Liv & Ingmar – Uma História de Amor

Liv & Ingmar (2012 – NOR)

Chamar de chapa branca é pouco, o documentário baseado nos relatos de Liv Ulmann sobre sua relação de amor e amizade, com Ingmar Begman, mostra uma senhora adocicada e carregada de nostalgia. Mesmo nas críticas, ela só consegue elencar a genialidade do mestre, enquanto o diretor Dheeraj Akolkar abusa da trilha sonora sentimentalóide e imagens de praias. Uma triste tolice que precisa resgatar muitas cenas dos filmes da dupla para preencher o material do documentário, e nos oferece poucas histórias íntimas-interessantes de Liv e Bergman.

Sonhos de Mulheres – Mostra Ingmar Bergman no CCBB

Kvinnodröm (1955 – SUE)

Novamente Ingmar Bergman se debruçando em temas a respeito do íntimo feminino, dessa vez acompanhando simultaneamente duas mulheres. A fotógrafa de moda Susanne (Eva Dahlbeck) que sofre com o término de sua relação com um homem casado e a modelo Doris (Harriet Andersson) com seu genio dificil termina por birra seu namoro e acaba flertando com um um rico e solitário senhor.

Enquanto o dia de trabalho não rende o esperado, cada uma das mulheres passa a tarde em Gotemburgo, uma clamando para reencontrar seu ex-amante, a outra recebendo mimos e carinhos desse galanteador. De um lado tudo que o dinheiro pode comprar, de outro a estabilidade do matrimonio falando mais alto que os sentimentos.

Pode-se destacar as aflições de cada uma delas em suas histórias, particularmente fico com a cumplicidade das duas quando o dia atinge o ápice da frustração. É um momento de conforto, duas gerações, e a dor sentimental por motivos tão díspares. Os sonhos delas estão claros, expostos, Bergman tece essa destruição do sonho cristalino por uma realidade crua, e tão honesta.

No Limiar da Vida – Mostra Ingmar Bergman no CCBB

Nära Livet (1958 – SUE)

Ingmar Bergman também era o cineasta da alma feminina, aquele capaz de produzir ensaios sobre as aflições e a feminilidade, o homem que captava nuances e as tranformava em poderosas representações de sensações, pouco, ou nunca, reproduzidas. Um filme sobre três mulheres grávidas dividindo um quarto de hospital, por uma noite, e o mundo de dúvidas, angústias, as incertezas, as idas e vindas de amores.

O cineasta sueco resume em três personagens, a grande maioria das possibilidades, sensações e tormentos das que carregam outra vida em seus corpos, e no quanto essa é uma experiência transcendental. Num mergulho tenso por condição física e psicológica dessas mulheres, Bergman vai desde a alegria intensa à decepção, num piscar de olhos. E os faz com a tensão de um dia de hospital pode causar. A dor que pode estar no psicológico, a maneira de se relacionar com sua própria gravidez, a intimidade que surge de outras grávidas.

O filme é sobre essa coisa inexplicável chamada maternidade, seja ela indesejável, com complicações ou interrompida espontaneamente. Ninguém passa ileso a uma experiencia dessas, casamentos desmoronam, relacionamentos se refazem ou desfazem, a mulher dialogando com seu próprio corpo e estado de espírito enquanto carrega em seu ventre o milagre da vida. Bergman deixa de lado os bebês para manter seu foco na mulher, na grávida, e nesse mundo de novas possibilidades que está nascendo.

O Ovo da Serpente – Mostra Ingmar Bergman no CCBB

The Serpent’s Egg (1977 – ALE/EUA)

Transcorrido em 1923, na Alemanha em reconstrução entre as duas grandes guerras mundias, enxergando o surgimento de um nacionalismo inflamado na população (que se personificaria na figura de Hitler) Ingmar Bergman toca num assunto nebuloso, um capítulo vergonhoso da história da humanidade.

Tudo começa com a situação política, desemprego, fome, a Alemanha vivendo o caos da super-inflação. Um homem se suicida, sua esposa e o irmão dele passam a “se ajudar” a enfrentar a crise financeira. O cineasta aposta na irregularidade dos personagens e do ambiente, torna seu filme tão ou mais irregular, por mais que se reconheça Bergman na densidade dramática, nos temas como sexo e a presença da religião, ainda assim há algo bagunçado naquela estrutura. Parece que todo aquele drama típico de seu cinema estaria, dessa vez, trabalhando em prol de um tema maior, e por isso o desenvolvimento ficasse sempre a segundo plano, por mais que naturalmente Bergman provasse ao contrário.

Nessa indecisão chegamos ao verdadeiro mote da história, a força do tema choca o público, muito mais pelo que se diz, e pelo que se imagina, do que pelo que se pode ver. A frieza com que os cientistas narram seus experimentos, o ritmo de thriller (em alguns momentos me fez lembrar algo de Hitchcock em seus suspenses políticos), não é bem o tipo de material a qual o estilo do sueco caberia perfeitamente.

Juventude – Mostra Ingmar Bergman no CCBB

Sommarlek (1951 – SUE)

O tolo amor aos 18 anos ganha os contornos profundos da mão densa de Ingmar Bergman. Uma bailarina angustiada antes de mais uma apresentação, chega em suas mãos um diário, fatos jamais esquecidos, que, naquele momento, voltam à tona de forma avassaladora. Voltando dez anos em um segundo, fatos que a marcaram de uma forma que superar parece um obstáculo intransponível  Bergman novamente absorto no mundo das artes, o camarim do teatro, atores se aprontando, e a bailarina que carrega as marcas de seu drama.

O diário traz o flashback e com ele um amor pueril, dócil, repleto das tolices romanticas dos 18 anos. Um amor de verão que traz a tona o lado mais romantico do cineasta sueco, seja no beijo que demora a sair, ou na presença do cão, praticamente testemunha desse amor. Para ele, a juventude é simples, o mundo dos adultos e da maturidade é que complica as coisas. Por outro lado, só enfrentando nossos medos e angustias, estamos aptos a redescobrir prazeres, há nos tornarmos abertos a reviver o que nossa juventude nos deu de melhor.

Da Vida das Marionetes – Mostra Ingmar Bergman no CCBB

Aus Dem Leben der Marionette (1980 – ALE/SUE)

Neste telefilme alemão o cineasta Ingmar Bergman mergulha profunda e diretamente nas suas obsessões psicanalíticas. Um homem mata uma prostituta, uma investigação psicológica e dos fatos, em si, é iniciada, de forma não cronológica, entre diálogos/entrevistas com sua esposa, seu psiquiatra, um amigo de sua esposa, e a reconstituição dos fatos. Bergman mergulha profundamente na relação entre sonhos e desejos, um casamento libertário e, ainda assim, os horrores de uma relação em desgaste realizando um ensaio límpido desse matrimônio moído e cegamente decadente.

Boa parte da história é narrada em tom de interrogatório, os flashbacks dão conta de preencher os dias que antecederam ao crime. Fora isso, há as cenas do casal e uma sequencia magistral quando Peter conta sobre seu desejo repentino de matar sua esposa e depois se esconde até que ela chegue ao consultório do psicanalista. Bergman jamais quis explicar com detalhes o comportamento de Peter, e sim, mergulhar o público nessa cabeça aflita, nesse executivo perturbado por um casamento que (como todos, por fora bela viola, por dentro pão bolorento) o consome a ponto de desejos conflituosos.

O casal coadjuvante de Cenas de um Casamento recebe aqui um tratamento denso (sim este casal passa rapidamente pelo filme anterior), aliás, esse tipo de narrativa densa é típica do cineasta, o sexo discutido por sua necessidade humana, o peso das obrigações sociais, traições, o desgaste da rotina e das brigas. E, principalmente, o peso da soma de todos esses elementos nas angústias humanas, causando comportamentos hostis, ou até mesmo fora de controle, não é Peter?

O Silêncio – Mostra Ingmar Bergman no CCBB

Tystnaden (1963 – SUE)

Duas irmãs seguem em viagem de trem, uma muito enferma, a outra carregando seu filho pequeno, acabam por parar num país estrangeiro, cuja idioma não se comunicam. Num hotel, aparentemente, grandioso e quase vazio, Ingmar Bergman traz o desfecho da sua Trilogia do Silêncio, com toques surrealistas e uma espécie de laboratório para sua obra-prima Persona.

O primeiro ponto explorado magnificamente é a sensualidade, Anna (Gunnel Lindblom se porta como uma Sophia Loren sueca) pede ao filho para passar sabonete em suas costas, semi-nua deita-se na cama para um cochilo com o pequeno, Bergman esmiuça a sensualidade da atriz, sensualidade essa vital para o grande tema de embate entre as irmãs.

Sim, o grande mote do filme é a complexa relação entre as irmãs, a enferma se porta como recatada, enquanto a outra impulsiva sexualmente, são opostos. Uma se destaca pelo lado intelectual, trabalha como tradutora. A outra encanta homens, exala sensualidade, desbrava sua libido a seu bel-prazer.

Entre os embates, o pequeno garoto divide-se entre mãe e tia e a possibilidade de desbravar o hotel, encontrando um grupo de anões falando em espanhol, ou funcionário do hotel que brinca de teatrinho com a comida. Enquanto isso Ester (Ingrid Thulin), mesmo convalescente, se coloca autoritária, assume a figura rígida do pai como única forma de tentar controlar a irmã, psicanalitica e regisionamente, há a li uma espécie de amor além da ligação de sangue. Amor esse que extrapola, que evoca atitudes ainda mais libertárias, causando ainda maior incomunicabilidade entre elas, a distancia que o país estranho, o hotel desconhecido, apenas circulam.