Posts com Tag ‘Isabella Rossellini’

joyJoy (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

E lá vem David O. Russel novamente. E com ele, as famílias disfuncionais e as discussões extravagantes, e o mar de problemas e intolerâncias que só a total dependência familiar mantém todos unidos, no mesmo teto. E também a trilha sonora pop e empolgante, e os planos-sequencias de personagens caminhando com estilo, aquela combinação que atrai empatia imediata do público. E tantos outros cacoetes de um cinema sub-Scorsese. O diretor continua contando variações da mesma história, com seu grupinho de atores que só diferenciam cortes de cabelo e figurinos estilosos.

Ultimamente, todos os filmes com assinatura de Russel já surgem como grande favoritismo ao Oscar, aos filmes mais esperados do ano. E dessa vez, a reação geral foi de fracasso, emplacando apenas indicação para Jennifer Lawrence. E é quem carrega todo o peso do mundo sob as costas, o cerne da tragédia pouca é bobagem. Afinal, são tantos dramas familiares, entre crises financeiras e brigas recorrentes, que o leitor precisaria de um lenço para ler toda a sinopse.

Joy é joguete perfeito para vender a América das oportunidades, e Russel vende perfeitamente este estereótipo. Primeiro a joga na lama, para despois, a partir de sua própria capacidade e simplicidade, colocaria novamente no ringue, pronta para briga rumo ao sucesso. É uma artimanha bem barata para conquistar o público, e em algum momento você também será conquistado por essa “ coitada lutadora”. Trilha incidental emocionante, frases de efeito como “eles são o melhor casal divorciado da América”, está cada vez mais difícil de engolir seus fimes.

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Keyhole (2011 – CAN)

Guy Maddin é parte integrante daquele hall de cineastas únicos. De estilo pessoal, de manias óbvias, e um experimentalismo que lhe permite um tipo de cinema único. Afinal, quem, atualmente, constrói uma carreira só com filmes em preto e branco (não necessariamente mudos), mas que deixa de lado um pouco da ingenuidade da época para abusar da sexualidade (imagens de corpos nus sem pudores), nitidamente ligados ao expressionismo, e, muitas vezes ao surreal?

Aqui ele faz uma livre adaptação do personagem Ulisses, do clássico Odisséia. A ação transportada para um mundo dos gângsteres na década de trinta. Tudo começa enigmático, parecendo um sonho, vivos e mortos, fantasmas, tiros. Ulysses (Jason Patric) aparece com uma mulher, as peças desse quebra-cabeças surgem incompletas.

Sua busca se mistura com imagens enigmáticas, o surreal impera, seu desejo é de adentrar ao quarto por onde ele só pode ver pela fechadura. A opção estilística em detrimento ao sentido narrativo fica clara. O filme explode entre dramas e paranóias, guarda o onírico e o ilusório, um ponto de intersecção entre o imaginável, as lembranças e o irreal.

veludoazulBlue Velvet (1986 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma orelha encontrada num terreno baldio por um jovem que prima pela curiosidade, uma cantora de boate sofrendo nas mãos de um sádico, uma rede de corrupção policial envolvida com tráfico. Numa daquelas cidades do interior dos EUA, onde as casas não têm muros e há flores espalhadas por todos os cantos,a persona repugnante do sádico Frank Booth (Dennis Hopper) é o líder de uma gangue de arruaceiros que aterroriza a pacata cidade. O excêntrico viciado é comovido pelas canções de Roy Orbinson, mas é o veludo azul que lhe desperta incontroláveis desejos sexuais.

A cantora Dorothy Vallens (Isabella Rossellini) é sua refém sexual, a relação baseada no masoquismo, no puramente bizarro. O curioso Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan) encontrou a tal orelha e decide investigar clandestinamente após ser incentivado por Sandy Williams (Laura Dern). Acaba ligado a Frank e Dorothy, apaixona-se por ela, que também se sente atraída pelo jovem. Suspense pouco convencional nas mãos do sempre intrigante David Lynch, entre cenas extravagantes há uma curiosa bipolaridade entre o moralismo da sociedade e a bizarrice.

Tudo com um forte cheiro de noir, misturado com cores fortes e o recorte pessoal de Lynch. A superficialidade de algumas sequências é combalida pela inventividade de tomadas delirantes e fabulosas, por mais que a trama siga com poucas surpresas efetivas. Ambíguo, heterogêneo, nos limites do provocante, críticas seladas pelo simbolismo, parece encaixar-se perfeitamente na obra de Lynch, não o bastante para que possa ser unanimidade.