuba, que mesmo diante da aspereza de uma União Soviética, meio caótica e lamacenta, rude por excelência, mantém o ar sonhador de quem acredita no amor.

paiefilhosFu Yu Zi / Father and Sons (2014 – CHI) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

No cinema, o pouco pode se tornar extremamente radical. Assim se coloca o cinema do chinês Wang Bing, poucos e longos planos, causando pela insistência esse recado de radicalidade. Num cubículo de uns 4 m2, esburacado, de terra batida, com um tatame sob blocos como cama, é o local onde dois adolescentes passam o dia entre a tv e os smartfones. O pai trabalha numa pedreira e chega ao final do dia, praticamente para colocar um ponto final e apagar as luzes.

Por mais de 80 minutos, o filme mantém-se fiel, num mesmo enquadramento, oferece a monotomia como arma exasperante a rotina familiar desumana. Alguns cachorros entram e saem do campo, e um (ou dois) dos garotos lá, envoltos num edredom vermelho, com a tv ligada. Aim, poderia ser um curta, mas é exatamente na longevidade da duração que Wang Bing demonstra melhor o aburdo questionador da despreocupação alheia com situação tão caótica.

pazparanosemnossossonhosPeace to Us in Our Dreams (2015 – LIT) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Sharunas Bartas estava lá na sessão de abertura do Indie, e quando indagada sobre o que se tratava o filme foi categórico “sobre pessoas”, no máximo conseguiram tirar dele “não há muito a falar sobre”. A economia nas palavras, tão comum na maioria de seus trabalhos anteriores, se prova ser característica do próprio autor.

Em seu mais recente filme, ainda me restam os dois anteriores para compreender melhor os caminhos de sua filmografia, Bartas surpreende pela narrativa mais próxima do usual (claro, dentro do que pode se esperar de seu cinema). Os silêncios são, agora, preenchidos por diálogos, muitos deles. Dramas pessoais expostos por palavras não são o forte de seu cinema, e aqui se repete sua dificuldade.

O próprio Bartas é um dos personagens centrais, o pai da adolescente amiga do garoto que vive num pequeno mausoléu, perto da casa de veraneio da família. Na vizinhança um casal de velhos, bem estranhos, meio brutamontes. Enquanto o pai tenta trazer ensinamentos de vida à filha, ou falar da mãe, a namorada violinista vive seus dramas. Intolerância, violência, Bartas tenta pregar a paz em seu discurso, novamente explorando a beleza da natureza, capaz de criar algumas cenas de beleza estonteante, e aproveitando-se perfeitamente do som que a região bucólica oferece. Mas, enquanto a narrativa silenciosa demonstra força e progredi à maneira de seus melhores trabalhos, as senquencias com diálogos oferecem a fragilidade dos discursos morais corretos de um envelhecimento que troca o questionador pelos ensinamentos morais.