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Western (2017 – ALE) 

Um grupo de operários alemães trabalhando num pequeno vilarejo da Bulgária. Destaque na mostra Un Certain Regard, o filme dirigido por Valeska Grisebach é um curioso retrato da masculinidade em sua disputa por espaço no grupo. Em tempos de questões femininas em voga, a cineasta alemã compõe esse vigoroso estudo comportamental na questão dos relacionamentos sociais em grupos predominante masculinos.

Longe de seu habitat natural (casas e famílias), o convívio e as diferenças se sobrepõe às convenções sociais, a questão da liderança, os comportamentos infantis para agradar o restante do grupo, a virilidade, tornam-se questões centrais. Utilizando apenas não-atores, Grisebach lida com a aspereza (paisagem, corpos, rostos e feições), e encontra no confronto entre o ex-legendário Meinhard (Meinhard Neumann), que se aproxima muito da comunidade búlgara, e seu chefe, o alicerce para desenvolver seu traço autoral (que esteticamente lembra o cinema de Alain Giraudie), e também espelhar a rivalidade na própria estranheza com que locais e estrangeiros convivem. Dessa forma, Grisebach repete no macro e no micro relacionamento, as mesmas questões conturbadas, as mesmas dificuldades de relacionamento, os mesmos anseios por liderança, poder, e sexo.

Jeune Femme (2017 – FRA) 

É preciso sobreviver a primeira cena em que a protagonista, Paula (Laetitia Dosch) faz um depoimento à câmera, histericamente. É bem verdade que essa cena, com plano fechado em seu rosto e sem cortes, diz muito sobre a jovem mulher que o filme, vencedor do Camera D’or, em Cannes, irá acompanhar. O trunfo da diretora Léonor Serraille é justamente dar cabo de toda essa irresponsabilidade e fragilidade da impulsiva que acaba de ser “expulsa” do apartamento do namorado.

A mãe que a renega, não lhe resta outra opção a não ser arrumar um emprego. Num primeiro momento pode parecer que a trama cairá para uma espécie de superação, mas não é o caso. É sim um estudo do amadurecimento, de uma personagem que tenta representar toda uma geração que cobra o imediatismo, a facilidade, ancorados pelo conforto dos pais de classe média. Redenção ou sofrimento, fazem parte do jogo, assim como lidar com novas alianças ou a quebra da confiança. Entre vitórias e derrotas, o importante é o saldo no final do dia, em alguns Paula vence, em outros não, mas segue evoluindo como uma jovem mulher que se insere na sociedade.

Colo (2017 – POR) 

A cineasta Teresa Villaverde conjectura a crise econômica europeia sob os reflexos de uma família de classe média portuguesa, a via-crucis sem melodrama. É um filme angustiante pela naturalidade com que a situação financeira os assola lentamente, um passo a passo que os mergulha ainda mais na desestabilização emocional. O marido desempregado, a esposa quase em dupla jornada diária, e as contas não pagas só se acumulam. A filha adolescente parece indiferente, mais preocupada com seus pequenos dramas da sexualidade, da busca por liberdade, da amiga de gravidez precoce.

Longos silêncios, planos abertos (muitas vezes de outro prédio da vizinhança) que captam a desesperança ou a incomunicabilidade. O filme prefere a noite, mas também se aproveita do escuro no apartamento com a luz cortada, a alimentação racionada. Repito que a diretora evita o melodrama, ainda que reverbere com cenas fortes, de impacto duro e até comoventes. E quanto mais agravada a situação familiar, maior o descontrole emocional. O fim da estabilidade e da rotina, quebrados pela incerteza, ou pela certeza de que amanha será pior, e pior, e pior…