Posts com Tag ‘Ingmar Bergman’

Scener ur ett Äktenskap (1973 – SUE)

O estrondoso sucesso da mini-serie feita para a TV levou Ingmar Bergman a condesar as cinco horas de histórias numa versão de quase três hora para o cinema. Resultados? Na Suécia um crescimento gigantesco do número de divórcios, no mundo um sucesso impressionante. Mas essa é uma história triste ou feliz? Uma história de amor ou uma relação decadente e degradante? Simples ou não, são cenas de um casamento.

Com um longo plano-sequencia com câmera fixa o filme começa com uma entrevista, o casal Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) narram o casamento de sucesso, tantos anos de uma relação “perfeita”. Repare nos dois, na posição passiva dela e recatada dela, na auto-confiança e completa falta de humildade dele. Da entrevista em diante, não só nós, como eles próprios, descobrirão que esse mar de rosas é falso, que a relação não prima pela perfeição, mas por bases ais próximas do tédio, do mecânico, de uma tensão velada.

Começa o martírio, ele decide revelar o caso extraconjugal, se separar. Ela se desespera, o filme é praticamente de planos fechados e discussões intermináveis, ele não gosta de discutir a relação, ela acredita no amor de conto de fadas, de que tudo possa ser concertado, basta uma nova chance. E as verdades veem a tona, as pessoas revelam com todo o sarcasmo, os anseios e as decepções. Bergman derruba seu público que claramente se viiu em discussões parecidas na vida, e aquilo pesa nos ombros, a dor daquele casal que se autodestrói ferozmente, a quebra das fronteiras e a verborragia extrapola.

Liv Ullmann carrega a carga dramática a nivéis colossais (não que Erland Josephson não dê conta do recado, é que Liv brilha, se transforma, do recato para uma mulher madura, insinuante, fatal). Bergman foi capaz de resumir todas as brigas, todos os motivos, toda a insatisfação sexual e o analfabetismo de sentimentos, num único casal, num único casamento, em algumas horas que não te deixam respirar.

Um dos melhores filmes de todos os tempos!

Persona (1966 – SUE) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A atriz (Liv Ullmann) para de falar em meio a uma peça de teatro, clinicamente saudável, inexplicavelmente permanece silenciosa. A enfermeira (Bibi Andersson) simples, ingênua e falante, designada para os cuidados da atriz. Uma cumplicidade absurda vivida por duas mulheres, Ingmar Bergman extrapola os limites da sensibilidade, do sensorial. É mágica a forma como Bergman cria tanta tensão e complexidade se uma das duas mulheres não pronuncia uma palavra, porém os conflitos estão tão explícitos, vivos, pulsantes com essa descarga de sexualidade e intimidade. Dois corpos misturando proximidade, carinho, fé, e atração, impulsionados pela força indescritível da imagem.

Frente ao espelho, as cabeças se curvam, o momento é tenso, carregado, Bergman insinua a imagem de um corpo com duas cabeças, momento poderoso. Nos relatos eróticos de uma orgia, a tensão sexual chega a níveis estratosféricos, é um mergulho fascinante pela sexualidade feminina, aliada à maneira como Bergman expõe a religiosidade, é a alma pura e simples jorrando de seus personagens, seja pela verborragia ou pelo silencio profundo. Liv Ullmann expressa tanto com seus olhares que não há necessidade da fala, seu silencio observador consegue dialogar, nos oferece até a sensação de tocar suas palavras, suas emoções, e, principalmente suas mágoas.

Porque é de tristeza que se constitui essa atriz, enquanto de vivacidade a enfermeira. E as duas, isoladas do mundo, em uma ilha, por recomendações médicas, chegam ao limite da convivência entre dois seres humanos, e ali, sintetizam a profundidade de suas almas, e Bergman capta isso, com enquadramentos fascinantes, com a sensação de que essa é uma peça de teatro, encenada na sua sala, e você, o único público para aquelas duas interpretações soberbas. Se algum homem chegou a compreender a alma feminina, ele talvez seja Ingmar Bergman.

Através de um Espelho

Publicado: junho 8, 2012 em Uncategorized
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Såsom I En Spegel (1961 – SUE)

Não pode ser por acaso que todo o filme se passa numa ilha, há total comunicação do local com a relação pai e filhos. O pai (Gunnar Björnstrand), escritor, é figura mais que ausente, principalmente depois da viuvez. O filho adolescente (Lars Passgård) confidencia à irmã (Harriet Andersson) que o pai nunca conversa com ele, isso lhe faz falta. Completando a reunião familiar está o genro (Max von Sydow), amigo de longa data do pai, e um marido dedicado. Bergman brinca com a incomunicabilidade, o sexo, e a religião, os temas tão recorrentes em sua obra, e o faz de maneira inflamada.

Há um segredo velado, o estado mental desequilibrado (e incurável) de Karin, dessa questão Bergman explora a relação amor e Deus, o apetite sexual, e a distancia colossal que o pai se coloca dos filhos (sempre em forma de trabalho). Primeira parte da “Trilogia do Silêncio”, Ingmar Bergman faz do silencio arma letal, entre dois ou três diálogos ríspidos de discussões provocativas, está toda essa questão da incomunicabilidade (entre pai-filho, marido-esposa), a compreensão e a insanidade. Um castelo de cartas frágil, em ruinas, que a loucura faz desmoronar, assim como os aproxima, de alguma forma.

Morangos Silvestres

Publicado: junho 7, 2012 em Uncategorized
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Smultronstället / Wild Strawberries (1957 – SUE)

Caso mergulhássemos na biografia de cada pessoa que conhecêssemos, seríamos surpreendidos por histórias de desilusões, de amores perdidos e/ou não correspondidos, de sofrimentos. Estes momentos nos marcam muito mais, do que aqueles pequenos, de beleza singela. É exatamente por este caminho que segue o cineasta Ingmar Bergman, vasculhando na infância (onde tudo é mais lúdico) o histórico que marcaria definitivamente uma existência.

Isak Borg (Victor Sjöström) muda de ideia e resolve dirigir de Estocolmo a Lund, ele será agraciado com uma homenagem feita pela faculdade. O fato gerador dessa mudança repentina foi o estranho sonho da noite passada. Primeiramente será acompanhado por sua nora (Ingrid Thulin), e mais adiante, por um grupo de jovens (destaque para Sara (Bibi Andersson)). A relação, durante a viagem com essas pessoas, o sonho que permanece o perseguindo durante todo o dia, e a visita à casa onde passou sua infância, ajudam este senhor frio e reservado a revisitar sua biografia.

A história de um amor não correspondido, Bergman se apoia na infância para explicar os caminhos de alguém, no caso de Isak marcando sua impossibilidade de uma existência mais feliz. O filme recoloca seu personagem em momentos-chave de sua vida, como quando perde seu amor para seu próprio irmão, ou a descoberta da infidelidade de sua esposa. Não basta a ele, ser declarado por suas “mulheres” como um ótimo sujeito, de excelentes qualidades, por mais antagônico que possa parecer, quando estamos falando de amor, características como caráter não contam. E, no fundo, é essa a questão de Bergman, para o amor, não basta ser bom.

Prisão

Publicado: junho 6, 2012 em Uncategorized
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Semana que vem começa um dos eventos cinéfilos mais importantes do ano, a Mostra Ingmar Bergman no CCBB é pra lá de imperdível. Por isso nos próximos dias vou fazer posts com alguns filmes do mestre sueco que vi recentemente, e depois, é claro, o que for possível assistir da Mostra.

Fängelse / The Devil’s Wanton (1949 – SUE)

O jovem diretor de cinema, Martin, recebe no set de filmagens a visita de seu antigo professor de matemática que acaba de sair de uma clínica psiquiátrica. O homem sente a necessidade de lhe contar a ideia de um roteiro que relaciona a Terra ao inferno. O tal professor só voltará novamente ao filme já em seu final, indagando sobre sua ideia e recebendo resposta do diretor que seria impossível dar um final àquela história. Então o professor resume que “a vida é só um arco cruel e sensual desde o nascimento até a tumba”.

Até se chegar a essa afirmação teremos percorrido um filme dentro de outro, outro amigo de Martin vem com uma noticia de jornal que segundo ele poderia ser um filme. As filmagens começam, seriam elas filmagens reais ou apenas a imaginação de um roteirista? A história se mistura entre a relação do diretor com seu amigo jornalista e do filme sobre a prostituta que pasta nas mãos do cafetão. Desde o arco que abre e fecha o filme até a metalinguagem de uma história que não sabemos se está sendo filmada formam uma espécie de abre-alas dos temas que marcariam toda a carreira de Ingmar Bergman, estão lá a psicologia e o sofrimento, a fé e a sexualidade, a loucura e a morte. Um filme-prefácio?