Posts com Tag ‘Irandhir Santos’

O Animal Cordial (2017) 

Sem medo de polêmica, chega aos cinemas a estréia na direção de Gabriela Amaral Almeida. Entre a critica social e o banho de sangue, a cineasta transforma o assalto a um restaurante, num habitar claustrofóbico de sobrevivência animalesca. Seguindo numa linha de cinema que Juliana Rojas e Marco Dutra tem se destacado, a diretora vai além, ao ser ousada e provocativa (herança de sua filmografia slasher), ainda que o roteiro possa seguir com caminhos questionáveis.

A força do poder, o instinto primitivo de sobrevivência e de dominação, a loucura ditatorial ao assumir tal posição. Está tudo ali, permeando esse ambiente perturbador de um assalto mal-sucedido. O filme traz a disputa de classes, o preconceito de gênero, o poder do sexo, e o sadismo oferecido pelo poder a níveis estratosféricos. A razão é quase posta de lado pela explosão de sentimentos, quando o pequeno empresário (Murilo Benício) se sente dono de si. Não deixa de ser uma alegoria, tratada em tons de tintas pesadas e escuras, em cenas violentas e quase anárquicas, e que talvez pequem pela necessidade de chocar ou pela total escolha pela irracionalidade que a dualidade do título não é representada.

Anúncios

redemoinhoRedemoinho (2016) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Parte do reencontro inesperado de dois amigos de infância, Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade), na véspera de Natal, para se tornar quase uma sessão de terapia entre lembranças, traumas, e o renegado passado voltando à tona. Cataguases, cidade onde o cinema brasileiro cresceu com Humberto Mauro e outros, é o palco para o filme dirigido por José Luiz Villamarim, que aliás surge como grata surpresa, direção sóbria do estreante em cinema, mas já bem experiente diretor de novelas da Globo.

Até por seu currículo televisivo, surpreende como Villamarim sai da narrativa padrão. Explora localidades da cidade ou cômodos das casas, sempre com enquandramentos inusitados, fugindo totalmente dessa linguagem dita como “mais comercial”. Utiliza muito bem sombras, a escuridão, planos mais abertos ou fechados. Mantém as rédeas de um filme pequeno, focado em criar a atmosfera de uma panela de pressão prestes a estourar. Sentimentos e diálogos velados, a amizade de outrora que esbarra no tempo de distância, além, é claro dos fantasmas que após algumas horas e cervejas, vem assombrar a amizade. O final pode não entregar tudo que a expectativa possa ter criado, ainda assim não diminui o trabalho de Villarim, de Walter Carvalho na fotografia, e do ótimo grupo de atores.

 

 

ausencia

Ausência (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um homem tirando parte dos objetos de um apartamento, “pode carregar a tv, mas deixa o videogame que é dos meninos”. Lá se foi a figura paterna daquela casa, a mãe fragilizada se entrega ao álcool e à melancolia e sobrecarrega o filho adolescente (Matheus Fagundes) a trabalhar e cuidar do irmão mais novo. Nete segundo longa-metragem de ficção de Chico Teixeira, o diretor segue o mesmo caminho que trilhara em A Casa de Alice. Dramas familiares, famílias em decomposição e o mundo suburbano paulistano. Enquanto filma a cidade, coloca todo o peso do mundo sob as costas de Jorginho.

A necessidade do garoto por uma figura forte em casa traz todo o peso dessa ausência. Teixeira filma em planos fechados, constrói essa transição entre o ser criança, e ser adulto, envolto num grau de responsabilidade ainda maior numa casa tão fragilizada. É o mundo do cada um por si, por mais que Jorginho tente preencher esse vazio, ainda que jamais correspondido totalmente. Ainda é cedo, mas Teixeira vai construindo sua carreira autoral emplacando seus filmes em mostras paralelas dos grandes festivais, levando um tipo de cinema que deveria ser mais explorado por aqui.

Obra

Publicado: agosto 24, 2015 em Cinema
Tags:, ,

obraObra (2014) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O passado, que carrega a trama, vem desde a arquitetura do centro de São Paulo até as nebulosas relações familiares que o filme nega desenvolvimento. O preto e branco da fotografia capta o cimento e as luzes, enquanto dá nova vida às edificações paulistanas. Nesse tom sólido, de planos bonitos, mas que pecam pela falta de humildades, o diretor Gregório Graziosi desenvolve a história da crise de vida do arquiteto (Irandhir Santos), entre a gravidez da esposa e a obra no terreno da família.

As falam são quase vestígios, normalmente transformadas em monólogos sem resposta, o tom solene prefere esquivar-se do mais óbvio, o desenvolvimento das relações humanas, do passado estampado na ossada encontrada em meio aos alicerces da obra. Enquanto o filme bebe dessa eloquência por planos “perfeitos”, que algumas vezes pouco acrescentam ao todo, padece da baixa naturalidade e de trazer símbolos que não se materializam como fio condutor que se almejava (a hérnia hereditária, por exemplo).

ahistoriadaeternidade

A História da Eternidade (2014) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O ótimo curta, homônimo, de Camilo Cavalcante, filmado num falso único plano-sequencia, trazia as mazelas da vida no sertão nordestino, de forma cruel, abrupta, experimental. Seu longa quase não parece derivado da mesma raiz. O encardido dá lugar a uma fotografia de fantasia, quase plastificada, dialogando falsamente com um tom de fábula. O título é pretensioso, definir a vida de um pequeno vilarejo como a história da eternidade. Além disso, há o tom solene, a figura poética em alguns personagens, utiliza o cenário, mas é completamente oposto ao seu curta.

São pequenas histórias margeando três mulheres, de idades distintas. A avó (Zezita Matos) que recebe, inexplicavelmente, o neto refugiado de São Paulo. A solitária (Marcelia Cartaxo) que perdeu o filho e é cortejada pelo sanfoneiro cego. E a garota (Débora Ingrid), sonhadora, que deseja ver o mar, cujo pai é linha dura, “pexera na mão”, e vê no tio (Irandhir Santos), ator e quase um extraterrestre no lugar, a tábua de salvação.

O tom é de tragédia anunciada, mas a tentativa é de tornar fotogramas em versos, de forma insistente, além de tentar transformar o pequeno vilarejo numa panela de pressão. Ele não trata da eternidade, procura uma forma definitiva radiografar um nordeste surrado, desesperançoso, que poda a beleza com bebedeira, crueldade, ou sentimentos reprimidos que extrapolam conceitos, religião ou convenções sociais. Fico com a vibrante visão do curta, à fantasia cruel da poesia forçada.

Tatuagem

Publicado: novembro 19, 2013 em Cinema
Tags:, ,

TatuagemTatuagem (2013) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Uma trupe de artistas subversivos, na Recife da ditadura militar, monta seus espetáculos críticos e debochados, até mesmo depravados, enquanto vive num casarão, como numa comunidade hippie. Entre plumas e paetês, eles amam, desejam, se drogam e se divertem compulsivamente. De outro lado, surge o jovem soldado (Jesuíta Barbosa), que se apaixona pelo “líder” do grupo (Irandhir Santos). Nesse universo de liberdade e falta de preconceitos, o diretor Hilton Lacerda guia seu filme, a exuberância do libertário.

Lacerda parece encantado pelo mundo que recriou, o filme se repete em apresentações artísticas, deixando pouco para os diálogos reveladores, que são o cerne da história, quando os personagens abrem seus sentimentos e desnudam seus corações. É interessante a forma natural com que ele trata o homossexualismo no quartel, mas no frigir dos ovos condensa tudo no ciúmes ao criar a luta arte x ditadura. Ao mesmo tempo em que ele choca, com todos os tipos de nus, faz da extrema leveza a abordagem dos temas.

O Som ao Redor (2012) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um filme onde o som é o personagem principal. A captação perfeita, límpida, a capacidade do cineasta Kleber Mendonça Filho em costurar situações capazes de motivar a presença sonora marcante. O clima de leve suspense que aumenta, ainda mais, a tensão sonora. O conjunto de histórias que se unificam por ocorreram numa rua de classe média em Recife, servem essencialmente como argumento para que o diretor nos leve ao latido irritante do cão do vizinho, ao banho de cachoeira, ao caminhar do grupo de vigilância que se apodera da rua nas madrugadas.

As histórias se desenrolam, poucas terão desfecho, não importa, KMF não está preocupado em traçar um perfil da sociedade brasileira (ou recifense), por mais que nessa despreocupação ele consiga criar situações interessantes. Seu interesse é que o público dê prioridade aos ouvidos e todas as sensações que eles sejam capazes de nos oferecer. A dona de casaem crise com a irmã, o jovem que se divide entre a nova namorada e o trabalho na imobiliária da família, e todos os personagens que orbitam aquela rua e à volta desses dois (que são quse privilegiados no filme) estão a mercê da capacidade técnica de KMF emergir o público nos sons, oferecendo uma nova experiência cinematográfica.