Posts com Tag ‘Isaach De Bankolé’

umanoitesobreaterraNight on Earth (1991 – EUA/FRA/ITA/FIN) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A noite num táxi. Nos EUA, na Europa, em qualquer canto do mundo. Taxistas são grandes protagonistas de histórias. O cineasta Jim Jarmusch vai a 5 cidades diferentes, e com humor conta 5 histórias (possíveis ou impossíveis). Do taxista estrangeiro que ainda não aprendeu a dirigir, e vai no banco do passageiro durante as corridas, ao italiano que tanto fala que nem percebe que seu passageiro morreu em silêncio. A taxista que poderia virar estrela de Hollywood, ou aquele que transforma seus passageiros em ouvintes de suas desgraças.

Jarmusch trata da imigração, religião, crises familiares, preconceito, aborda diferentes culturas (americana, europeia, latina, africana). É uma forma de condensar o mundo, numa noite, num táxi. As histórias são dinâmicas e singelas, o humor negro se mistura com a fumaça dos cigarros e dos sotaques. É puro cinema, mas também um cinema meio-moleque, meio-imaturo, de quem não tem medo de errar e acertar, mas de apenas polir sua ideia e se divertir. Los Angeles, Nova York, Roma, Paris ou Helsinque, não importa onde estejamos, há sempre um táxi, numa noite qualquer, e infinitas possibilidades que podem surgir, de uma conversa a um acidente no semáforo.

chocolateChocolat (1988 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Pelos olhos da pequena France (Cécile Ducasse), a cineasta Claire Denis, em sua estreia na direção, realiza seu primeiro mergulho na África colonial francesa. A relação brancos x negros, as tensões, humilhações, a simplicidade desconfortável. Denis segue a pequena garota e seus pais, ele (François Cluzet) um militar francês em missão em Camarões, sua mãe (Giulia Boschi) uma bela mulher que tenta manter os costumes europeus nessa terra de chão batido.

Figura-chave no filme é Protée (Isaach De Bankolé), uma espécie de mordomo. Ele é o segundo fio-condutor da trama, da tensão sexual com a patroa, à sua relação de um carinho particular para com a pequena France. Outros europeus visitam a casa, diferentes modos de tratar os residentes, porém, desde os mais “cordiais” há em todos, enraizado, o poder da dominação, da liderança.

Claire de Denis evidencia todos os estigmas da relação colônia, colonizado, por meio de cenas pacatas, que transcorrem de maneira trivial, os primeiros sinais das fortalezas que formariam seu cinema. A sensação incômoda de algo prestes a explodir, a tensão calada. François Cluzet profetiza que um dia eles serão “chutados” dali. Claire Denis vai mais longe, demonstra a crueldade direta e indireta, de ambos os lados, seja na vingança, seja na posição de se colocar como superior. Seu filme é uma bomba relógio, e também, um belo rito de passagem.

oslimitesdocontroleThe Limits of Control (2009 – ING) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Que delicia de enigma é esse trabalho de Jim Jarmusch. Isaach De Bankolé é esse homem solitário que bebe duas xícaras de café, ao mesmo tempo, enquanto espera seus contatos para realizar seu serviço. Está claro que ele realiza algo fora-da-lei (trafico? Roubos? assassinato? Não sabemos). Enquanto segue as instruções, e ouve monólogos imprevisíveis e misteriosos.

A caixa de fósforos com mensagens codificadas, os ternos brilhosos, as visitas ao museu, e a eterna pergunta se o protagonista fala espanhol, tudo faz parte do conceito estético de Jarmusch. Há muito mais ali do que a câmera está captando, aproximam-se do homem solitário os mais diversos tipos de pessoas falando em filosofias de vida, em assuntos abstratos. Cultura, violência, estilo, cada frame é puro estilo. A sensualidade das curvas de Paz de la Huerta, o onírico da fantasia de Tilda Swinton, os instrumentos de corda que carregam John Hurt e Luis Tosar. Talvez nada tenha uma explicação, apenas façam parte da alegoria de uma trama misteriosa, de uma falsa passividade, de um primor de condução do espectador por Jarmusch.

Manderlay (2005 – DIN) 

Não é um repeteco de Dogville, como ecoou em alguns lugares, mas sem dúvidas não causa o mesmo impacto, principalmente visual já que se utiliza da mesma estrutura (tablado negro com demarcações, sem paredes e etc).

Lars Von Trier não perdeu a obsessão de desmoralizar a cultura americana, mas dessa vez mesmo mirando diretamente nos EUA acaba acertando toda a sociedade contemporanea. Sua fábula moral é universal, a escravidão ocorreu em boa parte do planeta e não é só disso que Manderlay trata, vai mais fundo quando tenta discutir até que ponto a liberdade é benéfica, até onde deve ir a liberdade de um indivíduo para seu próprio bem (e nesse tema ele atinge realmente os EUA e suas políticas bélicas).

Manderlay é uma pequena fazenda de cultivo de algodão, logo após sair de Dogville, Grace (Bryce Dallas Howard)  depara-se com o local que ainda mantém escravos mesmo passados setenta anos desde a abolição dos mesmos. Com sua alma “caridosa” decide ficar na fazenda promulgando a liberdade e auxiliando os negros até que os mesmo estejam prontos para viverem numa democracia e tocarem suas vidas sem necessidade de ajuda. O problema é se eles estão preparados para essa mudança e quem disse que é Grace a pessoa ideal para exercer essa influência? (ou quem disse que são os EUA o ideal para libertar Iraque, Afeganistão, etc.)

Bryce Dallas Howard não é Nicole Kidman, o filme perde nessa troca, e Grace está mais didática dessa vez, seu discurso mostra-se óbvio e desnecessário algumas vezes. O roteiro por mais que trabalhe com temas polêmicos e contundentes, não parece tão bem amarrado e dá claros sinais dos segredos que reserva ao final. Mas não deixa de ser um bom, filme, engajado. Talvez sem planejar, Lars Von Trier demonstra que o ser humano é realmente um grande equívoco, nesse ponto ele tem toda razão.

Young Americans de David Bowie também encerra esse filme, novamente a música embala inúmeras fotos, dessa vez todas focadas na disputa racial nos EUA, Martin Luther King, a Klu Klux Klan e toda a miséria e diferença que marca a história dos negros nos EUA. Trier faz isso como quem diz, não se esqueçam que no fundo só estou interessado em dar mais uma cutucada no meu inimigo número um.